Mês: outubro 2014

A Imprevisibilidade Humana

movimento browniano

Somos apegados ao livre-arbítrio. Colocamos a razão em um pedestal e nos julgamos plenamente capacitados para tomar decisões originais e para proferir juízos especialíssimos. Nate Silver, especialista em previsões, colocou essas certezas em perspectiva.

Nas ciências exatas, as incertezas ganharam status com a estatística aplicada a física e, posteriormente, com a mecânica quântica. As incertezas deixaram de ocupar o campo das ciências humanas e passaram a perambular também no campo das exatas. Satisfizemo-nos com a incorporação da incerteza as ciências exatas, mas continuamos em busca de certezas nas ciências humanas.

A inspiração era, naturalmente, o movimento browniano e a teoria do caos. Em fluidos ou gases, dificilmente podemos prever o comportamento do todo a partir da descrição de cada partícula, que descreve movimentos erráticos. No entanto, se nos afastarmos da amostra, se deixarmos as partículas de lado e passarmos a analisar o fluido ou o comportamento de expansão de um gás, é possível prever o tempo de expansão ou a área atingida pelo fluido. Na teoria do caos, podemos não poder prever quando uma torneira irá pingar novamente, mas é possível fazer algumas assertivas sobre o futuro.

O sonho das ciências humanas é conseguir aplicar conceitos como esses às ciências humanas. Pois Nate Silver perturbou nossas certezas com seu livro The Signal and the Noise: Why So Many Predictions Fail –but Some Don’t. Ele criou um método que conseguiu prever o resultado em 49 dos 50 Estados americanos em 2008, além de acertar o vencedor de todas as corridas para o Senado naquele ano. Não importava muito o carisma do candidato ou os argumentos que ele utilizava. Eram dados geralmente econômicos que davam a medida do sucesso da situação e da oposição.

No Brasil, esperava-se uma eleição difícil ainda antes de os candidatos serem indicados. É provável que só fenômenos muito agudos, como a morte de um candidato ou de uma gravação de um candidato recebendo dinheiro, possam modificar aquilo que é dado por determinados indicadores, em especial aqueles ligados à economia. Era o que pensavam os especialistas em previsão. Quando Marina disparou nas pesquisas, Nate Silver escreveu na The Economist que Dilma Roussef tinha 25% de chances de ser reeleita.

E assim ele nos devolveu nosso livre arbítrio. Façamos política, tratemos de nos envolver nos assuntos de nosso prédio e de nosso bairro, pois é provável que cada ação nossa decorrente de nosso julgamento da realidade ainda faça diferença. Apesar dos que defendem que não.

Gustavo Theodoro

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O Partido e o Futuro

divisão

Desde 1994 dois partidos dominam a cena política brasileira. Os analistas costumavam dizer que tanto o PT quanto o PSDB detinham cerca de 33% do eleitorado, sendo o outro terço responsável pela decisão das eleições nacionais majoritárias. O PSDB venceu duas eleições no primeiro turno. O PT tinha vencido, até agora, três eleições, todas no segundo turno. A quarta vitória foi assegurada em 26 de outubro de 2014. Apesar da aparente normalidade, algo parece ter mudado e as consequências disso não são pequenas.

Tanto o PSDB quanto o PMDB conseguiram importantes vitórias nas eleições estaduais. No entanto, é inegável o protagonismo que o PT assumiu no plano nacional. A ponto de identificarmos claramente duas forças políticas antagônicas nessas eleições: o petismo e o antipetismo. Os dois movimentos são potencializados por grupos menores e mais radicais, mas mesmo entre os moderados a divisão é bastante nítida.

Partidos são partes do todo. Seu significado decorre mesmo da ideia de divisão, que é saudável para qualquer democracia. Não vejo com bons olhos, no entanto, o acirramento dessa divisão. Até porque isso criará mais dificuldades para o futuro governo.

O ambiente no Congresso Nacional é de crise política. O PMDB se prepara para impor mais derrotas ao PT, principalmente se for confirmada a eleição do poderoso e muito bem relacionado político fluminense Eduardo Cunha para Presidente da Câmara. Sairá caro para o Governo essa eleição, se é que vocês me entendem.

Além disso, a base aliada está ansiosa. Paulo Roberto Costa semanalmente grava depoimentos na justiça em seu processo de delação premiada. Alberto Youssef também tem se dedicado a detalhar a lavagem de dinheiro que lhe cabia. Youssef era um dos doleiros mais importantes do País. Faz-se necessário esclarecer que é raro um bandido que não precise lavar o dinheiro proveniente do roubo. Na maioria das vezes, são os doleiros que cuidam disso. Por isso Youssef é tão explosivo: ninguém sabe que nomes podem aparecer em sua lista. Sua agenda foi apreendida. E a Youssef a mentira não socorre. Se for pego mentindo, pode terminar seus dias na cadeia. Por isso sua denúncia envolvendo Dilma Roussef é tão grave.

Além disso, duas construtoras, a Odebrecht e a Camargo Corrêa, parecem estar negociando um acordo de leniência. Acordo de leniência é o equivalente à delação premiada, sendo que esta se aplica à pessoa física, enquanto aquela à pessoa jurídica. Paulo Roberto Costa disse que, se ele falasse tudo o que sabia, não haveria eleições. É inimaginável o efeito de acordos de leniência envolvendo duas das maiores construtoras do País. Logo, a situação política do novo Governo é, para dizer pouco, imprevisível.

Mas isso não é tudo. É opinião unânime entre os analistas que 2015 será um ano difícil. Esperava-se, no entanto, que fosse um ano de ajustes. Hoje Guido Mantega declarou que, se Dilma ganhou as eleições, é porque estávamos indo no caminho correto. Preocupante essa declaração. Tanto que o mercado reagiu muito mal a ela.

Como se sabe, a atual equipe econômica – e isso inclui a Presidente – acredita que cabe ao governo mudar a matriz econômica do país. Usa para isso o financiamento dos bancos públicos, que atendem, preferencialmente, aos empresários amigos do Governo. Essa política nos ofertou o menor crescimento dos últimos 100 anos. No entanto, durante a campanha o PT acusou o PSDB que adotar políticas neoliberais e que a primeira medida do PSDB seria um ajuste fiscal, que visaria a economizar recursos para pagar os rentistas. A Presidente afirmou ainda que, para a inflação baixar, era necessário desempregar e subir os juros. Parece que sua visão não se alterou com os erros cometidos.

Com isso, há sinais de que a nova equipe econômica optará por não cortar gastos. Ou, pelo menos, por não cortar a quantidade necessária à recuperação da confiança internacional em nossa economia. É imprescindível compreender que economia está muito relacionada à percepção. A publicidade pode ajudar a vencer eleições, mas é inútil na atuação sobre a percepção dos agentes econômicos. É o PIB, a poupança privada, o superávit primário, a taxa de investimento e os demais indicadores básicos da economia que são considerados. Sem a confiança de que a inflação estará sob controle, de que as contas públicas estão dentro de padrões internacionais, o país não recebe novos investimentos privados. Sem investimentos não há crescimento. Sem crescimento não há recursos para política públicas e para investimentos.

Para 2015 há, ainda, a herança deixada do atual Governo. Gastos públicos foram transformados em empréstimos por meio de maquiagem fiscal, quando não foram simplesmente suportados pelos bancos públicos, num inacreditável renascimento da Banco Conta Movimento do BB, que nos deixou de herança um prejuízo de bilhões de dólares há quase duas décadas. Sim, a CEF tem arcado com gastos do Governo, pois está faltando dinheiro. Há as tarifas públicas, que terão que ser reajustadas, causando inflação, ou serão mantidas congeladas, o que aumentaria os gastos públicos. Mas o aumento descontrolado dos gastos públicos também acaba em inflação. É bom lembrar que inflação prejudica, em especial, os mais pobres. O Governo pode estar prejudicando justamente aqueles que mais lhe confiaram o voto.

Há, ainda, a questão do dólar. Hoje o Governo o controla em um regime de bandas não declarada para segurar a inflação. A apreciação do real, no entanto, está destruindo nossa indústria e nos transformando em um país exportador de commodities, tal como éramos no passado.

Isso tudo é para demonstrar que o desafio econômico dos próximos anos não é pequeno. A situação política é, também, crítica. Ao lado disso, há um país dividido, com uma oposição que tende a ser mais ativa do que no passado, motivado por seu relativo sucesso eleitoral.

O novo Governo terá que demonstrar imensa habilidade política para enfrentar todos os desafios. Há o imponderável, que são as delações premiadas e os acordos de leniência. Isso por si só já é suficiente para esquentar a temperatura no Congresso Nacional. Há a situação econômica, que, pelos sinais emitidos hoje, pode se agravar. E há a divisão do País, cuja unificação parece bastante improvável. Preocupa-me ainda a fala da Presidente no discurso de posse. Depois de breves palavras de união, em que nem sequer cumpriu a praxe de cumprimentar o candidato derrotado, passou a falar em reforma política e em plebiscito.

É um péssimo começo. Participação popular deve ser incentivada, não nego. Mas todos os regimes autoritários do mundo se utilizaram de plebiscitos para legitimar o poder. Ainda vou tratar mais de regimes autoritários do passado em próxima coluna. Mas é certo que plebiscito para reforma política, com o País dividido, parece-me péssima ideia.

No momento, não disponho de um cenário otimista para o futuro. Tenho consciência de que a política é imprevisível, de que o PT ainda tem em seus quadros excelentes negociadores e de que um acordo nacional em torno de propostas não está descartado. Mas a situação conjuntural aliada às declarações iniciais da Presidente e de seu Ministro da Fazenda demissionário não indicam que tomaremos o melhor caminho. Os eleitores, no entanto, fizeram sua opção. Tomara que os fatos refutem implacavelmente meus temores.

Gustavo Theodoro

A Novidade do Mundo

Nada mais surgirá exceto aquilo que já existia, era o que afirmava Hegel, o primeiro que se dedicou à filosofia da história, talvez o primeiro propagador do fim da história, tão em voga nos anos 1990. No começo deste processo eleitoral, revelei meu desagrado com as opções disponíveis, pois parecia que estávamos diante de mais do mesmo, da repetição da velha ladainha que se repetia. Mas, como dizia Lope de Vega, yo sucedo a mi mismo. Às vezes o que antes eu olhava com desagrado, hoje percebo o mesmo fato com uma sensação diferente.

Muito disso se deve a meu gosto pelo debate, condição primeva da democracia. O cansaço com a política ou com a repetição dos discurso e chavões desaparece quando nos colocamos no mundo publicamente, quando tomamos parte dos acontecimentos, quando descemos a montanha mágica rumo ao mundo das aparências de Platão, onde praticamos a vida ativa.

Observo ainda a importância da palavra, que não parece ser acessória ao raciocínio. Era esse o entendimento de Hobbes sobre o termo logos, que significa, ao mesmo tempo, linguagem e razão em grego. Para ele, isso se deve não ao fato de eles pensarem que não havia linguagem sem razão, mas sim que não havia raciocínio sem linguagem. Nesse sentido, é a linguagem é que parece abrir caminho para o raciocínio.

É nesse campo que o pensar alargado de Kant não atua propriamente. Kant tinha forte convicção de que nossa imaginação nos forneceria os pontos de vista para uma boa tomada de decisão. Mas a prática me revelou que só o embate, preferencialmente o embate com os que pensam de forma diferente, é que torna mais consistentes nossos argumentos e mais firmes nossos julgamentos. Por isso o amor ao contraditório é essencial ao bom político, pois entender o posicionamento do próximo é uma demonstração de empatia, essencial à vida pública.

Amanhã é dia de eleições. Espero que seja um dia de paz. E que cada um tome suas decisões pelos motivos que lhes parecerem mais legítimos, com a certeza de que sua escolha jamais estará errada. O processo de escolha do candidato termina no dia em que depositamos nosso voto na urna. Mas tudo começa com o olhar interessado que despertamos pelo mundo, mesmo quando tudo parece se repetir. Para explicar melhor essa ideia, nada melhor do que recorrer a nosso mestre, Fernando Pessoa:

Sei ter o pasmo essencial

Que teria uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera, deveras,

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo.

Foi esse início resultou em envolvimento, debates e decisões de todos nós. A escolha de cada um está feita. Resta amanhã aceitarmos o resultado, qualquer que seja ele. E torcer para que o eleito seja capaz de reunificar o País, que esteve tão dividido nos últimos dias.

Gustavo Theodoro

Declaração de Voto – Segundo Turno

Dilma e Aecio

No primeiro turno escolhemos o candidato que mais bem representava nossos anseios. Sou liberal no que se refere (já estou até falando como a Dilma, de tanto assistir a debates na TV) à economia, mas sou contra a pena de morte, contra a redução da maioridade penal e a favor dos programas sociais focalizados como o bolsa-família. Além disso, considero que tanto FHC quanto Lula deram sua contribuição ao desenvolvimento social e econômico do País. Entendi que Marina Silva era a candidata cujas propostas mais se assemelhavam às ideias que defendo.

Para o segundo turno, a escolha se torna menos pessoal. Não se trata mais de meu candidato, mas dos candidatos escolhidos pela maioria. É essa a escolha que se põe diante de nós. Eu fiz minha escolha.

Em artigos anteriores elenquei algumas críticas ao Governo Aécio Neves em Minas Gerais e ao Governo Dilma Rousseff. Contra Aécio pesa a ineficácia de seu choque de gestão, principalmente nas áreas de educação e segurança. A “meritocracia” implantada na área de educação entregou evolução semelhante à média dos demais Estados do País. Na segurança, o número de homicídios não se reduziu com os métodos de premiação de funcionários públicos instituídos pelo choque de gestão. Isso tudo está bem relatado nos artigos publicados nesta Ágora de nome “Aécio e o Choque de Gestão”. Com relação às finanças de MG, houve recuperação, apesar de a dívida mineira continuar impagável. No entanto, antes da gestão de Aécio, a situação era desesperadora. As contas apresentaram melhora, ainda que insuficiente.

Com relação ao Governo Dilma Rousseff, há três aspectos positivos que, em princípio merecem ser destacados: 1) a desemprego baixo (5%); 2) a queda na desigualdade; 3) a redução na pobreza.

Sobre esses aparentes avanços, já escrevi alguns textos, que agora trato de resumir. Sobre o desemprego baixo, o fenômeno não parece ser muito saudável. Os números da população ocupada indicam que há maior percentual de população em idade ativa sem emprego no país do que na Europa em crise. Ou seja, mesmo com desemprego médio na casa dos 20%, a Europa emprega cerca de 65% de sua força de trabalho, enquanto o Brasil emprega apenas 55%. A principal explicação para este fenômeno está na mudança nas regras de concessão de seguro-desemprego. Com a flexibilização das regras, mais pessoas recebem salário sem procurar trabalho e, consequentemente, sem aparecer nos números de desemprego. Os gastos com seguro desemprego dispararam e a mão-de-obra encareceu, aumentando a renda – aspecto positivo – ao mesmo tempo em que reduziu a produtividade do país, já que o aumento da renda não veio acompanhado de aumento da produtividade. Com isso, nos tornamos menos competitivos. Nossa balança comercial se inverteu e nossas contas externas se complicaram. Não há modo indolor de reverter esse ciclo. Logo, o número de desempregados não é assim tão bom. O desemprego caiu no mundo todo. A taxa brasileira ainda é superior à mundial. E isso considerando apenas os números de desemprego. Se passarmos a comparar a população ativa empregada, o Brasil pode ser considerado uma aberração.

Por diversas vezes, vi-me sensibilizado com os números que indicavam queda da desigualdade. No entanto, toda a propalada queda na desigualdade era baseada nas PNADs, que, segundo Marcelo Neri, não captam bem a renda dos ricos e do capital em geral. Por isso, Marcelo Neri não acredita em estimativas de ricos no Brasil a partir de pesquisas domiciliares. Quem afirmou isso é o inventor da nova classe média, ex-presidente do IPEA e atual titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Pesquisas recentes realizadas com a utilização de dados combinados das PNADs e do Imposto sobre a Renda revelaram que a desigualdade não caiu no período de 2006 a 2012. Isso mesmo, o período em que teria havido a maior queda na desigualdade quando considerada apenas a PNAD não produziu queda mensurável quando é incluída a análise do IR. Para essa pesquisa, foi utilizado o método criado por Piketty, o sucesso editorial do ano, cultuado pela esquerda.

A queda na miséria é a falácia mais evidente. Trata-se de simples manipulação dos números. Esqueça tudo o que foi divulgado sobre o assunto nos últimos dias, inclusive o mapa da fome da ONU, pois ele usa os mesmos números manipulados pelo Governo brasileiro.

Um pouco de história se fez necessário. Durante a campanha eleitoral de 2002, Lula permitiu a gravação de um documentário lançado poucos anos depois. Trata-se de Entreatos, produzido por João Moreira Salles (se João Santana se esquecesse de que lado está poderia até dizer que Lula estava aliado a um banqueiro, já que Moreira Salles é herdeiro de grande banco brasileiro). No documentário, Lula fez uma declaração de uma sinceridade comovente: ele estava espantado com o número de miseráveis a que ele constantemente fazia referência, 50 ou 60 milhões. De onde saiu esse número, ele se perguntava. Na época, apesar de utilizar o número com certa irresponsabilidade, não acreditava nele. Achava que o Brasil não tinha tantos miseráveis.

Observando apenas o Governo Dilma, percebe-se que ela trabalhou o número de miseráveis para produzir a redução da miséria. No início de seu governo, foi estabelecido, segundo recomendação do Banco Mundial, que era miserável que tivesse renda per capita inferior à R$ 70. Dilma assumiu então o compromisso de acabar com a miséria. Havia duas maneiras de fazer isso: acabando com a miséria ou trabalhando o indicador que media a miséria. O Governo optou por trabalhar o indicador. Apesar do recrudescimento da inflação, o indicador não foi corrigido e cerca de 30 milhões de miseráveis desapareceram. A mesma manipulação operada nos indicadores econômicos – como superávit primário e endividamento – foi também operada no indicador da miséria. Com isso, só o indicador da miséria melhorou. A miséria em si não se sabe.

Há um aspecto que merece uma consideração. Importantes economistas da Europa vêm defendendo que as economias maduras devem estar preparadas para lidar com o fim do crescimento econômico. É uma corrente que vem ganhando adeptos, mas só se aplica a países com alto grau de desenvolvimento. Países emergentes ainda precisam percorrer longo caminho até que possamos abrir mão do crescimento econômico. Qualquer comparação do crescimento do Brasil com a Alemanha ou a Espanha deve ser vista, portanto, com muita desconfiança. A população mais pobre só verá sua situação melhorar se passarmos a crescer a taxas superiores a 4% ao ano. O Governo Dilma deverá entregar crescimento inferior a 2% em seu Governo. É o menor crescimento dos últimos 100 anos. Nem no Governo Getúlio, que teve que lidar com os efeitos da maior crise da história da humanidade, entregou crescimento tão pífio.

Se é verdade que o baixo crescimento pode estar sendo influenciado pela crise de 2008, é certo que o Brasil é um dos que menos crescem dentre os emergentes. E esse resultado é decorrente de fatores internos. A taxa de investimento está na casa dos 16% do PIB, sendo das mais baixas da história. O programa de Aécio observa essa distorção e indica caminho que nos levaria a taxas de 24% do PIB, necessárias para a obtenção do crescimento de pelo menos 4% ao ano. Sem crescimento não haverá o que distribuir. E é a política econômica de Dilma que produziu a redução de nossa capacidade de investimento. É interessante observar que mesmo com a ampliação do uso dos bancos públicos, o investimento só fez cair.

Aécio Neves tem a seu lado uma excelente equipe. Além de Armínio Fraga, um dos poucos operadores de mercado que têm empatia suficiente para se interessar pelo bem comum, há Monica de Bolle (tradutora de Piketty), Marcos Lisboa (que foi da excelente equipe do primeiro mandato de Lula), Eduardo Loyo, dentre outros. Com o apoio de Marina Silva, Aécio recebeu ainda em sua campanha Eduardo Giannetti e André Lara Resende. São economistas capazes de devolver a credibilidade perdida pelo atual governo. Tomadas as decisões corretas, podemos ter uma rápida mudança de perspectivas para nossa economia sem que isso implique os sacrifícios que seriam impostos ao novo Governo Dilma, que assumiu na campanha o papel de adversário dos bancos e dos empresários em suas peças publicitárias.

Por último, creio que Aécio é o mais preparado para tirar o País dessa imensa divisão que agora se encontra. Aécio aposta menos no discurso nós contra eles, tão utilizado pela campanha petista (pobres contra ricos, nordestinos contra paulistas), sendo mais capaz de promover a conciliação das mais importantes forças da sociedade civil. Resumidamente, é por essas razões declaro meu voto em Aécio Neves para Presidente, pois não vamos desistir Brasil. O País evoluiu bastante nos períodos FHC e Lula, mas parou de evoluir nos últimos quatro anos. Agora meu voto é pela mudança. Agora é Aécio Neves Presidente.

Gustavo Theodoro

A Campanha do Medo

Regina Duarte

Regina Duarte entrou para a história do marketing político em 2002 ao declarar ter medo do PT. Lula ganhou aquela eleição de José Serra por larga margem e a utilização do medo foi abandonada pelos responsáveis pelas campanhas políticas.

O tempo passou e o medo voltou a ser utilizado nas campanhas eleitorais; no início, de forma tímida, mas nesta campanha é ele que domina os debates. A polarização desta campanha era, de certa forma, esperada, visto que o velho confronto PT x PSDB foi retomado com a campanha de desconstrução de Marina Silva promovida pela campanha de Dilma Rousseff.

Se no passado campanhas eleitorais com esses protagonistas já me animaram, hoje só me provocam desalento. Neste sentido, pareço-me com Fernando Pessoa a regressar a Lisboa: tudo é velho onde já fui novo. Apesar do desalento, tratemos de esclarecer alguns pontos constantemente repetidos pelas torcidas organizadas de cada campanha.

Venezuela: não vejo no horizonte a possibilidade de o Brasil se transformar em um Venezuela. Toda essa história do Foro de São Paulo pode até impressionar os impressionáveis, mas a teoria do pacto das esquerdas latinas, se houve, está para ser derrotado, visto que metade do continente virou à direita. A Venezuela está em grave crise e a Argentina sentiu precocemente os efeitos da queda das commodities. Só a esquerda mais moderada – como a chilena – tem conseguido promover o necessário crescimento da economia. Nosso país tem instituições muito mais fortes do que os demais países do continente. E ainda que o PT permaneça na presidência, hoje o apoio popular a um futuro governo petista será insuficiente para o “golpe branco” aplicado pelos governos bolivarianos (se por acaso fosse essa a intenção do PT).

Fim do Bolsa Família: nenhum governo dará fim ao bolsa família. O bolsa família é programa focalizado. Ou seja, só os mais pobres recebem esses recursos. Economistas com forte traço liberal defendem a adoção de políticas focalizadas não só no combate à pobreza, mas também nas demais políticas sociais, como educação, saúde e previdência. Assim, mesmo um presidente neoliberal, mas com boa assessoria, manteria o bolsa família. Dizer que o candidato A ou B vai acabar com o bolsa família não passa de terrorismo eleitoral.

Privatizações: o Brasil teve um ciclo de privatizações. Usinas siderúrgicas, empresas de telefonia, mineradoras e demais concessionárias de serviços público foram privatizadas. Ninguém hoje pensa em rever as privatizações. São pertinentes diversas das críticas ainda hoje formuladas contra a forma como as privatizações se deram, seja pelo modelo adotado, seja pelo momento de baixa credibilidade em que o país vivia, seja pela utilização de moedas podres para pagamento das empresas. Ainda assim são poucos os que lembram com saudades das empresas públicas. E ninguém cogitou reestatizá-las. Hoje não parece a nenhum dos candidatos haver espaço para privatização de novas empresas. Ainda assim o tema privatizações é recuperado com objetivos puramente eleitorais, como se BB, CEF, Petrobrás e Correios estivessem prestes a serem privatizados. Apesar de ser antigo o truque, ele continua funcionando.

Corrupção: é outro tema que apela para o sentimento conservador das pessoas. O PT cansou de fazer uso desse tema nas campanhas de 1994, 1998 e 2002. Depois o tema passou a ser considerado udenista. Conversando com pessoas do outro campo, fica parecendo que o PT inventou a corrupção. E que se não tirarmos essa cambada do poder não sobrará Brasil para ser roubado. É impossível saber se hoje se rouba mais ou menos. O observador atento terá que concordar que se rouba um bocado. Mas não é certo que a mudança reduziria o valor da propina.

Economia: apoiadores tucanos têm divulgado que a reeleição de Dilma significa o fim do Brasil. Que se Dilma for reeleita, o país irá quebrar, viveremos recessão, perderemos o grau de investimento e teremos que voltar ao FMI. É evidente que o país necessita de um ajuste fiscal. A campanha petista não fala nisso, mas dá sinais de que 2015 será um ano difícil. Nada indica, no entanto, que o país sucumbirá ou que enfrentaremos dificuldades inauditas diante de vitória petista. As notícias da crise econômica são agravadas para que o medo decida a eleição.

Pobres: A campanha petista namora com o conflito pobres x ricos. Até agora esse tipo de campanha é mais afeita às redes sociais e aos comícios. Nesses espaços, tucanos, marineiros ou seja lá quem for são acusados de serem a favor dos ricos e contra os pobres, que só teriam o PT a seu lado. Isso não passa, evidentemente, de falácia, já que nenhum embaraço foi criado aos ricos durante os 12 anos de governo petista. Os empresários com faixa salarial acima de R$ 20 mil reais continuam pagando menos IR do que um assalariado que recebe R$ 10 mil (proporcionalmente). O velho ITR – imposto federal que poderia acelerar uma reforma agrária de terras improdutivas sem desapropriações – continua irrisório. Estudos recentes demonstram que os 0,1% mais ricos voltaram a abocanhar o crescimento econômico no governo Dilma, ao contrário do disseminado pelos institutos subjugados, como o IPEA. O senso comum de que o PT é a favor dos pobres enquanto os tucanos são contra não encontra respaldo na realidade. Aliás, pelas minhas convicções, um governo mais liberal, que focalizasse os gastos em saúde, educação e previdência, poderia fazer mais pelos pobres do que as aparentes benesses governamentais de nomes esquisitos.

O medo é arma dos conservadores. A esperança é a arma dos progressistas. O medo provoca desconforto e está aumentando o contingente de votos nulos. Já passou da hora de os candidatos voltarem a se concentrar no futuro. É difícil abandonar o discurso do medo pois, como dizia um grande economista do passado, John Stuart Mill, não é aquele que tem esperança quando há desespero, mas aquele que se desespera quando há esperança que é admirado por todos como sábio. Na política, sábio é o que consegue reunir em torno de si as melhores energias do país, o conjunto de pessoas capazes de pensar o país e colocá-lo no caminho do desenvolvimento. Para você, quem é capaz disso?

Gustavo Theodoro

A Montanha Mágica

Alpes Suíços

O segundo turno das eleições tem acirrado o ânimo das pessoas, em especial nas redes sociais. Informações são reproduzidas com muito pouco zelo: “o partido A é dez vezes mais corrupto do que o partido B”; “o candidato A é contra o 13º salário”; “o trensalão e a privataria”; “o mensalão e o petrolão”. E segue por aí a discussão, recheada de ofensas.

O excesso de informação deste momento dificilmente auxilia na decisão do voto. Arquíloco deixou, há alguns milênios, um aforismo bastante enigmático: a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. Hoje este aforismo é lido – principalmente após Isaiah Berlin – como a diferença dos que têm a capacidade de agregar o conhecimento, criando um eixo unindo os saberes (tal como o ouriço do aforismo, que sabe uma coisa muito importante), em oposição às raposas, que são pluralistas, lidando com a realidade sem precisar unificá-la numa raiz comum.

Utilizando a arquitetura proposta por Arquíloco, o segundo turno é das raposas. Em meio a tal confusão, a busca da verdade torna-se, na maior parte das vezes, uma perda de tempo. Poucos têm o espírito ou a disposição para conferir dados, checar fontes, considerar a opinião alheia e refletir silenciosamente. Agora, parodiando os pré-socráticos, tudo é movimento.

Por outro lado, aqueles seres agregadores (ouriços), que supostamente detém a verdade, nunca conseguiram vencer a opinião (doxa) com o singelo argumento de autoridade. A literatura da Antiguidade está repleta de exemplos desses casos de insucesso. A alegoria da caverna é minha referência básica neste assunto. Já tratei dela em outros posts. Os aporéticos já devem estar até cansados dela. Nela, o filósofo, a quem foi dado conhecer a verdade, conta aos habitantes da caverna sua experiência. Ninguém acredita nele. Apesar de ele deter o conhecimento obtido a partir de um ângulo muito mais amplo do que os habitantes da caverna, sua verdade é confundida com uma opinião.

De certo modo, Platão utilizou, com essa alegoria, o argumento de autoridade. Para ele, principalmente após a morte de Sócrates, não poderia haver regime melhor do que uma ditadura de filósofos, pois só esses conhecem a verdade. Com o Moisés bíblico, apesar de notáveis nuances, a história se repete. Ao trazer as tábuas com os mandamentos (verdade), a multidão que não está pronta para ela. E é Moisés (o ouriço) que cuida de destruir as tábuas. Novamente tem-se a imagem de alguém sábio, conhecedor da verdade, que desce à montanha para sua revelação, mas o povo (demos) não está em condições de recebê-la.

Nietzsche, com um olho na tradição e outro em sua desconstrução, cria seu Zaratustra, que também desce da montanha onde viveu retirado do mundo por 20 anos e encontra um público arredio e cético. A referência à Platão e ao Velho Testamento é evidente, mas é a pilhéria a essas referências que interessa à Nietzsche. No mundo de Zaratustra, esses velhos sábios já não têm lugar. A verdade não existe e Deus está morto. Há saídas, mas não pelos velhos caminhos.

Se o conhecimento não pode ser estruturado (lembro que Nietzsche, em determinado momento, crítico que era da dialética, chegou propor que só se poderia filosofar por aforismos), pode ser desgastante para o ouriço viver neste mundo de milhões de vozes.

Um dos maiores romances do século XX é a Montanha Mágica, de Thomas Mann, autor preferido desta Ágora. Nele, Hans Castorp, legítimo representante do início do século passado, resolveu refugiar-se em um sanatório suíço, visto que talvez fosse tísico, fato não confirmado ao longo do livro. Aqui a metáfora é invertida: sem se adaptar à vida prática e conhecendo muito pouco do mundo, o jovem personagem do livro sobe a montanha. Lá do alto, ouvia as histórias, presenciava os debates, dava suas opiniões, mas se sabia ausente do mundo. Talvez por sua incapacidade de agregar o conhecimento, preferiu ausentar-se dos embates diários exigidos pela vida, vivendo na representação do mundo das ideias (essa interpretação é bem particular, não é a corrente sobre o livro).

Ainda assim, dispunha-se a fomentar o debate com as figuras típicas da esquerda e da direita da época, ora tendendo para um lado, ora tendendo para outro, com a irresponsabilidade típica de quem não está participando, de fato, da vida pública. Esse distanciamento parecia-lhe ora vazio, ora enriquecedor. Mas faltava-lhe disposição (ou coragem) para descer a montanha.

A trama de a Montanha Mágica deságua na Primeira Grande Guerra. O segundo turno das eleições também se assemelha a uma guerra. Como disse Ésquilo, na guerra, a verdade é a primeira vítima. Se já não é confortável para o ouriço viver em um mundo repleto de opiniões, tempos de guerra não facilitam.

No momento, seguirei acompanhando com muito interesse os debates e as notícias, com os ouvidos atentos e os olhos ariscos. Quem sabe, tal como Hans Castorp no final de A Montanha Mágica, eu não resolvo, mais à frente, descer a montanha e participar desses violentos embates. Por enquanto sigo na montanha, de onde tenho vista privilegiada.

Gustavo Theodoro

O Rumo de Marina

Marina

Marina Silva encarnou, nessas eleições, meu sonho de me ver livre do velho e desgastado embate entre PT e PSDB, e de tudo o que veremos nos próximos dias. A derrota de Marina pode ser explicada por diversos fatores: falta de tempo, improvisação, falta de recursos, reduzido tempo de TV e erros na condução da campanha.

No entanto, especialistas são unânimes em destacar o peso dos ataques sofridos pela candidata. A campanha do PSDB foi menos hostil nas críticas à Marina, sendo que a maioria das imputações que lhe foram feitas eram verdadeiras: que Marina foi do PT por 24 anos – não sei ao certo, mas isso parece ter sido tratado como acusação – e que durante a CPI do mensalão, Marina permaneceu Ministra de Lula. Outras críticas relativas às mudanças em seu programa de governo lhe foram dirigidas, mas isso é do jogo político.

Já o PT atuou em outro tom. Logo no início da campanha, quando Marina começou a disputar a liderança nas pesquisas, Dilma Rousseff afirmou que “não tinha banqueiro me sustentando”, em clara referência à relação de Marina Silva com a educadora Neca Setubal, uma das herdeiras do Banco Itaú.

Logo depois vieram as famosas campanhas que demonizavam os bancos e o setor produtivo, vinculando-os à Marina Silva. Nas peças publicitárias, a comida dos pobres iria irrigar a ganância das bancas e dos empresários. Depois disso, Marina Silva foi comparada, na campanha petista, a Collor e a Jânio Quadros.

Kant ensinava que na guerra, não se pode admitir que nada torne impossível a paz subsequente. A voz corrente ouvida ontem na campanha de Marina indicava que está descartada, neste momento, uma aliança com o PT. Nunca é demais lembrar que Marina ainda era próxima a diversos setores do PT e que, mesmo na reta final, era-lhe indigesta a aliança com Geraldo Alckmin. Na eleição anterior, Marina preferiu não apoiar nem Serra nem Dilma, guardando-se para, quem sabe, fazer um governo dos melhores no futuro.

Relembro, agora, a lição de outro mestre na arte de se fazer política, o pensador conservador britânico Edmund Burke, que dizia que sabedoria consiste em saber quanto mal deve ser tolerado. No longo discurso proferido ontem, com o semblante tranquilo, Marina deu claros sinais de que não irá de Dilma Rousseff no segundo turno. Mas ela foi além: disse que o Brasil sinalizou que não concorda com esse projeto (de Dilma), e que quer uma mudança qualificada. Disse ainda que não há de tergiversar com o sentimento de 60% dos eleitores. Parece que Marina não irá tolerar o mal que lhe foi impingido.

Gustavo Theodoro