Mês: julho 2015

Economia de Educação

Educação em Economia

As notícias da economia indicam agravamento da crise brasileira. O ajuste fiscal pretendido pelo Ministro Levy – que para muitos era insuficiente – corre o risco de não ser alcançado neste ano. Além disso, o momento não foi aproveitado para discussão do caminho que temos percorrido. Há assuntos orçamentários importantes que foram tratados à maneira brasileira, com cortes disfarçados, sem a precedência do debate necessário.

Na verdade, há programas que foram iniciados sem maiores discussões sobre sua pertinência. Em 2011, o Brasil gastava cerca de 19% do PIB com educação, enquanto os países da OCDE gastavam, em média, 13%. Apesar disso, no primeiro Governo Dilma houve sensível incremento no número de alunos incluído nos programa Prouni, que permite que alunos sem recursos frequentem, com subsídio federal, faculdades privadas.

Ocorre que, apesar do alto comprometimento do PIB, o gasto por aluno acaba sendo inferior ao de outros países. Isso porque parte considerável do gasto é destinada ao nível superior, que ainda é frequentada por uma pequena elite. Nunca é demais lembrar que só 10% da população brasileira têm nível superior, enquanto o Chile apresenta taxa de 35%. Ou seja, todos esses anos de forte campanha publicitária em torno do incremento dos gastos em educação pouco modificou o cenário do nível superior. Eu sei que fomos bombardeados nos últimos anos com muitas informações (propaganda) sobre Prouni, Reuni e Fies, mas o fato é que isso tudo pouco contribuiu para nos tirar das últimas posições em gasto por aluno (somos penúltimos comparados à OCDE).

Sem um forte redirecionamento de recursos para os níveis fundamental e médio, com melhoria na taxa de repetência e nas taxas de aprendizado das crianças, os investimentos em educação superior são, quase sempre, desperdiçados. A progressão continuada pode até melhorar os indicadores de repetência, mas nunca dará boa leitura a um aluno do 9º ano se a progressão não for acompanhada de medidas suplementares, como aulas de reforço e a introdução do segundo professor em sala de aula. Para isso, são necessários mais recursos, mas nosso gasto com educação já é muito alto, mesmo se comparado aos demais países da OCDE.

Isso nos coloca diante da necessidade de se rediscutir os gastos em educação superior. Se já é questionável a destinação de imensas quantias às universidades públicas, o que se dirá de programas como o Prouni, que destina escassos recursos a universidades privadas de qualidade duvidosa? Sim, é de se reconhecer que o aluno que recebe o benefício se sente gratificado. Mas é preocupante saber que o recurso do Prouni financia o estudo de alunos de nível superior em cursos mal avaliados pelo MEC.

Um país que já despendia considerável parte de seu orçamento para financiar o ensino superior com as universidades públicas optou por investir ainda mais recursos nesse setor que já era razoavelmente bem assistido. Os gastos com o Prouni e, principalmente, com o Fies, dispararam no último ano do Governo Dilma. Mesmo assim, o crescimento de matrículas no nível superior durante o Governo Dilma foi similar ao do Governo FHC, comparação que o petismo costuma gostar de fazer (algo em torno de 6% ao ano). O gasto com o Fies chegou perto de R$ 10 bilhões em 2014. Foi subitamente cortado em 2015. O gasto desse programa não foi discutido com a sociedade brasileira ao ser implantado e tampouco seu corte está sendo discutido agora. Um país com democracia madura dificilmente deixaria de dar atenção a um debate orçamentário dessa natureza.

E assim os cortes são feitos, sem muitos critérios, com o único objetivo de se atingir uma meta que parece cada dia mais distante. A Congresso Nacional, infelizmente, pouco tem contribuído para elevação do nível das discussões. Apesar da aceleração do ritmo das votações, o parlamento se comporta de forma autista, como se não tivesse qualquer responsabilidade sobre os gastos públicos. Além disso, a pauta conservadora parece ter dado as caras justamente quando assuntos orçamentários essenciais eram demandados.

Educação é prioridade. Dilma adotou o slogan Pátria Educadora (slogan da pior qualidade, por sinal). Mas não parece nem um pouco interessada no assunto. Sem educação de qualidade não conseguimos ganhos em produtividade. Sem ganhos em produtividade, a economia não cresce. Para surpresa de muitos, gosto de revelar que economia não se faz apenas com juros e superávits primários. A discussão da qualidade do gasto público, em regra, costuma ser muito mais importante do que o mero número do déficit nominal. Pois déficit acima de 3% com alta taxa de investimento pode ser melhor do que déficit em 3% com investimento baixo (como o Brasil apresentou no segundo Governo Lula). Só no Governo Dilma atingimos a proeza de combinar baixa taxa de investimento com déficit primário.

Obviamente, o momento não é bom para discutirmos nosso futuro. Há uma crise política de grandes proporções em andamento, a operação lava-jato permeia o mundo político, as maiores empreiteiras do país estão com sérios problemas na justiça e a avaliação do Governo nunca foi tão baixa. Mas é bom que não percamos de vista os assuntos essenciais para o país. E a educação fundamental e média é um desses assuntos. E não parece ser possível resolver essa equação sem discussão do nosso modelo de educação superior.

Gustavo Theodoro

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Phoenix

Phoenix

Não é tarefa fácil definir o que nos individualiza. Seríamos nós o que somos se não fôssemos vistos pelos outros? Ou, reformulando, será que nossa vida interior, as experiências e traumas por que passamos são exalados em nosso comportamento público, na forma como nos mostramos para outras pessoas?

Para nos ajudar a desenvolver essas questões, o novo filme de Christian Petzold, Phoenix, é imperdível. Nele, a personagem de Nina Hoss é levada à Auschwitz. Volta com o rosto desfigurado – talvez não só o rosto -, mas sobrevive ao campo. Após algumas cirurgias plásticas, retorna à caótica e dividida Alemanha do pós-Guerra. Seu marido não a reconhece. Mas, por achá-la parecida com sua mulher, propõe que a sobrevivente se passe por ela para que possam receber uma herança.

Nesse ponto começam as reflexões sobre o que nos faz nós mesmos. Em Memento, o personagem central da trama não guarda novas memórias. Talvez por perceber que ninguém pode viver assim, ele cria um roteiro para si próprio, dando um sentido para sua vida. Para ele, nós somos, essencialmente, nossas memórias.

Nossa personagem de Phoenix tem desafio um pouco diferente: ela precisa convencer o marido de que pode se passar por ela mesma. Mas, o que faz dela ela? Será o jeito de andar? Teria ele se modificado em razão das agudas experiências de vida por que passou? Será que uma experiência dessas pode alterar a personalidade a ponto nos tornarmos fisicamente irreconhecíveis?

São essas as questões que o filme propõe. Ninguém esperava respostas a questões tão abertas, evidentemente. Mas o filme é conduzido de forma perturbadora e tem um final de beleza ímpar. Propõe inicialmente a reflexão, mas com o tempo somos simplesmente levados pelo filme a seu clímax, que não decepciona.

Phoenix estreou nos pequenos cinemas de arte das grandes cidades neste final de semana. Se você tem acesso a ele e gostou das questões que ele propõe, não deixe de conferir. Não será tempo desperdiçado.

Gustavo Theodoro

Tragédia Grega

ruinas gregas

Com a aprovação de um pacote de ajuda à Grécia, a novela em que se transformou a crise do euro ganhará alguma sobrevida. Para um analista imparcial, a dívida externa grega parece impagável. Além disso, a contínua aplicação de receitas ortodoxas fez com que o PIB continuasse caindo, tornando o pagamento da dívida mais incerto.

Apoiado pela população grega, o Syrisa prometeu um futuro com menos sofrimento, ou menos austeridade pelo menos. Ganhou as eleições e, até semana passada, parecia disposto a tudo para fazer prevalecer a vontade do provo grego. Eis que essa semana tudo mudou. Com a mudança do ministro da economia, o discurso se moderou e o líder grego, Alexis Tsipras, aceitou o dinheiro da troika em troca de um pacote bilionário de ajuda.

Ao que parece, a receita do medicamento que vinha fazendo o doente definhar foi dobrada. Resta saber se o doente vai sobreviver. O debate está polarizado, o que dificulta o entendimento da situação. Os detratores da Grécia se satisfazem ao lembrar que por anos a Grécia deu pedaladas fiscais, que gastos de atividades ilícitas eram incluídas do PIB e que a disciplina fiscal foi relaxada por muitos anos. Tudo isso é verdade.

Mas é verdade também que há seis anos a receita ortodoxa tem sido aplicada e não se vê possibilidade de saída da crise no curto prazo. É também verdade que os indicadores fraudados da Grécia não evitaram que bancos estrangeiros emprestassem grandes quantias à Grécia, o que provocou a exuberância irracional cujo preço vem sendo pago nos últimos anos.

Recente pesquisa divulgada pela OCDE indica que os trabalhadores gregos são os que trabalham mais horas por semana dentro da zona do euro. É certo que isso tem a ver com a baixa produtividade de sua mão-de-obra, mas não se pode tachar o povo de preguiçoso ou malandro a partir da observação da indisciplina fiscal dos governantes do passado. O interessante da pesquisa da OCDE é que são os alemães os que trabalham menos horas (e são, não por coincidência, os mais produtivos). A Alemanha – ou seus bancos – é a maior credora da dívida grega.

É de se notar que os países da zona do Euro não contam com uma das principais ferramentas para a saída de uma crise dessas, que passaria pela desvalorização da moeda acompanhada de alguma inflação. A Argentina e o Brasil passaram por crise semelhante na década de 1990 e ela só foi superada com o fim da paridade com o Dólar ou com o fim do controle cambial. O câmbio flutuante passou a compor o tripé econômico ortodoxo. Interessante observar que quase não se comenta que a moeda única europeia retira dos países em crise essa possibilidade de ajuste.

O debate entre keynesianos e hayekianos também não ajuda muito a iluminar o debate. Para os discípulos de Keynes, deveria estar em análise a política anticíclica, com expansão dos gastos públicos para controlar a crise no mercado de trabalho. O foco de Keynes sempre foi o emprego, nunca a inflação. Hayekianos tendem a colocar a inflação como centro das discussões, como se fosse esse o grande inimigo a ser debelado (além do “planejamento”, citado com muita frequência pela escola austríaca, mesmo não se tendo por certo seu real significado). Como como adotar a política anticíclica com esse buraco no orçamento? E como ajustar o orçamento com o congelamento cambial?

O jogo político do Syrisa parecia ter objetivos claros: conseguir o máximo da união europeia impondo o mínimo de sacrifícios ao provo grego. A elevação do tom de Tsipras parecia indicar que estávamos diante de dois caminhos: calote combinado de parte da dívida grega em troca de calote combinado ou saída da zona do Euro, para que o câmbio flutuante voltasse a dar competitividade à Grécia.

Ambos os caminhos eram temidos pela União Europeia. Sabe-se que a dívida italiana supera em muito a grega e tem a França como principal credora. O desfecho da situação grega pode afetar significativamente a possibilidade de existência futura do euro. Eram essas as armas que Tsipras parecia estar utilizando.

O plebiscito convocado pelo Syrisa parecia indicar que a Grécia tinha as melhores cartas nas mãos. Assim, é surpreendente que, depois de um jogo político bem feito, a Grécia aceite um pacote de ajuda – que não passa de renovação dos empréstimos – em troca de mais austeridade. Ontem o premier grego se manifestou da seguinte maneira: “Não vou tentar fazer este acordo parecer melhor do que é. É um plano difícil. Eu tive que escolher entre um acordo com o qual não concordava, uma quebra confusa ou a opção de Shäuble, a saída do euro.”

Parece-me que, se Tsipras estava disposto a concordar com “um acordo com o qual não concordava”, o jogo político dos últimos meses deixou de fazer sentido. Quando estava prestes a conseguir algo, optou pelo caminho tradicional, não sem antes inflamar os eleitores gregos, talvez inviabilizando seu futuro político. Kant dizia que quem não sabe o que procura não entende o que encontra. Tsipras acabou de fazer uma bela demonstração dessa máxima.

Gustavo Theodoro

O Silêncio dos Intelectuais

silencio

Umberto Eco declarou recentemente que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. A fala causou polêmica e, paradoxalmente, gerou muita discussão nas próprias redes sociais. Alguns dos imbecis de Eco o defenderam, outros o atacaram. O termo utilizado pelo romancista teve por efeito jogar sombra sobre uma importante questão de fundo que surge desse debate: a pouca relevância dos intelectuais no debate contemporâneo.

É fato que muito já foi dito sobre o assunto, principalmente no Brasil, pois quando o PT foi eleito a crítica acadêmica dirigida ao Governo Central praticamente cessou. Foram realizadas palestras e publicados livros com o sugestivo título de “o silêncio dos intelectuais”. Para muitos era um fenômeno localizado, decorrente da preferência dos meios universitários pela esquerda, principalmente em decorrência dos anos de ditadura militar.

A redemocratização não foi muito generosa com o País. Eleito Tancredo, assumiu Sarney com seu populismo atrasado. Na radicalizada eleição de 1989, venceu Collor, o caçador de marajás, cassado quando sua popularidade ruiu. Itamar fez um governo de transição. FHC assumiu com ares de príncipe, fez algumas reformas estruturais importantes, mas a âncora cambial do primeiro mandato acabou definindo o segundo. As privatizações deram-lhe a pecha de neoliberal, que me parece injusta. O certo é que o PT representava o primeiro governo realmente de esquerda no período que se seguiu à ditadura.

Os intelectuais, a maioria de esquerda, deixaram de ter relevância no debate que se estabeleceu a partir de então. Seja por tática, para evitar a volta da direita, seja por dificuldade de lidar com a realidade, visto que o discurso pragmático, da “Realpolitik”, parecia ter se imposto. Essa circunstância local nos impediu de perceber que a perda de relevância dos intelectuais era fenômeno global e não resultava apenas desse alinhamento ideológico.

Nunca é demais lembrar que alguns dos melhores filósofos do século XX cometeram erros brutais de análise da realidade. Heidegger apoiou o Nazismo, ou pelo menos demonstrou simpatia pelo regime. Sartre apoiou Stalin, mesmo depois dos processos forjados, e apoiou Mao, em plena “revolução cultural”.

Desde Kant os pensadores universais foram se escasseando. Raros foram os pensamentos e as ideias realmente globais. Essa ausência de absolutos foi prevista por Nietzsche; mas a consequência disso não. Se não se podia recorrer a princípios generalizantes, será que nosso tempo ainda poderia dar relevância aos intelectuais?

Em 1953, Albert Camus revelou esse desconforto. E lançou aos existencialistas a questão: mas será que estávamos certos quando deixamos de buscar conceitos absolutos do bem e do mal? Será que não deveríamos voltar a isso? Sartre desdenhou dessa tentativa, com razão, pois a filosofia não cabia mais em princípios absolutos. Mas a preocupação com o bem deveria habitar a cabeça de cada pensador do mundo, ainda que se tivesse por certo que a tarefa era irrealizável. Camus não era filósofo, não tinha a bagagem de Sartre, mas ainda assim quase sempre esteve mais próximo da verdade do que ele. De todo modo, com o fim da metafísica, com o fim dos absolutos, a verdade se esvaneceu.

A perda da relevância dos intelectuais aliado às modernas possibilidades de comunicação, em que a opinião de especialistas pouco de distingue da voz dos imbecis de Umberto Eco, produziram um mundo muito mais aberto, mas mais perigoso. Temos mais acesso às verdades, mas nos é mais difícil distingui-las. Lembro que os gregos tinham desprezo acintoso pela opinião (doxa), pois ela nos afastava da verdade (aletheia). Ainda que até o conceito de verdade seja objeto de relativização, o preconceito dos gregos revela-se, ainda hoje, muito atual.

Nesse cenário, nossa capacidade de julgar se torna ainda mais relevante e deve ser treinada e exercida diariamente. Para os juristas, julgar é um ato de vontade. Para Kant, é algo inato do ser humano e, muitas vezes, depende muito pouco do raciocínio (tanto que chamou sua crítica ao juízo de crítica ao gosto, se referindo mesmo ao paladar). Em um mundo relativo, essa habilidade deve ser desenvolvida. Pois é a partir do julgamento que são feitas as escolhas importantes de nossa vida: quem são nossos amigos, quais serão nossas condutas, o que deve ser lido, isso tudo deve decorrer sim de escolhas que fazemos a partir de nossos julgamentos.

Os intelectuais não estão em silêncio. É sua importância que foi reduzida. Cabe a cada um de nós desenvolver o senso crítico, desenvolver a capacidade de duvidar e de julgar, para selecionarmos o que vale a pena continuar lendo nessa selva de opiniões em que vivemos. Deixar as redes sociais não é opção. Mas fazer uma boa seleção do que será lido torna-se fundamental. Pois dificilmente teremos um mentor ou um guia que represente exatamente o que pensamos. A perda de relevância dos intelectuais nos coloca a missão ser sermos autônomos e pensarmos por nós mesmos, como ensinava Kant. Nem todos querem esse trabalho, mas os que se dispensam dessa tarefa podem acabar fazendo parte de uma legião de imbecis.

Gustavo Theodoro