Juros, Câmbio e os Erros do Governo

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Há alguns dias anunciei que abordaria os fundamentos da crise brasileira indo além da velha discussão do tripé econômico. O debate, quando é levado apenas nesses termos, costuma ser vazio, pois não considera que, por trás destes fatores claramente identificáveis, há outros, de mensuração mais complexa, que nem sempre penetra no debate político, como educação, cultura, ciclos produtivos, infraestrutura e pesquisa científica aplicada.

Hoje no entanto farei o que disse que evitaria: entrar neste debate cuja falta de substância costumo criticar. Isto porque há alguns erros cometidos pelo Governo nos últimos anos que se referem quase que exclusivamente a isso: política de juros, câmbio e gastos públicos. E não me digam que não há crise à vista, já que o desemprego está baixo e a renda tem subido. Sabemos que os efeitos econômicos se propagam no decorrer dos anos. Entre 2004 e 2005, os números do Brasil eram ótimos – exportações em alta, saldo comercial positivo, câmbio sob controle –, mas o povo ainda não tinha sentido os efeitos da boa condução da política econômica de então.

No segundo Governo Lula, foi reduzida a qualidade da política econômica, mas os bons efeitos da herança pretérita começaram a aparecer. O desemprego iniciou seu ciclo de baixa, a renda começou a aumentar e a economia cresceu em níveis superiores aos observados nos últimos vinte anos. No Governo em curso, se forem confirmadas as previsões do mercado apuradas pelo Banco Central, o Governo Dilma apresentará o pior crescimento desde o mandato de Fernando Collor, tratando-se do terceiro pior crescimento da história do Brasil. Logo, há crise no Brasil, e ela independe da crise internacional, visto que outros países emergentes têm apresentado crescimento superior ao nosso, tal como o Chile, o Peru, a Colômbia e o México. Vamos aqui propor uma discussão a respeito dos erros cometidos no segundo Governo Lula e no Governo Dilma que nos levaram a esta situação.

Em 2008 o mundo foi surpreendido por uma crise de grandes proporções. Para alguns analistas, tratou-se da maior crise econômica desde o crash de 1929. A crise atingiu em cheio os países desenvolvidos, mas seus efeitos se espalharam pela periferia do mundo. No Brasil, algumas empresas foram severamente afetadas por terem atuado no mercado especulativo cambial. Mais grave foi a crise de crédito, que secou o capital de giro das empresas.

Nos EUA estávamos diante de típica crise de correção em face de estouro de bolha imobiliária. Dado o alto grau de alavancagem, a crise atingiu potencial explosivo. A velha receita de Keynes com tempero de Bernanke conseguiu controlar a crise, estancando o processo de quebra de bancos e empresas que, aí sim, poderia nos levar a crise semelhante a de 1929.

No Brasil, não tínhamos estouro de bolha. Tínhamos apenas crise de crédito e redução da poupança externa, de efeito claramente temporário. O país havia acumulado reservas internacionais nos anos pregressos como resultado de uma balança comercial favorável e de razoável nível de financiamento externo. O momento era propício para resolver um velho problema nosso: o fato de termos as mais altas taxas de juros do mundo.

Por razões não são totalmente claras para os analistas, nossa poupança privada é muito baixa. Com isso, a inflação é quase insensível à política de juros, pois a alta dos juros não provoca aumento na poupança privada. Para complicar ainda mais o quadro, o governo tem insistido nas políticas de incentivo ao aumento da demanda – que há alguns anos já está aquecida no país –, impedindo que os ganhos de renda se direcionem à poupança privada (contribuindo novamente para a redução do impacto do aumento dos juros sobre a inflação).

Ocorre que a equipe econômica entre 2008 e 2009 comportou-se como se a crise ameaçasse deixar o Brasil numa situação semelhante aos países desenvolvidos, onde a redução da demanda teve caráter permanente em razão do estouro da bolha. Aqui não houve estouro de bolha nem aumento da poupança privada. Assim, era praticamente nulo o risco de adentrarmos no ciclo de uma típica estagnação keynesiana. Como se fosse esse o caso, o Governo resolveu reagir à crise com uma política fiscal agressiva de aumento dos gastos públicos. E o Governo o fez por meio dos gastos de pior qualidade, dos gastos públicos correntes, e não nos gastos de investimento.

Evidentemente a decisão teve importantes dividendos políticos, com o crescimento de 7,5% do PIB em 2010, crescimento este coincidente com o ano eleitoral. Enquanto o mundo desenvolvido enfrentava sua crise, o Brasil parecia se descolar do mundo, mostrando uma força que nossa economia – agora sabemos – não tinha. Até a revista The Economist acreditou que tínhamos superado nosso ciclo de voo de galinha. Mal sabiam eles que nosso voo já estava em seu ciclo final.

O fato é que a crise abriu uma oportunidade extraordinária para uma redução mais agressiva dos juros – no mesmo momento em que a maioria dos países desenvolvidos estavam tomando a mesma medida –, visto que a desvalorização que ela acarretaria poderia não impactar a inflação diante do aumento concomitante da poupança externa ocorrida logo após o desvanecimento dos primeiros efeitos da crise. São momentos raros como esses poderiam ser utilizados para colocar nossos juros e câmbio em outro patamar, sem os efeitos perversos que normalmente essas medidas acarretam, como a disparada da inflação. O México seguiu o caminho aqui preconizado e conseguiu estabelecer um novo patamar de juros e crescimento.

A política fiscal expansionista, fruto de uma má leitura de Keynes, gerou o crescimento de 2010 e provavelmente é responsável por parte do aumento da renda e pela queda do desemprego nos anos recentes. O ajuste, infelizmente, está a caminho. O Banco Central foi obrigado a voltar aos velhos patamares de juros. A inflação adquiriu uma imunidade que tem afetado as expectativas futuras. Tudo indica que gastamos nesses últimos anos o que teremos que economizar nos próximos. E não conseguimos trazer os juros para um patamar compatível com os demais emergentes, implicando consideráveis gastos com pagamentos de juros, o que implica redução em nossa capacidade de investimento e aumento na dívida bruta. Tudo isso piora nossa situação fiscal e reduz as expectativas do mercado, resultando num ciclo vicioso de difícil solução.

Eu sei que quase todos os economistas elogiaram o comportamento da equipe econômica nos anos pós crise (2008 e 2009). Por questões de lógica, considero impossível que uma política econômica correta tenha nos trazido a este pífio crescimento econômico a que temos testemunhado nos últimos anos. E eu não me adiro às teses de que não precisamos mais de crescimento econômico, como têm defendido alguns economistas de renome no país. Sem produzir mais riqueza, seremos incapazes de distribuí-la. Logo, a crise de crescimento por que estamos passando tem impacto direto no nosso futuro. Ou voltamos a crescer ou continuaremos na periferia do mundo. A oportunidade surgida na crise de 2008 foi perdida. Isto torna o caminho mais difícil, mas é necessário que retomemos o rumo que nos leve ao crescimento sustentável. Aguardemos os debates eleitorais para descobrir quem é capaz de apontar os caminhos corretos.

Gustavo Theodoro

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