Mês: novembro 2014

Inverno da Alma

inferno de dante

Não são poucos os que dizem que o homem vive uma crise sem precedentes. Notícias de suicídios de celebridades nos chegam de tempos em tempos. O consumo de medicamentos para os males de alma não para de crescer. No Brasil, o Rivotril só perde para a pílula anticoncepcional. O Prozac abriu caminho para uma muito bem-sucedida classe de antidepressivos. Raros são aqueles que não conhecem ninguém com depressão, com bipolaridade, com síndrome do pânico ou algum outro transtorno menos cotado.

Há os que defendam que foi a indústria farmacêutica que aumentou a abrangência dessas doenças, que continuariam muito raras. É a melancolia, a tristeza, a euforia, são sentimentos tipicamente humanos que estão sendo descritos como sintomas de doenças. Há quem acredite que a vida corrida e a necessidade de atender a múltiplas exigências é que produz esses sentimentos de inadequação, de desespero, de derrota ou de ansiedade típicos dos transtornos descritos pela psiquiatria.

Este blog não se propõe a dar respostas para as perguntas e os aporéticos que o acompanham sabem disso. Como de hábito, prefiro, ao invés de responder diretamente essas questões, provocar outras que, quem sabe, possam auxiliar nossa compreensão do mundo em que vivemos.

O pensamento filosófico sempre esteve, de alguma forma, ligado à metafísica e aos conceitos de verdade, do bem e do mal, e discutiu por muito tempo o Ser, essa entidade inapreensível. A tradição de pensamento criada na Grécia antiga foi resolutamente apropriada pelos romanos na formação daquilo que hoje consideramos a civilização ocidental.

As perguntas clássicas da metafísica cabiam neste contexto. Por que existe algo e não nada? Warum erwas ist und nicht nichts ist? A pergunta feita pelos filósofos alemães do século XIX poderia ser feita em qualquer momento na tradição do pensamento filosófico mundial.

O racionalismo que caracterizou o desenvolvimento das ciências exatas adentrou e esfacelou o mundo filosófico. Marx tentou salvar o mundo que restava elevando o status do trabalho. O mesmo trabalho que era garantia, no Grécia Antiga, do alijamento de participação no processo político, passou a ser central na filosofia marxista, como se o trabalho correspondesse ao um processo natural.

Se pensarmos bem, era uma segunda inversão em nossa tradição de pensamento. Se Platão inverteu Homero retratando os moradores da caverna tal como Homero retratara os habitantes de Hades, para Marx o processo natural consistia na vida no interior da caverna e a religião – equivalente a um passeio fora da caverna na concepção de Platão – não passava do ópio do povo. Se Platão equiparou o inferno a nossa vida ativa, Marx recuperou seu status, dando conotação natural aos habitantes da caverna.

Ciente dos efeitos da escola da dúvida inaugurada por Descartes, Kierkegaard tentou salvar a metafísica trazendo, para dentro dos estudos religiosos a dúvida e a razão. Involuntariamente obteve efeito oposto ao pretendido com a agora evidente derrota da fé pela dúvida.

Seguindo a trilha de Hannah Arendt, não poderia deixar de falar de Nietzsche, que foi o primeiro a proferir que havia chegado o fim dos tempos do solene, dos valores absolutos, dos argumentos irrefutáveis e buscou, apoiando-se no conceito de liberdade, uma alternativa para o pensamento humano. Apesar de sua imensa capacidade de distinguir as cores do momento em que vivia, todas as suas tentativas fracassaram.

Como herança recebemos um mundo em que a metafísica estava morta e a fé contaminada pela dúvida. Não há conversa sobre fé que não seja mediada pelo tema da dúvida. Não há pensamento absoluto que não possa ser relativizado. Até o imperativo categórico, marco do racionalismo, teve que se apoiar na metafísica.

A física do século XX só fez agravar esse quadro com o princípio da incerteza, com o experimento mental de Schroedinger e seu famoso gato e com a influência do observador no objeto observado, que tornaram ainda menos provável o conceito de objeto-em-si.

É evidente que o pensamento filosófico não é compartilhado por toda a humanidade e que, às vezes, parece exagerado descrever algum sintoma social como decorrência desse pensamento. Não é disso que se trata. Mas é inegável a relação existente entre a sociedade e o pensamento produzido, de forma que o caminho inverso pode ser tentado, desde que tomados os devidos cuidados.

O pensamento filosófico nos levou a um beco sem saída pois, ao destruir os conceitos absolutos, a verdade absoluta, a verdade que podia ser desvelada, ao retirar a autoridade do solene, passamos a viver em um mundo em que verdades e opiniões são indistintas. A tradição grega nos tirou do estado de necessidade, em que o único objetivo é sobreviver, prover alimentos e descansar e nos levou a um mundo em que a ação humana, particularmente a ação política, nos distinguia.

Marx errou quase todas as suas previsões, mas acertou ao dizer que no futuro a atividade política perderia espaço para a administração das coisas. Hoje é comum vermos políticos se apresentarem como gerentes, esvaziando de sentido o espaço público. O que ninguém esperava é que o niilismo percebido por Nietzsche e que o esvaziamento da esfera pública previsto por Marx nos levasse à repentina valorização do trabalho, a ponto de ser raro aqueles que não se identifiquem pela sua profissão, em perfeita oposição a nossa tradição, quando só escravos trabalhavam.

A falta de parâmetros para o pensamento inundou o mundo com uma enxurrada de guias efêmeros e de livros de autoajuda que tentam ocupar o espaço deixado pelo fim da filosofia. E a filosofia, em muitos sentidos, passou a se equivaler à arqueologia ou, pior, à exibição de erudição como meio de projeção social. Quase ninguém, nem mesmo filósofos, se ocupam realmente das questões filosóficas da tradição ocidental.

Não são mares seguros esses que navegamos. Disse Camus que a única questão relevante da filosofia do século XX é o suicídio. Talvez esse espírito tenha gradualmente penetrado na sociedade. O certo é que, junto do comportamento conforme, da redução dos homicídios em todo o mundo, da diminuição da fome e da miséria, algo não parece ir bem na alma humana. Pode ser devido á promoção do homem médio como novo objeto de admiração. Ou pode ser a falta dos conceitos absolutos. Ou pode ser simplesmente manipulação da indústria farmacêutica. É evidente que há um pouco de cada razão destas e podemos enumerar outras. A falta de um norte, de um guia, de um Deus, de um absoluto, aliado à emergência do conceito de liberdade e muito recente dignificação do trabalho nos tirou do Paraíso e nos aproximou da liberdade e do livre-arbítrio, tal como na metáfora do Gênesis. A observação da sociedade parece nos dizer que não está fácil viver assim.

Gustavo Theodoro

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Das Comparações com Stálin

Stalin

Semana passada escrevi uma coluna comparando algumas táticas utilizadas por Stálin que teriam sido herdadas pela esquerda da América Latina. Percebi que Stálin, ao tentar influenciar a política do leste europeu sem utilizar a força (entre os anos de 1945 e 1948), formava governos de coalizão, mas exigia que aos comunistas fossem distribuídos os ministérios que controlassem os meios de comunicação, a justiça, as polícias e as forças armadas. Relatei ainda que Stálin, quando buscou aumentar seu poder, passou a identificar aqueles que não seguissem precisamente seus preceitos, mesmo que fossem comunistas ferrenhos, como inimigos, utilizando-se de campanhas de difamação.

No artigo anterior, avaliei o legado stalinista no governo petista, em especial no Governo Dilma, e constatei que os mesmos ministérios que Stálin requisitava estavam nas mãos de petistas (Secom, Ministério das Comunicações, Ministério da Justiça e Ministério da Defesa). A seguir, observei que aqueles que se afastam de petistas são alvos de campanhas de difamação, tal como ocorreu com Marina Silva na campanha eleitoral.

O artigo teve muitos leitores, sendo que alguns não gostaram nada do que escrevi e consideraram impertinentes as comparações, já outros gostaram muito das coincidências e viram sinais de que a história pode se repetir, mesmo com outros personagens.

Não imaginava que Stálin tivesse uma imagem tão ruim junto à esquerda. Sou do tempo que em o Muro de Berlim ainda estava de pé e que muitos defendiam o regime soviético (como muitos ainda hoje defendem o regime cubano). É interessante observar que, na década de 1950, mesmo com conhecimento dos Gulags, dos campos de trabalho forçado e dos julgamentos forjados, o regime stalinista era defendido pela esquerda mundial.

Tanto é assim que Trotsky, legítimo herdeiro de Lenin e líder do exército revolucionário bolchevique, passou a ser visto pelo mundo, com base na propaganda soviética, como agente do imperialismo econômico, sendo que por toda sua vida Trotsky jamais flertara com o liberalismo ou com o capitalismo.

Apesar desse histórico, a figura de Stálin seguiu como referência para a esquerda mundial mesmo após a denúncia de seus crimes por Kruschev. Naquele momento, houve uma divisão entre os que defendiam o regime soviético de Kruschev (como o PCB no Brasil) e os que defendiam Stálin (como o nosso PCdoB) e que negavam seus crimes. Hoje parece que Stálin está se tornando tão impopular como Hitler.

É bastante conhecida a Lei de Godwin, em especial em sua referência ao fato de que aquele que utiliza comparações com Hitler, em regra, perdeu a discussão por falta de argumentos. É inesperado para mim, mas parece que Stálin atingiu, em termos de rejeição, o mesmo patamar de Hitler, mesmo que ainda haja alguns que ainda teimam em defendê-lo. Lembro que Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, disse há pouco tempo que há uma diferença entre Hitler e Stálin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas Stálin lia os livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferença. Ele viu grande diferença nisso. De diferença essencial, não vi nenhuma. Talvez influenciado por falas como esta imaginei que Stálin não estivesse com a imagem tão rejeitada entre nós.

O certo é que eu não disse que o Brasil está se tornando uma ditadura ou que o Brasil está no caminho bolivariano. Disse apenas que o pensamento da esquerda, assim como o da direita, tem uma tradição por trás de si. Marx separou a sociedade em classes. Hoje vemos a esquerda utilizar discurso semelhante, atualizando a estratificação de Marx. Lenin defendia a necessidade de um grande inimigo, agente do capitalismo, que buscava aniquilar o regime de igualdade soviético. A esquerda brasileira elegeu o PSDB seu grande inimigo, caracterizado como aquele que quer ver retornar um velho Brasil. O PT poupou o PSDB no primeiro turno, despejando todo seu arsenal contra Marina Silva. Em outras palavras, o PT escolheu o PSDB como seu inimigo a ser batido. Stálin atualizou algumas táticas, em especial as listadas no artigo anterior, como forma de obtenção de poder em países em que o partido comunista não era majoritário. Fiz a comparação com o Brasil e percebi que o PT controla os mesmos ministérios que Stálin não abria mão.

É preciso notar que nosso presidencialismo é de coalizão. O PT ocupa apenas 17 dos 40 Ministérios. Segundo minhas contas de análise combinatória e probabilidade, as chances de quatro Ministérios específicos estarem nas mãos de petistas é de cerca de 3%. Logo, não tomei como coincidência o fato de o PT ocupar justamente os ministérios sugeridos por Stálin.

Ao mesmo tempo, ressaltei que, até aqui, exceto quanto ao Toffoli, todos os Ministros do STF indicados por Lula e Dilma tinham currículo para estar lá. Destaquei ainda que os meios de comunicação agiram com liberdade nas eleições, ainda que o PT tenha constantemente cobrado a aprovação de lei que regule a atividade da imprensa.

A esquerda é herdeira das práticas e dos pensamentos dos que nos antecederam. Segundo Delfim Netto, o cenário econômico que se apresenta é de uma tempestade perfeita. É fácil ser estadista e democrata em momentos de bonança. Não podemos nos esquecer de que o mundo experimentou o maior crescimento de sua história no período de 2001 a 2008. O Brasil conseguiu uma migalha disso, mas já nos fez muito bem. A época de bonança acabou. O país parou de crescer há alguns anos. É nesses momentos que aflora a tentação de concentrar o poder. Por isso, precisamos estar atentos e vigilantes.

Há setores da direita pedindo intervenção militar. E há setores da esquerda pedindo intervenção no judiciário e cassação da concessão da Rede Globo. Precisamos nos afastar desses radicais. A eleição foi acirrada, mas teve um vencedor. Em regimes ditatoriais, o partido do governo raramente obtém menos que 95% dos votos. Aqui muita luta foi travada para obter menos de 53% dos votos. Ou seja, tivemos disputa e por pouco o partido do Governo não perdeu as eleições. Temos uma democracia forte e as instituições continuam funcionando. Mas a vigilância é algo de que não devemos abrir mão.

Gustavo Theodoro

O Petismo e a Democracia

PT Foice e Martelo

Não são poucas as vozes que acusam o governo petista tentar solapar instituições para se perenizar no poder. Citam o exemplo da Venezuela e da Argentina, constroem teorias acerca do Foro de São Paulo e acusam o petismo de bolivarianismo.

Ainda não tenho o dom de prever o futuro. No entanto, conhecemos a história das ditaduras, em especial aquelas incentivadas pela esquerda.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava destruída e faminta. Comunistas, socialistas, democratas-cristãos e conservadores disputavam o apoio em cada país. A União Soviética apresentava-se como vitoriosa e pretendia dominar os países do leste europeu.

Stálin adotou, entre os anos de 1945 e 1948, um modo suave de influenciar os países em sua esfera de poder: aconselhou os comunistas, minoritários em quase todos os países, a se associarem aos socialistas – estes mais moderados e antirrevolucionários – e até mesmo aos democratas-cristãos para formarem governos de coalisão.

Na divisão de cargos, os comunistas exigiam apenas três ministérios: o do interior, que em geral controlava a polícia e as licenças para o exercício do jornalismo, o da justiça, que exercia influência sobre o judiciário e o Ministério da Guerra ou da Defesa, para controlar as forças armadas. Com os expurgos de jornalistas, a prisão de adversários e com o controle do judiciário, os comunistas gradualmente assumiram o controle dos governos e reduziram a democracia a eleições forjadas. Onde isso não ocorreu, os soviéticos patrocinaram um golpe stricto sensu.

Voltando os olhos para o Brasil, percebemos que, nos governos petistas, a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, responsável pela distribuição de verbas de publicidade e propaganda do governo central, sempre esteve sob responsabilidade de petistas, como Luiz Gushiken, Franklin Martins e Helena Chagas. Atualmente a pasta é ocupada pelo petista Thomas Traumann.

O Ministério das Comunicações foi entregue ao PMDB na época do escândalo do mensalão, como estratégia para preservação do mandato, mas no governo Dilma o petista Paulo Bernardo assumiu a pasta.

O Ministério da Justiça foi inicialmente ocupado por Márcio Thomaz Bastos. No segundo Governo Lula o petista Tarso Genro assumiu a pasta que, após breve período de interinidade, foi transferida para José Eduardo Cardozo, já no governo Dilma.

O Ministério da Defesa transitou entre petistas e não petistas no Governo Lula, mas desde o início do governo Dilma a pasta esteve com o petista Celso Amorim.

Resumindo, desde o início do governo Dilma os ministérios escolhidos por Stálin estavam nas mãos de petistas.

Uma segunda estratégia utilizada por Stálin que remete ao momento atual tem relação com o modo de se livrar da oposição constituída. Quando Moscou ordenou que o partido comunista se afastasse dos socialistas que não aderissem ao comunismo, teve início uma campanha difamatória contra os membros da oposição que, em geral, levavam à sua prisão, desterro ou morte, mas essas medidas eram sempre precedidas pela desmoralização.

Impossível não lembrar da campanha difamatória sofrida por Marina Silva, que esteve no PT por 24 anos participando inclusive do governo Lula. Sustentada por banqueiros, contra o pré-sal, foram parte dos ataques sofridas pela campanha petista.

Não por acaso, blogs patrocinados por verbas distribuídas pelo Secom tratavam da distribuição do ataque do dia à ex-aliada. Sem qualquer escrúpulo, Marina Silva foi desconstruída e retirada do segundo turno das eleições.

Gera incômodo ainda a forma como o Governo e os mesmos blogs sustentados por verbas federais atacam sistematicamente os meios de comunicação e o Poder Judiciário. O ataque a esses poderes, que Stálin percebeu como imprescindíveis, virou tática rotineira, que começa a fazer efeito, como vimos nos ataques aos jornalistas nas manifestações de junho.

Os Juízes do STF passaram a ser duramente atacados durante julgamento do mensalão, reproduzindo a mesma estratégia utilizada por Stálin nos países colocados sob a cortina de ferro.

Os partidos de esquerda da América Latina têm se encontrado desde a década de 1990 em congressos semelhantes aos da Internacional Socialista no século passado. E alguns países, tais como Venezuela e Argentina, fizeram reformas no judiciário e nos meios de comunicação que garantiram maior poder aos governos daqueles países.

O petismo evidentemente flerta com esse comportamento. E há setores do petismo que, sem dúvida, gostariam de ver aplicadas as técnicas utilizadas por nossos vizinhos.

Apesar dos indícios acima colacionados, ainda não se pode afirmar que há intenção deliberada do PT de solapar as instituições e vencer a democracia por meio dela mesma. Os meios de comunicação ainda são independentes e o judiciário continua funcionando com autonomia. Nas indicações para o STF, exceto a do Ministro Tóffoli, foram respeitados os critérios mínimos de honorabilidade e saber jurídico exigidos pela CF. Assim, o judiciário segue independente e a imprensa livre.

O momento é de crise econômica, que parece ser de grandes proporções. As facções do petismo que defendem a intervenção no judiciário, por meio da ventilada indicação do Ministro Cardozo, e na imprensa, por meio da limitação à propriedade cruzada, podem ganhar força dentro do Governo. Se é certo que até o momento as instituições têm funcionado livremente, é também certo que a pressão das alas mais à esquerda no petismo será mais forte do que nunca. Resta saber de que lado ficará o governo petista. É algo que devemos observar com cuidado, pois a história nos ensina que há semelhanças entre o bolivarianismo e o comunismo. E se o fim é a manutenção do poder, o meio é a própria democracia. É interessante observar que os historiadores da atualidade são quase unânimes em declarar que Stálin nunca se interessou muito pelo comunismo: seu objetivo sempre foi o poder. O paralelo é evidente, mas a natureza do petismo só poderemos declarar com maior distanciamento histórico. O que o momento exige de nós é vigilância.

Gustavo Theodoro

O Erro de Sarney

Correu na rede um vídeo em que o Senador José Sarney registra seu voto. Com o número 13 de Dilma Rousseff na lapela, as câmeras registram o voto em Aécio Neves. Muitos duvidaram do vídeo até que o próprio Sarney admitisse ter votado em Aécio, neto de Tancredo, cuja morte precoce lhe garantiu um mandato presidencial.

Apesar de Aécio ter, supostamente, perdido, é possível que Sarney veja executado o programa de governo que referendou. Basicamente, Aécio defendia que, sem retomar a capacidade de investimento, sem controlar a inflação e sem dispor da confiança do mercado, os brasileiros, mas principalmente os pobres, sofreriam os efeitos da inflação alta e do baixo crescimento. Além disso, face ao esgotamento da política fiscal, até mesmo os programas sociais seriam atingidos.

Para retomar a capacidade de investimento e controlar a inflação, era necessário tomar medidas duras: subir os juros, realizar um rigoroso ajuste fiscal, promover um realinhamento das tarifas públicas e retomar o diálogo com os meios financeiros e produtivos por meio da indicação de um técnico para o Ministério da Fazenda.

A campanha de Dilma nem se dispôs a apresentar programa de governo. A promessa que soou mais como ameaça era de que iria fazer o que já estava sendo feito em seu Governo. Em outras palavras, aumento do gasto social independentemente do impacto nas contas públicas, a política de escolha de empresas para serem players globais por meio de financiamento público e compra de ações (a conhecida política dos campeões nacionais), juros em um patamar que não prejudicasse o crescimento, ainda que fosse tolerada inflação mais alta, incentivos tributários a setores da economia de acordo com escolhas pouco transparentes do próprio Governo, dentre outras heterodoxias.

Entre o primeiro e o segundo programa, Sarney anunciou a escolha no segundo, mas votou no primeiro. Parece que a Presidente Dilma está indo pelo mesmo caminho. O programa demonizado por ela está sendo seguido à risca. A energia e os combustíveis sofreram reajuste. O Banco Central aumentou inesperadamente a taxa Selic. Um banqueiro foi convidado para o Ministério da Fazenda. E o Ministro Mantega acaba de anunciar um ajuste fiscal para o próximo ano. Fico até na dúvida: será que eu também me equivoquei ao votar?

Gustavo Theodoro