Eu Julgo Todo Mundo

Por razões que desconheço, as pessoas dizem orgulhosamente que não julgam ninguém. Para tanto, são invocados preceitos bíblicos, como o texto contido no Evangelho Segundo Mateus: Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós. Talvez seja o temor de ser julgado que motive essa abstenção declarada em utilizar nossa capacidade de julgar.

Bom, eu julgo todas as situações e todo mundo. O tempo todo. Pode parecer assustador declarar isso assim, mas saiba, caro amigo, que você também pratica a mesma atividade. Já escrevi aqui que pensar e julgar se relacionam, mas estão longe de se assemelhar.

Kant, em sua bela Crítica ao Juízo, chamou sua obra de Crítica ao Gosto, visto que, na sua visão, o paladar era o sentido que despertava a atividade de julgamento desvinculada do pensamento. Ou seja, pelo gosto, podemos perceber que o julgar tem alguns aspectos que se distanciam bastante do pensar, sendo inclusive desnecessária essa habilidade, pois mesmo seres irracionais são capazes de escolher o que comer pelo paladar.

Julgar é atividade praticada por todo ser moral. Julgar os outros é, também, julgar a si próprio. É pelo exame de ações de outras pessoas que usualmente estabelecemos parâmetros para como se deve viver a vida e, mais precisamente, como nós devemos viver a vida.

Julgar significa diferenciar o bom do ruim, o bem do mal, o belo do feio. É certo que Horácio dizia que pulchum este paucorum hominum (o belo é para poucos). Pois eu complemento que é para aqueles que praticam a arte de julgar. Pois é a prática que nos torna melhores em estabelecer esses parâmetros, em definir nosso modo de vida.

Pensar não é atividade política, não precisamos do outro para pensar, ao contrário do que ocorre com a atividade de julgar, que exige um interlocutor, exige a presença de um outro, ainda que não presente naquele exato momento.

À medida que evoluímos na discussão do julgar, percebemos que algumas atividades exigem maior sensibilidade, outras maior capacidade de processar o pensamento. Como Kant descobriu, o julgar envolve, também, a imaginação; a capacidade de, pelo pensamento, imaginar possibilidades e buscar caminhos, pelo intelecto, para a mais justa avaliação. Pensar ampliado foi a expressão utilizada por Kant para descrever essa atividade de vasculhar, dentro de si próprio, as possibilidades que uma situação possa envolver, para poder melhor julgar.

John Rawls escreveu recentemente que, para o bom exercício da atividade de julgar, seria necessário observar cada situação sob o véu da ignorância. Aqui o que está em jogo é a atribuição de regras para sociedade. O conselho é ao legislador ou àquele que vá participar da vida social, buscando estabelecer regras para o cumprimento de todos. É nesse cenário que Rawls nos ensina a nos colocarmos como se não soubéssemos que situação nos encontramos na sociedade. Imagine-se negro, branco ou asiático diante da política de cotas. Imagine-se pobre, remediado ou rico na discussão do sistema público de saúde. Imagine-se com baixa inteligência ou um gênio em um mundo meritocrático. É esse exercício, que envolve a imaginação de Kant, que ele propõe. É uma situação que pode muito bem ser explicada pela frase: se você não soubesse de antemão seu lugar no mundo, como as leis deveriam ser escritas?

Resta evidente dessa discussão se julgamos tudo e todos o tempo todo, deveríamos fazê-lo, pois aprendemos muito com a prática do julgamento. Negar esse hábito e procurar evitar pensar sobre nossos julgamentos pode até ter o efeito de nos tornar mais preconceituosos, pois tenderemos ainda mais a repetir julgamentos automáticos, que estão muito próximos dos preconceitos. O desenvolvimento da atividade de julgar, a valorização dela em nossa vida, nos torna seres moralmente mais evoluídos.

Nietzsche era crítico do modo como a sociedade de sua época incorporara a cultura cristã, tolhendo o homem de suas potencialidades. Disse Nietzsche sobre o assunto que o que outrora seria o tempero da vida, agora seria o veneno. Essa sentença de Nietzsche se aplica muito bem à atividade de julgar, tão mal compreendida no mundo contemporâneo.

Gustavo Theodoro

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