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Realidade Compartilhada

A pandemia do coronavírus no Brasil tornou ainda mais visível a imensa divisão de nossa sociedade. Constato que os meios de informação já não são compartilhados, a realidade é mediada por uma imprensa não profissional. Os aplicativos de mensagem facilitaram a disseminação de informações falsas. Milhares de vozes se misturaram, provocando imenso ruído e diminuindo nossa capacidade de distinguir fatos de versões.

Esse tipo de funcionamento das mídias sociais formou as conhecidas bolhas, que dividem grupos expostos a realidades alternativas. A consequência disso é a aparente impossibilidade de trocas de experiência e visões do mundo.

Sócrates usava seu método descrito nos diálogos de Platão com único objetivo: a busca da verdade. Essa forma de debater está sendo gradualmente superada pelas técnicas utilizadas nas redes sociais, com o “cancelamento de pessoas” e o bloqueio dos que pensam diferente. Sem conversar não é possível encontrar pontos em comum a partir dos quais o diálogo é possível.

Não afirmo que conversar sempre permita a aproximação das pessoas. Resgato aqui A Pastoral Americana, o premiado livro de Philip Roth que, em um de seus aspectos, relata a dificuldade de diálogo entre Seymour Levov, um judeu que acreditava nos EUA liberal e tolerante, e sua filha, Merry, que passa por um processo de radicalização.

Fiel a seu sistema de crenças e a sua fé na capacidade do ser humano de agir racionalmente, Seymour tentou de todas as formas se comunicar com Merry. O diálogo entre adolescentes e adultos quase nunca é simples, visto que eles enxergam o mundo de ângulos diferentes. Enquanto o jovem tem expectativas quanto ao futuro, não teve oportunidade de testar sua potência nem por em prática suas ideias, os pais em geral já acumularam frustrações, derrotas e vitórias como parte da construção de seu lugar do mundo, tornando-os mais pragmáticos.

Nessa dissociação, o diálogo torna-se problemático. Daí a importância que a filosofia já deu às “pessoas de boa vontade”, aquelas cujo objetivo não é vencer o debate, mas conhecer o ponto de vista do outro para, talvez, inclusive acolhê-lo. Sendo uma idade de afirmação, a adolescência costuma desafiar até boas condutas do mundo adulto. Esses desafios darão contornos finais à personalidade do jovem em formação. A combinação entre idade desafiadora e divergência de perspectivas torna árdua a busca por pontos de contato.

Há semelhanças entre esse desencontro e o processo a que testemunhamos de separação dos polos políticos. Não se percebe boa vontade nos debates. Não há busca por troca ou compreensão dos pontos de vista diferentes. A emergência de termos como “lacrar” e “cancelamento” é demonstração disso. A “lacração” retrata um golpe bem aplicado contra o inimigo para regojizo de sua torcida, enquanto o “cancelamento” é o apagamento de alguém que teria produzido um pensamento “não adequado”. Não é assim que vamos evoluir como sociedade e pelo menos o mundo adulto não deveria admitir a persistência nesse caminho.

O comportamento extremista permeia as redes sociais e parece não haver como evitá-lo completamente. No entanto, é grave que a chamada “imprensa alternativa” o tenha adotado como prática cotidiana. Eu, que não sou nem petista nem bolsonarista, pude acompanhar a evolução desse tipo de fenômeno. Os blogs de esquerda da época dos governos petistas pouco diferiam da imprensa bolonarista hoje existente. O tom das críticas, no entanto, subiu no bolsonarismo.

Parece mesmo haver um movimento organizado para enfraquecer as instituições com vistas a um golpe no estilo Hugo Chávez, de quem Bolsonaro já se declarou admirador. A reação das instituições, no entanto, parece ainda ter forças para, se não impedir, pelo menos retardar o processo. Não se sabe até quando.

O mínimo que deveríamos aprender de nossa história recente é que abandonar a imprensa tradicional não nos traz benefício a longo prazo. Se há críticas pertinentes a fazer quanto a sua atuação, há um código de ética a ser seguido pela mídia tradicional, como atentar para os fatos, ouvir o outro lado e desvincular a parte comercial da editoria de notícias. A chamada mídia alternativa não cumpre quase nenhuma dessas regras, servindo para alimentar uma realidade paralela que, ao final, torna impossível até mesmo conversar com os outros, por absoluta falta de realidade compartilhada.

Ao final, as pessoas passam a acreditar mesmo que a ciência já comprovou os benefícios da coloroquina, que a auditoria da dívida nos dará dinheiro para nos dispensar dos sacrifícios, que o comunismo está para voltar a qualquer momento e que o coronavírus foi inventado para apressar o processo e que o novo marco legal do saneamento irá nos privar da água limpa e barata. O aprofundamento nesses assuntos revelaria que nenhuma das afirmativas está correta. Em sentido contrário, a “mídia alternativa” não se cansa de propagar teses incorretas e inverdades a respeito desses temas, tornando suas plateias – uso aqui um termo duro – fanatizadas.

A reconstrução do espaço público passará, inevitavelmente, pela recuperação de uma realidade compartilhada, sobre a qual possamos divergir e convergir, como adversários ou aliados políticos, mas nunca como inimigos ou militantes de seitas. Uma pandemia não apresenta lado positivo. Podemos, no entanto, fazer uso dela para induzir momentos de reflexão diante da crise, a partir dos erros que temos cometido, para que possamos dar passos na direção de uma sociedade mais empática, com maior capacidade de resolver conflitos e capaz de dar respostas às sempre crescentes demandas que se apresentam.

Para ajudar nesse processo deixo um único conselho de ordem prática: informem-se mais pelos jornais e menos pelas redes sociais. Escrevendo de forma ainda mais sucinta: assinem e leiam jornais.

Gustavo Theodoro

Frente Ampla

Cresce na sociedade a avaliação de que o Presidente Jair Bolsonaro não está à altura do cargo que ocupa. Os motivos apontados são vários e vão desde a falta de respeito às regras básicas de convivência democrática até o cometimento de crimes comuns. Acompanhada da redução na popularidade presidencial, em especial diante de suas atitudes no enfrentamento da Covid-19, o impeachment já á amplamente discutido na sociedade.

As restrições sanitárias impedem grandes manifestações populares. Ruas vazias não empurram o legislativo, que segue entorpecido aguardando a pandemia dar uma trégua para que talvez as reuniões presenciais possam ajudá-los a encontrar caminhos para o país.

Enquanto isso, o que se vê são iniciativas geralmente lideradas pela sociedade civil, que busca unir a oposição ao Governo em torno de uma causa comum. O processo de montagem dessa frente revelou as dificuldades que teremos que superar para que nossa sociedade possa ser reconstruída. A lista de vetos costuma ser infindável: “Eu não entro em lista com FHC”, “Se Moro assinar, eu não assino”, “O PT não deve fazer parte”, foram algumas das frases proferidas nas semanas que passaram. É de se perguntar se somos capazes, conjuntamente, de termos foco para atingirmos um objetivo importante que está além da luta política diária.

As experiências de acirramento das divisões, das brigas em grupos familiares e dos rompimentos de antigas amizades deveriam nos ensinar que algo não está correto na forma como temos nos portado. Política deveria ser o meio para construímos algo a partir das diferenças e não apesar delas.

O assessor da Presidência, Felipe G. Martins, escreveu o seguinte em seu twitter nesta semana: “Dizia Clausewitz que politica é a continuação da guerra por outros meios”. A citação está incorreta de uma maneira reveladora. A citação correta do general prussiano é, na verdade, que a guerra é a continuação da política por outros meios. Não se trata, evidentemente, de confusão: na visão dos que ocupam a presidência no momento, política é guerra e o adversário é o inimigo; logo, deve ser destruído.

Há tempos estamos contaminados por essa forma de ação política. Um antigo parlamentar do então PFL queria o fim do PT. Este, por sua vez, cultivou a visão de política como guerra, tal como agora defende Felipe G. Martins. O resultado disso são as dificuldades que observamos nas tentativas de formação de uma maioria democrática, multipartidária.

Para este momento é bom que recordemos o exemplo de Albert Camus, que, em 1946, um ano após a libertação da França da ocupação nazista, compreendia a necessidade de partilhar o país com seus compatriotas. Por sua atuação corajosa na resistência francesa, tornou-se uma referência no processo de reconstrução do país no pós-guerra.

Naquele momento, a situação era muito pior do que a nossa: enquanto o terror imperava, a maioria da população preferiu não se envolver e viver sua vida da maneira que melhor servisse a seus interesses. Havia ainda a questão dos colaboracionistas, que tinham inevitavelmente que ser incluídos em qualquer processo de reconstrução que almejasse o sucesso.

Sartre e, principalmente, Simone de Beauvoir cobravam de Camus uma postura mais radical com relação aos adversários políticos. A filósofa inclusive criticou a falta de menção direta ao fascismo em seu livro de 1947, A Peste, que retratava como metáfora o regime de confinamento, com o nazifascismo substituído pela peste. Mas Camus acreditava que política se faz primeiro com verdade, depois com tolerância e diálogo.

Voltando à nossa realidade, temos que ter em mente que cerca de 60% da população já votaram no PT e 55% votaram em Bolsonaro. Se a ideia da frente é constituir um grupo de pessoas que sempre pensaram como nós, estamos querendo fundar, talvez, um partido, não criar um movimento capaz de recriar o ambiente democrático e fazer frente, de forma coesa e incisiva, ao movimento autoritário que temos testemunhado.

Afastemo-nos, portanto, dos extremos, dos cancelamentos e dos vetos. O objetivo é retomar a ideia de que partilhamos um país e teremos que nos entender entre nós mesmos. Quando conseguirmos construir uma maioria, podemos nos lembrar de um trecho de Camus retratando o momento em que a epidemia começou a refluir: “Pode-se dizer, aliás, que a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população, o reinado efetivo da peste tinha terminado”. De minha parte, trabalharei pelo fim do império da peste.

Gustavo Theodoro

Nada Será Como Antes

O isolamento social exigido para evitar a rápida disseminação do Covid-19 promete alterar o modo como vivemos nossas vidas. O biólogo Atila Iamarino formulou uma frase no programa Roda Viva, exibido em 30/03/2020, que causou perplexidade na audiência: “Após o coronavirus, o mundo não voltará a ser o que era”.

Misturaram-se sentimentos de perdas, de nostalgia e de medo do incerto futuro. O sentido pretendido pelo divulgador científico era, no entanto, mais prosaico: dizer que os períodos de quarentena e relaxamento iriam levar talvez até dois anos. Depois disso, a vida dificilmente voltaria a ser como antes porque as pessoas não seriam mais as mesmas de janeiro de 2020. Aquele mundo que conhecíamos dificilmente existirá novamente.

No campo da economia, por exemplo, velhas certezas já estão sendo questionadas. Trump insistia com seus economistas que os EUA deveriam voltar a ter um grande parque industrial. As teorias liberais predominantes consideravam positiva a redução dos custos por meio do deslocamento da produção mundial para os países asiáticos de mão-de-obra barata. A crise no fornecimento de materiais médicos, respiradores e princípios ativos para remédios parece dar razão à Trump.

O aparentemente superado discurso da esquerda brasileira defendendo a necessidade de o Estado planejar o desenvolvimento industrial pode voltar a ser atual. A proteção de setores “estratégicos” (ainda há um certo constrangimento ao usar este termo) e a garantia de fabricação nacional de, por exemplo, princípio ativo de remédios e equipamentos médicos estará na ordem do dia quando tudo isso acabar. Economistas desenvolvimentistas já estão sendo requisitados para o debate econômico. Liberais como Paulo Guedes poderão ter dificuldades para entender a mudança que já está em operação.

O período de isolamento deve promover mudanças ainda nas relações de trabalho e de consumo, acelerando processos que já estavam em andamento. Não há motivo de deslocamento para executar tarefas que não exijam presença física. Os ultrapassados chefes que gostam de manifestar seu poder por meio de controle de horários terão suas vidas abaladas.

A adesão em massa ao comércio eletrônico pode ocasionar um ponto de não retorno para o comércio de rua. As lojas, nesse cenário, tenderiam a se reduzir e a se transformar em mostruários, quando necessário.

O impacto sobre a vida doméstica não será desprezível. A necessidade de intenso convívio familiar provocará alterações irreversíveis. Como bem ressaltou Andrew Salomon, “relacionamentos sólidos serão fortalecidos, mas laços frágeis se partirão”.

A classe média brasileira terá oportunidade de analisar sua relação com os trabalhadores domésticos. Os que não cozinhavam estão tendo que se virar. Os que nunca valorizaram o serviço de limpeza e a lida com as roupas irão repensar seus conceitos. Uma vida mais simples, com residências menores, pode ser revalorizada, assim como os quintais em que se possa tomar sol e plantar.

A forma de moradia adotada pela maioria da população, em grandes cidades, com uso predominante de transporte coletivo, em ambientes apertados, cafés e restaurantes com ar condicionado ou aquecimento, escritórios fechados, tudo estará em xeque quanto tudo isso passar. O impacto sobre as crianças da geração Covid-19 tenderá a ser mais duradouro.

O aumento da riqueza das classes média e alta e o barateamento das passagens aéreas levou ao aumento do trânsito das pessoas entre países. Nos últimos quinze anos, o número de pessoas que faz viagens praticamente dobrou. Viajar deixou de ser uma opção de lazer para ser uma obrigação, transformando-se quase em requisito de aceitação social. Ocorre que esse estranho hábito tornou quase instantânea a disseminação de agentes patogênicos. Isso estará em discussão quando tudo isso passar.

O mito do progresso contínuo e a autoimagem da humanidade como ser além-do-animal poderão sofrer abalos. Os pensadores conservadores nunca deixaram de reconhecer que a inteligência humana criava desafios que a própria inteligência humana poderia não resolver. Tudo aquilo que nos levou a ter energia e produtividade para alimentar e aquecer bilhões de seres humanos teve também como efeito mudanças climáticas que, no limite, poderão colocar em risco a própria existência da vida humana na terra.

O ideia do homem como animal superior que sempre progride, doma a natureza e transforma a si e a tudo ao seu redor é um mito que decorre do Iluminismo e de uma de suas expressões: o darwinismo. A vida asséptica das grandes cidades oblitera a visão de nossa condição de animal, que pode pensar, sonhar, projetar e ter consciência de sua morte, mas que segue sendo um frágil mamífero primata, sujeito a epidemias e extinção.

O isolamento poderá colocar a humanidade em contato com aquilo que ela tanto evita, que é olhar, em silêncio, para dentro de si mesmo. Nietzsche dizia que é necessário ter coragem para isso: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você“.

A superação da crise não fará nascer um novo homem. Contrariando os progressistas, tampouco sairemos disso melhores, nem construiremos uma sociedade mais igual e harmoniosa. Nada será como antes? É difícil responder. Sabemos apenas que muitas de nossas certezas estarão em xeque e que, provavelmente, não iremos recuperar a vida que já tivemos.

Gustavo Theodoro

Homens Sem Qualidades

Berenice Seara noticiou hoje em sua coluna do Extra que os Vereadores do Rio de Janeiro inovaram diante da pandemia mundial do Covid-19 e estão realizando sessões de modo virtual. Cada um de sua casa faz seus discursos, encaminha votações e aprova projetos.

Segundo a colunista, o privilégio de trabalhar de casa não foi estendido aos servidores responsáveis pela elaboração das atas das sessões. Esses continuam obrigados a se dirigir às instalações da Câmara para receber, corrigir e transcrever as falas das excelências.

Essa notícia provocou em mim duas reflexões, que passo a elaborar. A primeira delas se relaciona à incrível sobrevivência do regime de castas herdado dos tempos coloniais. O elevador de serviço ainda é o melhor símbolo desses tempos. A expressão “você sabe com quem está falando?” é outro bem conhecido resquício dessa era que se recusa a ser superada.

Nos tempos de coronavirus, essa faceta se revela mais facilmente. Os edis haviam suspendido todas as atividades da Câmara de Vereadores quando os números da pandemia no Brasil se agravaram. No entanto, alguns políticos começaram a se destacar, inclusive nacionalmente, por suas firmes e propositivas ações no combate à crise.

Os nobres vereadores resolveram, então, retomar as sessões na proteção de seus lares. “Não saiam de casa”, é o lema desses tempos. Até aí tudo bem. Cada pessoa que fica em casa pode salvar várias vidas. Ocorre que o egoísmo típico do sistema de castas enevoa a visão, ensurdece os ouvidos e empalidece a empatia. “Se eu estou bem está tudo bem”, devem formular seus pequenos egos.

E lá foram os servidores concursados trabalhar “presencialmente em uma sessão virtual”. Não riam. É isso mesmo. Trabalho presencial em sessão virtual. As figuras públicas, em momentos de crise, dão exemplo para a sociedade. Há forte campanha para que a classe média dispense suas diaristas e para que os serviços informais sejam remunerados mesmo sem realização, tudo para que as pessoas “fiquem em casa” com possibilidade de subsistência. Fiquem em casa, eu repito. Os vereadores do Rio não se preocuparam em dar o exemplo liberando seus funcionários.

Outro aspecto que nunca deixa de me espantar nesses casos é o comportamento de servidores de chefia, a quem caberia advertir os vereadores de que a recomendação de ficar em casa é para todos que não executem atividade essencial. O que causa espanto, nesse caso, é que as próprias chefias estão expostas desnecessariamente ao risco de adquirir e espalhar o coronavirus. E nem assim reagem.

Platão dizia que o espanto é a porta de entrada para a filosofia. E esse tipo de evento, a incapacidade de pensamento e empatia, gera um sentimento perturbador na forma como julgamos o ser humano. As teses sobre o extermínio humano talvez não sejam, afinal, tão improváveis.

A neutralidade ética é característica desses tempos líquidos, apropriando-me aqui do termo utilizado por Zygmunt Bauman. O mal absoluto raramente dá suas caras, e o mal líquido se esconde atrás da neutralidade ética, que segundo Orwell, dá origem a nossa capacidade de sermos seletivos ao lidar com a angústia e o sofrimento humanos. É como se houvesse um operador habilidoso com capacidade de ligar e desligar a sensibilidade desses pequenos seres.

O mal absoluto é substituído pelo mal líquido, impessoal, em que mortes são tratadas como danos colaterais, em que a opressão vem encartada em linguagem tecnicista, em que a injustiça é mimetizada em equidade. A satisfação que o ego encontra em obedecer desliga a capacidade humana da empatia.

Nesse ambiente, os homens pequenos, sem qualidades, encontram seu sentido de vida. É dentre esses que Hannah Arendt classificou Adolf Eichmann, cuja figura levou a pensadora a cunhar a expressão “banalidade do mal” para o mal impessoal do cumpridor de ordens. A burocracia pública parece ser ambiente propício para o desenvolvimento desses seres.

Não sou dos que têm fé na evolução da sociedade ou no ser humano. Nossa história é repleta de avanços e retrocessos. Minha experiência me leva a crer, no entanto, que aquele que pratica injustiças com frequência costuma perder aquilo que mais valoriza. É nessa hora, retirada a teia de ilusões que lhes dá sustentação, que o julgamento moral começa a estar à espreita, pois segundo Kant, é o poder que corrompe o livre exercício da razão. Sem ele, os atos passados estão de volta ao escrutínio moral, assombrando suas vidas futuras.

Estamos em crise. É na crise que os humanos se revelam. Torçamos para que, em breve, todos os não essenciais estejam em casa. E nunca é demais repetir: fiquem em casa.

Gustavo Theodoro

O “OSCAR” sem Proteína

A cerimônia do Globo de Ouro de hoje à noite não servirá carne no jantar para os convidados. A refeição vegana atende aos imperativos dos progressistas da sociedade americana contemporânea. Em meio a reclamações acerca da indicação de Rick Gervais para apresentar o prêmio, a ausência de proteína no cardápio parece uma concessão ao politicamente correto.

Rick Gervais é acusado de não ser sensível às pautas identitárias. Além disso, o humorista já fez piadas com o alcoolismo de Mel Gibson e com os filhos adotivos de Angelina Jolie. Chegou a fazer humor ligando Roman Polanski ao temas de pedofilia. Pelos critérios atuais da cena política do Partido Democrata americano, o mínimo que se exigiria seria o banimento de Rick Gervais.

Gradualmente, os meios de comunicação estão descobrindo que os temas identitários, apesar de dominantes nos ambientes culturais progressistas, não interessa à maioria da população. Como a escolha do apresentador do Globo de Ouro coube à NBC, dona dos direitos de transmissão da cerimônia, foi contratado aquele que, segundo avaliação dos executivos, seria aprovado pela audiência.

São muito estreitos os caminhos que podem ser percorridos pelos antenados com as causas identitárias. Charlize Theron protagoniza o filme “O Escândalo”, que trata de uma história real envolvendo um executivo da odiada Fox News, Reger Ailes. Ele foi afastado da empresa após denúncias das principais âncoras da emissora, dentre as quais Megyn Kelly. Em princípio, seria um filme bem aceito pela costa oeste americana.

Megyn Kelly, no entanto, personagem de Charlize Theron, apesar de apresentada como vítima no contexto do #MeToo, deveria ser retratada de com cuidado. Afinal, era alguém que considerava um absurdo retratar o Papai Noel como negro, assim como não via problemas em quem pintava o rosto de preto para se fantasiar para o Halloween. Para que fosse viabilizado o projeto, foi necessário deixar claro que a vítima também era controversa.

Nem todos os problemas podem ser resolvidos resolvidos pela simples vontade das pessoas. A jornalista brasileira Ana Maria Bahiana é uma das eleitoras do Globo de Ouro. Ela lamenta que todas as produções que concorrem a melhor filme, dez no total, sejam dirigidas por homens brancos. Ela confessa ter votado em “um monte de filmes de mulheres”, mas ainda assim só homens foram indicados, mesmo o prêmio tendo a maioria dos votantes mulheres.

Na visão de mundo dessas pessoas, “homem branco” é quase um xingamento, ainda mais quando reunidos em grupo.

Enquanto isso Tarantino não podia dar uma entrevista sobre “Era uma vez em… Hollywood” sem que lhe perguntassem a razão de seus protagonistas serem masculinos. Chegaram a contar o número de palavras pronunciadas por Margot Robbie para comprovar a misoginia do diretor. “Para que contratar uma atriz como ela e não lhe dar falas?”. São estreitos os caminhos a percorrer para quem pretende estar em sintonia com os progressistas americanos.

Para completar o cenário, é de se esperar que os premiados façam piadas “inteligentes” sobre Trump. Enquanto o presidente americano segue se comunicando diretamente com o subempregado dos estados do norte – que, ao final, tendem a decidir as eleições novamente – a preocupação da maioria dos presentes à cerimônia de hoje é representar o papel que seu grupo minoritário espera. Ainda que, para isso, seja necessário se alimentar apenas de legumes cozidos. Pelo menos a bebida alcoólica não tem proteína e está liberada na premiação, o que nos faz esperar uma festa divertida, apesar de tudo.

Gustavo Theodoro

A Inútil Filosofia

Em uma das primeiras manifestações depois de empossado como Ministro da Educação, Abraham Weintraub declarou que iria reduzir as verbas destinadas ao estudo e ao ensino de filosofia e sociologia. Entre exemplos do Japão e alegações de respeito aos recursos públicos, foi sinalizado que o objetivo mais importante da universidade era permitir ao aluno encontrar, depois de formado, “um ofício que gere renda”.

Não se pode atribuir ineditismo a esse tipo de manifestação. Membros dos Governos FHC, Lula e Dilma em algum momento fizeram manifestação semelhante. Há uma terrível desconfiança em relação a essas áreas do conhecimento. Lá mesmo na inauguração da Filosofia Ocidental, na antiga Grécia, Sócrates foi condenado à morte acusado de corromper os jovens com seus debates inconclusivos.

Heidegger, possivelmente o maior e mais controverso filósofo do século XX, flertou com o Nazismo em 1933, quando assumiu a reitoria da Universidade de Freiburgo, demitindo-se da função pouco tempo depois. Mesmo tendo demonstrado apoio ao Nazismo nos primeiros momentos, antes da Segunda Guerra Heidegger já era visto com desconfiança pela elite Nazista, que considerava seus textos incompreensíveis e inúteis (há muito de verdade nessa afirmação). É bem conhecida a afirmação de Goebbels, Ministro da Propaganda de Hittler, que teria dito< “quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”. Isso partindo de alguém que certamente leu Kant – apesar de ter demonstrado em seu julgamento erros de compreensão dos imperativos categóricos – e apreciador de música erudita.

No bloco comunista, só autores referendados pelo Partido Único podiam publicar seus textos. Como era de se esperar, os escritos produzidos nesse tipo de ambiente não sobreviveram bem ao tempo. Salvador Allende, assim que assumiu o Governo do Chile, também instou a universidade produzir mais conhecimento útil, criticando indiretamente a tendência de aumentar a alocação de profissionais da área de humanas.

Observando por ângulo contrário, é cada dia mais difícil em todo mundo conseguir uma posição permanente em universidades na área de filosofia. Nos EUA, a concorrência chega a 300 doutores por vaga. Por isso é comum ouvirmos histórias de profissionais com três ou quatro PhDs. Nas universidades anglo-saxônicas, o pós-doutorado é, na verdade, uma forma de concessão de vínculo temporário aos milhares de doutores em filosofia e ciências sociais disponíveis no mercado.

Alan Guth, autor de uns dos artigos mais importantes do século XX na área de cosmologia, tem lançado em seu currículo quatros pós-doutorados. Quando questionado sobre isso, o famoso autor da teoria da inflação do universo disse que os PhDs se explicam pela dificuldade que ele teve em conseguir uma posição permanente em universidades. Os PhDs permitiram a ele seu sustento até que seu artigo mais importante fosse publicado e causasse grande impacto científico. Só então ele foi convidado para ser membro definitivo de um corpo docente.

Lucky Jim, escrito na década de 1950 pelo escritor inglês Kingsley Amis, retrata com um humor desconsertante a saga de Jim Dixon , um jovem estudante de história medieval em busca por colocação como docente em uma universidade de segunda linha. O retrato demolidor do ambiente universitário, a fábrica de intrigas, a simulação de profundidade, a desesperada busca por reconhecimento, as tentativas de afetar ambiente criativo, artístico, filosófico, nada escapa ao autor. Para quem conhece o meio, o livro é hilário.

No ambiente religioso, as dúvidas dos clérigos quanto à fé são tão comuns quanto dentre as pessoas comuns. Do mesmo modo as dúvidas sobre a necessidade de estudo das ciências humanas não são exclusivas da sociedade civil. Por que estudar uma ciência não empírica, de resultados não verificáveis, que produz textos em sua maioria herméticos, destinados preferencialmente a seus pares e que quase nunca, no caso brasileiro, transborda as fronteiras nacionais? Não haverá resposta fácil a esta pergunta.

A situação é agravada por uma característica exibida pelas ciências humanas, em especial pela filosofia: a impenetrabilidade. Kant é constantemente retratado como um autor de difícil leitura, mais por sua ambição de tratar de todos os aspectos da questão estudada e pela ausência de disposição em exemplificar, menos pelo hermetismo de seus textos. Nietzsche criou dificuldades muitas vezes insuperáveis à sua interpretação, seja pela opção pelas metáforas e alegorias, seja pela extensão de sua obra, seja pela falta de linearidade de seu pensamento. Heidegger escreveu um livro quase impenetrável (Ser e Tempo), incompleto (o prometido segundo volume nunca foi escrito), mas que ainda assim continha uma filosofia que, em diversas passagens, justificava seu estudo.

No final do século passado, Alan Sokal publicou um poderoso ataque ao estudo das ciência humanas. O físico Sokal havia se tornado famoso ao conseguir publicar um artigo na revista Social Text. A leitura cautelosa do artigo revela um notável embuste intelectual, com propostas non sense como a de que a “gravidade quântica” era uma construção social e linguística. O êxito na publicação do artigo revelou que a técnica escrever textos herméticos, tão cara aos pós-modernos, tinha livrado os pensadores da necessidade de significado. Em outras palavras, muitos dos textos publicados, repletos de citações, não passavam de embustes repletos de erudição vazia.

Logo depois Sokal escreveu um livro (Imposturas Intelectuais) abordando a utilização de conceitos científicos de base matemática pelos pós-modernos. Difícil ter o mesmo apreço intelectual por Jacques Lacan, Jean Baudrillard, Julia Kristeva, Deleuze e Guattari depois das análises do físico americano.

O silêncio dos intelectuais em momentos chave da história ajudaram a solapar seu prestígio. Os exemplos são muitos, vão desde o apoio de Sartre à URSS após os julgamentos forjados e após a invasão de Praga, até o apoio de nossos intelectuais ao petismo nos anos recentes.

O embate entre sociedade, Governo e a área de humanas não terá fim. A disputa por verbas e provedores é parte integrante da história das ciências sociais. As críticas a sua utilidade jamais lhe deram fim, tampouco a falta de verbas. O que de fato limita o pensamento é a censura, a ditadura e, em especial, o totalitarismo. Ainda que Weintraub tenha intenção de extinguir o estudo da filosofia, ele não obterá êxito. Orwell fez um personagem dizer em “1984” que “poder é estraçalhar a mente humana e depois juntar outra vez os pedaços, dando-lhe a forma que você quiser”. Por enquanto não temos um Governo com esse poder.

Gustavo Theodoro

Coragem e Liberdade

No início do século XX as revoluções tinham como principal promessa devolver a liberdade às pessoas, mais do que dividir a riqueza. Invariavelmente, no entanto, as liberdades conquistadas pelas revoluções rapidamente refluíram à medida que o novo Governo se consolidava.

É prática comum dos regimes autoritários calar a imprensa, os escritores, além de silenciar os filósofos e os intelectuais. À esquerda e à direita, a história se repete insistentemente. Se hoje temos Victor Orbán, na Hungria, que controlou a imprensa, combateu a universidade e gradualmente tem reduzido o campo de atuação da política, há dez anos tínhamos Hugo Chavez, há quarenta tínhamos nossa ditadura militar.

Os que questionam a liberdade costumam ter problemas antes e depois da revoluções. Pessoas de personalidade mais flexível, ao contrário, normalmente aderem a qualquer Governo, mesmo que tenham apoiado o anterior até o último momento. Lembrei-me desses truísmos ao ter contato com Levgueni Zamiatin, autor de “Nós”.

Esse romance, escrito entre 1920 e 1921, é a distopia em que Aldous Huxley se inspirou para escrever “Admirável Mundo Novo”. George Orwell tentou por anos ter acesso a ele na Inglaterra e só conseguiu um exemplar, em francês, em 1946. Certamente o livro serviu também a ele de inspiração para seu clássico “1984”.

Orwell é crítico da falta de coesão do livro de Zamiatin, que teria uma trama “frouxa e episódica”. No entanto, Orwell percebeu que, no aspecto político, “Nós” é superior a “Admirável Mundo Novo”. No utopia do autor russo, os habitantes do futuro perderam tão completamente a individualidade que são conhecidos por números. A matemática, a higiene e a ordem são louvadas, enquanto as ciências humanas, a sujeira e a individualidade são combatidas.

O regime soviético, ainda em transição de Lênin para Stálin, não apreciou o livro, que teve sua publicação censurada. Só o conhecemos hoje pelo fato de ele ter tido uma cópia contrabandeada para a França, onde foi traduzido e publicado. É natural que esse fosse seu destino. Orwell seleciona um trecho que reproduzo abaixo, que torna evidente o desagrado que o tema poderia ter provocado naquele regime.

Você compreende que o que está sugerindo é revolução?

Certamente, é revolução. Por que não?

Porque não pode haver uma revolução. Nossa revolução foi a última e não pode haver outra. Todos sabem disso.

Meu querido, você é matemático; me diga: qual o último número?

Mas isso é absurdo. Números são infinitos. Não pode haver último.

Então por que você fala sobre a última revolução.

Nenhuma revolução será a última, nem há fim da história. Esse é um pensamento revolucionário. Na década de 1930 Zamiatin, que havia sido preso em 1905 pelo regime czarista por sua filiação ao movimento bolchevique, foi novamente preso por Stálin e condenado à morte. Sua peças se abrandaram, mas ainda assim ele não tinha autorização para serem encenadas. Todos os seus escritos gradualmente passaram a ser censurados.

Em 1932, condenado à morte, Zamiatin escreveu uma carta à Stálin. Seu pedido era até simples: exílio. Impressiona a coragem com que a carta foi escrita, além da indisfarçável ironia. Seleciono alguns trechos:

O autor da presente carta, condenado ao castigo mais elevado, apela ao senhor com um pedido de mudança de punição. Provavelmente, o senhor conhece o meu nome. Para mim, como escritor, ser privado de escrever é como uma sentença de morte. Ainda assim a situação que se delineou é tal que eu não posso continuar meu trabalho, pois nenhuma atividade criativa é possível em uma atmosfera de perseguição sistemática, que aumenta de intensidade a cada ano.

Não tenho a intenção de me apresentar como imagem da inocência ferida. Sei que, entre as obras que escrevi durante os primeiros três ou quatro anos após a Revolução, havia algumas que poderiam oferecer pretexto para ataques. Eu sei que tenho o hábito altamente inconveniente de dizer o que eu considero ser a verdade em vez de dizer o que pode ser conveniente no momento. Em particular, nunca disfarcei minha atitude em relação ao servilismo literário, à bajulação e mudanças camaleônicas…

Carta de Zimiatin a Stálin

O resto da carta segue nesse mesmo estilo. Confesso que não sei como ele saiu vivo de lá. Percebe-se que sua coragem ultrapassava em muito seu senso de preservação. Coragem sempre foi tida como a principal das virtudes políticas. Aristóteles ia além ao dizer que “a coragem é a primeira das virtudes, pois garante todas as outras”. Sem ela, de nada serve a criação de um ambiente de liberdade onde os cidadãos possam atuar politicamente. Em tempos em que a liberdade é tão discutida, o exemplo de Zamiatin não deve ser esquecido.

Gustavo Theodoro

Sobre a Desonestidade

É desconcertante constatar que cidadãos de países em que se verifica corrupção sistêmica, ao visitarem países de maior grau civilizatório, tendem a se comportar de acordo com as regras do país visitado, respeitando os limites de velocidade, descartando o lixo adequadamente, aguardando nas filas e assim por diante. Logo que retornam a seus países, no entanto, voltam a jogar lixo no chão, furar filas e tentar levar vantagem onde puderem.

A pergunta que se coloca é por que a pessoa que tem capacidade de diferenciar comportamentos opta pela desonestidade em um ambiente e pela honestidade em outro. Indaga-se ainda que medidas podem ser tomadas para que a tendência à desonestidade, presente em quase todo o ser humano, possa ser moderada.

Com o advento da modernidade e a declarada “morte de Deus”, a filosofia moral viu-se às voltas com a ausência de balizas firmes para o comportamento humano. Se tudo é permitido, seria necessário estabelecer um contrato entre as pessoas para que a vida em sociedade se tornasse aceitável. Em um Estado-Nação, no entanto, esse contrato nunca é assinado, ele é tácito. A civilização nos precede e provavelmente continuará existindo diante da nossa ausência. Cumprir o contrato social, na sua totalidade, não passa de uma escolha.

Nos países em que a miséria é grande, onde a injustiça é muito evidente, a adesão ao contrato social é fraca e parcial. Disse Saint-Just que “caso se deseje fundar uma república, primeiro se deve tirar o povo da condição de miséria que o corrompe. Não há virtudes políticas sem orgulho e ninguém pode se orgulhar quando está na indigência.”

A pessoa que visita outros países, no entanto, normalmente pertence ao segmento mais educado da sociedade, à elite econômica, que percebe a injustiça social de seu país de origem de um lugar privilegiado. A explicação de Saint-Just não se aplica a ela.

Kant, diante das dificuldade impostas pelo seu tempo, utilizou a razão como lastro para a moralidade. Os sentidos nos dão conhecimento parcial da coisas tais como elas são. A liberdade dos regimes republicanos nos leva à necessidade de pensar. O pensamento, segundo Kant, nos levaria a identificar o “valor moral” das ações, de modo que a “vontade da razão” passaria a ser identificada com dever moral. “Quem quer os fins quer os meios“. Isso vai além do que propôs Rousseau: “o povo, submisso às leis, deve ser autor delas“. Os imperativos categóricos decorrem do poder do pensamento, que identifica a conduta que “eu possa também querer que minha máxima se torne uma lei universal“.

Isso é muito mais do que seguir um contrato, é escrever um contrato unilateral, fundado no valor moral das ações, em que não há prevalência dos fins sobre os meios. É um nível tão alto de rigor moral que os filósofos modernos buscam moderar essas teses, de modo que seja possível conciliar o imperativo categórico com, por exemplo, a segurança pessoal, mas também com a natureza precária e ambivalente de nossas vidas.

A teoria econômica tende a enxergar o homem como o indivíduo sempre pronto a maximizar seus ganhos. Se há vantagem no comportamento desonesto, sendo o risco pequeno e o ganho alto, a previsão dessa teoria é de que a desonestidade seria predominante. Essa visão unidimensional leva a teses de que o único remédio para esse mal seria aumentar o risco da desonestidade ser observada e a magnitude da punição.

O fracasso dessas políticas, quando aplicadas isoladamente, é evidente. A guerra ao tráfico, o combate ao contrabando de cigarros e até mesmo as estratégias de combate à sonegação fiscal são exemplos disso. A Receita Federal Americana (IRS) aumentou o número de auditorias realizadas no início dos anos 2000, mas o valor sonegado não se alterou; manteve-se em torno de 15%.

Kant pode ter sido excessivamente otimista com relação à racionalidade humana. No entanto, as simplificadoras teses de combate a impunidade e aumento de penas, ainda que no Brasil a impunidade seja alta, não darão conta da tarefa de produzirmos um ambiente de maior honestidade e, consequentemente, respeito ao próximo. Uma das discussões interessantes do século – ah, esses teóricos! – diziam respeito à diferenciação entre cultura e civilização. Podemos ser capazes de aprender regras sociais, comportarmo-nos bem à mesa, ou seja, sermos civilizados, e ainda assim não sermos capazes de criarmos uma sociedade que se pudesse viver em acordo com um “valor moral” nos termos kantianos.

As modernas pesquisas comportamentais revelam que o homem é mais do que um conjunto de interesses próprios. A forma como nos vemos é importante. O auto-engano é um mecanismo de defesa que utilizamos para justificar comportamentos no limite da desonestidade.

“Eu ultrapassei a velocidade permitida para não chegar atrasado ao trabalho”; “Deixei de declarar o imposto porque o Governo não faz uma aplicação adequada dos recursos”; “Não respeitei a fila, pois meu caso era urgente”. São justificativas comuns que se suportam no auto-engano. A curva clássica da desonestidade informa que as pessoas cometem pequenas desonestidades para obterem pequenos prêmios. Há um patamar em que o freio moral é acionado e que, mesmo com o aumento do prêmio, o comportamento desonesto não aumenta. Se o prêmio continua crescendo, o comportamento desonesto, em regra, volta a crescer.

A força que atua no patamar em que o auto-engano não se aplica é a que guarda relação com as teorias morais. É essa força que merece ser estudada.

A literatura apresenta algumas boas sugestões que vão além do aumento da chance de ser pego e das punições. Uma das sugestões está no incremento da educação, que faz reforçar os mecanismos de recompensa internos. Outra tem relação com a identificação dos auto-enganos mais comuns em cada área de atuação. O estabelecimento de códigos de ética e sua rememoração constante – por meio de assinatura de termo de compromissos, por exemplo,- também têm seu papel.

Não é possível prever qual o tempo necessário para tornar um país culturalmente desenvolvido, a ponto de seus cidadãos se sentirem internamente recompensados por suas atitudes corretas. No entanto, um passo importante nessa direção passa pelo reconhecimento da complexidade ligada ao comportamento honesto e pela refutação das teses que nos identificam com o homo economicus. Tornar acessível em linguagem clara temas sobre os quais velhos filósofos já refletiram também pode ajudar. Espero ser capaz de dar pelo menos essa contribuição.

Gustavo Theodoro

Honestidade Intelectual

Em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade. Ocorre que a humanidade parece sempre estar em guerra, visto que a mentira e a manipulação raramente deixam de ser observadas. Em qualquer período histórico que se escolha, a verdade teve imenso trabalho para vir à luz.

Muito disso de deve aos que tendem a aderir a pessoas ou ideias e, ao invés de aplicar seu julgamento com independência, passam a dispor de sua razão, sua energia e sua inteligência para defender um dos lados da polêmica, mesmo que, para tanto, seja necessário abrir mão da lógica e da coerência, ou, em outras palavras, de sua própria razão.

Voltando os olhos para o passado, percebemos como, em tempos de grande divisão, poucos foram os que deixaram de sucumbir às opiniões que os cercavam ou aderiram a caminhos questionáveis. Heidegger, o grande filósofo de Ser e Tempo, raramente deixa de ter lembrada sua  breve adesão ao Nazismo. Sartre, com sua grande capacidade de pensar e escrever, parece nunca ter tomado boa decisão no campo política, apoiando o Stalinismo em seus piores momentos, assim como Mao, para depois desfilar com Fidel, dentre outros. Sua lista de más escolhas não é pequena.

O século XX é repleto de exemplos de situações extremas que levaram intelectuais a relevar fatos para manterem suas crenças. Stálin tem seus defensores até nos dias atuais, mesmo com as comprovações do holocausto ucraniano pela fome, dos assassinatos em massa de oficiais poloneses, dos julgamentos forjados, dentre outras atrocidades cometidas pelo ditador. O paralelo no Brasil, ainda que fornecido em tintas menos vivas, pode ser tratado a partir da análise dos governos de esquerda dos últimos anos.

Havia indícios de que o Governo Lula não seria regido pela ética. Já em 2003, houve uma corrida de empresários tentando financiar um dos filhos do Presidente. Daniel Dantas injetou dinheiro na Gamecorp, mas foi uma companhia telefônica que fez os lances mais altos. Os fatos já estavam lá, noticiados à época. Alguns levantaram sobrancelhas. Mas a maioria relevou os maus indícios.

Em 2005, no mensalão, Duda Mendonça reconheceu que recebeu milhões de dólares em paraísos fiscais. Parlamentares foram comprados para votar com o Governo. De lá para cá, a número de provas dessa falta de comprometimento ético só fez aumentar. E mesmo assim, nossos intelectuais, assim como os intelectuais europeus da época da guerra fria, recusaram-se a referendar as críticas. Pelo contrário, comportamento ético, assim como no período stalinista, passou a ser descrito como “moralidade burguesa”.

Os freios mentais que deságuam nesse comportamento são bem conhecidos. Primeiro, são esgrimidos os argumentos mais elementares, de que criticar o lado em que se está favorece o outro, como se o mundo fosse assim, dual e simples. “Fiquemos quietos, renunciemos a nossos parâmetros éticos, pois senão a direita volta.” Depois, aparecem as tentativas de racionalização, envolvendo ideias de igualdade, crescimento e desigualdade social. Na prática, são argumentos equivalentes àqueles menos elaborados: “ele rouba, mas faz”.

Fazer críticas a questões centrais implica desfazer os próprios laços sociais que sustentam esses intelectuais. Todos aqueles por quem o intelectual tem estima estão deste lado. A frase de Hemingway “Quem estará nas trincheiras ao teu lado? ‐ E isso importa? ‐ Mais do que a própria guerra” é constantemente ecoada, sem que cada um perceba o quanto isso revela, do quanto se está abrindo mão para permanecer ligado aos seus.

O caminho da ruptura não é alegre e acolhedor, evidentemente. Albert Camus perdeu seus melhores amigos quando rompeu com o stalinismo. Mantendo-se como um pensador de esquerda, não foi aceito em nenhum círculo. George Orwell jamais abandonou a esquerda. Mas o testemunho dele dos acontecimentos na Guerra Civil Espanhola, em que os comunistas sabotaram o movimento republicano, os levaram a questionar o totalitarismo soviético.

Apesar de sua formação clássica, na esnobe Eton, de sua origem abastada, Orwell jamais se deixou corromper. O período na Birmânia o levou à abandonar a vida economicamente estável de funcionário da Coroa. Viveu do que escrevia e por toda vida teve dúvidas se teria dinheiro para pagar o jantar. Ao escrever sobre sua experiência na Catalunha, perdeu quase todos os seus amigos na esquerda. Como nunca suportou a superficialidade e a ignorância da elite, nem o autoritarismo fascista, seu isolamento sempre esteve presente.

Esse é o destino que todos tentam evitar, mas é alto o preço intelectual a ser pago. É provável que estejamos testemunhando, aqui no Brasil, uma virada na opinião pública. Gradualmente percebe-se uma literatura de direita disponível nas livrarias, jornais e programas de rádio se oferecem para esse público. Com o Governo Bolsonaro eleito, já se percebe que suas falhas e desvios éticos tendem a ser relevados em nome de se “evitar a volta do PT”. A conferir. Como vimos, é alto o preço da honestidade intelectual. E nem todos estão disposto a pagá-lo.

Gustavo Theodoro

 

Perder é Ganhar

A Itália luta para controlar o déficit público. Foi possível limitá-lo em 2,4% para o ano que vem. Aqui vemos os candidatos brigando muito para ser presidente. Tenho dúvidas das razões. Será que eles sabem o que os esperam?

Lembro que o PT, ao receber o Governo de FHC, disse ter recebido uma “herança maldita”. Mas vejam, o superávit primário em 2002 ficou em 4,4% do PIB. Superávit, repito. O custo da previdência estava em torno de 5% do PIB. Hoje a situação é muito pior.

O déficit primário está em 1,9% do PIB. O déficit nominal projetado para 2019 está em quase 7% (a Itália foi admoestada pela União Europeia por seu déficit de 2,4%). Nossa dívida pública pode chegar a 100% do PIB em dois anos. O bônus demográfico está no fim. O gasto previdenciário deve chegar a 8,5%.

Haddad prometeu isenção do IRPF para os que ganham até cinco salários mínimos. São mais 70 bilhões, para se somar ao déficit de R$ 170 bilhões. Paulo Guedes disse que vai arrecadar R$ 1 trilhão vendendo estatais. Zaina Latif designou esse número como o maior “terreno na lua” dessas eleições. O posto ipiranga não tem ideia de como funciona a máquina pública.

O clima das eleições está acirrado. E o próximo governante terá que fazer um rigoroso ajuste. O Ciro mentiu para vocês: não gastamos 50% com juros, mas 4,4% líquido. Não é esse nosso calcanhar de Aquiles.

Se o presidente eleito não fizer o ajuste, terá que seguir por algum caminho heterodoxo, seja pelo caminho do keynesianismo brasileiro (aumenta o gasto público a qualquer preço que o crescimento futuro nos devolverá recursos), seja pela inflação, seja pelo calote nos detentores de títulos públicos (aplicadores em tesouro direito e fundo DI), seja pela maquiagem das contas públicas (como as pedaladas fiscais), ou, não duvido, pela criação de um imposto exótico (o imposto sobre o spread é um ótimo exemplo disso).

Conclusão. Se 2014 já era uma boa eleição para se perder, a de 2018 a derrota deveria ser perseguida com afinco por todos. Acho muito difícil que o próximo governo não fracasse. Vamos torcer para nossa democracia resistir a isso. E dar uma boa conferida no nome dos candidatos a vice-presidente.

Gustavo Theodoro