O Partido e o Futuro

divisão

Desde 1994 dois partidos dominam a cena política brasileira. Os analistas costumavam dizer que tanto o PT quanto o PSDB detinham cerca de 33% do eleitorado, sendo o outro terço responsável pela decisão das eleições nacionais majoritárias. O PSDB venceu duas eleições no primeiro turno. O PT tinha vencido, até agora, três eleições, todas no segundo turno. A quarta vitória foi assegurada em 26 de outubro de 2014. Apesar da aparente normalidade, algo parece ter mudado e as consequências disso não são pequenas.

Tanto o PSDB quanto o PMDB conseguiram importantes vitórias nas eleições estaduais. No entanto, é inegável o protagonismo que o PT assumiu no plano nacional. A ponto de identificarmos claramente duas forças políticas antagônicas nessas eleições: o petismo e o antipetismo. Os dois movimentos são potencializados por grupos menores e mais radicais, mas mesmo entre os moderados a divisão é bastante nítida.

Partidos são partes do todo. Seu significado decorre mesmo da ideia de divisão, que é saudável para qualquer democracia. Não vejo com bons olhos, no entanto, o acirramento dessa divisão. Até porque isso criará mais dificuldades para o futuro governo.

O ambiente no Congresso Nacional é de crise política. O PMDB se prepara para impor mais derrotas ao PT, principalmente se for confirmada a eleição do poderoso e muito bem relacionado político fluminense Eduardo Cunha para Presidente da Câmara. Sairá caro para o Governo essa eleição, se é que vocês me entendem.

Além disso, a base aliada está ansiosa. Paulo Roberto Costa semanalmente grava depoimentos na justiça em seu processo de delação premiada. Alberto Youssef também tem se dedicado a detalhar a lavagem de dinheiro que lhe cabia. Youssef era um dos doleiros mais importantes do País. Faz-se necessário esclarecer que é raro um bandido que não precise lavar o dinheiro proveniente do roubo. Na maioria das vezes, são os doleiros que cuidam disso. Por isso Youssef é tão explosivo: ninguém sabe que nomes podem aparecer em sua lista. Sua agenda foi apreendida. E a Youssef a mentira não socorre. Se for pego mentindo, pode terminar seus dias na cadeia. Por isso sua denúncia envolvendo Dilma Roussef é tão grave.

Além disso, duas construtoras, a Odebrecht e a Camargo Corrêa, parecem estar negociando um acordo de leniência. Acordo de leniência é o equivalente à delação premiada, sendo que esta se aplica à pessoa física, enquanto aquela à pessoa jurídica. Paulo Roberto Costa disse que, se ele falasse tudo o que sabia, não haveria eleições. É inimaginável o efeito de acordos de leniência envolvendo duas das maiores construtoras do País. Logo, a situação política do novo Governo é, para dizer pouco, imprevisível.

Mas isso não é tudo. É opinião unânime entre os analistas que 2015 será um ano difícil. Esperava-se, no entanto, que fosse um ano de ajustes. Hoje Guido Mantega declarou que, se Dilma ganhou as eleições, é porque estávamos indo no caminho correto. Preocupante essa declaração. Tanto que o mercado reagiu muito mal a ela.

Como se sabe, a atual equipe econômica – e isso inclui a Presidente – acredita que cabe ao governo mudar a matriz econômica do país. Usa para isso o financiamento dos bancos públicos, que atendem, preferencialmente, aos empresários amigos do Governo. Essa política nos ofertou o menor crescimento dos últimos 100 anos. No entanto, durante a campanha o PT acusou o PSDB que adotar políticas neoliberais e que a primeira medida do PSDB seria um ajuste fiscal, que visaria a economizar recursos para pagar os rentistas. A Presidente afirmou ainda que, para a inflação baixar, era necessário desempregar e subir os juros. Parece que sua visão não se alterou com os erros cometidos.

Com isso, há sinais de que a nova equipe econômica optará por não cortar gastos. Ou, pelo menos, por não cortar a quantidade necessária à recuperação da confiança internacional em nossa economia. É imprescindível compreender que economia está muito relacionada à percepção. A publicidade pode ajudar a vencer eleições, mas é inútil na atuação sobre a percepção dos agentes econômicos. É o PIB, a poupança privada, o superávit primário, a taxa de investimento e os demais indicadores básicos da economia que são considerados. Sem a confiança de que a inflação estará sob controle, de que as contas públicas estão dentro de padrões internacionais, o país não recebe novos investimentos privados. Sem investimentos não há crescimento. Sem crescimento não há recursos para política públicas e para investimentos.

Para 2015 há, ainda, a herança deixada do atual Governo. Gastos públicos foram transformados em empréstimos por meio de maquiagem fiscal, quando não foram simplesmente suportados pelos bancos públicos, num inacreditável renascimento da Banco Conta Movimento do BB, que nos deixou de herança um prejuízo de bilhões de dólares há quase duas décadas. Sim, a CEF tem arcado com gastos do Governo, pois está faltando dinheiro. Há as tarifas públicas, que terão que ser reajustadas, causando inflação, ou serão mantidas congeladas, o que aumentaria os gastos públicos. Mas o aumento descontrolado dos gastos públicos também acaba em inflação. É bom lembrar que inflação prejudica, em especial, os mais pobres. O Governo pode estar prejudicando justamente aqueles que mais lhe confiaram o voto.

Há, ainda, a questão do dólar. Hoje o Governo o controla em um regime de bandas não declarada para segurar a inflação. A apreciação do real, no entanto, está destruindo nossa indústria e nos transformando em um país exportador de commodities, tal como éramos no passado.

Isso tudo é para demonstrar que o desafio econômico dos próximos anos não é pequeno. A situação política é, também, crítica. Ao lado disso, há um país dividido, com uma oposição que tende a ser mais ativa do que no passado, motivado por seu relativo sucesso eleitoral.

O novo Governo terá que demonstrar imensa habilidade política para enfrentar todos os desafios. Há o imponderável, que são as delações premiadas e os acordos de leniência. Isso por si só já é suficiente para esquentar a temperatura no Congresso Nacional. Há a situação econômica, que, pelos sinais emitidos hoje, pode se agravar. E há a divisão do País, cuja unificação parece bastante improvável. Preocupa-me ainda a fala da Presidente no discurso de posse. Depois de breves palavras de união, em que nem sequer cumpriu a praxe de cumprimentar o candidato derrotado, passou a falar em reforma política e em plebiscito.

É um péssimo começo. Participação popular deve ser incentivada, não nego. Mas todos os regimes autoritários do mundo se utilizaram de plebiscitos para legitimar o poder. Ainda vou tratar mais de regimes autoritários do passado em próxima coluna. Mas é certo que plebiscito para reforma política, com o País dividido, parece-me péssima ideia.

No momento, não disponho de um cenário otimista para o futuro. Tenho consciência de que a política é imprevisível, de que o PT ainda tem em seus quadros excelentes negociadores e de que um acordo nacional em torno de propostas não está descartado. Mas a situação conjuntural aliada às declarações iniciais da Presidente e de seu Ministro da Fazenda demissionário não indicam que tomaremos o melhor caminho. Os eleitores, no entanto, fizeram sua opção. Tomara que os fatos refutem implacavelmente meus temores.

Gustavo Theodoro

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