Ordem e Organização

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Edgar Morin diz que tanto a ordem quanto a desordem compõem um processo dialógico que resulta na organização. Ordenar o mundo pode significar reduzir as diferenças entre as pessoas, igualar cortes de cabelo, usar uniformes. Organizar o mundo pressupõe compor as diferenças, as especializações, de modo que o produto seja mais rico do que a simples soma dos elementos.

A cidade, que se estabelece pela convivência entre as pessoas, é o organismo que mais bem retrata esses conceitos, por congregar, ao mesmo tempo, ordem, desordem e organização. Não é por meio da eliminação das diferenças ou da superficial redução da diversidade que se produzirá uma cidade viva, onde coexistem criatividade e respeito, diversidade e segurança, liberdade e civilidade.

João Doria determinou que seus secretários vestissem “uniformes” em encontro realizado no último final de semana. Ao que parece, o prefeito já revelava esses traços nos encontros de bacanas que realizava em Comandatuba, onde seus assistentes ostentavam uniformes diferentes de acordo com o dia. Ou seja, o prefeito eleito parece ter apreço pelo conceito de ordem, pela eliminação das diferenças entre as pessoas.

Na segunda-feira, João Doria disse que iria retirar a Virada Cultural do Centro, concentrando-a integralmente em Interlagos. Ele disse que a Virada “vai manter tudo de bom que sempre teve, sem os aspectos ruins”. Ora, isso está longe de ser verdade. O fato de a Virada acontecer espalhada pela cidade era, talvez, a principal característica desse evento cultural, por proporcionar aos munícipes a experiência de conhecer e ocupar áreas da cidade – normalmente o Centro – que são abandonadas nos finais de semana. Trata-se de dar vida e convivência aos moradores da cidade.

O Secretário de Cultura, depois da imensa reação negativa, sinalizou um recuo na proposta do prefeito. Parece que as críticas “desordenadas” dos artistas, da imprensa e dos próprios moradores estão surtindo efeito. De todo modo, não deixa de ser preocupante esse traço de personalidade de Doria.

Esperamos que, com o tempo, certa desordem seja agregada ao processo dialético de planejamento urbano como realidade que se impõe. O mundo está muito longe de ser apolíneo e nem parece ser essa uma aspiração das pessoas. A cidade é viva e matar cabeças da hidra só a torna menos complexa, mais pobre em termos de humanidade. Isso parece revelar que, como político, o prefeito ainda é um aprendiz. Sobre sua curva de aprendizado, só podemos dizer uma frase: acelera, Doria.

Gustavo Theodoro

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