A Novidade do Mundo

Nada mais surgirá exceto aquilo que já existia, era o que afirmava Hegel, o primeiro que se dedicou à filosofia da história, talvez o primeiro propagador do fim da história, tão em voga nos anos 1990. No começo deste processo eleitoral, revelei meu desagrado com as opções disponíveis, pois parecia que estávamos diante de mais do mesmo, da repetição da velha ladainha que se repetia. Mas, como dizia Lope de Vega, yo sucedo a mi mismo. Às vezes o que antes eu olhava com desagrado, hoje percebo o mesmo fato com uma sensação diferente.

Muito disso se deve a meu gosto pelo debate, condição primeva da democracia. O cansaço com a política ou com a repetição dos discurso e chavões desaparece quando nos colocamos no mundo publicamente, quando tomamos parte dos acontecimentos, quando descemos a montanha mágica rumo ao mundo das aparências de Platão, onde praticamos a vida ativa.

Observo ainda a importância da palavra, que não parece ser acessória ao raciocínio. Era esse o entendimento de Hobbes sobre o termo logos, que significa, ao mesmo tempo, linguagem e razão em grego. Para ele, isso se deve não ao fato de eles pensarem que não havia linguagem sem razão, mas sim que não havia raciocínio sem linguagem. Nesse sentido, é a linguagem é que parece abrir caminho para o raciocínio.

É nesse campo que o pensar alargado de Kant não atua propriamente. Kant tinha forte convicção de que nossa imaginação nos forneceria os pontos de vista para uma boa tomada de decisão. Mas a prática me revelou que só o embate, preferencialmente o embate com os que pensam de forma diferente, é que torna mais consistentes nossos argumentos e mais firmes nossos julgamentos. Por isso o amor ao contraditório é essencial ao bom político, pois entender o posicionamento do próximo é uma demonstração de empatia, essencial à vida pública.

Amanhã é dia de eleições. Espero que seja um dia de paz. E que cada um tome suas decisões pelos motivos que lhes parecerem mais legítimos, com a certeza de que sua escolha jamais estará errada. O processo de escolha do candidato termina no dia em que depositamos nosso voto na urna. Mas tudo começa com o olhar interessado que despertamos pelo mundo, mesmo quando tudo parece se repetir. Para explicar melhor essa ideia, nada melhor do que recorrer a nosso mestre, Fernando Pessoa:

Sei ter o pasmo essencial

Que teria uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera, deveras,

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo.

Foi esse início resultou em envolvimento, debates e decisões de todos nós. A escolha de cada um está feita. Resta amanhã aceitarmos o resultado, qualquer que seja ele. E torcer para que o eleito seja capaz de reunificar o País, que esteve tão dividido nos últimos dias.

Gustavo Theodoro

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