Mês: junho 2015

Nós Que Amávamos Tanto a Revolução

revolução 1968

O ano de 2013 nos mostrou algo não há bastante tempo não víamos: um grande agrupamento de pessoas reunidas nas ruas, com faixas e slogans, protestando e reivindicando. A falta de liderança e de uma pauta clara, aliada à atuação de grupos violentos, fizeram minguar as manifestações sem que nada palpável fosse produzido. Mas a história nunca é exatamente como parece.

Desde a Revolução Francesa, o mundo ocidental sonha, de temos em tempos, com revoluções. Foi Marx que criou uma teleologia para as revoluções a partir de suas leituras de Hegel: cabia às revoluções fazer a história cumprir o seu destino. As revoluções eram a locomotiva da história. Para ele, o fim da história significava o comunismo. E a revolução de 1848, muito bem descrita por Vitor Hugo, o tirou de sua calma espera, fazendo-o torcer para que a história pudesse ser “acelerada”.

Foi a partir desse insight que Lênin passou a empregar a teoria revolucionária com esse sentido. É uma leitura evidentemente equivocada de Hegel, mas até faz algum sentido: ora, se a história segue uma trajetória e tem uma direção, por que não apressá-la?

Apesar de a lembrança de revoluções sempre nos fazer ecoar as Revoluções Francesa e Russa, raras são as revoluções bem-sucedidas. Bem, não se pode afirmar com certeza que as duas revoluções citadas foram exatamente bem-sucedidas, a não ser por terem conseguido derrubar o poder vigente. Sua consequência é que não teria sido bem-sucedida. De todo modo, elas são exceções, como provam diversos eventos históricos, como a revolução de 1848 em Paris, a Primavera de Praga, de 1968, os Protestos na Praça da Paz Celestial, em 1989, e mesmo aquelas tidas por vitoriosas, como as manifestações promovidas pelo movimento Solidariedade, na Polônia.

Hoje sabemos que o comunismo ruiu em 1989 e com ele caíram quase todos os regimes ditatoriais da cortina de ferro. Mas nos anos 1980 eram poucos os analistas que apostavam na derrocada no regime. Em 1981, dez milhões de pessoas tomaram as ruas da Polônia. Parecia a todos um movimento vencedor, uma revolução daquelas que jovens de todo o mundo almejavam na segunda metade do século XX. No entanto, apesar da maciça adesão, da liderança reconhecida, do apoio internacional e de terem uma causa bem definida, em 1982 o movimento seguia na clandestinidade, com seus líderes presos.

Por vezes, um movimento derrotado pode ser mais eficaz do que uma desorganizada vitória. As raízes que isso provoca na sociedade, a reviravolta definitiva na opinião pública, a consciência generalizada de que o rei está nu, tudo isso às vezes se torna mais evidente com o passar do tempo. Prefiro distinguir os termos poder, força, autoridade, que muitas vezes são utilizados de forma indistinta. De todo modo, nem todos os fazem e vou deixar isso de lado no momento. Foi Václav Havel, líder Tcheco, a destacar “o poder dos que não têm poder”, que se trata de incitar as pessoas a viver “como se tivessem liberdade” e “como se pudessem ter uma vida normal”. É o Guörgy Konrad chamou de “antipolítica”, uma qualificação bastante singular.

Pois é evidente que qualquer desses movimentos é, essencialmente, político. Se há poder envolvido – e aqui denomino poder a capacidade de agregar pessoas em torno de uma ideia, e não o exercício de um cargo -, é de política que estamos tratando.

Tempos modernos potencializaram apenas a velocidade dos acontecimentos, na medida em que são capazes de fazer as informações circularem com mais rapidez. Além disso, as redes sociais permitiram a criação de novos espaços públicos, envolvendo pessoas que antes jamais se comunicariam. A criação de espaço público, com liberdade de expressão, evidentemente aumenta o poder dos quem não têm poder. E talvez seja este fato que esteja escapando a muitas autoridades constituídas.

Tanto aperto foi imposto à Grécia que sua população acabou elegendo pessoas de fora da política convencional com o objetivo de romper com a troika. Tanta ênfase foi dada ao ajuste fiscal que o velho bipartidarismo espanhol ruiu, a partir do movimento de rua dos Indignados, que foi base da formação do novo partido político Podemos. Diante da nova realidade, as velhas autoridades aplicam maior dose dos velhos métodos, que já não estavam funcionando, agravando as crises.

Estamos todos aprendendo a viver nesses novos tempos. Aqui no Brasil há sinais de que movimentos semelhantes podem ser desencadeados. Faltam ainda liderança e uma pauta bem definida. Mas é um erro pensar que os movimentos derrotados ou que não geraram frutos visíveis foram ultrapassados como se não tivessem acontecido. O melhor exemplo disso talvez seja mesmo a Polônia, de Walesa, cujo movimento foi derrotado inicialmente, mas a semente plantada ganhou forças. Aos que tiveram a vitória parcial, não nos custa lembrar o velho adágio latino que diz que aqueles que não aprendem as lições da história estão condenados a repeti-la.

Gustavo Theodoro

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Colaboracionismo

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“Submissão” é um dos livros mais badalados do ano. Escrito pelo polêmico romancista Michel Houellebecq, o livro retrata uma distopia futurista – mas nem tanto, pois os fatos se passariam em 2017 – em que uma “fraternidade muçulmana” venceria apertada eleição e iniciaria um processo de conversão da França ao Islã.

Ainda que eu considere a transição muito rápida e inverossímil, o livro provoca um grande mal-estar ao nos revelar a fragilidade de nossos sistemas democráticos e mesmo de nossa civilização, particularmente com o atual estado de espírito dominante no mundo ocidental.

Habita pouca fé no homem contemporâneo. A escola da dúvida fundada por Descartes levou o homem em buscar substitutos para a “decadente” religião. A ciência, o progresso, a liberdade e alguns outros conceitos abstratos ocuparam esse vazio. Mas foi o marxismo que parecia mais bem equipado para servir como alternativa para eterna sede da humanidade por “algo mais”.

Pois o marxismo vê o mundo capitalista como um período de sofrimentos que culminará em um regime solidário, igualitário, sem chefes nem patrões e sem exploração do homem pelo homem. Muitas religiões adotam o mesmo ponto de vista, buscando dar conforto aos que sofrem no presente com a promessa de uma compensação futura.

Com a derrocada do marxismo, do leninismo, do trotskismo e, mais recentemente, do brizolismo, do malufismo e do petismo, adentramos em uma época de profundo niilismo, em que só o consumismo, o egoísmo e o hedonismo parecem prevalecer.

Enquanto o marxismo e as demais ideologias até conseguiam se portar como substitutos à altura da religião, a mais recente família de “ismos” só trouxe à humanidade mais insatisfação e infelicidade. A satisfação da compra não dura uma hora. A beleza ou a saúde são sempre frágeis, precárias, e tendem a se degradar com o tempo. Não há perspectivas de se ter “uma boa vida” com esses valores.

Para os marxistas, o homem contemporâneo não tem alma. É o típico apolíneo, despido da coragem essencial. Foi Slavoj Zizek quem recentemente reproduziu passagem de Nietzsche para descrever o homem que vive em uma sociedade liberal ocidental. Segue abaixo:

Tendes coragem, ó meus irmãos? Sois ousados? Não a coragem que se tem diante de testemunhas, mas a coragem do solitário e da águia, de quem nenhum deus já é o espectador. As almas frias, as mulas, os cegos, os homens embriagados, não têm o que eu chamo de coração. Tem coração aquele que conhece o medo, mas o domina, aquele que vê o abismo, mas altivamente. Aquele que vê o abismo, mas com olhos de águia – aquele que agarra o abismo com garras de águia: esse é o corajoso.

Os marxistas estão em baixa. Mas seguem se interessando pelos melhores autores. De alguma forma, esse homem niilista e hedonista, fraco e apolíneo, parece, em contrapartida, mais domesticável, estando, portanto, mais disposto a cometer o mal banal de que tanto tratou Hannah Arendt. É nesse sentido que o livro de Houellebecq parece mais realista. Pois não é a submissão o traço mais dominante da sociedade ocidental, mas sim o colaboracionismo. Nesse sentido, há requintes de crueldade no tratamento do autor à situação atual da França, pois a experiência do século passado fez com que aquele país tentasse, a todo momento, reescrever seu passado.

Ao invés de retratar a hegemônica colaboração dos franceses com os Nazistas, foram as histórias da minguada resistência francesa que até hoje prevaleceram. A distopia de Houellebecq parece indicar que estamos tão ou mais suscetíveis ao mal banal do que já estivemos no passado. Não que a Irmandade Muçulmana represente, de alguma forma, o mal. Mas o retorno a um estado religioso, com renúncia a nossas liberdades essenciais, de alguma forma abre as possibilidades de retorno a qualquer cenário pior do que o atual. Pois esse homem contemporâneo, hedonista e consumista, parece revelar características pusilânimes em grau superior aos antigos. E o editorial de ontem da Folha de São Paulo viu semelhanças entre o fenômeno contemporâneo brasileiro, com uma aparente volta de teses conservadoras de raiz fundamentalista, e a distopia apresentada pelo livro de Houellebecq.

É certo que generalizações tendem a ser repletas de imprecisões. Para muitos, falar em “homem moderno” não passa de rematada bobagem. Além disso, há autores, como Steve Pinker, que demonstram com riqueza de dados que a maldade, os assassinatos e os crimes parecem estar diminuindo com o passar do tempo em todo o mundo. Sem a presença marcante do mal absoluto, será que podemos falar de uma tendência de aumento do colaboracionismo, do mal banal e da submissão? Não sei. Parecemos estar no meio de uma caminhada e o horizonte ainda está indistinguível. O que nos resta é refletir enquanto estamos vivendo. E reconhecer que O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ainda é a distopia que mais bem conseguiu antever o futuro da humanidade.

Gustavo Theodoro

O Triste Fim dos Corruptos

Serpico

Dias após proferir entusiasmado e destemido discurso após sua eleição, Joseph Blatter decidiu renunciar à Presidente da FIFA após a sinalização dos órgãos de repressão americanos de que ele seria o próximo a ser preso. Interessantes tempos esses em que vivemos.

Há cerca de dois anos vimos, aqui mesmo no Brasil, uma banqueira ir para a cadeia. Kátia Rabello, presidente e acionista majoritária do Banco Rural, foi presa. No ano passado, presidentes e diretores de algumas das maiores empreiteiras do Brasil foram presos. Diretores da maior empresa estatal do País foram também encarcerados e revelaram a abrangência do esquema. É muita sinalização positiva para ser simplesmente descartada. São prisões simbólicas, emblemáticas, que criam cultura.

No campo das leis, o País segue evoluindo muito. Jogar luz sobre aquilo que se pretende esconder pode ajudar no combate à corrupção, mas também evitar o nascimento de novos casos. Nesse sentido, a edição da Lei de Acesso à Informação é das mais importantes conquistas de nossa sociedade. É digno de nota, ainda, a Lei Anti-Corrupção, já aprovada, mas ainda não regulamentada pela União. Ainda assim, a lei já tem sido aplicada no âmbito penal.

A Lei de Improbidade Administrativa, um pouco mais antiga (1992) ajuda os órgãos de repressão a combater o enriquecimento sem causa, tantas vezes observado entre servidores públicos detentores de autoridade administrativa ou poder de polícia. Aliás, nessa área é que se deu a maior evolução.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 tornaram visível ao mundo a importância de se controlar recursos decorrentes da prática de crime. As leis que tratam de lavagem de dinheiro endureceram em todo o mundo, criando um problema adicional aos criminosos do colarinho branco. No Brasil não foi diferente, sendo nossa lei vigente bastante adequada.

Seja qual for a atividade criminosa, todo bandido se vê diante da necessidade, em algum momento da vida, de regularizar os recursos roubados. Pois de nada adianta roubar tanto dinheiro se não é possível incorporá-lo ao patrimônio ou deixá-lo para os herdeiros. Há um momento em que isso se faz necessário. Gastar em viagens, hotéis de luxo, aluguel de iates, prostíbulos, amantes e restaurantes caros, tudo isso começa a não bastar. Tampouco guardar o produto do roubo em distantes e quase inacessíveis paraísos fiscais se revela desejável.

Além disso, guardar numerário fora do país pode colocar o fora-da-lei na mira do FBI e do aparelho repressivo internacional. O sujeito pode ser preso em país estrangeiro e acabar seus dias em um presídio americano.

As velhas práticas de simular a compra de imóvel por valor inferior para depois revendê-lo pelo preço de mercado já foram descobertas pelos órgãos de repressão. Há muitos documentos envolvidos e o próprio pagamento de imóvel em numerário já é indício de recurso proveniente de crime, assim como o subfaturamento. Não é tarefa difícil descobrir o valor de mercado de bens imóveis.

Corridas de cavalo, loterias, as próprias atividades de prestação de serviços muito utilizadas no passado (como as lavanderias, por exemplo), compra e venda de gado e agora até a compra e venda de jogadores de futebol, tudo isso desperta o interesse dos órgãos de repressão e essas atividades começam, com o tempo, a ser abandonadas pelos meliantes.

Há, ainda, muito o que se fazer. Mas é inegável que estamos testemunhando tempos difíceis para os corruptos e criminosos de colarinho branco em geral. Lavar dinheiro é cada dia mais difícil. Nesse contexto, é interessante relembrar um antigo caso envolvendo a NYPD.

A história de Francesco Vincent Sérpico foi retratada no belo filme de Lumet, estrelado por Al Pacino. Sérpico era policial na corrupta cidade de Nova York dos anos 1960 e 1970. Em 1971, em uma ação de combate ao tráfico de drogas, Sérpico foi abandonado por seus colegas policiais corruptos para morrer na troca de tiros com os traficantes. Baleado, sem receber ajuda de seus colegas de farda, foi salvo por um civil, um cidadão comum, que chamou a ambulância e salvou-lhe a vida.

Hospitalizado, recebeu diversas sinalizações de seus colegas de que ele seria recompensado financeiramente caso decidisse não prestar testemunha sobre o caso. Além dessas ofertas, foram-lhe feitas algumas ameaças veladas. Sérpico testemunhou, conseguiu a prisão de diversos colegas de farda corruptos, tendo sido, ao final, condecorado pela polícia de Nova York. Sua história foi contada pelo New York Times. Foi durante esse processo que ele proferiu sua famosa frase: “É o corrupto que deve ter medo do honesto, e não o honesto quem deve ter medo do ladrão.”

Gustavo Theodoro