realidade compartilhada

Realidade Compartilhada

A pandemia do coronavírus no Brasil tornou ainda mais visível a imensa divisão de nossa sociedade. Constato que os meios de informação já não são compartilhados, a realidade é mediada por uma imprensa não profissional. Os aplicativos de mensagem facilitaram a disseminação de informações falsas. Milhares de vozes se misturaram, provocando imenso ruído e diminuindo nossa capacidade de distinguir fatos de versões.

Esse tipo de funcionamento das mídias sociais formou as conhecidas bolhas, que dividem grupos expostos a realidades alternativas. A consequência disso é a aparente impossibilidade de trocas de experiência e visões do mundo.

Sócrates usava seu método descrito nos diálogos de Platão com único objetivo: a busca da verdade. Essa forma de debater está sendo gradualmente superada pelas técnicas utilizadas nas redes sociais, com o “cancelamento de pessoas” e o bloqueio dos que pensam diferente. Sem conversar não é possível encontrar pontos em comum a partir dos quais o diálogo é possível.

Não afirmo que conversar sempre permita a aproximação das pessoas. Resgato aqui A Pastoral Americana, o premiado livro de Philip Roth que, em um de seus aspectos, relata a dificuldade de diálogo entre Seymour Levov, um judeu que acreditava nos EUA liberal e tolerante, e sua filha, Merry, que passa por um processo de radicalização.

Fiel a seu sistema de crenças e a sua fé na capacidade do ser humano de agir racionalmente, Seymour tentou de todas as formas se comunicar com Merry. O diálogo entre adolescentes e adultos quase nunca é simples, visto que eles enxergam o mundo de ângulos diferentes. Enquanto o jovem tem expectativas quanto ao futuro, não teve oportunidade de testar sua potência nem por em prática suas ideias, os pais em geral já acumularam frustrações, derrotas e vitórias como parte da construção de seu lugar do mundo, tornando-os mais pragmáticos.

Nessa dissociação, o diálogo torna-se problemático. Daí a importância que a filosofia já deu às “pessoas de boa vontade”, aquelas cujo objetivo não é vencer o debate, mas conhecer o ponto de vista do outro para, talvez, inclusive acolhê-lo. Sendo uma idade de afirmação, a adolescência costuma desafiar até boas condutas do mundo adulto. Esses desafios darão contornos finais à personalidade do jovem em formação. A combinação entre idade desafiadora e divergência de perspectivas torna árdua a busca por pontos de contato.

Há semelhanças entre esse desencontro e o processo a que testemunhamos de separação dos polos políticos. Não se percebe boa vontade nos debates. Não há busca por troca ou compreensão dos pontos de vista diferentes. A emergência de termos como “lacrar” e “cancelamento” é demonstração disso. A “lacração” retrata um golpe bem aplicado contra o inimigo para regojizo de sua torcida, enquanto o “cancelamento” é o apagamento de alguém que teria produzido um pensamento “não adequado”. Não é assim que vamos evoluir como sociedade e pelo menos o mundo adulto não deveria admitir a persistência nesse caminho.

O comportamento extremista permeia as redes sociais e parece não haver como evitá-lo completamente. No entanto, é grave que a chamada “imprensa alternativa” o tenha adotado como prática cotidiana. Eu, que não sou nem petista nem bolsonarista, pude acompanhar a evolução desse tipo de fenômeno. Os blogs de esquerda da época dos governos petistas pouco diferiam da imprensa bolonarista hoje existente. O tom das críticas, no entanto, subiu no bolsonarismo.

Parece mesmo haver um movimento organizado para enfraquecer as instituições com vistas a um golpe no estilo Hugo Chávez, de quem Bolsonaro já se declarou admirador. A reação das instituições, no entanto, parece ainda ter forças para, se não impedir, pelo menos retardar o processo. Não se sabe até quando.

O mínimo que deveríamos aprender de nossa história recente é que abandonar a imprensa tradicional não nos traz benefício a longo prazo. Se há críticas pertinentes a fazer quanto a sua atuação, há um código de ética a ser seguido pela mídia tradicional, como atentar para os fatos, ouvir o outro lado e desvincular a parte comercial da editoria de notícias. A chamada mídia alternativa não cumpre quase nenhuma dessas regras, servindo para alimentar uma realidade paralela que, ao final, torna impossível até mesmo conversar com os outros, por absoluta falta de realidade compartilhada.

Ao final, as pessoas passam a acreditar mesmo que a ciência já comprovou os benefícios da coloroquina, que a auditoria da dívida nos dará dinheiro para nos dispensar dos sacrifícios, que o comunismo está para voltar a qualquer momento e que o coronavírus foi inventado para apressar o processo e que o novo marco legal do saneamento irá nos privar da água limpa e barata. O aprofundamento nesses assuntos revelaria que nenhuma das afirmativas está correta. Em sentido contrário, a “mídia alternativa” não se cansa de propagar teses incorretas e inverdades a respeito desses temas, tornando suas plateias – uso aqui um termo duro – fanatizadas.

A reconstrução do espaço público passará, inevitavelmente, pela recuperação de uma realidade compartilhada, sobre a qual possamos divergir e convergir, como adversários ou aliados políticos, mas nunca como inimigos ou militantes de seitas. Uma pandemia não apresenta lado positivo. Podemos, no entanto, fazer uso dela para induzir momentos de reflexão diante da crise, a partir dos erros que temos cometido, para que possamos dar passos na direção de uma sociedade mais empática, com maior capacidade de resolver conflitos e capaz de dar respostas às sempre crescentes demandas que se apresentam.

Para ajudar nesse processo deixo um único conselho de ordem prática: informem-se mais pelos jornais e menos pelas redes sociais. Escrevendo de forma ainda mais sucinta: assinem e leiam jornais.

Gustavo Theodoro