Em Que Creem Os Que Não Creem

fe e razão

Há poucos anos foi publicado um livro contendo uma troca de cartas entre Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini. Apesar do título, o livro poucas vezes enfrentou o assunto que o sugestivo título anunciava. A pergunta parecia ambiciosa, mas a forma como foi construída induzia o incauto a colocar suas crenças na balança antes de pensar se é mesmo necessário tê-las.

Para muitos, é difícil habitar nosso mundo. O aforismo de Arquíloco, já citado por mim, vem mais uma vez à minha lembrança:  a raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. É difícil habitar o mundo pois ele parece estar cheio de raposas, com seu conhecimento plural e pouco profundo, o que os faz ficar cheios de certezas. É nesse cenário que os fundamentalistas religiosos e os igualmente fundamentalistas ateus nos perturbam com todas as suas certezas, considerando os demais uns párias cujo futuro os levará às trevas, ou uns crentes, com dificuldade de reconhecer a fé, ou uns covardes, pois o agnosticismo revelaria a falta de coragem de assumir o ateísmo.

Por mais que o racionalismo iluminista tenha aparentemente vencido a batalha das ideias, o recente renascimento dos fundamentalismos indica que o espírito de uma época nem sempre tem relação com o pensamento de intelectuais e cientistas. Se muitas vezes há sintonia, parece se tratar de pura coincidência.

Para Platão, a religião era um importante instrumento de controle social. É fato que as religiões sempre exerceram esse papel. O Gênesis e outros livros do Velho Testamento se preocuparam em estabelecer códigos de conduta. Roma trouxe o cristianismo para o centro do império também em razão de sua capacidade de controlar a sociedade. Marx posteriormente realçou esse aspecto da religião – tratando-as por ópio do povo – para extirpá-la da futura e utópica sociedade de iguais.

Além disso, nas monarquias sempre foi necessário o respaldo de alguma autoridade superior. Os Reis romanos encontravam sua autoridade no mito da fundação da cidade e na tradição democrática grega, que supriu, por algum tempo, a falta de uma religião que apresentasse uma cosmogonia e um código de valores aceitável. Com a decadência do império romano, a Igreja foi chamada a suprir a ausência de uma autoridade laica bem definida. Não que a Igreja houvesse se oferecido para ocupar esse lugar. Mas o fato é que era a única instituição estável em condições de substituir, em autoridade e estrutura, o papel de regente da sociedade.

O avanço científico dos tempos do Iluminismo aliado à formação dos Estados-Nação – cujo poder passou a ser derivado de contratos sociais e não mais da autoridade herdada ou religiosa – solaparam as bases da religião. É a escola da dúvida que nos levou aos tempos modernos. Mas o ser humano pouco mudou. Mudaram foram as condições de vida.

Na idade média, raramente alguém conseguia fugir da vida que lhe era destinada. Gerações nasciam e morriam nas mesmas terras, nas mesmas condições de seus pais e avôs. A vida era dura, sem perspectivas, e a religião cumpria o papel de dar algum sentido àquela existência sofrida. Ainda que a recompensa só viesse após a morte.

A glorificação do trabalho, a preponderância do lazer, a urgência do consumismo e a idealização do humano hedonista pareciam indicar que havíamos chegado ao admirável mundo novo. Um mundo sem dores, com trabalho em doses recomendadas, mas sempre repleto de aventura e entretenimento, com vasto espaço para diversões e com remédios para tratar da melancolia humana, parecíamos caminhar para um mundo ideal (será?).

Interessante observar como a história dos mitos e religiões sempre oscila entre retratar a vida como um momento a ser conservado e a morte, uma ocasião temida (como no mito de Hades, por exemplo) ou ao contrário, como inaugurado por Platão, no mito da Caverna, em que é a vida real é que é mal percebida e mal vivida, enquanto no mundo das ideias a verdade é encontrada. Por influência de Platão, tanto o Islã quanto o Cristianismo tendem a considerar a “vida após a morte” aquela quer realmente vale a pena ser vivida.

Na época da conquista de liberdades dos loucos anos 1960 e 1970, não surpreende que religiões com essa narrativa tenham perdido espaço. A urgência de vida, o hedonismo e o desapego entrou em moda. A geração seguinte, dos yuppies, foi muito mais materialista, voltou-se ao enriquecimento, ao consumo, ao lazer, mas foi fortemente influenciada pelas gerações que a precederam.

Os que abandonaram as religiões tradicionais tornaram a religião da força superior muito influente. “Você acredita em Deus? Não, mas acredito em uma força superior.” Era uma religião que não exigia nada, nem cerimônias nem condutas. De certa forma, ela atendeu bem tanto aos libertários dos anos 1970 (com seu panteísmo) como aos yuppies dos anos 1990 (com seu niilismo).

Não se sabe ao certo a razão pela qual nossos contemporâneos têm se voltado ao fundamentalismo. Não se trata de pequena onda. Nem mesmo exclusiva de países periféricos. O Islã é a religião que mais cresce no mundo. E sua vertente radical atrai adeptos de todo mundo para o Estado Islâmico. Sinal de que as ofertas de nossa sociedade não fizeram o humano prescindir da religião. Ou de que o fim das ideologias – que supriam sua ausência – nos trouxe de volta à essa necessidade. Ou talvez que esse mundo perfeito, idealizado, hedonista e consumista seja exageradamente superficial, despertando em alguns a sede por algo mais.

Bom, tal como no diálogo entre Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini, eu tratei de rodear a questão sem abordar especificamente o tema e, principalmente, sem responder à questão proposta. Mas o fato é que a questão não pode ser resolvida sem um pouco de metafísica. Volto a ela em breve. E você, crê em algo? Ou, antes, é mesmo necessário crer em algo?

Gustavo Theodoro

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1 comentário

  1. Creio quando digo que creio.
    Creria mais ainda se dissesse que não creio, pois então creria que não creio, creria no oposto do que creio.
    Creio em força invisível e intangível, mas perceptível: creio no vento, no frio, no calor, na luz, na eletricidade, na força gravitacional e em Deus.
    Creio que há uma inteligência superior à minha, que criou a minha e todas as coisas visíveis e invisíveis da natureza, embora jamais a tenha visto e não consiga descrevê-la.
    Creio que não sou fruto do acaso, que sou um caso pensado, repensado e pensante.
    Creio que o meu planeta, a minha Lua, o meu Sol, a minha galáxia, as outras galáxias não são meros efeitos do nada, de um acidente vascular universal de uma concatenação acidental de partículas depois de uma explosão.
    Creio que as leis da Física, da Química, da Biologia não são meras coincidências que se articularam acidentalmente.
    Creio em certa religião que me religa com o invisível, que me põe na tomada e me eletrocuta numa energia que sinto e percebo e sei que está ali, embora não a veja.

    Apesar de crer no que creio, respeito os que creem no oposto, admiro a fé enorme que têm, encafifo cá comigo: como podem crer tanto assim no que não creio?

    Abraço ao aporético articulista.

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