Mês: dezembro 2014

Feliz 2015

Caríssimos aporéticos. Pelas notícias da economia, talvez devêssemos desejar um Feliz 2016 ou, quem sabe, um Feliz 2017. De todo modo, vamos tentar continuar nossa vida no próximo ano independentemente de como a economia vá reagir ao rigoroso ajuste fiscal de Levy. Desejo a todos os que partilham deste espaço de troca de experiências, informações e afeto um Feliz 2015, com muita saúde e paz. E que os debates que travaremos no ano que nascerá nos aproximem da verdade, ainda que seja a nossa.

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Melhores Livros 2014

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A indústria cultural sofreu profundas transformações nas últimas décadas. O livro ainda é um elemento estabilizador da cultura, mas hoje ele compete de forma mais acirrada com os vídeos, a música, a notícia como entretenimento, as redes sociais e outras formas de lazer. No entanto, nós que continuamos apegados a essa velha prática sabemos que nada substitui um livro, pois só ele é capaz de organizar um vasto campo do saber ou contar uma história com nuances e ângulos diversos. Além disso, a leitura deixa algo a ser preenchido pelo próprio leitor, pois as imagens são formadas em nosso cérebro e não nas diversas formas de exibição de vídeo.

Elaborar lista de livros do ano é um tanto mais difícil, pois em geral lemos diversos livros de anos anteriores, ou mesmo clássicos, e é raro quem leia mais de cinquenta livros por ano. Assim, elaborei uma pequena lista daqueles que considero os destaques do ano.

4. A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan, é um livro curto daquele que considero o melhor autor dos anos 2000. Neste livro, o tema é o mundo do Direito. A trama envolve um menor de idade – o Adam Henry – pertencente a uma religião que proíbe a transfusão de sangue. Por ser menor, a questão é levada aos tribunais. A juíza responsável pelo caso terá que lidar com as questões de sua vida particular enquanto tem a responsabilidade de decidir a lide com rapidez. Não é o melhor livro do autor, mas nele estão presentes muitas de suas qualidades.

3. O Homem Que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura, consta que é de 2013, mas só tomei conhecimento dele em 2014, por isso resolvi incluí-lo na lista. Na verdade, o livro foi lançado em Cuba há cerca de cinco anos, mas levou um tempo para ser descoberto por nossas editoras. O autor é cubano que mora em Cuba e gosta de lá. Com inteligência e sabedoria, soube se projetar mesmo residindo em um país onde há restrições à liberdade de expressão. O autor se firmou como escritor de livros policiais, todos eles muito bem avaliados pela crítica. Esse último livro de Padura tratou da bem conhecida história do assassinato de Trotsky a mando de Stálin. O livro é excelente. Pode ser lido como um romance policial. É um dos meus livros do ano.

2. Os Limites do Possível, de André Lara Resende, é uma coletânea de artigos publicados pelo brilhante economista. A economia é uma ciência que se equilibra entre as ciências duras e as ciências sociais. Como é impossível isolar a ciência econômica do mundo político que o cerca, a economia está constantemente cercada de controvérsias que só se acirram em períodos de mudanças políticas. O autor deste livro consegue lidar com toda a complexidade da economia sem deixar de enxergar esse lado que envolve o julgamento axiológico de cada um. Alguns textos são mais profundos e voltados para aqueles com formação na área, mas a maior parte do livro é acessível aos leigos no assunto. Imperdível.

1. O Capital no Século XXI, de Thomas Pikkety, é, sem dúvida, o livro do ano. Não vou escrever muito sobre ele, pois já dediquei ao livro quatro artigos. Tenho muitas divergências com o autor, mas reconheço a grandeza da empreitada e o resultado é impressionante. Todos os que se interessam por política, economia ou justiça social deveriam gastar algum tempo percorrendo as análises do economista marxista. Mesmo eu, que sou mais próximo do liberalismo econômico, li e recomendo.

Gustavo Theodoro

Melhores Filmes 2014

Ateraffen

Final de ano é época de coletar as experiências do ano, escolher as melhores, para que possamos então voltar nossa atenção para o futuro. Desde Alta Fidelidade, esse período de listas me remete àquele filme e à descontração que isso exige. Pois é impossível comparar um filme argentino com um filme com a assinatura da Marvel.

É certo que o cinema perdeu muito de sua relevância nos últimos anos. Poucos filmes são realmente importantes e imperdíveis. E cada ano que passa parece haver menos que provoquem o cenário cultural. No entanto, permiti-me reunir alguns filmes de que gostei, ainda que nem todos tenham sido referendados pelos críticos. Vamos a eles:

9- Sob a Pele – Filme estrelado por Scarlett Johansson em um país não muito bem situado, cuja atividade da personagem se resume a atrair homens para uma estranha praia (ou lago ou piscina) em que são consumidos. Filme estranho com gente esquisita. Entrou na lista pelo desagrado que provoca.

8- Chef – Filme para cima, despretensioso, quase um road movie com o que promete ser uma praga no Brasil, os food trucks. Bom desempenho de atores em um filme fácil de se ver e de ser entendido. É a antítese de Sob a Pele.

7- O Homem Duplicado (Enemy) – Outro filme estranho baseado em livro igualmente estranho de José Saramago. Na verdade, só o argumento foi emprestado pelo Saramago, pois a história não guarda qualquer semelhança. Mas o filme mantém o interesse e provoca alguns questionamentos sobre nosso lugar no mundo e as vidas que poderíamos ter.

6- Mesmo se Nada Der Certo – Filme ingênuo do mesmo Diretor do aclamado e simpaticíssimo Once. Apesar de ter sido necessário enquadrar o Diretor ao padrão de comédia romântica americana, o filme consegue se salvar graças ao desempenho de Keira Knightley e Mark Ruffalo e, especialmente, às músicas de Gregg Alexander, da finada banda New Radicals, cujo fim lamento até hoje.

5- Grande Hotel Budapeste – Filme fantástico e colorido do festejado Diretor Wes Anderson. Não posso me considerar exatamente um fã do diretor, pois vi mais pretensão do que resultado em seus últimos filmes (O Fantástico Sr. Raposo e Moonrise Kingdom). No entanto, o Grande Hotel reúne personagens fantásticos a uma cenografia colorida, cujo resultado é um filme leve e tristemente engraçado. Recomendo.

4- Ela (Her) – Parece ser filme do ano passado, mas estreou em 2014 no Brasil. Filme excelente que testemunha a solidão da conectividade.

3- O Homem Mais Procurado – Último filma de Phlip Seymour Hoffman, ótimo ator que preferiu não mais viver. O tema é espionagem, tal como nos tempos da Guerra Fria, mas com enredo atual, com referências ao Islã e a terroristas (é preciso ter inimigos, não é mesmo?). Filme tenso, com bons atores e excelente roteiro. O final guarda alguma surpresa.

2- Garota Exemplar – É sempre motivo de expectativa saber que David Fincher está gravando algo. Assim, não perdi Garota Exemplar, seu último filme, comercial, é verdade, mas que não deixa a desejar. Trata-se de um suspense com algumas reviravoltas inesperadas, mas que é conduzido com mão firme e com boa direção de atores. Não é algo que ficará na história do cinema – já disse que o cinema vem perdendo relevância -, mas são 180 minutos de puro entretenimento de boa qualidade. É o filme pipoca do ano.

1- The Reunion (Aterträffen) – Excelente filme sueco que busca demonstrar como pouco dinheiro e um bom roteiro ainda podem fazer bom cinema. A história gira em torno de uma reunião de turma em que velhas histórias são relembradas. Uma personagem que sofreu bullying aparece naquelas festas de reencontro de turmas e a situação se desenrola quase que inteiramente com diálogos e atuação. É o velho cinema apoiado em uma boa ideia. Prova que não precisamos de super-heróis ou de jogos vorazes, e de seu dinheiro, para que bons filmes sejam realizados.

Gustavo Theodoro

Reflexões sobre o Capital

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Ao mesmo em que se transformou em best seller mundial, o livro de Piketty é visto com desconfiança nas escolas de economia. Isto porque Piketty fez uma estranha mistura de análise numérica, teoria econômica, tese social e narrativa histórica. Os livros de economia, em geral, são menos ambiciosos e, consequentemente, menos abrangentes – e, com ironia, mais precisos). Poucos se arriscam a abordar um tema tão difícil como a desigualdade utilizando método próprio e abrangendo período de tempo superior a cem anos.

Aquilo que torna o livro atraente é, ao mesmo tempo, o seu ponto fraco. A narrativa histórica da economia é extremamente envolvente, porém implica os mesmos juízos a que estão submetidos os historiadores. A ciência histórica apropriou-se dos métodos científicos, mas nem por isso tornou-se mais precisa. Enquanto as ciências naturais recuaram e reconheceram suas limitações no século XX, as ciências histórias adquiriram súbita confiança e passaram a se atribuir características de infalibilidade científica, justamente por utilizar o método que a ciência reconheceu limitado em seus experimentos.

Foi Hegel que buscou salvar a filosofia por meio da história. Marx apropriou-se do discurso hegeliano para dar um sentido para a história. Interessante observar que Sócrates buscava aproximar da verdade cada interlocutor seu. Conhece-te a ti mesmo (gnothe seuton) é o mandamento do Templo de Delfos. A verdade seria obtida por meio da maiêutica, que tem o significado de dar à luz, sendo seu método a parteira da verdade. Marx se apoiou em Hegel para, atualizando a filosofia aos tempos da revolução industrial, dizer que a violência é a parteira da história. É evidente que Marx conhecia Platão e pensava saber o que estava fazendo.

Para Marx, a história transformou-se na nova metafísica e a política transformou-se em atividade acessória para que um fim pudesse ser construído. A ideia de que um novo mundo é possível nasceu naquele momento.

Piketty é herdeiro dessa tradição. Seu livro é exemplo pronto e acabado disso. Para ele, a história fornece argumentos irresistíveis para a ciência econômica. E são essas as premissas que o levam ao cometimento de erros tão facilmente observáveis.

Logo no início de seu livro, Piketty levanta uma curva demonstrando que a desigualdade teve valor significativamente grande nos primeiros anos do século XX, caiu muito a partir da Primeira Guerra e assim se manteve até o fim da recuperação europeia da Segunda Guerra, quando voltou a crescer. Ainda não atingimos o pico de 1914, mas Piketty quer nos convencer que chegaremos lá se não fizermos nada.

São muitas as cautelas que devemos tomar com o livro de Piketty. O próprio autor faz diversas ressalvas a respeito do cálculo do PIB feito há mais de cinquenta anos. Assim, a própria série histórica de Piketty deve ser vista com bastante ponderação.

A principal fórmula de Piketty, que relaciona renda do capital ao crescimento do PIB, apresenta muitos problemas. Para Piketty, sempre que a renda de capital for superior ao crescimento do PIB estaremos produzindo desigualdade. Se esse enunciado for verdadeiro, o Brasil atual está gerando desigualdade, pois a taxa de retorno do capital está em torno dos 6%, enquanto o PIB, bem, não vamos falar de PIB, não é mesmo?

Há ainda uma excessiva preocupação com a transmissão das fortunas por herança, que significariam um atentado à meritocracia. Mas muito pouco é comentado sobre a mudança radical no perfil populacional, particularmente nos países europeus, onde casais apresentam baixíssima taxas de fertilidade. Além disso, a simples listagem dos mais ricos do mundo já nos dá notícia de que menos de 20% dessas fortunas decorrem de herança. Bill Gates, Mark Zuckeberg e Carlos Slim não me deixam mentir.

A tendência verificada em seus gráficos é de curto prazo, algo em torno de 20 anos, sendo que sua análise abrange mais de dois séculos. E a desigualdade atual, mesmo pelo método de Piketty, não é maior do que era no início do século XX.

São muitos os questionamentos ao livro de Piketty. Mesmo assim, é um livro intrigante e que merece ser lido. Só não precisamos desenterrar Marx e passar a considerar que só no passado éramos iguais e felizes. Retoma a mais que precisa frase de Camus, que nos lembra que os únicos paraísos são aqueles que perdemos. É a nostalgia que edulcora nosso passado.

Gustavo Theodoro

Cuba Livre

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Ontem foi anunciado o restabelecimento das relações entre os EUA e Cuba, fato que surpreendeu a comunidade internacional. Esse primeiro passo, construído com o apoio do onipresente Papa Francisco e do Governo do Canadá, abre espaço para que, no futuro, as relações comerciais entre os países sejam retomadas.

Se isso ocorrer, o regime castrista está com os dias contados, pois é raro o analista que não relacione a resistência da ditadura cubana ao embargo americano. Os EUA são o país que o mundo adora odiar. Cuba sofre embargo americano e é herdeira do velho sonho da sociedade igualitária, recolhendo simpatias pelo mundo.

Só estranhei perceber que sites de esquerda comemoraram o restabelecimento das relações entre EUA e Cuba, enquanto meios de informação tradicionais reagiram com moderado otimismo. Estranho porque é evidente que a abertura promovida pelo regime cubano quase certamente levará o país ao capitalismo, tal como ocorreu com os países do leste europeu.

Lembro que a esquerda mundial, lá pelos idos dos anos 1980s, torcia para que os regimes comunistas europeus migrassem para a democracia sem perder suas características adquiridas após a Segunda Guerra. Ocorre que ninguém se conforma com a pobreza. Lembro a frase de Bertold Brecht, que dizia que o comunismo não é a justa distribuição da riqueza, mas da pobreza. Essa frase aplica-se perfeitamente à Cuba.

Ainda voltarei a tratar de Piketty no futuro, mas uma das conclusões de seu livro – que ele nem chegou a se dar conta – foi a de que a desigualdade pode ser alta sem que isso implique, necessariamente, injustiça. Em países muito bem sucedidos e desiguais, a origem da desigualdade está no excesso de riqueza, e não no de pobreza. Percebam a diferença que isso faz.  E em Cuba a educação é boa – como era antes do regime comunista -, mas o PIB, a riqueza, é pequeno.

Se houver abertura comercial em Cuba, é muito provável que o regime não resista e que o país seja integrado ao mundo, crescendo a taxas muito altas, já que o patamar atual é muito baixo. Logo, Cuba pode deixar de ser o sonho dos socialistas contemporâneos, razão pela qual fiquei em dúvida sobre as razões do aplauso de sites, inclusive alguns declaradamente socialistas, ao acordo entre EUA e Cuba. Será que alguém poderia explicar-me?

Gustavo Theodoro

Bolsonaro

A semana teve diversos temas em destaque, mas acredito nenhum deles tenha repercutido tanto como a fala do Deputado Federal Jair Bolsonaro. Em debate com a Deputada Maria do Rosário, Bolsonaro proferiu a seguinte frase:

Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir.

O significado da frase é bastante elementar. Bolsonaro disse que não estuprava Maria do Rosário porque ela não merecia. O que nos faz pressupor que, segundo o entendimento do Deputado, há mulheres que merecem ser estupradas. E sobre essa afirmação iniciou-se campanha pela cassação do Deputado.

Não trataria de Bolsonaro se o tema não resvalasse nos pilares de sustentação da república. Bolsonaro é um Deputado representa um nicho do eleitorado, em geral representado por pessoas intolerantes e ignorantes, que defendem a ditadura militar, a morte de bandidos por policiais, a homofobia e outras barbaridades. Ou seja, trata-se de figura menor do parlamento, pouco afeito à verdadeira atividade política. Por isso, utiliza-se de conflitos que, na maior parte das vezes, ele mesmo provoca para ganhar visibilidade e difundir suas ideias retrogradas. É geralmente muito bem sucedido. Com essa estratégia, foi o Deputado mais votado do Rio de Janeiro e elegeu seus três filhos, dois Deputados Estaduais e um Vereador.

Durante a ditadura militar, o congresso foi fechado e deputados foram cassados em diversas situações. Por conta disso, temos tomado cuidado para que a liberdade de expressão seja garantida, em especial a dos políticos. Ninguém se esquece de que foi o discurso do Deputado Moreira Alves em 1968 que culminou no fechamento do Congresso Nacional e no AI-5.

Assim, além do dispositivo do artigo 5º da CF/88 que cuida da liberdade de expressão, o artigo 53 da mesma carta assim dispõe:

Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos.

Vejam que o Deputado se aproveita das barreiras que levantamos para proteger nossa República para defender o período de sombras, atacar minorias e ofender pessoas ou grupos. Demos aos parlamentares a inviolabilidade por suas opiniões e palavras, mas Bolsonaro quase faz com que nos arrependamos disso.

A regra do artigo 53, no entanto, não dá a proteção completa que os parlamentares imaginam. Já é pacífico que a mentira pode ser considerada quebra de decoro parlamentar. Demóstenes Torres fez discurso em plenário negando relações com o Carlinhos Cachoeira. Depois que restou provada a relação, o então Senador passou a defender a tese de que mentir não se constituía quebra de decoro e aventou a possibilidade de estar protegido pelo artigo 53 da CF/88. Ao final, teve seu mandato cassado pelo plenário do Senado.

Assim, o Deputado Bolsonaro não deveria estar tão seguro de sua inviolabilidade. A questão só se torna tormentosa na medida em que sabemos que ele representa com precisão os que nele votaram. Ou seja, Bolsonaro, o Deputado mais votado do Rio de Janeiro, se comporta tal como é vontade de seus eleitores. Ele representa fielmente seus eleitores. Se olharmos pelo lado dos ofendidos, Bolsonaro deveria ser cassado. Se olharmos pelo ângulo garantista, de que vivemos em um sistema representativo e que mesmo a minoria tem o direito de manifestar suas opiniões, por mais abjetas que sejam, Bolsonaro deveria ter assegurado o direito de proferir suas asnices.

Eu sou um democrata. Mesmo um democrata se coloca a pensar diante desse abuso da prerrogativa que demos aos parlamentares. Minha tendência é de manter o mandato do sujeito, mas tratar de revelar o descalabro de suas opiniões para que elas jamais se derramem pela sociedade, tornando-se majoritária. É minha opinião.

Gustavo Theodoro

Reforma Política

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Em seu discurso após a proclamação do resultado das eleições presidências, Dilma Rousseff lançou no centro das discussões políticas uma única reforma: a Reforma Política. Apesar de não apoiar inteiramente o diagnóstico, de que essa é a reforma mais importante, vejo que o assunto começou a ganhar corpo. Assim, faz-se necessário que nos posicionemos sobre o assunto.

Rejeito qualquer proposta envolvendo constituinte específica ou mesmo plebiscito. Isso porque entendo desnecessárias amplas mudanças em nossa Constituição, mas também por entender que temas excessivamente complexos não são sujeitos a respostas binárias, do tipo sim e não.

A reforma política defendida pelo PT envolve financiamento público de campanhas e voto em lista. Já escrevi sobre financiamento de campanha. Sou contra o financiamento público. É evidente que qualquer método é sujeito a imperfeições e desvios. Mas apoio o financiamento privado, pois é importante criar um vínculo entre o eleitor e o eleito, de forma que o comprometimento do eleitor com o eleito vá além do voto. Uma das tarefas de políticos de alguns países mais desenvolvidos é telefonar para os eleitores de sua região em busca de recursos e trabalho voluntário para sua campanha. Acredito que esse tipo de conduta aproxima representantes e representados. O incremento nas doações de pessoas físicas pode fazer com que o eleitor acompanhe com mais interesse o desempenho do eleito, fazendo a cobrança necessária dos compromissos assumidos na campanha.

Para corrigir alguns problemas do sistema político, proporia a adoção das seguintes medidas: fim do voto obrigatório, ajuste na proporcionalidade da Câmara Federal, fim do horário eleitoral gratuito e do fundo partidário e fim das coligações em eleições proporcionais.

São reformas simples, sendo que duas delas exigem mudanças na Constituição: a obrigatoriedade do voto (§1 do artigo 14) e o horário eleitoral gratuito e o fundo partidário (§3º do artigo 17). Voto é direito, não obrigação. Democracia se faz por aqueles que desejam dela participar. É antidemocrático obrigar que o cidadão exerça esse direito. Quase não encontro quem se oponha a isso, exceto políticos, principalmente aqueles que abusam do poder econômico.

Quase todos os políticos justificam os gastos de campanha por meio de alegações de que gravar programas de TV é muito caro. A propaganda gratuita implica renúncias fiscais da ordem de R$ 1 bilhão. É muito dinheiro, vale mais do que um ano de Prouni, programa de governo destinado à formação superior. O fundo partidário distribui ervanário semelhante aos partidos e alimenta a criação de partidos nanicos, sem qualquer penetração na população, mas que recebem uma fatia do polpudo fundo, incentivando a existência dos políticos profissionais.

Estou de acordo com a decisão que está para ser tomada pelo STF de proibir doação de empresas para campanhas políticas. Com o fim da propaganda gratuita, as campanhas tendem a ficar mais baratas. Com doações apenas de pessoas físicas, haverá muito menos dinheiro disponível para a campanha. Os políticos deverão exibir mais criatividade e talvez sejam até mesmo instados a produzir ideias, o que não temos visto nas últimas campanhas.

Visando a dar identidade aos partidos, sou a favor da proibição de coligações em eleições proporcionais. Partidos que não atingirem o coeficiente eleitoral não teriam representantes. A cláusula de barreira seria revivida sem necessidade de explicitá-la. E com o fim do fundo partidário, não haveria vantagens em pertencer a bancadas muito reduzidas.

Não acredito que seja a necessidade de financiamento das campanhas a causa da corrupção. Ela continuará existindo mesmo que as campanhas sejam financiadas com dinheiro de impostos. Nunca é demais lembrar que um gerente da Petrobrás sozinho se dispôs a devolver quase US$ 100 mi que ele tinha roubado para si próprio. E que a corrupção grassa inclusive em anos em que não há pleitos eletivos. A tese de que é o financiamento de campanha que alimenta a corrupção assemelha-se à tese de que é a proibição da droga que faz os bandidos. As comunidades com milícias arrecadam mais dinheiro fruto de crime do que as dominadas pelos traficantes. Isso é fato. O que alimenta a corrupção são os corruptos.

O PSDB e seus apoiadores defendem a adoção do voto distrital misto. Dizem que a vinculação de um parlamentar a um distrito diminui o custo da campanha. Mantendo as eleições proporcionais para certo número de deputados, seria possível captar um voto minoritário de opinião que as eleições majoritárias – tal como exige o voto distrital – não valorizariam.

Entendo que o sistema proporcional sem as coligações já atende a esses princípios do voto distrital misto, sem que seja necessário modificar inteiramente nosso sistema eleitoral com a criação artificial de distritos. Hoje alguns deputados são eleitos por municípios ou regiões, enquanto outros recebem o voto de opinião, por serem conhecidos por ampla parcela da população. São as coligações que embaralham nosso voto proporcional. A extinção das coligações é matéria de Lei Complementar.

O sistema bicameral tem como um de seus objetivos dar mais garantias ao sistema democrático. Uma das casas legislativas deveria representar os cidadãos, o povo, e a outra os Estados da Federação. O Senado está corretamente representado, com três senadores por Estado (eu preferiria apenas dois, com mandatos alternados de oito anos). Já a Câmara Federal confere sub-representação aos estados mais populosos, como os da região sudeste. Vejam que a Federação já é adequadamente defendida pelo Senado. A Câmara deveria guardar proporcionalidade com a população, mas a Lei Complementar 78/1993 estabelece número mínimo de oito deputados e máximo de 70 deputados, impedindo que os estados mais populosos sejam adequadamente representados.

São reformas razoavelmente pequenas, mas que mudariam profundamente nosso sistema político. Sei que nenhuma dessas reformas está para ser encaminhada. Pelo contrário, o que se fala é em constituinte exclusiva, em voto em lista e em financiamento público exclusivo de campanha. Particularmente, não sou simpático a nenhuma dessas teses. Voto em lista favorece a máquina partidária. Financiamento público transforma definitivamente os políticos em burocratas que, se bem posicionados em seus partidos, podem se perpetuar à custa de nosso dinheiro. E constituinte exclusiva só se justificaria se nosso sistema político necessitasse de uma reformulação geral. Não acredito que seja esse o caso. Mas deixo aberta a questão aos aporéticos.

Gustavo Theodoro

Física Quântica Vilipendiada

quem somos nós (1)

No final do século XIX, os físicos estavam certos de que tinham descrito completamente o mundo. Newton formulara a teoria da gravitação universal, Maxwell sintetizou a eletrodinâmica em quatro elegantes equações e a termodinâmica estava incorporada ao conhecimento de então. Em 1900 começaram a surgir artigos em que o termo quanta era citado. Einstein foi um dos primeiros a utilizar esse conceito para descrever a luz em um revolucionário artigo de 1905 (no que foi um ano revolucionário para Einstein também).

Quanta, na física, tem o sentido de partição, de parte. Einstein propunha, a partir de um experimento de Max Planck, que a luz parecia ser discreta, sendo, talvez, constituída de pequenas partículas, ao contrário da ideia que predominava na época. A física que envolvia as partículas subatômicas começou a se revelar diferente de tudo o que se conhecia até então. E a novidade não era pequena.

Partículas subatômicas ora se comportavam como partículas, ora como ondas, como se os estados coexistissem em uma partícula, revelando uma dualidade que causou perplexidade quando descoberta. Heisenberg, um dos mais eminentes formuladores da física quântica, foi o primeiro a propor que não éramos mais capazes de saber, com precisão, a posição e a velocidade de uma partícula subatômica. Tal condição ganhou o nome de princípio da incerteza.

Face à dualidade das partículas, muitos fenômenos não intuitivos foram observados. Na chamada física clássica, formulada por Newton, uma bola lançada contra uma elevação do terreno só a ultrapassa se ela for lançada com velocidade suficiente. Na mecânica quântica, uma partícula de 10 Kev de energia lançada contra uma barreira de potencial de 20 Kev, por exemplo, a ultrapassará algumas vezes, dependendo da largura da barreira. O mesmo não ocorre na física clássica, em que a bola, com 10 Joules de energia, nunca ultrapassará um plano elevado com energia potencial de 20 Joules.

O princípio da incerteza impede que o expectador seja retirado do experimento, de forma que a objetividade, que é pressuposto da ciência natural, passou a ser inatingível, tal como demonstra o experimento mental de Shrödinger e seu famoso gato.

Tudo isso causou imensa perplexidade na época e atraiu o interesse do público leigo em geral. Com o tempo, a dualidade onda-partícula, o colapso da função de onda (a que fiz referência em considerações sobre a verdade II), o princípio da incerteza, tudo isso começou a ser utilizado por especialistas em ciências humanas, sendo apropriadas por uma certa psicologia de auto-ajuda e por religiosos.

É fácil topar com pessoas que se interessam muito pela física quântica, mas por essa que fala de alma e comportamentos. Os conceitos da física quântica, apesar de apreensíveis, têm origem bastante complexa. A teoria, segundo a linha da ciência contemporânea, há muito abandonou o “por que” tão presente na antiguidade pelo “como”. O fato é que a ciência da atualidade só busca descrever o mundo, sendo o experimento, tal como propôs Galileu, o pai da ciência natural moderna, uma pergunta formulada à natureza.

Fora desse território, a dualidade onda-partícula, o colapso da função de onda e o princípio da incerteza são, quando muito, expressões de nosso mundo cultural. Podem até servir para especulações da epistemologia. Mas jamais houve um físico sério que utilizou esses conceitos, ou mesmo o termo “física quântica” para descrever estados da alma, para propor que o humano é constituído por uma dualidade corpo-alma ou para fazer qualquer ilação sobre o humano.

Sei que isso será um choque para alguns, mas o uso do termo e dos conceitos da física quântica, mesmo por pessoas com formação acadêmica, não passa de charlatanice. A ciência conquistou imensa reputação ao não especular sobre o que não estava em seu alcance. Frutos que somos da escola da dúvida de Descartes, a pseudociência, a psicologia charlatã e a religião sem fé buscam na ciência os conceitos que lhe darão leitores, pacientes e fieis. Com isso, a física quântica é vilipendiada, enquanto incautos seguem sendo enganados pelo seu mau uso.

Gustavo Theodoro