Mês: abril 2017

Esquerda em Crise

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As eleições da França confirmaram a tendência atual de redução do eleitorado do que se conhece por esquerda. Por mais fluido e indecifrável que o termo “esquerda” possa parecer, é certo que os partidos que assim se intitulam têm visto seu eleitorado minguar, enquanto uma direita que andava adormecida na segunda metade do século XX voltou a ganhar terreno. Não há analista que não se sinta tentado a abordar esse fenômeno, com vistas a compreender o que deu errado, se é que ser minoritário seja sintoma de algum problema.

O Partido Socialista teve um importante papel histórico na França da primeira metade do século passado, apesar de ter assumido só brevemente o governo daquele país. Sob a liderança de Leon Blum, o partido ganhou respeitabilidade ao evitar que fosse transformado em aparelho do partido comunista soviético, mantendo o foco no socialismo utópico. O partido socialista do período das guerras mundiais, apesar de minoritário, angariou o respeito inclusive de seus adversários. O que deu errado desde então? Por que hoje, além de diminuto – com inéditos 6% do eleitorado -, perdeu o respeito da população?

Ao que parece, o campo da esquerda nunca chegou de fato a ser majoritário. Mitterrand, apesar de ter sido eleito pelo partido socialista, foi antes um social-democrata, senão um centrista, assim como o favorito das atuais eleições, Emmanuel Macron. Hollande em sua campanha disse:

“Meu adversário de verdade não tem nome, nem rosto, nem partido, nem será candidato. Mas é quem governa. É o mundo das finanças, que tomou o controle da economia, da sociedade e de nossas vidas”.

É notável a diferença entre discurso e prática. No ano passado o governo se afundou nas discussões das reformas trabalhista e previdenciária, assumindo uma posição claramente pró-mercado. A promessa era a de que com as reformas o desemprego iria diminuir, o que não ocorreu. Não havia como o partido socialista sobreviver, no curto prazo, a Hollande.

O caso francês guarda muitas semelhanças com o brasileiro. Talvez a diferença esteja na quantidade de concessões que os simpatizantes da esquerda brasileira estão dispostos a fazer para manter o apoio a seu grupo. Para os franceses, parece que a paciência se esgotou.

Em 2002, para vencer as eleições, Lula precisou escrever a Carta ao Povo Brasileiro – que Emílio Odebrecht agora diz que foi por sua inspiração -, rasgando compromissos históricos da esquerda, como a auditoria da dívida pública, a democratização dos meios de comunicação, o fim do imposto sindical, a reforma agrária, a adoção de impostos progressivos e sobre grandes fortunas, dentre outros. Os governos petistas fizeram três reformas da previdência, pondo fim à paridade e à integralidade da aposentadoria dos novos servidores públicos. Em 2012, foi aprovada nova reforma, dessa vez igualando a aposentadoria dos novos servidores aos da iniciativa privada.

O partido que levantava a bandeira da ética era – desde o início, agora sabemos – aliado das maiores empreiteiras do país. Tudo indica que os bancos e as demais grandes empresas do Brasil eram também “parceiros”, sendo que o apoio se dava por meio de trocas de benefícios ou obras para contribuições em regime de caixa 2, ou seja: era propina mesmo.

Até 2008, Lula manteve disciplina fiscal superior a de FHC, que teria adotado ideias neoliberais em seu governo. Se não tivesse sido apeada do governo, Dilma  encaminharia nova reforma da previdência, exigência dos mercados para a volta da “confiança na economia”. Não há indícios de que a esquerda brasileira tenha se afastado dos líderes que traíram seus ideais.

O socialismo francês também exibe esse histórico. O apoio da esquerda francesa ao stalinismo sobreviveu aos julgamentos forjados de Moscou e à Primavera de Praga, quando mesmo o mais desavisado dos mortais já tinha tomado consciência da natureza do regime soviético. Porém o sofrimento e os desajustes momentâneos não poderiam colocar em cheque o sentido da história, cujo destino já estava escrito e significava a crise final do capitalismo, com o comunismo se espalhando pelo mundo, destruindo nações e fazendo emergir uma comunidade de operários.

Em 1955, Raymond Aron escreveu sobre a esquerda francesa:

“O fim sublime desculpa meios horríveis. Moralista contra o presente, o revolucionário é cínico na ação e se indigna contra as brutalidades policiais, as cadências inumanas de produção, a severidade dos tribunais burgueses, a execução de acusado cuja culpa não foi demonstrada a ponto de eliminar todas as dúvidas. Nada, além de ‘humanização’ total, pode acalmar a sede de justiça. Mas, quando esse mesmo revolucionário decide aderir a um partido tão implacável quanto ele contra a desordem estabelecida, eis que, em nome da revolução, tudo o que até então era incansavelmente denunciado é perdoado”.

No dizer de Aron, os defensores do comunismo daqueles tempos não eram partidários ou simpatizantes, mas sim fanáticos, dispostos a tudo superar para manter suas crenças e seus ídolos. Impossível não relacionar tal descrição ao momento em que vive o Brasil. Se na França esses mitos finalmente parecem ter sido superados, aqui ainda são fortes as teses que desculpam roubos de estatais, corrupção generalizada, lucros estratosféricos dos bancos, reformas alinhadas com o mercado, favorecimento de empreiteiras – tudo em nome de um “bem superior”: o combate aos fascistas, ou pior, aos neoliberais.

A França avançou por um lado, mas corre riscos por outro. As extremas direita e esquerda conseguiram cerca de 40% dos votos. Apesar da aversão de seus apoiadores entre si, Le Pen (extrema direita) e Mélecron (extrema esquerda) compartilhavam muitas de suas pautas: ambos se referem a um passado idealizado, defendem o protecionismo, a redução na participação dos organismos multilaterais, a reaproximação com a Rússia, a renegociação da participação francesa na União Europeia, a redução na idade média de aposentadoria e a ampliação da seguridade social. Olhando por esse prisma, dá a impressão de que, se Le Pen se anunciasse de esquerda, receberia os votos de Mélecron. Não se desconsidera que Le Pen seja xenófoba e que há diversos traços de fascismo em seu discurso, mas que as semelhanças são surpreendentes, não há como negar.

O que salta aos olhos nisso tudo é que as posições extremistas estejam ganhando corpo. A Venezuela parece próxima de uma guerra civil. Os EUA são um país dividido pelo muro da incompreensão. O Brexit revelou que o sentimento internacionalista, que parecia superar o nacionalismo, refluiu.

No Brasil seguimos muito longe de um entendimento, pois pessoas de bem se dividem, acirram suas posições, defendendo bandeiras vermelhas ou amarelas. Enquanto isso a elite política e econômica quer continuar dando as cartas, pois, ao final, sua capacidade de composição é maior do que a do povo. Talvez não tenhamos aprendido que, apesar de as filosofias não se conciliarem, os interesses podem se combinar.

Nesse mundo, sinto-me como Pessoa, “estrangeiro aqui como em toda a parte”, mas sigo acreditando que o debate aberto de ideias possa aproximar, tanto aqui como na França, campos aparentemente antagônicos, na busca de uma sociedade mais pacífica, menos desigual, com capacidade de produzir riqueza e segurança aos cidadãos. E aí, vamos debater?

Gustavo Theodoro

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Golpe ou Revolução

Jango

Ano passado, depois do impeachment de Dilma, uma minoria ruidosa começou a denominar “golpe” o seu afastamento. Segundo esse grupo, teria havido quebra do regime constitucional por, supostamente, não ter ocorrido crime de responsabilidade. Eu já escrevi alguns posts defendendo a constitucionalidade do afastamento, mas o tema sobre o qual me debruço hoje é outro: sendo o afastamento inconstitucional, estaríamos diante de um golpe ou uma revolução?

Essa discussão é mais antiga do que parece. Como as Revoluções Francesa e Russa compuseram parte do ideário da esquerda do século passado, a palavra revolução era reservada, preferencialmente, para fatos históricos ligados à esquerda.

Revolução, excetuando sua utilização fora do contexto inicial, como no emprego em Revolução Industrial, em regra implica a substituição de um poder por outro, de forma brusca, com utilização de violência, que provoque a chegada de outra classe dirigente ao poder.

Já o golpe implica a outorga de constituição ilegal pelo detentor do poder (como a de Napoleão III em 1851 ou das constituições de 1967 e 1969 no Brasil) ou a tomada violenta do Estado por um pequeno grupo de homens, sem que esse assalto provoque a chegada de outra classe dirigente, vinculada a outro regime.

Sob essa ótica, a ascensão do nacional-socialismo de Hitler, por exemplo, apesar de não apresentar violência na tomada no poder, seria mais bem descrita como revolução, já que houve alteração da classe dirigente, dos valores de Governo, acompanhada de uso desenfreado da violência contra adversários e grupos minoritários.

Por conta do grande prestígio do termo revolução, a esquerda francesa recusava-se a utilizar esse termo para o movimento nacional-socialista de 1933 ou para a tomada do poder pelo General Franco, na Espanha, apesar de estarem presentes boa parte dos requisitos para tanto. Esse tema era um dos preferidos da intelectualidade da década de 1950 na França, predominantemente de esquerda, que gastava páginas e páginas para refutar a possibilidade de o termo “revolução” ser atribuído a qualquer tipo de movimento ligado à direita.

O mesmo se deu aqui no Brasil com o movimento de 1964. Inicialmente, os militares propagaram a palavra revolução, que sempre teve um prestígio, a meu ver, demasiado, como se representasse uma ruptura aceleradora de nosso destino (uma concepção claramente marxista). A esquerda venceu essa guerra cultural e quase todos se reportam à tomada de poder pelos militares como golpe, por mais não haja plena aderência ao conceito em que usualmente é empregado.

O Governo Jango era decididamente afinado com a esquerda mundial e a situação interna indicava o início de ruptura da ordem estabelecida, principalmente depois de seu discurso aos sargentos, em 30 de março de 1964. O Governo foi tomado pela força (ainda que quase não tenha sido necessária sua utilização) com a clara substituição da classe dirigente. Ou seja, de fato, o movimento de 1964 está muito mais próximo do conceito de revolução do que de golpe, por mais que ainda hoje seja sofrido fazer esse tipo de uso para o termo “revolução”.

Eu sei que o uso do termo golpe para o impeachment de Dilma é muito mais político do que resultado de reflexões ontológicas sobre o emprego das palavras. Por mais que os conceitos não sejam tão diferentes, golpe, no ideário popular, remete ao fascismo, às injustiças e à tortura, enquanto a revolução prenunciaria um novo amanhã.

É evidente que colar o termo golpe ao impeachment constitucional surte o efeito desejado, deslegitimando o processo e dando vida política aos que foram afastados. Os efeitos disso só o tempo dirá. O que podemos ter por certo é que, como a violência não foi empregada, nenhum dos dois termos, golpe ou revolução, é corretamente aplicado no caso do afastamento de Dilma, ainda que tivesse havido algum tipo de quebra na ordem constitucional. Por mais alto que gritem, por mais barulho que façam, não foi golpe.

Gustavo Theodoro

Esquerda e Direita

Camus e Sartre

Em 1955 Raymond Aron se perguntou se os termos esquerda e direita ainda têm algum significado. As classificações, ainda segundo esse pensador francês, dificilmente podem ser identificadas como certas e erradas, sendo mais apropriado julgá-las por suas utilidades.

Essa divisão, que tem origem no funcionamento das câmaras francesas, cujos partidos de oposição ocupavam os assentos à esquerda do presidente. O objetivo da esquerda de então era combater o Antigo Regime, aristocrático, invasivo, em que a burocracia invadia as vidas das pessoas e decidia seu futuro.

Os partidos de esquerda de 1789 queriam menos estado, menos regulação e mais liberdade. Só no século XIX e, principalmente, no início do século XX, o bloco que chamamos de esquerda passou a defender outros ideais, como o socialismo e a planificação da economia, mesmo com sacrifício da liberdade. Não foram poucos os que identificaram essa guinada, mas a intelectualidade que importava até recentemente deveria exibir o pedigree de esquerda para ser relevante e sempre evitou se aproximar desses assuntos devido ao risco de banimento.

O próprio Raymond Aron, contemporâneo de Sartre e Camus, um dos maiores pensadores do século passado, nunca foi levado muito a sério pela opinião pública por não ser de esquerda. Camus era de esquerda, mas bastou tomar a posição de se afastar da defesa do comunismo soviético para ter sua obra atacada pelos intelectuais, dentre os quais seus amigos, Sartre e Simone de Beauvoir.

Essa predominância cultural da esquerda limitou o debate e restringiu inclusive autocríticas que poderiam significar correção de rumos. A crítica de Camus, por exemplo, que veio de dentro do movimento, poderia abrir os olhos da esquerda para o totalitarismo do regime soviético, evitando vexames como o de Sartre, que continuou defendendo o comunismo mesmo após a Primavera de Praga.

Trotsky, transformado em inimigo por Stálin, teve suas obras proibidas pelos editores, quase todos de esquerda, foi impedido de participar das reuniões da internacional socialista e teve imensa dificuldade até mesmo para conseguir asilo em algum país. Quase nenhum intelectual importante saiu em sua defesa.

Na década de 1960 a esquerda foi novamente redefinida. Além da defesa da socialismo, causas de cunho cultural e social começaram a integrar a agenda da esquerda mundial. A liberdade dos costumes era estranhamente antagônica aos regimes que realmente haviam implantado os regimes comunistas, mas esse tipo de crítica muito raramente era formulado. A revisão seguiu até 1989, quando a queda do Muro de Berlim levou ao fim do socialismo como alternativa viável de sociedade.

Foi então que o estado previdenciário, o modelo nórdico de capitalismo, entrou definitivamente no radar da esquerda, na contramão do movimento original dos partidos de 1789, que lutavam por um estado menor, e mesmo de Marx, que não acreditava no estado como regulador. O antinacionalismo, causa tradicional da esquerda, foi abandonada a ponto de seu oposto ser abraçado, ou seja, a esquerda passou a ser nacionalista. Apesar dessas constantes mudanças de posição e dos incríveis erros históricos cometidos pelo movimento, ser de esquerda continuou, de alguma forma, fornecendo aos que assim se classificam um espécie de superioridade moral, como se só quem se entitula de esquerda pudesse se preocupar com as pessoas, ter empatia, bondade e visão social.

A direita, vista da esquerda, quando não é retratada como fascista, raramente vai além dos atributos “conservador” e “aristocrático”, pelo menos historicamente. É certo que o movimento conservador sempre foi identificado como de direita, até pela defesa original do Antigo Regime (pré-1789 na França) e pelas características de seus pensadores clássicos, como Burke e Tocqueville. Nenhum deles defendia a democracia nem as revoluções, e tinham de fato bons argumentos para isso. Burke anteviu parte dos resultados da Revolução Francesa assim como Tocqueville previu o desleixo da sociedade civil para com a coisa pública nos regimes democráticos.

É fato, no entanto, que direita tanto pode representar o seu extremos, que seria o fascismo (ainda que para muitos o fascismo apresente grande similaridade com a extrema esquerda), como o conservadorismo, o reformismo e o liberalismo econômico. Ou seja, dessa ótica há espaço nesses exemplos de direita para quase toda a sociedade. O fato de a esquerda ainda ser sexy, representar de alguma forma o “bem”, a “solidariedade com o próximo”, contra a elite, os capitalistas, os egoístas, insensíveis e ambiciosos, acaba por limitar importantes debates, pois ainda hoje a esquerda tem certa hegemonia na intelectualidade (ainda que esteja ela meio desacreditada) e no campo cultural.

Ainda hoje, aqui no Brasil, se alguém se atreve a dizer que julgou correto o impedimento da Presidente Dilma dificilmente escapará da alcunha de golpista. Caso venha a ponderar que os direitos trabalhistas acabam por não defender a maioria da população, será acusado de estar ao lado da elite empresarial. A eventual defesa de alguma reforma no sistema de aposentadorias e pensões pode levar a acusações de ligações com o sistema financeiro.

Penso que a redução do uso desses termos, esquerda e direita, – tese também defendida por Raymond Aron – de significados tão fluidos e pouco úteis atualmente, poderia livrar as pessoas dessas amarras e afetos a que se sentem presos, podendo, assim, analisar cada causa com maior distanciamento emocional, evitando-se irremediáveis erros de julgamento e permitindo que o debate de ideias não fosse tão manietado por censuras e autocensuras.

Gustavo Theodoro