De Volta às Ilusões

Nietzsche disse mais de uma vez que Deus está morto. Não era a morte de um ente externo à humanidade que havia ocorrido. Deus havia morrido dentro de cada um de nós. Apesar de ser conhecido crítico do Cristianismo, sua assertiva mais conhecida não o consolava. O risco da humanidade era adentrar a porta do niilismo, que fatalmente levaria ao cinismo, ao escárnio e à infelicidade.

Historicamente, Deus morreu diversas vezes no mundo ocidental. Quando os Romanos viraram as costas para o mundo contemplativo, fixando o olhar na vida ativa, é certo que isto significou uma morte do universo mítico (ainda que não seja exatamente este o sentido dado pela assertiva de Nietzsche).

É interessante notar que mesmo na Grécia antiga a tentativa de contato com a verdade universal, com a verdade absoluta – ou seja, com Deus – era cercada de riscos. O filósofo da alegoria da caverna, ao se desprender de seus grilhões, conseguiu perceber o mundo de sombras em que está imerso a humanidade. A verdade quase o cegou, impedindo-o de permanecer fora da caverna por muito tempo. É muito clara a referência à contemplação nesta metáfora, visto que nela também só podemos permanecer por pouco tempo.

Interessante notar que a última frase da alegoria da caverna se refere ao filósofo, àquele que conseguiu se livrar de seus grilhões e sair da caverna, e na volta, ao contar que o mundo era muito mais do que aquele que eles conheciam, ninguém nele acreditou. A última frase da alegoria se refere a este filósofo e lhe é pouco estimulante: se lhe fosse possível pôr a mão num tal homem… matá-lo-iam.

O Cristianismo adotou por um tempo a contemplação, apesar de a vida ativa nunca ter deixado de ter importância para esta religião. Mas a prática da contemplação foi abandonada lá pelo século XVIII, quase no mesmo momento em que emergia o Iluminismo e após a invenção dos telescópio, que, de certa forma, nos tirou da condição de solitários neste mundo ao mesmo tempo em que mitigou nossa importância.

De certa forma, o materialismo dialético de Marx e Engels e os exercícios literários surgidos desde então sempre lidaram com este novo retrato da humanidade: ao invés de um Ser único, criado por um Ser Perfeito, passou a ser possível que o humano não passasse de algo mais que um mero animal (a teoria da evolução acabou por dar força a esses pensamentos), de forma que nem a humanidade era especial, menos ainda o era um simples homem.

A previsão de Nietzsche, ao que parece, não se concretizou. Seu temor era que a crença na religião seria substituída por outras (tais como política, por exemplo, e seus grandes movimentos do século XX), mas com o tempo acabaríamos desamparados por sentimentos de não pertencimento, de insignificância, cercados de objetivos sem relevância.

Hannah Arendt percebeu neste caminhar histórico da cultura humana uma simplificação do humano, uma aproximação, agora real, com o mundo animal, ainda que a vida humana estivesse a cada dia menos parecida com a de seus ancestrais. Para resumir muito suas ideias, havia uma percepção de que algo foi perdido quando nos afastamos da vida contemplativa para dar ênfase à vida ativa. Ainda assim, mesmo com a descoberta do telescópio e com o pouso do homem na lua, ainda havia algo que nos distinguia dos demais seres da terra: era nossa capacidade de agir conjuntamente, nossa capacidade de transigir, de cooperar, de arguir, de concordar e de construir, a partir desta capacidade exclusiva da humanidade, algo novo, um novo País, uma nova ordem constitucional ou mesmo regras mais evoluídas de convivência.

No entanto, na visão de Hannah Arendt, apesar de a vida ativa nos reservar ainda uma vida especial, gradualmente descemos os degraus de nosso status civilizatório. Assim, se a vida ativa pode ser separada em necessidades básicas, trabalho e ação, é certo que os homens livres em Roma tinha na ação sua atividade principal. O trabalho, para Arendt, era a capacidade de construir coisas, de uma árvore fazer uma cadeira, de tecido fazer uma roupa. O resto eram as necessidades básicas.

Pois para Arendt (em livro do publicado antes de sua maturidade intelectual) o homem deixara para trás a ação política (substituindo-a pela mera administração das coisas) e com a industrialização até o trabalho (no sentido por ela empregado) havia desaparecido. Sua visão era essencialmente marxista (apesar de hoje ser difícil definir algum alinhamento para seu pensamento, já que era francamente antirrevolucionária) e ligeiramente pessimista com sua geração.

É possível dizer que nem Nietzsche nem Hannah Arendt estavam totalmente certos em suas previsões, já que o mundo hoje parece muito mais complexo e sujeito a pontos de vista do que era em suas épocas. Mas suas ideias ganham força com a atomização da sociedade, com a desagregação da vida em comunidade, com o afastamento das pessoas da política e com a inaudita valorização da vida privada.

Ao mesmo tempo, o império da técnica e a confusão de política com a administração das coisas, aliados à extrema valorização da vida privada, reforçado ainda pela recente importância das relações públicas e da publicidade, impuseram a redução do espaço público de que somos testemunhas.

Apesar desses acertos, o niilismo não prevaleceu. A teia de ilusões em que a humanidade sempre se apoiou segue firme, ganhou novas feições e está cada dia mais longe de se ver superada. Se em algum momento no século XX a literatura e a filosofia tentaram dar adeus às ilusões (O Estrangeiro, de Camus, Esperando Godot, de Beckett, O Mal Estar na Civilização, de Freud), o mundo contemporâneo trouxe de volta as ilusões que imaginávamos abandonadas. E não pudemos descobrir o que havia além do niilismo. A atitude dionísica propunha o avanço rumo ao desconhecido.

Não importa aqui indagar se estamos no caminho certo. Trata-se, antes, de perceber o caminho percorrido e seguir os caminhos ao nosso alcance nesta aventura que é a vida. No próximo post volto a temas mais prosaicos, tratando de avaliar a política sob a luz da economia.

Gustavo Theodoro

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