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Inútil Pensar

O sucesso junto ao grande público de alguns “filósofos” brasileiros contemporâneos, como Leandro Karnal e Clóvis de Barros Filho, impressiona, pois não se pode dizer que a filosofia viva seu grande momento na história. Pelo contrário, parece que quem se dedica à filosofia na atualidade raramente consegue ir além da história da filosofia. Ou, como fazem os ilustres pensadores citados, produzem uma sopa de autoajuda regada a citações filosóficas, quase se aproximando de um “stand up comedy” erudito, com muitos aforismos e pouco conteúdo.

Robert Pirsig, autor do clássico “Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas”, sentia-se frustrado com o fato de a filosofia ter se transformado em uma espécie de história do pensamento. No entanto, quando se aventurou a tratar de um tema que lhe era caro, a Qualidade, acabou produzindo um livro superficial e sem consistência. A explicação para esse resultado não é trivial, mas se relaciona com sua recusa em se aprofundar no estudos dos filósofos mortos.

No princípio, a filosofia era altiva e pretensiosa. Os pré-socráticos se dedicavam a abstrações, ao Ser, aos questionamentos sobre o movimento e o caráter cíclico do mundo. Foi só a partir do período socrático que as perguntas clássicas da filosofia foram formuladas: O que posso fazer? O que devo fazer? O que posso esperar?

Platão erigiu a filosofia do diálogo, em que o conhecimento era produzido – ou quase sempre destruído – a partir de emparelhamento de pontos de vista. Como os diálogos de Sócrates eram quase sempre inconclusivos, para os observadores a filosofia não passava de atividade para desocupados. O constante repensar dos conceitos fez com que os cidadãos atenienses considerassem os filósofos “perigosos”, capazes de provocar desordem nas cabeças dos mais jovens.

Aristósteles foi mais ambicioso. Seus temas envolviam da ética à física. É daqueles filósofos de mão cheia, mas que teve parte de sua filosofia abandonada nos séculos recentes, pois o método científico ainda não havia amadurecido e suas reflexões sobre as ciências exatas eram, quase sempre, equivocadas.

Os epicuristas e estoicos se dedicaram a construir uma teoria do viver bem. Santo Agostinho colocou o amor no centro de suas reflexões, enquanto São Tomás de Aquino buscou unir razão à fé. Não é fácil fazer filosofia a partir da simples observação da natureza desprezando todo esse conteúdo disponível.

Kant criou uma vasta filosofia moral, que tirou Deus e a metafísica da equação para introduzi-los novamente, suave e disfarçadamente, pela porta dos fundos de seu edifício filosófico. Shoppenhauer percebeu essa fragilidade e buscou dar outra solução para o problema, mas a falta de exposição de suas ideias (ele vivia de rendas, pouco conviveu com outros pensadores e alunos) acabaram limitando sua obra. Hegel, seu contemporâneo (e por quem Shoppenhauer nutria indisfarçável inveja), construiu notável filosofia, que influenciou quase todos os importantes filósofos do século XX e ainda estabeleceu as bases conceituais utilizadas por Marx em seus escritos.

Nietzsche apoiou-se nas metáforas como modo de ir além de seus antecessores. O tradicional método analítico não lhe parecia bastar. Tampouco era apreciador da dialética, que mais se assemelhava a uma disputa. Chegou o momento em que os aforismos se apresentaram como uma forma eficaz de pensamento. Provavelmente Nietzsche mais destruiu do que construiu, mas é certamente o filósofo mais influente do século XIX.

Edmundo Husserl, no início do século XX, percebeu que a filosofia havia se afastado da vida cotidiana, da análise do ser e das coisas livres de conceitos. Criou um novo ramo do pensamento, a fenomenologia, que buscava voltar a olhar os objetos tal como eles se apresentam, dispensadas as classificações que previamente se estabelecem. A ideia era deixar de ver o filósofo como aquele pensador solitário, com a cabeça enfiada nos livros, gastando suas vidas escrevendo livros para pouquíssimos lerem. A fenomenologia teve o existencialismo como filho.

Heidegger devolvia a filosofia para o mundo, sendo considerado o pai do existencialismo alemão. A dificuldade de fazer filosofia do cume do conhecimento filosófico erguido por seus antecessores o levou a expandir a própria linguagem. É comum se dizer que só se faz filosofia em alemão. Heidegger é, em grande parte, responsável por isso. O alemão permite naturalmente a criação de novas palavras a partir da composição de substantivos. Heidegger abusou desse mecanismo, buscando principalmente evitar os reflexos condicionados que os antigos termos provocavam sobre os leitores habituais de filosofia.

O existencialismo francês era mais verborrágico e mundano. A ideia de poder filosofar sobre qualquer coisa, sobre uma bebida servida em um bar ou sobre um objeto deixado no chão, atraiu os pensadores do período entreguerras. A urgência do mundo parecia não mais comportar filósofos fechados em suas universidades discutindo temas sem impacto no mundo real. “A existência precede à essência”, era o lema dessa nova corrente de pensamento.

Infelizmente para a filosofia, a mais popular corrente filosófica do século XX não serviu a suas figuras mais destacadas. Heidegger foi promovido a reitor no primeiro ano do Nazismo e sua biografia ficou marcada para sempre por esse episódio. Sartre, que passou a defender o engajamento dos intelectuais, fez defesas injustificáveis de regimes totalitários. Quanto mais envelhecia, mais parecia perder sua capacidade de discernimento.

Dos pós-modernistas e os estruturalistas que os seguiram, não se encontram termos elogiosos a descrevê-los. O caminho aberto por Heidegger, de utilizar termos pouco claros que davam impressão de conter conceitos profundos, foi levado às últimas consequências por seus sucessores. O charlatanimo confundiu-se com pensamentos supostamente profundos. Não é difícil explicar o silêncio dos intelectuais na contemporaneidade. Em um mundo em que não se consegue distinguir uma pós-verdade de um fato, colocar-se nele significa, aparentemente, nivelar-se por ele.

Além disso, filósofos mostram-se capazes de erros de julgamento tão brutais como o cidadão comum. Vide o apoio de Platão ao despotismo, de Heidegger ao Nazismo e de Sartre a Stalin e Mao. Diante desse quadro, não chega a surpreender a vitória de Trump nos EUA ou de uma possível, mas não provável, vitória de Bolsonaro no Brasil. Se nem quem fez do ofício o pensar conseguiu tomar decisões sensatas, o que esperar da população em geral?

Nesse mundo fluido (líquido), há uma perplexidade da filosofia atual que envolve sua própria existência: ainda é possível fazer filosofia de fato nos dias atuais? Ou não passaria ela de um inútil pensar? Ou será que essa aparente inutilidade da filosofia não é mesmo seu elemento de reconhecimento? Merleau-Ponty dizia que “o filósofo é marcado pelo traço distintivo de possuir inseparavelmente o gosto pela evidência e o senso da ambiguidade”. E que é necessário um movimento constante entre eles, “que vai incessantemente do conhecimento à ignorância, da ignorância ao conhecimento”. O insight dele é o de que nunca passaremos da ignorância à certeza definitivamente, pois o fio do questionamento sempre nos levará de volta à ignorância. Nessa época de tantas certezas, não será essa a melhor defesa da filosofia?

Gustavo Theodoro

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As Bolhas da Internet e o Reflexo Condicionado

A internet criou bolhas, ambientes em que cada um só se relaciona com seus iguais. Os mecanismos das redes sociais acabam favorecendo esse comportamento de segregação, na medida em que “curtidas” levam aquele assunto a aparecer mais em sua “timeline”, ao mesmo tempo em que a opção de bloqueio dos diferentes está sempre disponível.

Petismo, MBL, feminismo, islamismo, globalismo, racismo, discriminação, qualquer acontecimento banal que possa ser enquadrado nesses arquétipos são amplamente discutidos, ainda que o fato em si seja absolutamente irrelevante. Vimos nas últimas semanas vários exemplos dessas discussões inúteis, como a decisão judicial que envolve regulamento do conselho de psicologia sobre atendimento de gays, a mostra que um banco resolveu encerrar precocemente, dentre outros que não me darei ao trabalho de enumerar.

O país vive uma grave crise econômica, o desemprego segue em níveis exorbitantes, o déficit público segue sem dar sinais de ser controlado, a dívida pública deve continuar crescendo nos próximos anos, a educação segue perdendo alunos e com qualidade reduzida e tomamos conhecimento de que a propagada redução da desigualdade da última década não passou de um engodo.

São assuntos aborrecidos, cujas soluções complexas exigem determinação e resiliência, mas que envolvem temas essenciais para o nosso futuro. Por que nos interessamos tanto pelos temas inúteis e banais que acirram nossas diferenças, ao invés de discutirmos aquilo que todos reconhecem ser importante?

Penso que nosso cérebro tem a tendência seguir trilhas conhecidas. Os arquétipos mentais tornam mais simples descrever um fato a partir de ideias pré-concebidas. Determinados eventos disparam mecanismos que induzem reflexos condicionados, levando-nos, de forma quase inconsciente, a reproduzir fórmulas e percorrer novamente antigos caminhos. Mesmo o pensamento supostamente mais revolucionário se torna conformista quando é recorrentemente repetido.

A situação de Myanmar é um bom exemplo de evento que foge dos padrões normais de interpretação, o que leva o assunto a ser constantemente evitado, apesar de sua importância. Em Myanmar reside o maior contingente de apátridas do mundo. Quase um milhão de pessoas. A maioria budista parece estar iniciando uma guerra de extermínio étnico contra a minoria rohingya, de religião muçulmana.

Estima-se que mais de 400 mil pessoas tiveram que deixar Myanmar nos últimos meses, o que indica ser este um dos maiores conflitos humanitários contemporâneos. A descrição dos fatos, no entanto, não invoca nenhum reflexo condicionado no mundo. Não há europeus a serem identificados como vilões racistas, tampouco muçulmanos identificados como terroristas. Budistas evocam imagens de meditação e nirvana, de paz e empatia. Uma guerra genocida patrocinada por budistas, em um País sob a liderança de Aung San Suu Kyi, personalidade agraciada com o prêmio Nobel da Paz, tem algo que parece não encaixar em nossas experiências anteriores, soa quase como inverossímil. Sem bolhas e sem as divisões habituais entre esquerda e direita, o assunto não mobiliza.

É de se pensar se não é o caso voltarmos a nos relacionar com aquele que pensa de forma absolutamente diferente de nós, se não é o momento de abandonar alguns extremismos e buscarmos pontos de contato com aqueles de quem divergimos, ao invés de seguirmos nessa toada de acirramento. Sabemos como é difícil construir uma civilização, mas a Síria está aí para demonstrar que a destruição de um País é um feito ao alcance das nossas mãos. E aí, estamos dispostos a voltar a conversar?

Gustavo Theodoro

Lula e o Tríplex

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Interrogatório não se confunde com debate político. Provas contundentes e cabais só existem nos filmes americanos. No mundo judicial prevalece a narrativa que revela maior aderência às provas contidas no processo. Os crimes de colarinho branco raramente são desvendados sem a palavra de algum dos envolvidos. Corrupção é crime que se pratica no escuro, cercado de cuidados, em que se evita telefonemas e transferências bancárias.

As provas foram produzidas, cabe ao Juiz decidir qual narrativa mais bem se coaduna aos depoimentos e documentos obtidos. Lula disse que Marisa comprou uma cota do condomínio em 2005. A Bancoop quebrou, parte dos empreendimentos foi adquirida pela OAS, mas Lula só voltou a tratar do problema, em sua narrativa, no ano de 2013, quando foi visitar a cobertura que nem era aquela pela qual tinha se interessado em 2005. Viu, não gostou, colocou defeitos, e foi embora. Marisa voltou lá alguns meses depois com o filho “só para dizer que não iria ficar com o apartamento” e foi embora. A história de Lula é essa.

Nessa versão, não se sabe por que o casal não tomou nenhuma providência entre 2005 e 2013, enquanto os outros mutuários, em 2009, haviam feito a opção entre ter a devolução do dinheiro ou fazer um complemento do valor pago para ficar com o imóvel. Lula não explica por que um documento com o número do apartamento triplex foi encontrado em sua casa. Tampouco justifica o fato de a cozinha do triplex ter sido comprada na mesma loja da cozinha do sítio de Atibaia, consignando o nome da mesma pessoa na nota fiscal. A narrativa de Lula não explica a razão de o triplex nunca ter sido colocado à venda, assim como não explica o motivo de ter sido feita uma reforma de luxo (no custo de cerca de R$ 1,5 milhão) em um prédio de classe média.

Na versão do MPF, o apartamento estava designado a Lula desde o acerto entre a OAS e a Bancoop. Léo Pinheiro disse que não havia intenção da empresa, face ao seu plano de negócios, de assumir empreendimento que não fosse nas capitais, mas que Vaccari o havia informado que, no prédio do Guarujá, uma das unidades era de Lula. Com a descoberta pelo O Globo, em 2010, de que a cobertura seria de Lula, nenhuma modificação foi feita no imóvel por alguns anos. Em 2013, Lula foi ao apartamento e teria solicitado as melhorias, como o elevador e as intervenções visando à elevação da qualidade dos materiais e revestimentos. Depois Marisa voltou para acompanhar as obras.

Em 2014 o apartamento foi entregue. Era em época de campanha presidencial e, segundo Léo Pinheiro, Lula não queria aparecer lá nesse período, pois a campanha prometia ser muito agressiva, como de fato foi. Mas havia o problema do valor da reforma. Ninguém aparecera para pagar. Léo Pinheiro teria cobrado Vaccari e Okamoto. Ainda segundo Léo Pinheiro, a construtora teria sido ressarcida por meio de propina obtida na Petrobras.

A narrativa do MPF é repleta de indícios e evidências que a corroboram, como as mensagens trocadas, as menções à “madame”, a reserva do apartamento, a personalização, a “coincidência” das cozinhas, os documentos apreendidos, as visitas, sem contar as delações.

Esse cotejamento de narrativas prova, além da dúvida razoável, que só a tese do MPF justifica o conjunto de fatos e indícios trazidos ao processo. Esse é o modo como o Judiciário trabalha e será difícil encontrar prisioneiro condenado no Brasil com mais provas do que há contra o ex-Presidente Lula.

Para muitos, Lula “venceu” o debate contra Moro. Um olhar mais frio de quem assistiu ao depoimento na íntegra revela que Moro nunca pensou estar em um debate. Suas perguntas geralmente procuravam confirmar elementos de cada uma das narrativas e, nesse quesito, Lula foi incapaz de produzir uma história verossímil.

“‘É só um triplex, outros roubam milhões”, dirão alguns. Al Capone foi pego pelo imposto de renda, mesmo com sua longa carreira de crimes; Collor acabou sendo julgado pelo Fiat Elba, apesar das mais diversas acusações de desvio de recursos, contas fantasmas e suas relações com PC Farias. Isso demonstra a dificuldade de se combater tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro. Não será pequeno o feito de se obter a condenação de um ex-Presidente por esse tipo de crime. E que a justiça venha para todos.

Gustavo Theodoro

Esquerda em Crise

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As eleições da França confirmaram a tendência atual de redução do eleitorado do que se conhece por esquerda. Por mais fluido e indecifrável que o termo “esquerda” possa parecer, é certo que os partidos que assim se intitulam têm visto seu eleitorado minguar, enquanto uma direita que andava adormecida na segunda metade do século XX voltou a ganhar terreno. Não há analista que não se sinta tentado a abordar esse fenômeno, com vistas a compreender o que deu errado, se é que ser minoritário seja sintoma de algum problema.

O Partido Socialista teve um importante papel histórico na França da primeira metade do século passado, apesar de ter assumido só brevemente o governo daquele país. Sob a liderança de Leon Blum, o partido ganhou respeitabilidade ao evitar que fosse transformado em aparelho do partido comunista soviético, mantendo o foco no socialismo utópico. O partido socialista do período das guerras mundiais, apesar de minoritário, angariou o respeito inclusive de seus adversários. O que deu errado desde então? Por que hoje, além de diminuto – com inéditos 6% do eleitorado -, perdeu o respeito da população?

Ao que parece, o campo da esquerda nunca chegou de fato a ser majoritário. Mitterrand, apesar de ter sido eleito pelo partido socialista, foi antes um social-democrata, senão um centrista, assim como o favorito das atuais eleições, Emmanuel Macron. Hollande em sua campanha disse:

“Meu adversário de verdade não tem nome, nem rosto, nem partido, nem será candidato. Mas é quem governa. É o mundo das finanças, que tomou o controle da economia, da sociedade e de nossas vidas”.

É notável a diferença entre discurso e prática. No ano passado o governo se afundou nas discussões das reformas trabalhista e previdenciária, assumindo uma posição claramente pró-mercado. A promessa era a de que com as reformas o desemprego iria diminuir, o que não ocorreu. Não havia como o partido socialista sobreviver, no curto prazo, a Hollande.

O caso francês guarda muitas semelhanças com o brasileiro. Talvez a diferença esteja na quantidade de concessões que os simpatizantes da esquerda brasileira estão dispostos a fazer para manter o apoio a seu grupo. Para os franceses, parece que a paciência se esgotou.

Em 2002, para vencer as eleições, Lula precisou escrever a Carta ao Povo Brasileiro – que Emílio Odebrecht agora diz que foi por sua inspiração -, rasgando compromissos históricos da esquerda, como a auditoria da dívida pública, a democratização dos meios de comunicação, o fim do imposto sindical, a reforma agrária, a adoção de impostos progressivos e sobre grandes fortunas, dentre outros. Os governos petistas fizeram três reformas da previdência, pondo fim à paridade e à integralidade da aposentadoria dos novos servidores públicos. Em 2012, foi aprovada nova reforma, dessa vez igualando a aposentadoria dos novos servidores aos da iniciativa privada.

O partido que levantava a bandeira da ética era – desde o início, agora sabemos – aliado das maiores empreiteiras do país. Tudo indica que os bancos e as demais grandes empresas do Brasil eram também “parceiros”, sendo que o apoio se dava por meio de trocas de benefícios ou obras para contribuições em regime de caixa 2, ou seja: era propina mesmo.

Até 2008, Lula manteve disciplina fiscal superior a de FHC, que teria adotado ideias neoliberais em seu governo. Se não tivesse sido apeada do governo, Dilma  encaminharia nova reforma da previdência, exigência dos mercados para a volta da “confiança na economia”. Não há indícios de que a esquerda brasileira tenha se afastado dos líderes que traíram seus ideais.

O socialismo francês também exibe esse histórico. O apoio da esquerda francesa ao stalinismo sobreviveu aos julgamentos forjados de Moscou e à Primavera de Praga, quando mesmo o mais desavisado dos mortais já tinha tomado consciência da natureza do regime soviético. Porém o sofrimento e os desajustes momentâneos não poderiam colocar em cheque o sentido da história, cujo destino já estava escrito e significava a crise final do capitalismo, com o comunismo se espalhando pelo mundo, destruindo nações e fazendo emergir uma comunidade de operários.

Em 1955, Raymond Aron escreveu sobre a esquerda francesa:

“O fim sublime desculpa meios horríveis. Moralista contra o presente, o revolucionário é cínico na ação e se indigna contra as brutalidades policiais, as cadências inumanas de produção, a severidade dos tribunais burgueses, a execução de acusado cuja culpa não foi demonstrada a ponto de eliminar todas as dúvidas. Nada, além de ‘humanização’ total, pode acalmar a sede de justiça. Mas, quando esse mesmo revolucionário decide aderir a um partido tão implacável quanto ele contra a desordem estabelecida, eis que, em nome da revolução, tudo o que até então era incansavelmente denunciado é perdoado”.

No dizer de Aron, os defensores do comunismo daqueles tempos não eram partidários ou simpatizantes, mas sim fanáticos, dispostos a tudo superar para manter suas crenças e seus ídolos. Impossível não relacionar tal descrição ao momento em que vive o Brasil. Se na França esses mitos finalmente parecem ter sido superados, aqui ainda são fortes as teses que desculpam roubos de estatais, corrupção generalizada, lucros estratosféricos dos bancos, reformas alinhadas com o mercado, favorecimento de empreiteiras – tudo em nome de um “bem superior”: o combate aos fascistas, ou pior, aos neoliberais.

A França avançou por um lado, mas corre riscos por outro. As extremas direita e esquerda conseguiram cerca de 40% dos votos. Apesar da aversão de seus apoiadores entre si, Le Pen (extrema direita) e Mélecron (extrema esquerda) compartilhavam muitas de suas pautas: ambos se referem a um passado idealizado, defendem o protecionismo, a redução na participação dos organismos multilaterais, a reaproximação com a Rússia, a renegociação da participação francesa na União Europeia, a redução na idade média de aposentadoria e a ampliação da seguridade social. Olhando por esse prisma, dá a impressão de que, se Le Pen se anunciasse de esquerda, receberia os votos de Mélecron. Não se desconsidera que Le Pen seja xenófoba e que há diversos traços de fascismo em seu discurso, mas que as semelhanças são surpreendentes, não há como negar.

O que salta aos olhos nisso tudo é que as posições extremistas estejam ganhando corpo. A Venezuela parece próxima de uma guerra civil. Os EUA são um país dividido pelo muro da incompreensão. O Brexit revelou que o sentimento internacionalista, que parecia superar o nacionalismo, refluiu.

No Brasil seguimos muito longe de um entendimento, pois pessoas de bem se dividem, acirram suas posições, defendendo bandeiras vermelhas ou amarelas. Enquanto isso a elite política e econômica quer continuar dando as cartas, pois, ao final, sua capacidade de composição é maior do que a do povo. Talvez não tenhamos aprendido que, apesar de as filosofias não se conciliarem, os interesses podem se combinar.

Nesse mundo, sinto-me como Pessoa, “estrangeiro aqui como em toda a parte”, mas sigo acreditando que o debate aberto de ideias possa aproximar, tanto aqui como na França, campos aparentemente antagônicos, na busca de uma sociedade mais pacífica, menos desigual, com capacidade de produzir riqueza e segurança aos cidadãos. E aí, vamos debater?

Gustavo Theodoro

Golpe ou Revolução

Jango

Ano passado, depois do impeachment de Dilma, uma minoria ruidosa começou a denominar “golpe” o seu afastamento. Segundo esse grupo, teria havido quebra do regime constitucional por, supostamente, não ter ocorrido crime de responsabilidade. Eu já escrevi alguns posts defendendo a constitucionalidade do afastamento, mas o tema sobre o qual me debruço hoje é outro: sendo o afastamento inconstitucional, estaríamos diante de um golpe ou uma revolução?

Essa discussão é mais antiga do que parece. Como as Revoluções Francesa e Russa compuseram parte do ideário da esquerda do século passado, a palavra revolução era reservada, preferencialmente, para fatos históricos ligados à esquerda.

Revolução, excetuando sua utilização fora do contexto inicial, como no emprego em Revolução Industrial, em regra implica a substituição de um poder por outro, de forma brusca, com utilização de violência, que provoque a chegada de outra classe dirigente ao poder.

Já o golpe implica a outorga de constituição ilegal pelo detentor do poder (como a de Napoleão III em 1851 ou das constituições de 1967 e 1969 no Brasil) ou a tomada violenta do Estado por um pequeno grupo de homens, sem que esse assalto provoque a chegada de outra classe dirigente, vinculada a outro regime.

Sob essa ótica, a ascensão do nacional-socialismo de Hitler, por exemplo, apesar de não apresentar violência na tomada no poder, seria mais bem descrita como revolução, já que houve alteração da classe dirigente, dos valores de Governo, acompanhada de uso desenfreado da violência contra adversários e grupos minoritários.

Por conta do grande prestígio do termo revolução, a esquerda francesa recusava-se a utilizar esse termo para o movimento nacional-socialista de 1933 ou para a tomada do poder pelo General Franco, na Espanha, apesar de estarem presentes boa parte dos requisitos para tanto. Esse tema era um dos preferidos da intelectualidade da década de 1950 na França, predominantemente de esquerda, que gastava páginas e páginas para refutar a possibilidade de o termo “revolução” ser atribuído a qualquer tipo de movimento ligado à direita.

O mesmo se deu aqui no Brasil com o movimento de 1964. Inicialmente, os militares propagaram a palavra revolução, que sempre teve um prestígio, a meu ver, demasiado, como se representasse uma ruptura aceleradora de nosso destino (uma concepção claramente marxista). A esquerda venceu essa guerra cultural e quase todos se reportam à tomada de poder pelos militares como golpe, por mais não haja plena aderência ao conceito em que usualmente é empregado.

O Governo Jango era decididamente afinado com a esquerda mundial e a situação interna indicava o início de ruptura da ordem estabelecida, principalmente depois de seu discurso aos sargentos, em 30 de março de 1964. O Governo foi tomado pela força (ainda que quase não tenha sido necessária sua utilização) com a clara substituição da classe dirigente. Ou seja, de fato, o movimento de 1964 está muito mais próximo do conceito de revolução do que de golpe, por mais que ainda hoje seja sofrido fazer esse tipo de uso para o termo “revolução”.

Eu sei que o uso do termo golpe para o impeachment de Dilma é muito mais político do que resultado de reflexões ontológicas sobre o emprego das palavras. Por mais que os conceitos não sejam tão diferentes, golpe, no ideário popular, remete ao fascismo, às injustiças e à tortura, enquanto a revolução prenunciaria um novo amanhã.

É evidente que colar o termo golpe ao impeachment constitucional surte o efeito desejado, deslegitimando o processo e dando vida política aos que foram afastados. Os efeitos disso só o tempo dirá. O que podemos ter por certo é que, como a violência não foi empregada, nenhum dos dois termos, golpe ou revolução, é corretamente aplicado no caso do afastamento de Dilma, ainda que tivesse havido algum tipo de quebra na ordem constitucional. Por mais alto que gritem, por mais barulho que façam, não foi golpe.

Gustavo Theodoro

Esquerda e Direita

Camus e Sartre

Em 1955 Raymond Aron se perguntou se os termos esquerda e direita ainda têm algum significado. As classificações, ainda segundo esse pensador francês, dificilmente podem ser identificadas como certas e erradas, sendo mais apropriado julgá-las por suas utilidades.

Essa divisão, que tem origem no funcionamento das câmaras francesas, cujos partidos de oposição ocupavam os assentos à esquerda do presidente. O objetivo da esquerda de então era combater o Antigo Regime, aristocrático, invasivo, em que a burocracia invadia as vidas das pessoas e decidia seu futuro.

Os partidos de esquerda de 1789 queriam menos estado, menos regulação e mais liberdade. Só no século XIX e, principalmente, no início do século XX, o bloco que chamamos de esquerda passou a defender outros ideais, como o socialismo e a planificação da economia, mesmo com sacrifício da liberdade. Não foram poucos os que identificaram essa guinada, mas a intelectualidade que importava até recentemente deveria exibir o pedigree de esquerda para ser relevante e sempre evitou se aproximar desses assuntos devido ao risco de banimento.

O próprio Raymond Aron, contemporâneo de Sartre e Camus, um dos maiores pensadores do século passado, nunca foi levado muito a sério pela opinião pública por não ser de esquerda. Camus era de esquerda, mas bastou tomar a posição de se afastar da defesa do comunismo soviético para ter sua obra atacada pelos intelectuais, dentre os quais seus amigos, Sartre e Simone de Beauvoir.

Essa predominância cultural da esquerda limitou o debate e restringiu inclusive autocríticas que poderiam significar correção de rumos. A crítica de Camus, por exemplo, que veio de dentro do movimento, poderia abrir os olhos da esquerda para o totalitarismo do regime soviético, evitando vexames como o de Sartre, que continuou defendendo o comunismo mesmo após a Primavera de Praga.

Trotsky, transformado em inimigo por Stálin, teve suas obras proibidas pelos editores, quase todos de esquerda, foi impedido de participar das reuniões da internacional socialista e teve imensa dificuldade até mesmo para conseguir asilo em algum país. Quase nenhum intelectual importante saiu em sua defesa.

Na década de 1960 a esquerda foi novamente redefinida. Além da defesa da socialismo, causas de cunho cultural e social começaram a integrar a agenda da esquerda mundial. A liberdade dos costumes era estranhamente antagônica aos regimes que realmente haviam implantado os regimes comunistas, mas esse tipo de crítica muito raramente era formulado. A revisão seguiu até 1989, quando a queda do Muro de Berlim levou ao fim do socialismo como alternativa viável de sociedade.

Foi então que o estado previdenciário, o modelo nórdico de capitalismo, entrou definitivamente no radar da esquerda, na contramão do movimento original dos partidos de 1789, que lutavam por um estado menor, e mesmo de Marx, que não acreditava no estado como regulador. O antinacionalismo, causa tradicional da esquerda, foi abandonada a ponto de seu oposto ser abraçado, ou seja, a esquerda passou a ser nacionalista. Apesar dessas constantes mudanças de posição e dos incríveis erros históricos cometidos pelo movimento, ser de esquerda continuou, de alguma forma, fornecendo aos que assim se classificam um espécie de superioridade moral, como se só quem se entitula de esquerda pudesse se preocupar com as pessoas, ter empatia, bondade e visão social.

A direita, vista da esquerda, quando não é retratada como fascista, raramente vai além dos atributos “conservador” e “aristocrático”, pelo menos historicamente. É certo que o movimento conservador sempre foi identificado como de direita, até pela defesa original do Antigo Regime (pré-1789 na França) e pelas características de seus pensadores clássicos, como Burke e Tocqueville. Nenhum deles defendia a democracia nem as revoluções, e tinham de fato bons argumentos para isso. Burke anteviu parte dos resultados da Revolução Francesa assim como Tocqueville previu o desleixo da sociedade civil para com a coisa pública nos regimes democráticos.

É fato, no entanto, que direita tanto pode representar o seu extremos, que seria o fascismo (ainda que para muitos o fascismo apresente grande similaridade com a extrema esquerda), como o conservadorismo, o reformismo e o liberalismo econômico. Ou seja, dessa ótica há espaço nesses exemplos de direita para quase toda a sociedade. O fato de a esquerda ainda ser sexy, representar de alguma forma o “bem”, a “solidariedade com o próximo”, contra a elite, os capitalistas, os egoístas, insensíveis e ambiciosos, acaba por limitar importantes debates, pois ainda hoje a esquerda tem certa hegemonia na intelectualidade (ainda que esteja ela meio desacreditada) e no campo cultural.

Ainda hoje, aqui no Brasil, se alguém se atreve a dizer que julgou correto o impedimento da Presidente Dilma dificilmente escapará da alcunha de golpista. Caso venha a ponderar que os direitos trabalhistas acabam por não defender a maioria da população, será acusado de estar ao lado da elite empresarial. A eventual defesa de alguma reforma no sistema de aposentadorias e pensões pode levar a acusações de ligações com o sistema financeiro.

Penso que a redução do uso desses termos, esquerda e direita, – tese também defendida por Raymond Aron – de significados tão fluidos e pouco úteis atualmente, poderia livrar as pessoas dessas amarras e afetos a que se sentem presos, podendo, assim, analisar cada causa com maior distanciamento emocional, evitando-se irremediáveis erros de julgamento e permitindo que o debate de ideias não fosse tão manietado por censuras e autocensuras.

Gustavo Theodoro

Melhores Séries 2016

Após longo recesso, volto trazendo, com algum atraso, a minha lista de melhores séries de 2016. Previno que a lista é minha, o que não quer dizer que sejam “as melhores séries” sob qualquer prisma, mas sim as melhores “em minha opinião”. Ressalto ainda que não sou apreciador de comédias, o que limitou um pouco a análise.

Sei que o pessoal vai reclamar, mas o fato é que não gosto de Walking Dead e nem sei se a temporada foi boa ou não. As séries de super-herois até assisti a algumas, mas não consigo levar essas coisas muito a sério, apesar de reconhecer alguma qualidade nelas. Mr. Robot se perdeu na segunda temporada e as inglesas Wallander e Vera não vieram na qualidade habitual.

Homeland foi adiada para 2017. The Affair teve temporada muito irregular. The Man In The High Castle, da Amazon, evoluiu, mas ainda há caminho a ser percorrido no desenvolvimento dos personagens.

Continuamos à procura de algo da qualidade de A Escuta (The Wire), A Família Soprano (The Sopranos), Mad Men ou Breaking Bad. Apesar de ainda não podermos apontar substitutas à altura dessas produções, posso dizer que o ano de 2016 foi muito bom.

Seguem abaixo as melhores séries do ano.

9. Line of Duty – Essa série inglesa sempre me despertou interesse por abordar, ainda que lateralmente, o tema dos indicadores e seus efeitos sobre o trabalho da polícia. O maior interesse da série, no entanto, sempre foi a abordagem das dificuldades de se ter uma corregedoria eficiente, seja pelo corporativismo, sempre presente em qualquer grupo social, seja pela corrupção e pelo tráfico de influência. A série cresceu muito com os anos e a quarta temporada, exibida ano passado, foi sensacional.

8. The Americans – Acompanho com interesse essa série desde a primeira temporada. A história descreve a rotina de um casal vive nos EUA como uma família americana, criam filhos, trabalham, mas são agentes soviéticos. O série se passa nos anos 1980, no final da Guerra Fria.

Desde o início, a série sempre prometeu mais do que entregou. Às vezes os eventos eram por demais inverossímeis, às vezes faltava algum desenvolvimento para os personagens, o certo é que a série foi ganhando densidade com os anos e atingiu qualidade que acredito era pretendida desde a primeira temporada. Chegaram ao ápice algumas das situações que vinham se desenvolvendo, o que fez com que eu incluísse esta produção dentre as melhores do ano.

7. Rectify – Essa é daquelas séries com personagens bem construídos, com pouca ação, mas com muita sensibilidade. A séria gira em torno de Daniel Holden (Aden Young), um homem que passou 20 anos no corredor da morte por ter sido condenado pelo estupro e morte de sua namorada. Um exame de DNA acaba o devolvendo para a sociedade e é a partir daí que a série se desenvolve.

Impossível não pensarmos em Kafka e na situação de viver em um mundo como um diferente, não adaptável ao modo de vida dos demais. O desconforto com a vida, com o que se faz dela, é presente durante todas as temporadas. Em 2016 foi apresentada a quarta e última temporada. A série é fenomenal, mas considerei a última temporada excessivamente triste, sofrida. Não que a vida não possa ser assim. Um evento como esse pode transtornar não apenas o preso, mas toda a sua família, tal como é retratado no decorrer dos episódios. Mas essa última temporada quase não deixou espaço para esperança, tornando até um pouco improvável a dramatização, retirando da séria parte de sua aprovação.

Ainda assim, em face da qualidade do roteiro e do desempenho dos atores, penso que essa série ainda merece figurar dentre as melhores do ano.

6. Game Of Thrones – Como todos sabem, essa série trata de um mundo fictício, místico, povoado por seres do gelo, dragões, homens de muitas faces, lobos e gigantes. Os Targaryen foram destronados pela casa de Baratheon. Sua descendente tenta voltar ao poder. Os Baratheon foram sucedidos, de forma não amistosa, pelos ricos Lennister, que quase podem ser considerados os vilões da história (apesar de ser difícil separar com nitidez na série os bons dos maus). Os Starks são a família do norte que eram leais aos Baratheon, mas que foram tragados pela guerra do Reino.

Na verdade, Game Of Thrones não é facilmente descrita. A série é uma fantasia, cenário para apresentação das mais humanas características, como inveja, ambição, luxúria, ódio, dissimulação e um pouco de lealdade. Há cenas patéticas, algumas com atores de desempenho sofrível. Mas essas falhas são compensadas por um arco narrativo que sabe onde pretende chegar, por alguns grandes personagens e pela imprevisibilidade com que alguns deles são mortos. A série está se encaminhando para o seu final, mas é possível que seu ápice já tenha sido atingido.

Para ser sincero, não entendo muito bem as razões de a série ter se tornado um fenômeno. Se eu fosse um executivo da área de mídia, provavelmente descartaria esta produção já na sinopse. Sua existência e sobrevivência nunca vão deixar de me surpreender. O certo é que GOT ganhou qualidade com o tempo, seus personagens amadureceram e alguns atores se descobriram em seus personagens. A história envolveu, o dinheiro para a produção aumentou com a audiência, e agora GOT atingiu o seu ápice: entrou na minha lista de melhores séries do ano. O que há depois disso?

5. Westword – Trata-se de mais uma produção surpreendente da HBO. Seria um Western? Uma ficção? Um drama? É um pouco de tudo isso. Nem todos os personagens funcionam muito bem, mas aqui o que importa aqui é a história. O tema homem-máquina costuma levantar perguntas filosóficas sobre o que nos torna humanos e sobre nossas eternas pulsões.

Além dessas reflexões, o ritmo vai se intensificando com o desenrolar dos episódios e alguns grandes momentos são produzidos pelo caminho. Sim, há reviravoltas e surpresas que vão se revelando com o tempo. A história não é contada de forma linear e isso não é deixado claro de início. Parte do que torna o roteiro interessante vem daí.

A atriz norueguesa Sidse Babett Knudsen (Borgen) faz interessante participação. A série ainda conta com ótimas interpretações de Evan Rachel Wood e Jeffrey Wright. O episódio final tem como bônus a execução de Exit Music, do Radiohead, em momento crucial, em um ótimo desfecho. Não será fácil escrever uma segunda temporada.

4. Golliath – Essa série de David E. Kelley (Ally McBeal) é uma das boas surpresas do ano. Atualmente raras são as séries de advogados que não submergem na superficialidade. Com excelente roteiro e atores de primeira linha, a série mantém o interesse do primeiro ao último episódio.

Billy Bob Thorton é um advogado alcoólatra que caiu em desgraça. Um caso que lhe é oferecido pode ser sua redenção. Apesar de ser uma série dramática, há pitadas de humor espalhadas pelos episódios, além de excelentes diálogos.

É uma série Amazon, o que torna mais difícil a tarefa de assistí-la. Mas vale a pena o esforço.

3. The Night Of – Outra série da HBO com transmissão simultânea em todo mundo que conquistou os críticos pela qualidade do roteiro, da direção e do desempenho dos atores. O primeiro capítulo introduz a história de forma exemplar e já está sendo considerado um marco da TV.

Aparentemente, não passa de uma série de crime como tantas outras. Um jovem tem um rápido relacionamento com uma garota que aparece morta. A forma como essas circunstâncias são apresentadas, o lento porém tenso desenvolvimento, o realismo das situações e o excepcional desempenho do detetive interpretado por Bill Camp e do advogado de John Turturro valem o ingresso. Infelizmente, os últimos episódios são um pouco menos interessantes do que os primeiros, o que não tiram o brilho da produção.

2. The Crown – Série mais cara da história do Netflix, o tema é o período da coroação da Rainha Elizabeth. A série demora um pouco para engrenar, mas tem alguns episódios antológicos, como o que trata do fog londrino e o que contém o diálogo entre Winston Churchill e seu retratista. Aliás, John Littgow, com o seu Churchill, rouba a cena de todas as formas possíveis. Sob muitos aspectos é uma série conservadora, com história em linha reta e personagens bem construídos. Mas é esse o aspecto que se destaca positivamente nesta produção, sobre como fazer o convencional, com boas falas e ótima produção, como isso nunca deixará de despertar nosso interesse.

1. The Young Pope – Série da HBO que ainda não estreou no Brasil sobre um fictício Papa jovem, interpretado de forma magnífica por Jude Law. Não é uma comédia, mas a série é cheia de humor. Jude Law não se destaca sozinho. O elenco é todo magnífico, representando personagens humanos, imperfeitos, sediciosos, ambiciosos, vaidosos, muitas vezes patéticos e inseguros. É Shakespeare puro, sendo o Vaticano o pano de fundo.

O trabalho do diretor Paolo Sorrentino é fenomenal e não há aspecto na série a ser questionado: fotografia, escolha do elenco, cenário, caracterização e trilha sonora. O inusitado das situações é sempre explorado de forma a transformar situações cotidianas e banais em cenas engraçadas e humanas. O Cardeal Voiello (Silvio Orlando), com sua ambição e maquinagens políticas, sua devoção pelo Napoli e por Maradona, quase rouba algumas cenas, algo difícil diante da oceânica personalidade do jovem Papa. A série ainda conta com atores bem conhecidos, como Diane Keaton e Cécile De France, todos muito bem. É um programa que recomendo, assim que acessível a todos.

A Luta de Classes

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A teoria socialista tem como base fundadora o conflito entre a burguesia e o proletariado. O desenvolvimento europeu no pós-guerra provocou uma reificação do marxismo, uma alteração de sua natureza, de modo a refletir um mundo onde a escassez já não era tão visível e o estado do bem estar social havia mitigado as diferenças dos tempos da Revolução Industrial. O regime soviético fazia água aos olhos da maioria e já não era possível negar a forma totalitária do comunismo.

Para manter a teoria de pé, era necessário apontar novas espécies de divisões sociais, de modo a preservar uma ideologia que era tão cara a tantos. O jovem Marx foi resgatado e substituiu o aborrecido, mas bem mais consistente, Marx economista de O Capital. Movimentos feministas, negros, hippies, LGBT gradualmente tomaram o lugar da velha luta de classes, que ainda remanescia, mas com muito menos vigor.

Essas ideologias provocaram novas divisões na sociedade e nem sempre contribuíram para a causa que ostentavam defender. Diz uma antiga ex-feminista que seu movimento nasceu fazendo a defesa da mulher de classe média-alta, instruída e branca, ou seja, era essencialmente um movimento de elite, mas que ainda assim encontrou seu lugar no liberalismo de costumes dos anos 1960 e 1970 como um subproduto do marxismo.

As divisões sociais inventadas a partir da derrocada do comunismo não passaram despercebidas pela esquerda, que tratou de instrumentalizá-las, transformando os novos grupos minoritários em eleitores potenciais. De certa forma, a estratificação da sociedade em subclasses criou, com o tempo, um reflexo condicionado, uma forma automática de lidar com os fatos cotidianos.

Se um homem agride uma mulher, a humanidade da agredida submerge em face de seu gênero, de modo que o fato passa a ser tratado como uma classe: “a agressão da mulher pelo homem”, em oposição à agressão de um ser humano por outro. Da mesma forma, quando um negro é assassinado, o que perpassa o noticiário é o racismo da sociedade, independente das motivações do crime.

Como já me referi acima, esse modo de pensar, essa consciência coletiva, esse arquétipo junguiano tomou conta das discussões políticas e sociais. A esquerda pode ter sido afastada do poder, mas é certo que ela ainda dá as cartas na identificação e classificação dos eventos  contemporâneos.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma narrativa adequada à esquerda para o depoimento do zelador do triplex do Lula. Como os aporéticos devem ter acompanhado, José Afonso Pinheiro, o zelador do triplex, depôs na última sexta-feira e se indispôs com os advogados de Lula.

De um lado estava um negro, pobre e trabalhador, o que faz ligar uma série de reflexos condicionados na intelectualidade bem alimentada. Advertido pela OAS de que deveria negar em depoimento à polícia que o triplex pertencesse à Lula, Afonso preferiu dizer o que sabia. Foi demitido, perdeu seu teto e deixou de dar sustento e proteção a sua família. Convidado a ser candidato nas eleições de 2016 pelo PP, concorreu a vereador como Afonso do Triplex, mas perdeu as eleições. Do outro lado estava o caríssimo advogado de Lula, branco, de classe alta, bem formado, ponderado, de linguagem escorreita.

Perguntado sobre as visitas de Lula, Afonso confirmou os fatos já narrados em depoimento na PF. Disse que ex-Presidente esteve no triplex por duas vezes, que era tratado como proprietário, que mostrara a D. Marisa as áreas comuns e reproduziu algumas falas da mulher de Lula.

O advogado de Lula buscou atacar a credibilidade de Afonso a partir de sua candidatura a vereador. O ex-zelador se irritou com as perguntas que buscavam tisnar sua honra e reagiu prontamente com a voz visivelmente alterada: “Posso falar o que vocês são? Vocês são lixo, lixo. Isso que vocês são”. Como expôs em seu depoimento, o ex-zelador foi colocado em uma situação impossível: se mentisse à polícia, poderia estar cometendo perjúrio; se relatasse os fatos, poderia ser demitido. Os caminhos eram difíceis e nenhum deles lhe parecera promissor. Se pudesse escolher, Afonso preferia ter ficado à margem dessa história.

Se fosse outro o contexto, o representante da elite branca estaria sendo apedrejado e açoitado em público por ousar atacar não uma pessoa, mas uma categoria social, o homem negro, pobre e trabalhor, um oprimido, despossuído e merecedor da proteção do Estado. Mas não. O que se ouve por aí é silêncio, na maioria das vezes, e pós-verdade (novo nome para mentira).

Luis Nassif publicou em seu blog um texto tratando do assunto. Já na segunda frase percebe-se uma distorção dos fatos: “…, além de chamar os políticos de lixo, não apresentou nenhuma prova para sustentar as afirmações dos promotores contra Lula”. Ora, o ex-zelador não chamou “os políticos de lixo”; lixo era Lula, seu advogado e as pessoas que os cercam. Já o Diário do Centro do Mundo, outro conhecido reduto da esquerda, reconheceu quem Afonso chamara de lixo, tanto é assim que foi noticiado que a banca de Lula cogita processar o ex-zelador por esses termos. Dois blogs, duas versões.

Por não saber como lidar com um depoimento contundente do representante de uma minoria que o esquerdismo diz defender, resta atacar a honra pessoal, a imagem do trabalhador negro, em revelação transparente de que é melhor salvar as aparências a ser fiel às categorias que sustentam suas teses. Entre a salvação pessoal e a preservação da verdade parece não haver hesitação sobre o caminho a tomar.

Aconselhava o conservador Burke a “nunca separar por completo os méritos de qualquer questão política dos homens envolvidos nela”. A forma como esse episódio está sendo tratado revela, como desconfiávamos, a natureza instrumental, descartável, sujeita às conveniências, dessas teses que professam a defesa das minorias. As ideologias, desconfie profundamente delas. Sobre os homens envolvidos nesses fatos, já temos elementos suficientes para julgá-los.

Gustavo Theodoro

Condução Coercitiva e Abuso de Autoridade

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Ontem Silas Malafaia foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento no âmbito da operação Timóteo. Malafaia, que apoiara essa medida quando aplicada ao ex-Presidente Lula, deixou a polícia queixando-se de perseguição e considerando a medida abusiva, visto que poderia, em sua opinião, ser substituída por convite para depor. Nada como um dia depois do outro.

A aplicação da condução coercitiva para casos não previstos em lei – como deixar de atender a intimações – é frequentemente adotada pelo MPF e deferida pelo Judiciário no interesse da apuração de crimes financeiros. Entende-se que os mandados de condução emitidos simultaneamente aos mandados de busca trazem agilidade ao inquérito ao mesmo tempo em que produzem provas de modo mais eficaz.

Para o MPF, a condução coercitiva é admitida sempre que estiverem presentes os requisitos para o mandado de prisão temporária. Assim, a condução coercitiva, para quem defende essa linha de interpretação, é uma alternativa mais branda à prisão, sendo, portanto, benéfica ao investigado.

O abuso de autoridade é regulado pela Lei 4.898/1965. Estão descritos na referida lei os mais diversos casos de abuso que, em abstrato, podem ser cometidos por autoridades administrativas ou judiciárias. Sim, juízes e promotores estão sujeitos ao enquadramento por abuso.

Em clara retaliação à Lava Jato e ao STF, Renan Calheiros, desde julho deste ano, deu andamento a um velho projeto de reforma da lei que trata do abuso de autoridade. Além de terem sido incluídos artigos que se relacionam a fatos bem recentes, como a publicidade de algumas conversas para as quais o sigilo telefônico foi quebrado (como o caso do diálogo dentre Lula e Dilma em que o “Bessias” foi citado), foi adicionado recentemente um artigo que trata da condução coercitiva dos investigados.

Se aprovada, a nova lei do abuso de autoridade passa a só autorizar condução coercitiva nos casos de não atendimento de intimação, pois tornam crime, por exemplo, as conduções como as de Lula e Malafaia.

Ao tentar modificar essa lei, Renan, para vencer a resistência, disse que os senadores eram “favoráveis ao abuso de autoridade” e que a atualização da lei nada tinha a ver com a Lava Jato. O que a leitura do projeto nos informa é que é justamente a Lava Jato o alvo dessa alteração legislativa. O conhecimento da lei em vigor nos revela que a matéria já é devidamente regulada, ainda que, infelizmente, muito pouco aplicada.

Portanto, caro aporético, se você torce para que os servidores concursados da Lava Jato consigam enfrentar os criminosos de colarinho branco, coloque-se, neste momento, contra a alteração da lei do abuso. É verdade que há excessos no Judiciário, mas eles tendem a serem corrigidos pela utilização de recursos e apelações previstas em lei. Quem tem interesse em manietar a Lava Jato justamente agora que ela parece produzir os frutos mais vistosos dificilmente está a favor do Brasil.

Gustavo Theodoro