Marcha da Família

A Marcha da Insensatez II

No post anterior recuperei alguns fatos construíram o caminho rumo ao Golpe de Estado de 1964, dando ênfase ao processo de radicalização que produziu aquele desfecho. A atual Marcha da Família acende uma dúvida em nossas mentes sobre os caminhos que nossa sociedade tem escolhido.

Acompanho há algum tempo os focos do radicalismo. O Partido dos Trabalhadores, pelo menos o que chegou ao Governo central em 2003, mostrou-se, no Governo, bastante moderado. Além da carta ao povo brasileiro, cumprida à risca, o PT iniciou seu mandato com um quase banqueiro no Banco Central, com um Ministro da Fazenda conservador e tendo escolhido como primeiro ato legislativo a Reforma da Previdência. Foram muitos os sinais de que o PT queria se comportar como um partido qualquer.

É fato que o PT participou da criação de uma organização conhecida como o Foro de São Paulo, composta pelos partidos de esquerda da América Latina. Alguns documentos escritos por este grupo na década de 1990 indicavam que, tal como proposto por Gramsci, a época das revoluções armadas – do tipo leninista – havia passado e que o momento era de buscar o poder pela via democrática para então fazer revolução.

E dentre as reformas propostas pelo Foro de São Paulo estavam uma constituinte com ênfase na reforma política, a mudança na composição das supremas cortes judiciárias, o controle social da mídia, entre outros.

A desconfiança de parte dos conservadores brasileiros foi reforçada quando alguns países da América Latina, notadamente a Venezuela, a Bolívia e a Argentina, adotara essa agenda de reformas.

É certo ainda que uma parte do PT demonstra simpatia por essas ideias, particularmente a corrente Democracia Socialista e o movimento Mensagem ao Partido, que têm como membros o Deputado Raul Pont, o Governador Tarso Genro e o Prefeito Fernando Haddad.

Ainda assim, é bom não se confundir árvores com florestas. Ainda que por vezes demonstre simpatia pelas reformas adotadas pelos Países vizinhos, o PT tem se comportado de modo não muito diferente dos demais partidos que ocuparam a Presidência da República.

Faz-se necessário relembrar que o Ministro Sérgio Motta, então homem forte do Governo FHC, projetou para o PSDB vinte anos no poder. E não ficou só na conversa. Foi à luta e conseguiu aprovar uma reforma constitucional que permitiu a reeleição dos ocupantes de cargos executivos. Houve até mesmo Deputado que confessou a venda de votos para a emenda da reeleição. Ou seja, a regra do jogo foi alterada durante o jogo.

Antes dele, o Presidente Sarney distribuiu concessões de TV por todo o Brasil em troca de mais um ano de mandato. Voltando ainda mais no tempo, não pode ser esquecido que o Golpe de 1964 foi apoiado pela opinião pública sob a condição de que seria transitório entre regimes democráticos, mas acabou durando vinte anos.

Assim, apesar de ser evidente que há franjas radicais no PT que querem romper com a ordem constitucional, apesar de a imprensa ser constantemente fustigada por alguns blogs e órgãos de imprensa controlados pelo PT e apesar de algumas indicações para o STF terem suscitado dúvidas quanto à competência do indicado, em troca de seu alinhamento (como o caso do Ministro Tófoli, por exemplo), é necessário admitir que nenhuma constituinte foi levada adiante, nenhuma concessão de TV foi cassada unilateralmente e as regras para ingresso no STF não foram alteradas.

Nos setores ditos conservadores (uso este termo no momento por falta de outro melhor, reconhecendo a pouca identificação do termo com os movimentos que agora engrossaram a atual marcha da família) mais radicais, há a percepção de que este movimento descrito acima – a participação do PT no Foro de São Paulo, a guinada à esquerda de alguns governos latinos e a defesa de algumas ideias da agenda aplicada nos países vizinhos – nos levará a uma ditadura de esquerda.

Conheço bem a obra dos incitadores desse movimento. O primeiro deles é, sem dúvida, Olavo de Carvalho, que foi um pioneiro nas críticas ao PT e na revelação de que o PT compunha o Foro de São Paulo. Olavo de Carvalho deixou o Brasil há mais de uma década. É inteligente, conhecedor de filosofia de boa qualidade, mas exagera nas tintas, seguindo por vezes a estratégia do Tea Party, a temida extrema direita americana. Fez escola por aqui.

A Revista Veja, que detém a maior circulação no Brasil, passou a atuar em um campo muito próximo dos jornais e programas televisivos conservadores americanos. É de se notar que, nos EUA, a estratégia foi muito bem sucedida (em termos de vendas e audiência, deixo claro), pelo menos para a imprensa que assumiu claramente uma posição no mercado americano. A título de exemplo, vale trazer o caso da Fox News, que ultrapassou CNN em audiência no mercado americano.

Posições fortes, sem manifestação de dúvidas ou ponderações, atraem mais audiência; é o que dizem as pesquisas. E a última década é prodiga no surgimento de colunistas polêmicos, que transformam um fato político morno em um grande escândalo ou que vociferam certezas onde há muito mais dúvidas.

Tudo isso nos trouxe de volta a Marcha pela Família com Deus, inspirada pelas marchas de 1964 que precederam o golpe militar. Há dois fatos que não podem ser relegados. O primeiro deles é o de que, em 1964, a oposição ao Governo Jango vinha de diversos setores da sociedade, visto que havia a pretensão (anunciada no discurso de 13 de maio de 1964) de se fazer a reforma agrária por decreto, sem adequado pagamento aos proprietários (o Governo pretendia emitir títulos da dívida pública ao invés de fazer o pagamento com um título de liquidez imediata). O segundo deles é que Jango havia, efetivamente, ido em direção aos movimentos mais radicais, incitando inclusive o movimento de praças das forças armadas contra os comandantes da corporação.

Hoje isto não se verifica. Os radicais de esquerda existem, mas estão em minoria. Vemos agora o surgimento de um movimento extremamente radical que propõe a volta da Ditadura Militar em busca do restabelecimento da ordem, seja lá o que isso signifique.

Os movimentos de radicalização ainda são incipientes, mas é hora de voltarmos à política, é hora de fazermos o bom debate de ideias, não para buscarmos consensos, mas para desenvolvermos a tolerância pela opinião alheia, utilizando a empatia presente em quase todo ser humano para inibir a radicalização e o uso de violência como substituição de bons argumentos.

Já citei Proudhon algumas vezes, mas sua assertiva é daquelas que precisam ser repetidas com frequência: A fecundidade do inesperado excede de longe a prudência do estadista. No atual estágio de desenvolvimento da ciência política, a imprevisibilidade da política é um truísmo. Não sabemos onde esses movimentos radicais nos levarão (não podemos nos esquecer de que os black blocs já podem computar pelo menos uma morte em sua responsabilidade). Mas é bom que as vozes da ponderação e do diálogo se manifestem em momentos como este, condenando reiteradamente o uso da força e da violência na política e repudiando sonhos de novas vivandeiras que anseiam pela volta das trevas da ditadura.

Gustavo Theodoro

A Marcha de Insensatez

O dia 22 de março de 2014 foi marcado pelas “Marchas da Família” em algumas capitais do País. Há 50 anos, era realizada a marcha original que marcou o apoio de parte significativa da sociedade brasileira a uma intervenção que levasse à derrubada do Governo João Goulart.

A batida frase atribuída à Marx, de que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa aplica-se de alguma forma ao momento atual. Apesar de alguns colunistas verem semelhanças entre os dois períodos, são as diferenças que tornam a atual marcha tão patética. Neste primeiro post retratarei um pouco do ambiente político da época. No segundo, faço uma análise sobre o momento atual.

O Governo Jango foi marcado por muita desconfiança por parte de uma parcela da população brasileira. Havia um forte acirramento da opinião pública, um temor – agora sabemos injustificado – de que o comunismo estivesse prestes a se instalar no País. A estabilização de Cuba, proliferação das táticas de guerrilha pelo mundo, a China e a Guerra Fria davam razões a este tipo de temor.

Jango – hoje também podemos afirmar – não tinha pretensões de dar uma guinada rumo ao comunismo. No entanto, com o acirramento do debate público, Jango acabou por se aproximar daqueles que proferiam discursos radicais.

Jango cometeu diversos erros políticos, como a decretação do Estado de Sítio para o afastamento de Lacerda, do qual teve que recuar. Com a impossibilidade de se levar adiante a reforma agrária, os sindicatos sinalizaram o fim do apoio ao Governo. Sentindo-se isolado, em março de 1964 Jango fez seu famoso discurso aos trabalhadores, que foi lido por parte da sociedade civil como a adesão de Jango aos movimentos radicais.

Quase nenhum jornal importante o apoiava àquele momento. O comunismo era uma realidade no mundo e o movimento de qualquer Governo era acompanhando de perto pelos principais atores da Guerra Fria, os EUA e a URSS. A URSS havia apoiado inclusive com agentes a intentona comunista de 1937 e financiava o partido comunista do Brasil. Os EUA apoiavam financeiramente grupos de oposição a Jango. Ainda que seu Governo fosse razoavelmente moderado, seus discursos proferidos durante o mês de março indicavam uma clara inflexão à esquerda.

Com a insurgência de sargentos da marinha e da aeronáutica, a crise começou a se refletir dentro das forças armadas. A participação dos militares na vida pública era frequente. Para se ter uma ideia do panorama da época, antes da posse de Jango os ministros militares divulgaram nota com sua posição sobre o assunto, algo totalmente inadmitido nos dias atuais.

Não se vê militares fazendo pronunciamento na imprensa sobre o momento político do País e é muito forte a oposição de sua participação na vida pública. A saída do regime de exceção rumo à democracia foi recebida com entusiasmo pela população. Ainda que o regime democrático seja alvo de constantes críticas e que tenha entregado pouco do que dele se esperava, não há um movimento daquela maioria silenciosa a que se referia Kant clamando a volta do regime militar.

Lembro-me de estar na Venezuela na década de 1990 e muito me surpreendi com o discurso presente naquela sociedade favorável a um golpe militar com o intuito de restabelecer a ordem. Enquanto no Brasil havia clara percepção de que a quebra do regime democrático significava um retrocesso, na Venezuela a crença em golpes e revoluções seguia firme.

No fatídico 30 de março de 1964, Jango se pronunciou apoiando o movimento dos sargentos e suboficiais violando frontalmente a hierarquia militar e instigando a rebelião. Seu discurso foi transmitido pela TV, sendo considerado até hoje o estopim da revolta militar havida no dia seguinte.

O que vimos em 1964 foi a vitória dos radicais, que estão presentes nas franjas de qualquer sociedade, mas raramente adentram o centro do poder. Em 1963 e, particularmente, em 1964 o radicalismo havia tomado a cúpula das corporações militares e do Governo Jango. A vitória do radicalismo resultou em um regime militar que perdurou por 20 anos.

Feito este resgate histórico, no próximo post trato de analisar as semelhanças e diferenças entre o ano de 1964 e o momento atual.

Gustavo Theodoro