Do Debate Ideológico

Como sabemos, a classificação entre “direita” e “esquerda” no espectro político decorre da Revolução Francesa, da posição ocupada pelos defensores da nobreza e por seus opositores. O intelectuais franceses atualizaram continuamente esse conceito, mas por todo o século XX, pelo menos na Europa, era impossível falar de esquerda sem se referir ao socialismo.

“Luta de classes”, “ditadura do proletariado”, “fim da propriedade privada dos meios de produção”, “inevitabilidade do comunismo como destino”, retratar a vida social como antagonismo entre opressor e oprimido, “mais-valia”, esses eram os termos em que a política era discutida pelos intelectuais europeus.

Para o povo americano essa discussão nunca fez muito sentido, já que os conceitos de propriedade privada e liberdade estão amalgamados ao conceito de nação, estando vinculados aos atos de formação daquele País. Mas a América não conseguiu se livrar da ideologização do mundo. Como não parecia viável importar o socialismo e seus conceitos, havia um campo em que uma esquerda ideológica poderia atuar: a crítica ao capitalismo.

Se não era possível criticar a propriedade, pelo menos uma forma vulgar dela poderia ser eleita como alvo. Daí surgiu toda a questão envolvendo o consumismo, a propaganda e a “sociedade de massas”. A ideia era tratar o consumo não como uma demanda das pessoas livres que vivem em ambientes democráticos, mas sim como fruto da exploração de um “oprimido” (consumidor) pelo “opressor” (meios de comunicação, publicitários, empresas fabricantes). O pobre consumidor seria tão manipulado pelas empresas e suas propagandas, vítima de um sistema perverso e injusto, que até mesmo o roubo passaria a ser, na visão de alguns intelectuais de esquerda, aceitável.

Veja que os regimes socialistas que existiram no mundo sempre privaram seus habitantes de acesso aos bens de consumo, seja pela ineficiência dos meios de produção, seja pela tentativa de construir um “novo homem”, interessado em coisas que o regime considerava adequadas (e os bens de consumo nunca estava entre elas). É de se notar que até hoje a esquerda mais utópica admira o regime de Cuba. Turistas de todas as partes do mundo olham para aquela sociedade, que se assemelha aos filmes da década de 1950, e imediatamente são tomados por nostalgia de um passado que não viveram.

“Como o homem precisa de pouco!”, “eu viveria aquela existência feliz e simples se fosse cubano”, são os depoimentos que usualmente ouvimos dos que visitaram o país. Ninguém parece capaz de se perguntar se os moradores da ilha preferem viver aquela vida lúdica e admirada pelos bem nutridos visitantes com seus iPhones ou se não prefeririam ter liberdade para empreender, emigrar ou mesmo estragar suas vidas ao gosto de cada um.

Aqui no Brasil recebemos influência da esquerda europeia e americana. O socialismo está presente nos programas de todos os partidos de esquerda, do PCdoB ao PT, ao mesmo tempo em que importamos as críticas à chamada “sociedade de consumo”, a linha auxiliar americana de crítica à propriedade privada. Há um debate positivo, ligado ao excesso de compras e à sustentabilidade. Há outra crítica, no entanto, que decorre puramente de uma espécie de preconceito contra essas relações que foram livremente estabelecidas em nossa sociedade, as relações de consumo.

Em uma sociedade democrática, as diferenças de opinião são sempre saudáveis. Fato lamentável é não termos dado importância aos autores que apontavam outros caminhos por todo esse tempo. A preponderância dos intelectuais de esquerda nos debates públicos, que empunhavam uma suposta superioridade moral por estarem contra a “injustiça social”, pode ter nos limitado como sociedade.

Infelizmente, junto com a recuperação de figuras históricas icônicas, como Churchill, e com o resgate de autores essenciais do século XX, como Raymond Aron e Roger Scruton, há uma linha radical que se identifica com a direita, como o movimento Alt-right americano ou o bolsonarismo no Brasil, que reforçam esse dualismo, estreitam a discussão e podem continuar obstando um debate real entre os que têm opinião diferente.

Nos EUA grupos que perceberam esse acirramento buscam mediar os conflitos, criando ambientes e regras propícios para que os debates se deem em torno de ideias, em que o respeito ao oponente seja incentivado, em que a ênfase deixe de estar nas grandes questões da humanidade, sendo substituída pela discussão dos problemas locais de cada comunidade.

No Brasil, penso que os candidatos e grupos que vierem a apostar na divisão da sociedade, na falta de diálogo ou nos ataques pessoais devem ser evitados. Já levamos essa divisão muito longe. O único caminho para nos restabelecermos como sociedade é pelo diálogo, inclusive e principalmente com aquele que pensa diferente. É hora de deixarmos nossas bolhas, não dar muita atenções aos trollers e criar espaços para a discussão. Vamos tentar?

Gustavo Theodoro

 

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Das Formas de Censura

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Na ditadura militar brasileira, a censura à liberdade de expressão se dava da maneira clássica. Censores servidores públicos avaliavam obras de arte, músicas, livros e jornais. Notícias ligadas à tortura e aos demais abusos cometidos pela ditadura não podiam ser publicadas. Muitas vezes com minutos de antecedência para o fechamento do jornal uma notícia era censurada. Alguns jornais passaram a publicar receitas ou poesias em seu lugar, procurando informar o seu público pelo menos da existência de algum tipo de censura.

Esse tipo de censura nunca deve ter fim. A Polônia na última semana aprovou lei que impede que, em qualquer publicação, os poloneses sejam de alguma forma relacionados ao Holocausto. Os campos terão que ser sempre Nazistas e os poloneses devem figurar como vítimas. O anti-semitismo polonês existente naquele período da história não poderá ser citado. Estabelecer qualquer tipo de relação entre o Holocausto e os poloneses agora é crime.

A Rússia proibiu o livro Berlim, de Antony Beevor, onde foi relatado o estupro das mulheres alemãs pelo exército vermelho nos últimos dias da Segunda Guerra. Apesar de se tratar de fato muito bem documentado, os governantes russos acham que essa história não deve ser contada. Trata-se, na visão deles, de uma forma de “proteger o povo” em uma espécie de “censura para o bem”.

A Ucrânia também proibiu outro livro desse mesmo autor. O livro é Stalingrado e conta de forma minuciosa a história dessa batalha decisiva para a Segunda Guerra. Eis que uma passagem ainda na parte inicial do livro o assassinato de 91 crianças judias por oficiais da SS ucraniana é contado em detalhes. Apesar de o fato ser bem documentado por cartas, relatos e ofícios da época, os governantes negam a colaboração de ucranianos nesse massacre. Para garantir que a história seja contado do jeito certo, proibiram a circulação do livro.

Há, no entanto, formas veladas de censura. Uma delas, bem comum em qualquer lugar do mundo, é utilizar o judiciário para limitar a atuação de quem utiliza a liberdade de expressão em sua forma mais plena. Se alguém escreve verdades desagradáveis e incômodas, em pouco tempo o autor terá que passar a lidar com advogados e tribunais. Contra o servidor público as formas de se obter o silêncio são ainda mais abrangentes.

Em um mundo dividido como este que nós vivemos, em que os sentimentos identitários foram potencializados e o sentido de grupo foi trabalhado, a censura se dá de modos ainda mais sutis. É comum ouvirmos que transitar nas redes sociais, especialmente debatendo política, é um exercício de masoquismo, visto que há pouco lugar para a ponderação e o aprofundamento das discussões. Qualquer polêmica que se entre pode ter como resultado ataques pessoais e xingamentos.

Com isso, pessoas ponderadas ou outras sem espírito para o conflito costumam se afastar das discussões. Tornando-se mais agudo o fenômeno, dois ou três grupos de extremistas, ainda que minoritários, podem monopolizar o debate, dando a impressão de que o mundo é uma divisão dual que pode ser explicado a partir de um eterno “nós contra eles”.

Aqueles que oscilam suas posições de acordo com o tema e não de acordo com o grupo a que pertencem passam também a ser hostilizados, retratados de forma depreciativa como “isentões” ou algo do gênero, como se os que não participassem do jogo de dois lados que eles criaram fossem mais perigosos do que os adversários naturais. Como resultado disso calam-se importantes vozes que poderiam moderar os debates e promover o entendimento entre as pessoas.

Resta-nos compreender esse processo, identificar e denunciar aqueles que praticam essa forma de censura. Não ter opinião aguda, pronta, imediata e certeira sobre os acontecimentos do mundo é, para mim, regra, e não exceção. Lembro de Merleau-Ponty, editor de um jornal da resistência durante os duros anos de ocupação Nazista, mas que nos anos seguintes, também de imensa divisão, disse que “não queria mais se engajar em tudo o que se passava, como se fosse um teste moral”.

É isso. Liberdade que sobrevive à censura é aquela que lhe garante escrever quando assim desejar, da forma que desejar, e se calar sobre outros assuntos, mesmo que ruidosos e geradores de grande interesse da opinião pública. O que precisamos recuperar neste pouquíssimo tempo de existência de redes sociais é nossa liberdade de expressar o pensamento, que tem sido sutilmente – as vezes nem tanto – limitada. Pois o que prometia enriquecer o mundo agora parece o estar apequenando.

Gustavo Theodoro

 

A Promessa da Política

O Judiciário brasileiro ocupou espaços que eram próprios do Legislativo e do Executivo. Essa é a conclusão de Boris Fausto em entrevista recente concedida ao portal Uol. E isso se deveu, basicamente, ao esfacelamento da política partidária, à naturalização das práticas não republicanas, ao impeachment de Dilma Rousseff, às dificuldades na economia e à falta de legitimidade do Governo Michel Temer.

As lideranças do passado andam se arrastando por aí, sem se dar conta de que seu tempo já passou. Lula foi condenado em segunda instância, Aécio foi gravado pedindo dinheiro para Joesley Batista, José Serra foi acusado de receber dinheiro na Suíça, os últimos presidentes e tesoureiros de PT e PSDB tão cedo não se desvencilharão das garras do judiciário.

O sistema político foi incapaz de expurgar essas “lideranças”, seja pelo voto, seja pela ação do parlamento, seja pela ação das próprias máquinas partidárias. O Judiciário ocupou esse lugar, mas essa operação deixou sequelas. O extremismo político ganhou terreno, fazendo com que os operadores mais moderados se afastassem do debate ou deixassem simplesmente de ser ouvidos.

Prevalecem os discursos maniqueístas e simplistas, como o de Lula, de que foi condenado por ter promovido políticas públicas de interesse dos mais pobres, ou de Bolsonaro, que promete dar armas para todos para “resolver o problema da violência”, promete “acabar” com a doutrinação nas escolas, tudo isso enquanto,  quem sabe, “come gente” com dinheiro público.

Hannah Arendt atribuía à política a capacidade de fornecer ao ser humano a atividade de maior valor na esfera da chamada vida ativa. Excetuando-se a vida contemplativa, era pela ação política, pelo agir em conjunto, de forma articulada e coordenada, que o homem poderia obter uma espécie própria de felicidade, que ela chamava de “felicidade pública”.

O clima político atual leva, no entanto, as melhores pessoas a se afastar até mesmo dos debates políticos, pelo temor de ser ofendido, xingado, ou de ter amizades de anos rompidas. Lembro que esse fenômeno não é recente. Sartre e Raymond Aron eram melhores amigos na universidade. Prometeram, inclusive, que o sobrevivente escreveria o obituário do outro quando chegasse o momento. A separação deles durante a vida em face da política foi tão grande que Aron julgou inadequado que ele escrevesse uma linha que fosse sobre a morte de Sartre.

Antes de romperem, Camus, Sartre e Simone de Beauvoir conversaram longamente sobre as amizades e suas divergências políticas. Concluíram que jamais deixariam que as diferenças de pensamento os levassem ao rompimento. Mas quando Camus lançou sua teoria do Homem Revoltado, que significou o rompimento definitivo com o regime soviético, a amizade deles não resistiu. Sartre se radicalizou ainda mais nos anos seguintes, chegando a defender a teoria da violência de Frantz Fanon e seu uso na política. A violência se torna assunto deste blog quando há radicalidade nos discursos, fenômeno que notamos nesta semana.

Hannah Arendt, novamente, escreveu importante ensaio sobre violência e política, deixando claro que o início da violência marca o fim da política. Não há política sem diálogo, acordos, discensos, antagonismo, luta, discurso, promessa e perdão. Sem diálogo, é ferida de morte a própria política.

O espírito das redes sociais, com suas bolhas e radicalismos, parece estar afetando os atores políticos. Isso, ao lado da incapacidade do sistema político de lidar com suas mazelas, fez com que o Judiciário assumisse certo protagonismo, o que nos aborrece a todos. O desprezo pela política fruto desse ambiente, mais do que impedimentos ou cassações de candidatos, é que pode colocar em risco a nossa democracia.

Há quem preveja um segundo semestre acirrado, dividido, violento. A dívida pública saltou de 51% para 75% em poucos anos. O desemprego explodiu e a renda despencou. A conflagração do país dificilmente nos deixará legado positivo. Voltemos as atenções para os políticos que estejam dispostos a conversar, ouvir, argumentar, pensar, pois onde há gritaria, ameaças, arruaças, e violência, não há política. E nós, nas redes, tratemos de conviver com as diferenças.

Gustavo Theodoro

 

Universo Eterno

Houve um tempo em que a Filosofia pretendia avançar sobre todas as áreas do conhecimento. Como o tempo, o conhecimento foi se especializando e houve um divórcio entre as ciências duras e a filosofia.

A filosofia, no entanto, nunca deixou de influenciar a física. Demócrito, há mais de 2300 anos, propôs que a matéria poderia ser desconstituída em átomos, algo que foi apropriado pela ciência, ainda que as partículas consideradas elementares hoje sejam outras (quarks e léptons). A ideia de que houve um início de tudo sempre se contrapôs a ideia de que nada é mutável (vide as oposições entre Heráclito – tudo flui – e Parmênides – toda mutação é ilusória).

A física segue sendo influenciada por nossa cultura. A ideia de um início é muito forte nas religiões com berço em Jerusalem. Einstein escreveu há mais de cem anos suas famosas equações sobre relatividade geral que permitiram a descrição do universo como o conhecemos hoje. Ajustes têm sido feitos na teoria, mas havia diversas situações que estavam abertas a pesquisas, por não serem totalmente explicadas, como a taxa de crescimento do universo (fenômeno descrito pelo termo “inflação”), a misteriosa “energia escura”, e previsões só recentemente comprovadas, como as ondas gravitacionais.

Para estudar o suposto início do universo, foi necessário adotar algumas premissas e aplicá-las às equações de Einstein. Qualquer estudante de física sabe das dificuldades que a física tem para lidar com singularidades. Hawking inclusive fez sua carreira estudando uma espécie de singularidade: os buracos negros. Singularidades, em termos matemáticos, não passam de situações em que, sob determinadas condições, algum termo tende ao infinito (ou apresenta-se uma divisão por zero).

Por isso estudar o universo e sua suposta criação é tão difícil. As equações de Einstein começam a apresentar singularidades nos estudos de início e fim do universo e são as condições impostas por quem está solucionando o problema que permitem que se chegue a um resultado. O Big Bang é um consenso na ciência, apesar de estar apoiado em bases frágeis. As teorias de universo eterno, com o tempo, ganham força como uma possibilidade, uma alternativa. Essa matéria de O Globo traz uma dessas alternativas. Percebe-se, também, um sentido filosófico na busca empreendida pelo autor do estudo: “Filosófica e fisicamente também não faz sentido presumir um início do Universo do nada”. Se o universo teve início no Big Bang, o que havia antes? E o que é o nada? Avançamos, mas o debate de Heráclito e Parmênides ainda é atual.

https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/fisico-brasileiro-avanca-com-teoria-cosmologica-que-dispensa-big-bang-22240235?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=OGlobo

Gustavo Theodoro

Inútil Pensar

O sucesso junto ao grande público de alguns “filósofos” brasileiros contemporâneos, como Leandro Karnal e Clóvis de Barros Filho, impressiona, pois não se pode dizer que a filosofia viva seu grande momento na história. Pelo contrário, parece que quem se dedica à filosofia na atualidade raramente consegue ir além da história da filosofia. Ou, como fazem os ilustres pensadores citados, produzem uma sopa de autoajuda regada a citações filosóficas, quase se aproximando de um “stand up comedy” erudito, com muitos aforismos e pouco conteúdo.

Robert Pirsig, autor do clássico “Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas”, sentia-se frustrado com o fato de a filosofia ter se transformado em uma espécie de história do pensamento. No entanto, quando se aventurou a tratar de um tema que lhe era caro, a Qualidade, acabou produzindo um livro superficial e sem consistência. A explicação para esse resultado não é trivial, mas se relaciona com sua recusa em se aprofundar no estudos dos filósofos mortos.

No princípio, a filosofia era altiva e pretensiosa. Os pré-socráticos se dedicavam a abstrações, ao Ser, aos questionamentos sobre o movimento e o caráter cíclico do mundo. Foi só a partir do período socrático que as perguntas clássicas da filosofia foram formuladas: O que posso fazer? O que devo fazer? O que posso esperar?

Platão erigiu a filosofia do diálogo, em que o conhecimento era produzido – ou quase sempre destruído – a partir de emparelhamento de pontos de vista. Como os diálogos de Sócrates eram quase sempre inconclusivos, para os observadores a filosofia não passava de atividade para desocupados. O constante repensar dos conceitos fez com que os cidadãos atenienses considerassem os filósofos “perigosos”, capazes de provocar desordem nas cabeças dos mais jovens.

Aristósteles foi mais ambicioso. Seus temas envolviam da ética à física. É daqueles filósofos de mão cheia, mas que teve parte de sua filosofia abandonada nos séculos recentes, pois o método científico ainda não havia amadurecido e suas reflexões sobre as ciências exatas eram, quase sempre, equivocadas.

Os epicuristas e estoicos se dedicaram a construir uma teoria do viver bem. Santo Agostinho colocou o amor no centro de suas reflexões, enquanto São Tomás de Aquino buscou unir razão à fé. Não é fácil fazer filosofia a partir da simples observação da natureza desprezando todo esse conteúdo disponível.

Kant criou uma vasta filosofia moral, que tirou Deus e a metafísica da equação para introduzi-los novamente, suave e disfarçadamente, pela porta dos fundos de seu edifício filosófico. Shoppenhauer percebeu essa fragilidade e buscou dar outra solução para o problema, mas a falta de exposição de suas ideias (ele vivia de rendas, pouco conviveu com outros pensadores e alunos) acabaram limitando sua obra. Hegel, seu contemporâneo (e por quem Shoppenhauer nutria indisfarçável inveja), construiu notável filosofia, que influenciou quase todos os importantes filósofos do século XX e ainda estabeleceu as bases conceituais utilizadas por Marx em seus escritos.

Nietzsche apoiou-se nas metáforas como modo de ir além de seus antecessores. O tradicional método analítico não lhe parecia bastar. Tampouco era apreciador da dialética, que mais se assemelhava a uma disputa. Chegou o momento em que os aforismos se apresentaram como uma forma eficaz de pensamento. Provavelmente Nietzsche mais destruiu do que construiu, mas é certamente o filósofo mais influente do século XIX.

Edmundo Husserl, no início do século XX, percebeu que a filosofia havia se afastado da vida cotidiana, da análise do ser e das coisas livres de conceitos. Criou um novo ramo do pensamento, a fenomenologia, que buscava voltar a olhar os objetos tal como eles se apresentam, dispensadas as classificações que previamente se estabelecem. A ideia era deixar de ver o filósofo como aquele pensador solitário, com a cabeça enfiada nos livros, gastando suas vidas escrevendo livros para pouquíssimos lerem. A fenomenologia teve o existencialismo como filho.

Heidegger devolvia a filosofia para o mundo, sendo considerado o pai do existencialismo alemão. A dificuldade de fazer filosofia do cume do conhecimento filosófico erguido por seus antecessores o levou a expandir a própria linguagem. É comum se dizer que só se faz filosofia em alemão. Heidegger é, em grande parte, responsável por isso. O alemão permite naturalmente a criação de novas palavras a partir da composição de substantivos. Heidegger abusou desse mecanismo, buscando principalmente evitar os reflexos condicionados que os antigos termos provocavam sobre os leitores habituais de filosofia.

O existencialismo francês era mais verborrágico e mundano. A ideia de poder filosofar sobre qualquer coisa, sobre uma bebida servida em um bar ou sobre um objeto deixado no chão, atraiu os pensadores do período entreguerras. A urgência do mundo parecia não mais comportar filósofos fechados em suas universidades discutindo temas sem impacto no mundo real. “A existência precede à essência”, era o lema dessa nova corrente de pensamento.

Infelizmente para a filosofia, a mais popular corrente filosófica do século XX não serviu a suas figuras mais destacadas. Heidegger foi promovido a reitor no primeiro ano do Nazismo e sua biografia ficou marcada para sempre por esse episódio. Sartre, que passou a defender o engajamento dos intelectuais, fez defesas injustificáveis de regimes totalitários. Quanto mais envelhecia, mais parecia perder sua capacidade de discernimento.

Dos pós-modernistas e os estruturalistas que os seguiram, não se encontram termos elogiosos a descrevê-los. O caminho aberto por Heidegger, de utilizar termos pouco claros que davam impressão de conter conceitos profundos, foi levado às últimas consequências por seus sucessores. O charlatanimo confundiu-se com pensamentos supostamente profundos. Não é difícil explicar o silêncio dos intelectuais na contemporaneidade. Em um mundo em que não se consegue distinguir uma pós-verdade de um fato, colocar-se nele significa, aparentemente, nivelar-se por ele.

Além disso, filósofos mostram-se capazes de erros de julgamento tão brutais como o cidadão comum. Vide o apoio de Platão ao despotismo, de Heidegger ao Nazismo e de Sartre a Stalin e Mao. Diante desse quadro, não chega a surpreender a vitória de Trump nos EUA ou de uma possível, mas não provável, vitória de Bolsonaro no Brasil. Se nem quem fez do ofício o pensar conseguiu tomar decisões sensatas, o que esperar da população em geral?

Nesse mundo fluido (líquido), há uma perplexidade da filosofia atual que envolve sua própria existência: ainda é possível fazer filosofia de fato nos dias atuais? Ou não passaria ela de um inútil pensar? Ou será que essa aparente inutilidade da filosofia não é mesmo seu elemento de reconhecimento? Merleau-Ponty dizia que “o filósofo é marcado pelo traço distintivo de possuir inseparavelmente o gosto pela evidência e o senso da ambiguidade”. E que é necessário um movimento constante entre eles, “que vai incessantemente do conhecimento à ignorância, da ignorância ao conhecimento”. O insight dele é o de que nunca passaremos da ignorância à certeza definitivamente, pois o fio do questionamento sempre nos levará de volta à ignorância. Nessa época de tantas certezas, não será essa a melhor defesa da filosofia?

Gustavo Theodoro

As Bolhas da Internet e o Reflexo Condicionado

A internet criou bolhas, ambientes em que cada um só se relaciona com seus iguais. Os mecanismos das redes sociais acabam favorecendo esse comportamento de segregação, na medida em que “curtidas” levam aquele assunto a aparecer mais em sua “timeline”, ao mesmo tempo em que a opção de bloqueio dos diferentes está sempre disponível.

Petismo, MBL, feminismo, islamismo, globalismo, racismo, discriminação, qualquer acontecimento banal que possa ser enquadrado nesses arquétipos são amplamente discutidos, ainda que o fato em si seja absolutamente irrelevante. Vimos nas últimas semanas vários exemplos dessas discussões inúteis, como a decisão judicial que envolve regulamento do conselho de psicologia sobre atendimento de gays, a mostra que um banco resolveu encerrar precocemente, dentre outros que não me darei ao trabalho de enumerar.

O país vive uma grave crise econômica, o desemprego segue em níveis exorbitantes, o déficit público segue sem dar sinais de ser controlado, a dívida pública deve continuar crescendo nos próximos anos, a educação segue perdendo alunos e com qualidade reduzida e tomamos conhecimento de que a propagada redução da desigualdade da última década não passou de um engodo.

São assuntos aborrecidos, cujas soluções complexas exigem determinação e resiliência, mas que envolvem temas essenciais para o nosso futuro. Por que nos interessamos tanto pelos temas inúteis e banais que acirram nossas diferenças, ao invés de discutirmos aquilo que todos reconhecem ser importante?

Penso que nosso cérebro tem a tendência seguir trilhas conhecidas. Os arquétipos mentais tornam mais simples descrever um fato a partir de ideias pré-concebidas. Determinados eventos disparam mecanismos que induzem reflexos condicionados, levando-nos, de forma quase inconsciente, a reproduzir fórmulas e percorrer novamente antigos caminhos. Mesmo o pensamento supostamente mais revolucionário se torna conformista quando é recorrentemente repetido.

A situação de Myanmar é um bom exemplo de evento que foge dos padrões normais de interpretação, o que leva o assunto a ser constantemente evitado, apesar de sua importância. Em Myanmar reside o maior contingente de apátridas do mundo. Quase um milhão de pessoas. A maioria budista parece estar iniciando uma guerra de extermínio étnico contra a minoria rohingya, de religião muçulmana.

Estima-se que mais de 400 mil pessoas tiveram que deixar Myanmar nos últimos meses, o que indica ser este um dos maiores conflitos humanitários contemporâneos. A descrição dos fatos, no entanto, não invoca nenhum reflexo condicionado no mundo. Não há europeus a serem identificados como vilões racistas, tampouco muçulmanos identificados como terroristas. Budistas evocam imagens de meditação e nirvana, de paz e empatia. Uma guerra genocida patrocinada por budistas, em um País sob a liderança de Aung San Suu Kyi, personalidade agraciada com o prêmio Nobel da Paz, tem algo que parece não encaixar em nossas experiências anteriores, soa quase como inverossímil. Sem bolhas e sem as divisões habituais entre esquerda e direita, o assunto não mobiliza.

É de se pensar se não é o caso voltarmos a nos relacionar com aquele que pensa de forma absolutamente diferente de nós, se não é o momento de abandonar alguns extremismos e buscarmos pontos de contato com aqueles de quem divergimos, ao invés de seguirmos nessa toada de acirramento. Sabemos como é difícil construir uma civilização, mas a Síria está aí para demonstrar que a destruição de um País é um feito ao alcance das nossas mãos. E aí, estamos dispostos a voltar a conversar?

Gustavo Theodoro

Lula e o Tríplex

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Interrogatório não se confunde com debate político. Provas contundentes e cabais só existem nos filmes americanos. No mundo judicial prevalece a narrativa que revela maior aderência às provas contidas no processo. Os crimes de colarinho branco raramente são desvendados sem a palavra de algum dos envolvidos. Corrupção é crime que se pratica no escuro, cercado de cuidados, em que se evita telefonemas e transferências bancárias.

As provas foram produzidas, cabe ao Juiz decidir qual narrativa mais bem se coaduna aos depoimentos e documentos obtidos. Lula disse que Marisa comprou uma cota do condomínio em 2005. A Bancoop quebrou, parte dos empreendimentos foi adquirida pela OAS, mas Lula só voltou a tratar do problema, em sua narrativa, no ano de 2013, quando foi visitar a cobertura que nem era aquela pela qual tinha se interessado em 2005. Viu, não gostou, colocou defeitos, e foi embora. Marisa voltou lá alguns meses depois com o filho “só para dizer que não iria ficar com o apartamento” e foi embora. A história de Lula é essa.

Nessa versão, não se sabe por que o casal não tomou nenhuma providência entre 2005 e 2013, enquanto os outros mutuários, em 2009, haviam feito a opção entre ter a devolução do dinheiro ou fazer um complemento do valor pago para ficar com o imóvel. Lula não explica por que um documento com o número do apartamento triplex foi encontrado em sua casa. Tampouco justifica o fato de a cozinha do triplex ter sido comprada na mesma loja da cozinha do sítio de Atibaia, consignando o nome da mesma pessoa na nota fiscal. A narrativa de Lula não explica a razão de o triplex nunca ter sido colocado à venda, assim como não explica o motivo de ter sido feita uma reforma de luxo (no custo de cerca de R$ 1,5 milhão) em um prédio de classe média.

Na versão do MPF, o apartamento estava designado a Lula desde o acerto entre a OAS e a Bancoop. Léo Pinheiro disse que não havia intenção da empresa, face ao seu plano de negócios, de assumir empreendimento que não fosse nas capitais, mas que Vaccari o havia informado que, no prédio do Guarujá, uma das unidades era de Lula. Com a descoberta pelo O Globo, em 2010, de que a cobertura seria de Lula, nenhuma modificação foi feita no imóvel por alguns anos. Em 2013, Lula foi ao apartamento e teria solicitado as melhorias, como o elevador e as intervenções visando à elevação da qualidade dos materiais e revestimentos. Depois Marisa voltou para acompanhar as obras.

Em 2014 o apartamento foi entregue. Era em época de campanha presidencial e, segundo Léo Pinheiro, Lula não queria aparecer lá nesse período, pois a campanha prometia ser muito agressiva, como de fato foi. Mas havia o problema do valor da reforma. Ninguém aparecera para pagar. Léo Pinheiro teria cobrado Vaccari e Okamoto. Ainda segundo Léo Pinheiro, a construtora teria sido ressarcida por meio de propina obtida na Petrobras.

A narrativa do MPF é repleta de indícios e evidências que a corroboram, como as mensagens trocadas, as menções à “madame”, a reserva do apartamento, a personalização, a “coincidência” das cozinhas, os documentos apreendidos, as visitas, sem contar as delações.

Esse cotejamento de narrativas prova, além da dúvida razoável, que só a tese do MPF justifica o conjunto de fatos e indícios trazidos ao processo. Esse é o modo como o Judiciário trabalha e será difícil encontrar prisioneiro condenado no Brasil com mais provas do que há contra o ex-Presidente Lula.

Para muitos, Lula “venceu” o debate contra Moro. Um olhar mais frio de quem assistiu ao depoimento na íntegra revela que Moro nunca pensou estar em um debate. Suas perguntas geralmente procuravam confirmar elementos de cada uma das narrativas e, nesse quesito, Lula foi incapaz de produzir uma história verossímil.

“‘É só um triplex, outros roubam milhões”, dirão alguns. Al Capone foi pego pelo imposto de renda, mesmo com sua longa carreira de crimes; Collor acabou sendo julgado pelo Fiat Elba, apesar das mais diversas acusações de desvio de recursos, contas fantasmas e suas relações com PC Farias. Isso demonstra a dificuldade de se combater tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro. Não será pequeno o feito de se obter a condenação de um ex-Presidente por esse tipo de crime. E que a justiça venha para todos.

Gustavo Theodoro

Esquerda em Crise

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As eleições da França confirmaram a tendência atual de redução do eleitorado do que se conhece por esquerda. Por mais fluido e indecifrável que o termo “esquerda” possa parecer, é certo que os partidos que assim se intitulam têm visto seu eleitorado minguar, enquanto uma direita que andava adormecida na segunda metade do século XX voltou a ganhar terreno. Não há analista que não se sinta tentado a abordar esse fenômeno, com vistas a compreender o que deu errado, se é que ser minoritário seja sintoma de algum problema.

O Partido Socialista teve um importante papel histórico na França da primeira metade do século passado, apesar de ter assumido só brevemente o governo daquele país. Sob a liderança de Leon Blum, o partido ganhou respeitabilidade ao evitar que fosse transformado em aparelho do partido comunista soviético, mantendo o foco no socialismo utópico. O partido socialista do período das guerras mundiais, apesar de minoritário, angariou o respeito inclusive de seus adversários. O que deu errado desde então? Por que hoje, além de diminuto – com inéditos 6% do eleitorado -, perdeu o respeito da população?

Ao que parece, o campo da esquerda nunca chegou de fato a ser majoritário. Mitterrand, apesar de ter sido eleito pelo partido socialista, foi antes um social-democrata, senão um centrista, assim como o favorito das atuais eleições, Emmanuel Macron. Hollande em sua campanha disse:

“Meu adversário de verdade não tem nome, nem rosto, nem partido, nem será candidato. Mas é quem governa. É o mundo das finanças, que tomou o controle da economia, da sociedade e de nossas vidas”.

É notável a diferença entre discurso e prática. No ano passado o governo se afundou nas discussões das reformas trabalhista e previdenciária, assumindo uma posição claramente pró-mercado. A promessa era a de que com as reformas o desemprego iria diminuir, o que não ocorreu. Não havia como o partido socialista sobreviver, no curto prazo, a Hollande.

O caso francês guarda muitas semelhanças com o brasileiro. Talvez a diferença esteja na quantidade de concessões que os simpatizantes da esquerda brasileira estão dispostos a fazer para manter o apoio a seu grupo. Para os franceses, parece que a paciência se esgotou.

Em 2002, para vencer as eleições, Lula precisou escrever a Carta ao Povo Brasileiro – que Emílio Odebrecht agora diz que foi por sua inspiração -, rasgando compromissos históricos da esquerda, como a auditoria da dívida pública, a democratização dos meios de comunicação, o fim do imposto sindical, a reforma agrária, a adoção de impostos progressivos e sobre grandes fortunas, dentre outros. Os governos petistas fizeram três reformas da previdência, pondo fim à paridade e à integralidade da aposentadoria dos novos servidores públicos. Em 2012, foi aprovada nova reforma, dessa vez igualando a aposentadoria dos novos servidores aos da iniciativa privada.

O partido que levantava a bandeira da ética era – desde o início, agora sabemos – aliado das maiores empreiteiras do país. Tudo indica que os bancos e as demais grandes empresas do Brasil eram também “parceiros”, sendo que o apoio se dava por meio de trocas de benefícios ou obras para contribuições em regime de caixa 2, ou seja: era propina mesmo.

Até 2008, Lula manteve disciplina fiscal superior a de FHC, que teria adotado ideias neoliberais em seu governo. Se não tivesse sido apeada do governo, Dilma  encaminharia nova reforma da previdência, exigência dos mercados para a volta da “confiança na economia”. Não há indícios de que a esquerda brasileira tenha se afastado dos líderes que traíram seus ideais.

O socialismo francês também exibe esse histórico. O apoio da esquerda francesa ao stalinismo sobreviveu aos julgamentos forjados de Moscou e à Primavera de Praga, quando mesmo o mais desavisado dos mortais já tinha tomado consciência da natureza do regime soviético. Porém o sofrimento e os desajustes momentâneos não poderiam colocar em cheque o sentido da história, cujo destino já estava escrito e significava a crise final do capitalismo, com o comunismo se espalhando pelo mundo, destruindo nações e fazendo emergir uma comunidade de operários.

Em 1955, Raymond Aron escreveu sobre a esquerda francesa:

“O fim sublime desculpa meios horríveis. Moralista contra o presente, o revolucionário é cínico na ação e se indigna contra as brutalidades policiais, as cadências inumanas de produção, a severidade dos tribunais burgueses, a execução de acusado cuja culpa não foi demonstrada a ponto de eliminar todas as dúvidas. Nada, além de ‘humanização’ total, pode acalmar a sede de justiça. Mas, quando esse mesmo revolucionário decide aderir a um partido tão implacável quanto ele contra a desordem estabelecida, eis que, em nome da revolução, tudo o que até então era incansavelmente denunciado é perdoado”.

No dizer de Aron, os defensores do comunismo daqueles tempos não eram partidários ou simpatizantes, mas sim fanáticos, dispostos a tudo superar para manter suas crenças e seus ídolos. Impossível não relacionar tal descrição ao momento em que vive o Brasil. Se na França esses mitos finalmente parecem ter sido superados, aqui ainda são fortes as teses que desculpam roubos de estatais, corrupção generalizada, lucros estratosféricos dos bancos, reformas alinhadas com o mercado, favorecimento de empreiteiras – tudo em nome de um “bem superior”: o combate aos fascistas, ou pior, aos neoliberais.

A França avançou por um lado, mas corre riscos por outro. As extremas direita e esquerda conseguiram cerca de 40% dos votos. Apesar da aversão de seus apoiadores entre si, Le Pen (extrema direita) e Mélecron (extrema esquerda) compartilhavam muitas de suas pautas: ambos se referem a um passado idealizado, defendem o protecionismo, a redução na participação dos organismos multilaterais, a reaproximação com a Rússia, a renegociação da participação francesa na União Europeia, a redução na idade média de aposentadoria e a ampliação da seguridade social. Olhando por esse prisma, dá a impressão de que, se Le Pen se anunciasse de esquerda, receberia os votos de Mélecron. Não se desconsidera que Le Pen seja xenófoba e que há diversos traços de fascismo em seu discurso, mas que as semelhanças são surpreendentes, não há como negar.

O que salta aos olhos nisso tudo é que as posições extremistas estejam ganhando corpo. A Venezuela parece próxima de uma guerra civil. Os EUA são um país dividido pelo muro da incompreensão. O Brexit revelou que o sentimento internacionalista, que parecia superar o nacionalismo, refluiu.

No Brasil seguimos muito longe de um entendimento, pois pessoas de bem se dividem, acirram suas posições, defendendo bandeiras vermelhas ou amarelas. Enquanto isso a elite política e econômica quer continuar dando as cartas, pois, ao final, sua capacidade de composição é maior do que a do povo. Talvez não tenhamos aprendido que, apesar de as filosofias não se conciliarem, os interesses podem se combinar.

Nesse mundo, sinto-me como Pessoa, “estrangeiro aqui como em toda a parte”, mas sigo acreditando que o debate aberto de ideias possa aproximar, tanto aqui como na França, campos aparentemente antagônicos, na busca de uma sociedade mais pacífica, menos desigual, com capacidade de produzir riqueza e segurança aos cidadãos. E aí, vamos debater?

Gustavo Theodoro

Golpe ou Revolução

Jango

Ano passado, depois do impeachment de Dilma, uma minoria ruidosa começou a denominar “golpe” o seu afastamento. Segundo esse grupo, teria havido quebra do regime constitucional por, supostamente, não ter ocorrido crime de responsabilidade. Eu já escrevi alguns posts defendendo a constitucionalidade do afastamento, mas o tema sobre o qual me debruço hoje é outro: sendo o afastamento inconstitucional, estaríamos diante de um golpe ou uma revolução?

Essa discussão é mais antiga do que parece. Como as Revoluções Francesa e Russa compuseram parte do ideário da esquerda do século passado, a palavra revolução era reservada, preferencialmente, para fatos históricos ligados à esquerda.

Revolução, excetuando sua utilização fora do contexto inicial, como no emprego em Revolução Industrial, em regra implica a substituição de um poder por outro, de forma brusca, com utilização de violência, que provoque a chegada de outra classe dirigente ao poder.

Já o golpe implica a outorga de constituição ilegal pelo detentor do poder (como a de Napoleão III em 1851 ou das constituições de 1967 e 1969 no Brasil) ou a tomada violenta do Estado por um pequeno grupo de homens, sem que esse assalto provoque a chegada de outra classe dirigente, vinculada a outro regime.

Sob essa ótica, a ascensão do nacional-socialismo de Hitler, por exemplo, apesar de não apresentar violência na tomada no poder, seria mais bem descrita como revolução, já que houve alteração da classe dirigente, dos valores de Governo, acompanhada de uso desenfreado da violência contra adversários e grupos minoritários.

Por conta do grande prestígio do termo revolução, a esquerda francesa recusava-se a utilizar esse termo para o movimento nacional-socialista de 1933 ou para a tomada do poder pelo General Franco, na Espanha, apesar de estarem presentes boa parte dos requisitos para tanto. Esse tema era um dos preferidos da intelectualidade da década de 1950 na França, predominantemente de esquerda, que gastava páginas e páginas para refutar a possibilidade de o termo “revolução” ser atribuído a qualquer tipo de movimento ligado à direita.

O mesmo se deu aqui no Brasil com o movimento de 1964. Inicialmente, os militares propagaram a palavra revolução, que sempre teve um prestígio, a meu ver, demasiado, como se representasse uma ruptura aceleradora de nosso destino (uma concepção claramente marxista). A esquerda venceu essa guerra cultural e quase todos se reportam à tomada de poder pelos militares como golpe, por mais não haja plena aderência ao conceito em que usualmente é empregado.

O Governo Jango era decididamente afinado com a esquerda mundial e a situação interna indicava o início de ruptura da ordem estabelecida, principalmente depois de seu discurso aos sargentos, em 30 de março de 1964. O Governo foi tomado pela força (ainda que quase não tenha sido necessária sua utilização) com a clara substituição da classe dirigente. Ou seja, de fato, o movimento de 1964 está muito mais próximo do conceito de revolução do que de golpe, por mais que ainda hoje seja sofrido fazer esse tipo de uso para o termo “revolução”.

Eu sei que o uso do termo golpe para o impeachment de Dilma é muito mais político do que resultado de reflexões ontológicas sobre o emprego das palavras. Por mais que os conceitos não sejam tão diferentes, golpe, no ideário popular, remete ao fascismo, às injustiças e à tortura, enquanto a revolução prenunciaria um novo amanhã.

É evidente que colar o termo golpe ao impeachment constitucional surte o efeito desejado, deslegitimando o processo e dando vida política aos que foram afastados. Os efeitos disso só o tempo dirá. O que podemos ter por certo é que, como a violência não foi empregada, nenhum dos dois termos, golpe ou revolução, é corretamente aplicado no caso do afastamento de Dilma, ainda que tivesse havido algum tipo de quebra na ordem constitucional. Por mais alto que gritem, por mais barulho que façam, não foi golpe.

Gustavo Theodoro