Nietzsche

Colaboracionismo

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“Submissão” é um dos livros mais badalados do ano. Escrito pelo polêmico romancista Michel Houellebecq, o livro retrata uma distopia futurista – mas nem tanto, pois os fatos se passariam em 2017 – em que uma “fraternidade muçulmana” venceria apertada eleição e iniciaria um processo de conversão da França ao Islã.

Ainda que eu considere a transição muito rápida e inverossímil, o livro provoca um grande mal-estar ao nos revelar a fragilidade de nossos sistemas democráticos e mesmo de nossa civilização, particularmente com o atual estado de espírito dominante no mundo ocidental.

Habita pouca fé no homem contemporâneo. A escola da dúvida fundada por Descartes levou o homem em buscar substitutos para a “decadente” religião. A ciência, o progresso, a liberdade e alguns outros conceitos abstratos ocuparam esse vazio. Mas foi o marxismo que parecia mais bem equipado para servir como alternativa para eterna sede da humanidade por “algo mais”.

Pois o marxismo vê o mundo capitalista como um período de sofrimentos que culminará em um regime solidário, igualitário, sem chefes nem patrões e sem exploração do homem pelo homem. Muitas religiões adotam o mesmo ponto de vista, buscando dar conforto aos que sofrem no presente com a promessa de uma compensação futura.

Com a derrocada do marxismo, do leninismo, do trotskismo e, mais recentemente, do brizolismo, do malufismo e do petismo, adentramos em uma época de profundo niilismo, em que só o consumismo, o egoísmo e o hedonismo parecem prevalecer.

Enquanto o marxismo e as demais ideologias até conseguiam se portar como substitutos à altura da religião, a mais recente família de “ismos” só trouxe à humanidade mais insatisfação e infelicidade. A satisfação da compra não dura uma hora. A beleza ou a saúde são sempre frágeis, precárias, e tendem a se degradar com o tempo. Não há perspectivas de se ter “uma boa vida” com esses valores.

Para os marxistas, o homem contemporâneo não tem alma. É o típico apolíneo, despido da coragem essencial. Foi Slavoj Zizek quem recentemente reproduziu passagem de Nietzsche para descrever o homem que vive em uma sociedade liberal ocidental. Segue abaixo:

Tendes coragem, ó meus irmãos? Sois ousados? Não a coragem que se tem diante de testemunhas, mas a coragem do solitário e da águia, de quem nenhum deus já é o espectador. As almas frias, as mulas, os cegos, os homens embriagados, não têm o que eu chamo de coração. Tem coração aquele que conhece o medo, mas o domina, aquele que vê o abismo, mas altivamente. Aquele que vê o abismo, mas com olhos de águia – aquele que agarra o abismo com garras de águia: esse é o corajoso.

Os marxistas estão em baixa. Mas seguem se interessando pelos melhores autores. De alguma forma, esse homem niilista e hedonista, fraco e apolíneo, parece, em contrapartida, mais domesticável, estando, portanto, mais disposto a cometer o mal banal de que tanto tratou Hannah Arendt. É nesse sentido que o livro de Houellebecq parece mais realista. Pois não é a submissão o traço mais dominante da sociedade ocidental, mas sim o colaboracionismo. Nesse sentido, há requintes de crueldade no tratamento do autor à situação atual da França, pois a experiência do século passado fez com que aquele país tentasse, a todo momento, reescrever seu passado.

Ao invés de retratar a hegemônica colaboração dos franceses com os Nazistas, foram as histórias da minguada resistência francesa que até hoje prevaleceram. A distopia de Houellebecq parece indicar que estamos tão ou mais suscetíveis ao mal banal do que já estivemos no passado. Não que a Irmandade Muçulmana represente, de alguma forma, o mal. Mas o retorno a um estado religioso, com renúncia a nossas liberdades essenciais, de alguma forma abre as possibilidades de retorno a qualquer cenário pior do que o atual. Pois esse homem contemporâneo, hedonista e consumista, parece revelar características pusilânimes em grau superior aos antigos. E o editorial de ontem da Folha de São Paulo viu semelhanças entre o fenômeno contemporâneo brasileiro, com uma aparente volta de teses conservadoras de raiz fundamentalista, e a distopia apresentada pelo livro de Houellebecq.

É certo que generalizações tendem a ser repletas de imprecisões. Para muitos, falar em “homem moderno” não passa de rematada bobagem. Além disso, há autores, como Steve Pinker, que demonstram com riqueza de dados que a maldade, os assassinatos e os crimes parecem estar diminuindo com o passar do tempo em todo o mundo. Sem a presença marcante do mal absoluto, será que podemos falar de uma tendência de aumento do colaboracionismo, do mal banal e da submissão? Não sei. Parecemos estar no meio de uma caminhada e o horizonte ainda está indistinguível. O que nos resta é refletir enquanto estamos vivendo. E reconhecer que O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ainda é a distopia que mais bem conseguiu antever o futuro da humanidade.

Gustavo Theodoro

O Filósofo do Martelo

Nietzsche

Nietzsche sempre foi um filósofo desconcertante. Dono de estilo inconfundível, teve em Shopenhauer seu primeiro mestre. Apesar de ter lido Kant, desde cedo Nietzsche desprezou a pompa de sua filosofia, seu aspecto formal, suas regras e seus imperativos. Além disso, Nietzsche percebeu rapidamente a principal fragilidade da filosofia de Kant: sua incapacidade de se livrar da Metafísica e de Deus (ainda que Kant continuamente desdenhe essa necessidade).

Nietzsche fez sua carreira descontruindo ídolos. Com o amadurecimento intelectual, passou a rejeitar também Shopenhauer, a quem designava por velho filósofo. Afastou-se de Wagner, por quem teve uns anos de encantamento por sua música e por sua cultura. Foi para ele que escreveu o Crepúsculo dos Ídolos após ter rompido relações com o músico.

Assim como Kierkegaard, Marx e Dostoievski, conseguiu perceber o dilema introduzido pela escola da dúvida de Descartes, dúvida que havia penetrado de modo definitivo na cultura ocidental a partir do desenvolvimento das ciências duras. Se Deus não existia ou se Deus estava morto era necessário rever toda a velha filosofia construída até aquele momento.

Para isso, pensava Nietzsche, era necessário não transigir, não ser condescendente, ainda que o mundo não fosse agradável à vista do filósofo. Por diversas vezes, Nietzsche fez referência ao martelo, ferramenta que tudo destrói. Era isso: para Nietzsche, vivemos em um cemitério de pensamentos superados e teríamos que ter coragem para enfrentar essa realidade. Cito abaixo o quase clamor de Nietzsche, exortando a humanidade a sair do conformismo das ideias banais ou superadas e ir além:

Tendes coragem, ó meus irmãos? Sois ousados? Não a coragem que se tem diante de testemunhas, mas a coragem do solitário e da águia, de quem nenhum deus já é o espectador. As almas frias, as mulas, os cegos, os homens embriagados, não têm o que eu chamo coração. Tem coração aquele que conhece o abismo, aquele que vê o abismo, mas altivamente. Aquele que vê o abismo, mas com olhos de águia – aquele que agarra o abismo com garras de águia: esse é corajoso.

Nietzsche, como se sabe, teve coragem, mas não conseguiu construir uma nova filosofia a partir das relíquias que encontrou. Sim, no uso do martelo foi muito mais eficiente, mas o trabalho de reconstrução não encontrou fundações sólidas. E esse é o risco do legado de Nietzsche. Por não ser conclusivo, pode ser apropriado e perigosamente utilizado, como o foi no Nazismo. Por isso sempre aconselho: leia Nietzsche, mas leia com cuidado.

Gustavo Theodoro

Inverno da Alma

inferno de dante

Não são poucos os que dizem que o homem vive uma crise sem precedentes. Notícias de suicídios de celebridades nos chegam de tempos em tempos. O consumo de medicamentos para os males de alma não para de crescer. No Brasil, o Rivotril só perde para a pílula anticoncepcional. O Prozac abriu caminho para uma muito bem-sucedida classe de antidepressivos. Raros são aqueles que não conhecem ninguém com depressão, com bipolaridade, com síndrome do pânico ou algum outro transtorno menos cotado.

Há os que defendam que foi a indústria farmacêutica que aumentou a abrangência dessas doenças, que continuariam muito raras. É a melancolia, a tristeza, a euforia, são sentimentos tipicamente humanos que estão sendo descritos como sintomas de doenças. Há quem acredite que a vida corrida e a necessidade de atender a múltiplas exigências é que produz esses sentimentos de inadequação, de desespero, de derrota ou de ansiedade típicos dos transtornos descritos pela psiquiatria.

Este blog não se propõe a dar respostas para as perguntas e os aporéticos que o acompanham sabem disso. Como de hábito, prefiro, ao invés de responder diretamente essas questões, provocar outras que, quem sabe, possam auxiliar nossa compreensão do mundo em que vivemos.

O pensamento filosófico sempre esteve, de alguma forma, ligado à metafísica e aos conceitos de verdade, do bem e do mal, e discutiu por muito tempo o Ser, essa entidade inapreensível. A tradição de pensamento criada na Grécia antiga foi resolutamente apropriada pelos romanos na formação daquilo que hoje consideramos a civilização ocidental.

As perguntas clássicas da metafísica cabiam neste contexto. Por que existe algo e não nada? Warum erwas ist und nicht nichts ist? A pergunta feita pelos filósofos alemães do século XIX poderia ser feita em qualquer momento na tradição do pensamento filosófico mundial.

O racionalismo que caracterizou o desenvolvimento das ciências exatas adentrou e esfacelou o mundo filosófico. Marx tentou salvar o mundo que restava elevando o status do trabalho. O mesmo trabalho que era garantia, no Grécia Antiga, do alijamento de participação no processo político, passou a ser central na filosofia marxista, como se o trabalho correspondesse ao um processo natural.

Se pensarmos bem, era uma segunda inversão em nossa tradição de pensamento. Se Platão inverteu Homero retratando os moradores da caverna tal como Homero retratara os habitantes de Hades, para Marx o processo natural consistia na vida no interior da caverna e a religião – equivalente a um passeio fora da caverna na concepção de Platão – não passava do ópio do povo. Se Platão equiparou o inferno a nossa vida ativa, Marx recuperou seu status, dando conotação natural aos habitantes da caverna.

Ciente dos efeitos da escola da dúvida inaugurada por Descartes, Kierkegaard tentou salvar a metafísica trazendo, para dentro dos estudos religiosos a dúvida e a razão. Involuntariamente obteve efeito oposto ao pretendido com a agora evidente derrota da fé pela dúvida.

Seguindo a trilha de Hannah Arendt, não poderia deixar de falar de Nietzsche, que foi o primeiro a proferir que havia chegado o fim dos tempos do solene, dos valores absolutos, dos argumentos irrefutáveis e buscou, apoiando-se no conceito de liberdade, uma alternativa para o pensamento humano. Apesar de sua imensa capacidade de distinguir as cores do momento em que vivia, todas as suas tentativas fracassaram.

Como herança recebemos um mundo em que a metafísica estava morta e a fé contaminada pela dúvida. Não há conversa sobre fé que não seja mediada pelo tema da dúvida. Não há pensamento absoluto que não possa ser relativizado. Até o imperativo categórico, marco do racionalismo, teve que se apoiar na metafísica.

A física do século XX só fez agravar esse quadro com o princípio da incerteza, com o experimento mental de Schroedinger e seu famoso gato e com a influência do observador no objeto observado, que tornaram ainda menos provável o conceito de objeto-em-si.

É evidente que o pensamento filosófico não é compartilhado por toda a humanidade e que, às vezes, parece exagerado descrever algum sintoma social como decorrência desse pensamento. Não é disso que se trata. Mas é inegável a relação existente entre a sociedade e o pensamento produzido, de forma que o caminho inverso pode ser tentado, desde que tomados os devidos cuidados.

O pensamento filosófico nos levou a um beco sem saída pois, ao destruir os conceitos absolutos, a verdade absoluta, a verdade que podia ser desvelada, ao retirar a autoridade do solene, passamos a viver em um mundo em que verdades e opiniões são indistintas. A tradição grega nos tirou do estado de necessidade, em que o único objetivo é sobreviver, prover alimentos e descansar e nos levou a um mundo em que a ação humana, particularmente a ação política, nos distinguia.

Marx errou quase todas as suas previsões, mas acertou ao dizer que no futuro a atividade política perderia espaço para a administração das coisas. Hoje é comum vermos políticos se apresentarem como gerentes, esvaziando de sentido o espaço público. O que ninguém esperava é que o niilismo percebido por Nietzsche e que o esvaziamento da esfera pública previsto por Marx nos levasse à repentina valorização do trabalho, a ponto de ser raro aqueles que não se identifiquem pela sua profissão, em perfeita oposição a nossa tradição, quando só escravos trabalhavam.

A falta de parâmetros para o pensamento inundou o mundo com uma enxurrada de guias efêmeros e de livros de autoajuda que tentam ocupar o espaço deixado pelo fim da filosofia. E a filosofia, em muitos sentidos, passou a se equivaler à arqueologia ou, pior, à exibição de erudição como meio de projeção social. Quase ninguém, nem mesmo filósofos, se ocupam realmente das questões filosóficas da tradição ocidental.

Não são mares seguros esses que navegamos. Disse Camus que a única questão relevante da filosofia do século XX é o suicídio. Talvez esse espírito tenha gradualmente penetrado na sociedade. O certo é que, junto do comportamento conforme, da redução dos homicídios em todo o mundo, da diminuição da fome e da miséria, algo não parece ir bem na alma humana. Pode ser devido á promoção do homem médio como novo objeto de admiração. Ou pode ser a falta dos conceitos absolutos. Ou pode ser simplesmente manipulação da indústria farmacêutica. É evidente que há um pouco de cada razão destas e podemos enumerar outras. A falta de um norte, de um guia, de um Deus, de um absoluto, aliado à emergência do conceito de liberdade e muito recente dignificação do trabalho nos tirou do Paraíso e nos aproximou da liberdade e do livre-arbítrio, tal como na metáfora do Gênesis. A observação da sociedade parece nos dizer que não está fácil viver assim.

Gustavo Theodoro

Disciplina é Liberdade

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Nietzsche considerava que a humanidade havia se transformado do velho tu deves (eternizada pela imagem do camelo que se ajoelha e levanta a carga) para o recém descoberto eu quero. O cristianismo e os velhos filósofos representavam o dever, enquanto a modernidade pertencia à liberdade. No entanto, a liberdade não nos pareceu a nós satisfatória no final das contas.

A liberdade é, sim, por esta interpretação, consequência da morte de Deus. Como escreveu Dostoievski em dois de seus romances, se Deus não existe então tudo é permitido. O problema deixou de estar no fardo das obrigações passando ao fardo da liberdade. Sartre, que representa bem o seu tempo, disse então sua famosa e desesperançada frase: o homem está condenado a ser livre.

Esta frase retrata bem o espírito do século XX. Em seu primeiro romance, A Náusea, o personagem principal ronda as ruas sem saber que rumo tomar, impressionado com a imensa frivolidade das pessoas e desencantado com suas próprias opções. Ao final, encontra alento na possibilidade de encantar as pessoas com sua arte, com sua escrita, com sua capacidade de dar às pessoas algum momento de encantamento, como o que teve o personagem do livro ao ouvir uma boa música.

Apesar de Sartre ter parecido flertar com a possibilidade de se adequar a essa vida cercada de liberdade e niilismo dos tempos atuais, foi na política – no sentido hegeliano e marxista – que ele se refugiou para escapar de si mesmo. Um Nietzsche contemporâneo poderia dizer que Sartre aceitou a liberdade para depois recusá-la, agarrando-se à teia de ilusões que nos cerca. Na visão marxista, qualquer tipo de alienação de nosso mundo material deve ser combatida para que todos se envolvam na construção de sua sociedade utópica. Nada menos libertário do que limitar o direito de opção das pessoas, inclusive daquelas que se aferram a suas próprias ilusões.

Já Nietzsche nutria pouquíssima admiração pela dialética e quase nenhuma pela política, o que o levou a escrever que a política devora toda a seriedade para as coisas realmente sérias. Resta saber se ele foi capaz de formular alguma alternativa aos nossos estilos de vida.

Assim como Sartre julgou ter atualizado Marx por meio de seu existencialismo, Nietzsche pensou ter superado Kant, que foi aquele quem primeiro o impressionou. Dizem que uma geração de filósofos se apoia sobre os ombros de seus predecessores, superando-os. No entanto, será mesmo que podemos dizer que Kant foi superado pelos demais? Sua ideia de liberdade, como seria de se esperar, se baseia no uso da razão. Assim, para ele, liberdade é fazer o que se deve querer. O discípulo de Nietzsche e ícone do rock nacional, Renato Russo, talvez não tenha se dado conta do quão kantiano ele foi ao escrever, em Há Tempos, que disciplina é liberdade.

Gustavo Theodoro

O Mal-Estar da Civilização

Há algumas obsessões da modernidade que tornam a vida mais difícil de ser vivida. Uma delas é o significado da vida, que faz com que o homem se pergunte constantemente se sua existência lhe está sendo satisfatória. Desde o fim da expropriação do homem da terra promovida pela secularização (século XVIII) – com a consequente dissolução da vida em comunidade – está presente um mal-estar, aparentemente advindo da civilização, como disse Freud, que nos acompanha.

Com a migração dos homens para a cidade e com as descobertas da ciência, somados à concepção da escola da suspeita, formulada por Descartes, o homem se viu cada vez mais desamparado, ainda que cercado de pessoas. O progresso material demonstrou que o mal-estar está um pouco além das necessidades físicas. A crise que acomete a humanidade desde o século XVIII é mesmo de significado.

Talvez por isso, o homem tenha se voltado tanto para si mesmo (o que tanto pode ser aventada como causa ou como consequência). Ao perceber este processo – tanto do predomínio da dúvida, quanto da alienação humana – Nietsche escreveu uma de suas frases mais duras, mas muito longe de ser desesperançada, como pode parecer: De agora em diante, a morada da alma só pode ser construída com firmeza na sólida fundação do mais completo desespero.

Ocorre que o homem é um animal social (na melhor tradução de Aristóteles, e não animal político, como costumamos ver). A vida social não parece ter sido capaz de superar a dissolução das esferas pública e privada. E a solidão, desde então, vem se tornando cada dia mais necessária e, ao mesmo tempo, mais rara.

A modernidade preenche os dias de atividades de questionável suprimento de valor para o homem, que segue em sua busca por algo mais. As atividades cotidianas, mesmo sem preencher aquela sede que está presente em quase toda a totalidade dos seres humanos, nos distraem de nós mesmos. Talvez ainda influenciados por teorias Weberianas, o trabalho adquiriu uma centralidade nunca vista na história.

Voltando ainda a Nietzsche, ele utilizou o camelo como uma metáfora do humano sob o domínio do tu deves (remetendo à imagem do animal que ajoelha para receber todo peso que aguentar em suas costas, em clara referência ao cristianismo); para retratar o homem com sua liberdade recém conquistada, Nietzsche escolheu a imagem do leão. Para Nietzsche, em seu tempo, o humano evoluiu de camelo a leão. Mas parece que tudo não passava de um sonho de liberdade.

Com a redução das esferas públicas e privadas e com o abandono da vida contemplativa, tudo isso acompanhado do esmaecimento da vida em comunidade – com a emergência da esfera social, que não foi capaz de substituir a vida comunitária –, o homem segue em busca de saciar sua sede de significado.

Goethe, o escritor de Werther, um marco do romantismo, tinha verdadeira aversão às práticas científicas que acabaram por construir esse novo mundo. Ao mesmo tempo, é herdeiro dos tempos pré-Galileu, que colocava o homem em um lugar especial no mundo e no universo. Talvez por isso ele tinha verdadeira obsessão pelo conhecimento criado por seu vasto interior, levando-o a proferir a sentença:  eu submerjo em mim mesmo e encontro o mundo.

Vejam que este mundo não era mais aquele do universo contemplativo. Talvez Goethe estivesse mais próximo do pensamento platônico, que julgava que o homem detinha em si todo o conhecimento das coisas, mas que este conhecimento estava apenas esquecido.

A incapacidade de se estabelecer vínculos reais e o abandono dos valores do passado – vejam que não sou nostálgico de épocas não vividas, nem estou entre os partidários daqueles que asseveram que antes tudo era melhor – degradaram a relação entre os humanos. Não se trata de um fenômeno apenas contemporâneo; trata-se sim de um produto da nova sociedade surgida na revolução industrial e do capitalismo. Neste novo mundo – e sou obrigado a citar Nietzsche novamente – é que me aproximo cada dia mais do filósofo do martelo que cunhou umas das melhores frases do pensamento humano: Não me roube de minha solidão se não for para me fazer verdadeira companhia.

Gustavo Theodoro

De Volta às Ilusões

Nietzsche disse mais de uma vez que Deus está morto. Não era a morte de um ente externo à humanidade que havia ocorrido. Deus havia morrido dentro de cada um de nós. Apesar de ser conhecido crítico do Cristianismo, sua assertiva mais conhecida não o consolava. O risco da humanidade era adentrar a porta do niilismo, que fatalmente levaria ao cinismo, ao escárnio e à infelicidade.

Historicamente, Deus morreu diversas vezes no mundo ocidental. Quando os Romanos viraram as costas para o mundo contemplativo, fixando o olhar na vida ativa, é certo que isto significou uma morte do universo mítico (ainda que não seja exatamente este o sentido dado pela assertiva de Nietzsche).

É interessante notar que mesmo na Grécia antiga a tentativa de contato com a verdade universal, com a verdade absoluta – ou seja, com Deus – era cercada de riscos. O filósofo da alegoria da caverna, ao se desprender de seus grilhões, conseguiu perceber o mundo de sombras em que está imerso a humanidade. A verdade quase o cegou, impedindo-o de permanecer fora da caverna por muito tempo. É muito clara a referência à contemplação nesta metáfora, visto que nela também só podemos permanecer por pouco tempo.

Interessante notar que a última frase da alegoria da caverna se refere ao filósofo, àquele que conseguiu se livrar de seus grilhões e sair da caverna, e na volta, ao contar que o mundo era muito mais do que aquele que eles conheciam, ninguém nele acreditou. A última frase da alegoria se refere a este filósofo e lhe é pouco estimulante: se lhe fosse possível pôr a mão num tal homem… matá-lo-iam.

O Cristianismo adotou por um tempo a contemplação, apesar de a vida ativa nunca ter deixado de ter importância para esta religião. Mas a prática da contemplação foi abandonada lá pelo século XVIII, quase no mesmo momento em que emergia o Iluminismo e após a invenção dos telescópio, que, de certa forma, nos tirou da condição de solitários neste mundo ao mesmo tempo em que mitigou nossa importância.

De certa forma, o materialismo dialético de Marx e Engels e os exercícios literários surgidos desde então sempre lidaram com este novo retrato da humanidade: ao invés de um Ser único, criado por um Ser Perfeito, passou a ser possível que o humano não passasse de algo mais que um mero animal (a teoria da evolução acabou por dar força a esses pensamentos), de forma que nem a humanidade era especial, menos ainda o era um simples homem.

A previsão de Nietzsche, ao que parece, não se concretizou. Seu temor era que a crença na religião seria substituída por outras (tais como política, por exemplo, e seus grandes movimentos do século XX), mas com o tempo acabaríamos desamparados por sentimentos de não pertencimento, de insignificância, cercados de objetivos sem relevância.

Hannah Arendt percebeu neste caminhar histórico da cultura humana uma simplificação do humano, uma aproximação, agora real, com o mundo animal, ainda que a vida humana estivesse a cada dia menos parecida com a de seus ancestrais. Para resumir muito suas ideias, havia uma percepção de que algo foi perdido quando nos afastamos da vida contemplativa para dar ênfase à vida ativa. Ainda assim, mesmo com a descoberta do telescópio e com o pouso do homem na lua, ainda havia algo que nos distinguia dos demais seres da terra: era nossa capacidade de agir conjuntamente, nossa capacidade de transigir, de cooperar, de arguir, de concordar e de construir, a partir desta capacidade exclusiva da humanidade, algo novo, um novo País, uma nova ordem constitucional ou mesmo regras mais evoluídas de convivência.

No entanto, na visão de Hannah Arendt, apesar de a vida ativa nos reservar ainda uma vida especial, gradualmente descemos os degraus de nosso status civilizatório. Assim, se a vida ativa pode ser separada em necessidades básicas, trabalho e ação, é certo que os homens livres em Roma tinha na ação sua atividade principal. O trabalho, para Arendt, era a capacidade de construir coisas, de uma árvore fazer uma cadeira, de tecido fazer uma roupa. O resto eram as necessidades básicas.

Pois para Arendt (em livro do publicado antes de sua maturidade intelectual) o homem deixara para trás a ação política (substituindo-a pela mera administração das coisas) e com a industrialização até o trabalho (no sentido por ela empregado) havia desaparecido. Sua visão era essencialmente marxista (apesar de hoje ser difícil definir algum alinhamento para seu pensamento, já que era francamente antirrevolucionária) e ligeiramente pessimista com sua geração.

É possível dizer que nem Nietzsche nem Hannah Arendt estavam totalmente certos em suas previsões, já que o mundo hoje parece muito mais complexo e sujeito a pontos de vista do que era em suas épocas. Mas suas ideias ganham força com a atomização da sociedade, com a desagregação da vida em comunidade, com o afastamento das pessoas da política e com a inaudita valorização da vida privada.

Ao mesmo tempo, o império da técnica e a confusão de política com a administração das coisas, aliados à extrema valorização da vida privada, reforçado ainda pela recente importância das relações públicas e da publicidade, impuseram a redução do espaço público de que somos testemunhas.

Apesar desses acertos, o niilismo não prevaleceu. A teia de ilusões em que a humanidade sempre se apoiou segue firme, ganhou novas feições e está cada dia mais longe de se ver superada. Se em algum momento no século XX a literatura e a filosofia tentaram dar adeus às ilusões (O Estrangeiro, de Camus, Esperando Godot, de Beckett, O Mal Estar na Civilização, de Freud), o mundo contemporâneo trouxe de volta as ilusões que imaginávamos abandonadas. E não pudemos descobrir o que havia além do niilismo. A atitude dionísica propunha o avanço rumo ao desconhecido.

Não importa aqui indagar se estamos no caminho certo. Trata-se, antes, de perceber o caminho percorrido e seguir os caminhos ao nosso alcance nesta aventura que é a vida. No próximo post volto a temas mais prosaicos, tratando de avaliar a política sob a luz da economia.

Gustavo Theodoro