Hannah Arendt

Fatos e Versões

O que tomamos como um fenômeno local, a divisão face às opiniões políticas das pessoas, é, na verdade, um fenômeno global. Vozes possivelmente potencializadas pelas redes sociais, cujos clicks e curtidas são vistas sintoma de sucesso, tendem a empurrar a opinião pública para extremos, reduzindo o espaço para o diálogo e aumentando o clima de animosidade entre cidadãos, eleitores, pessoas enfim.

Espanta, no entanto, que sintomas de sociedades totalitárias estejam presentes num mundo tão diferente. Nos tempos do totalitarismo, a verdade era sempre fugidia, as versões mudavam de acordo com as circunstâncias. Lembremos do Regime Soviético: Trotsky passa de líder revolucionário para traidor da revolução em poucos anos. Os fatos antes glorificados passam a ser vistos como sintoma de comportamentos reprováveis.

Lembremos da distopia de George Orwell, seu sufocante mundo controlado de “1984”, cujo regime havia compreendido que “quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado”. Tarefa das mais necessárias em regimes assim é dos responsáveis por reescrever a história, de forma a adaptá-la à conveniência do regime.

No início da guerra fria, os políticos de todo mundo tomaram conhecimento de que uma guerra nuclear poderia por fim à existência humana na terra. Líderes do partido soviético, no entanto, defendiam internamente que um ataque aos EUA colocaria fim apenas no país americano, em clara dissimulação da verdade, o que colocava em risco toda a nossa civiliação.

Esse fenômeno retira dos debates a opinião sobre as coisas, e os próprios fatos passam a estar em questão. Vejam recentemente a questão de Trump e a separação de crianças imigrantes. Nem é necessário tanto esforço para obtermos informações de que a prática existe há mais de uma década nos EUA, mas só nos últimos meses virou efetivamente política de estado. Como a condenação foi geral, os apoiadores de Trump começaram a disseminar que nada havia mudado sobre Trump.

Veja que Trump poderia ter mantido a separação das crianças e dizer que a culpa é da justiça e de quem imigra, ou mesmo tomar para si a ingrata tarefa de defender a medida (isso é política, defender posições). Mas ele preferiu revogar a ordem executiva. Mesmo assim, seus apoiadores seguem disseminando informações de que Obama fazia o mesmo. É certo que havia casos de separação de pais e crianças no Governo Obama, assim como é certo que o número de separações disparou nos últimos meses.

Hannah Arendt via nessa forma de debater uma herança dos tempos de totalitarismo. Escreveu ela lá na década de 1950: “A questão não está nas diferenças de opinião e convicções básicas, nem nas dificuldades concomitantes de se chegar a um acordo, mas na impossibilidade muito mais atemorizante de se estar de acordo quanto aos fatos”.

E testemunhamos os mais diversos exemplos dessas dificuldades, como as divergências sobre a correta qualificação do impeachment de Dilma Rousseff, as diferentes formas de se posicionar sobre o processo que levou à condenação de Lula, sobre a reforma trabalhista – atualizou nossa legislação ou significou o fim da CLT-, o debate sobre a necessidade da reforma da previdência, etc.

Sobre a previdência, há candidatos que negam até mesmo haver problemas, outros criam realidades paralelas, citando dado falso de que a dívida pública consome 51% de nosso orçamento. Ou seja, nem números objetivos sobrevivem a esses tempos. O espaço das opiniões deixa de existir, e com ela também a possibilidade da política.

Marina Silva costuma dizer que nossa capacidade de conciliar é, talvez, o nosso maior ativo, mas ele tem se degradado com o tempo, engolido pelo Zeitgeist. O afastamento dos extremos talvez possa nos levar de volta à possibilidade de nós todos formarmos um país, com opiniões divergentes, com disputa, debates, plebiscitos e votos, mas com posições mais honestas. Não podemos perder de vista que construir uma civilização é muito mais trabalhoso do que destruí-la.

Gustavo Theodoro

 

A Promessa da Política

O Judiciário brasileiro ocupou espaços que eram próprios do Legislativo e do Executivo. Essa é a conclusão de Boris Fausto em entrevista recente concedida ao portal Uol. E isso se deveu, basicamente, ao esfacelamento da política partidária, à naturalização das práticas não republicanas, ao impeachment de Dilma Rousseff, às dificuldades na economia e à falta de legitimidade do Governo Michel Temer.

As lideranças do passado andam se arrastando por aí, sem se dar conta de que seu tempo já passou. Lula foi condenado em segunda instância, Aécio foi gravado pedindo dinheiro para Joesley Batista, José Serra foi acusado de receber dinheiro na Suíça, os últimos presidentes e tesoureiros de PT e PSDB tão cedo não se desvencilharão das garras do judiciário.

O sistema político foi incapaz de expurgar essas “lideranças”, seja pelo voto, seja pela ação do parlamento, seja pela ação das próprias máquinas partidárias. O Judiciário ocupou esse lugar, mas essa operação deixou sequelas. O extremismo político ganhou terreno, fazendo com que os operadores mais moderados se afastassem do debate ou deixassem simplesmente de ser ouvidos.

Prevalecem os discursos maniqueístas e simplistas, como o de Lula, de que foi condenado por ter promovido políticas públicas de interesse dos mais pobres, ou de Bolsonaro, que promete dar armas para todos para “resolver o problema da violência”, promete “acabar” com a doutrinação nas escolas, tudo isso enquanto,  quem sabe, “come gente” com dinheiro público.

Hannah Arendt atribuía à política a capacidade de fornecer ao ser humano a atividade de maior valor na esfera da chamada vida ativa. Excetuando-se a vida contemplativa, era pela ação política, pelo agir em conjunto, de forma articulada e coordenada, que o homem poderia obter uma espécie própria de felicidade, que ela chamava de “felicidade pública”.

O clima político atual leva, no entanto, as melhores pessoas a se afastar até mesmo dos debates políticos, pelo temor de ser ofendido, xingado, ou de ter amizades de anos rompidas. Lembro que esse fenômeno não é recente. Sartre e Raymond Aron eram melhores amigos na universidade. Prometeram, inclusive, que o sobrevivente escreveria o obituário do outro quando chegasse o momento. A separação deles durante a vida em face da política foi tão grande que Aron julgou inadequado que ele escrevesse uma linha que fosse sobre a morte de Sartre.

Antes de romperem, Camus, Sartre e Simone de Beauvoir conversaram longamente sobre as amizades e suas divergências políticas. Concluíram que jamais deixariam que as diferenças de pensamento os levassem ao rompimento. Mas quando Camus lançou sua teoria do Homem Revoltado, que significou o rompimento definitivo com o regime soviético, a amizade deles não resistiu. Sartre se radicalizou ainda mais nos anos seguintes, chegando a defender a teoria da violência de Frantz Fanon e seu uso na política. A violência se torna assunto deste blog quando há radicalidade nos discursos, fenômeno que notamos nesta semana.

Hannah Arendt, novamente, escreveu importante ensaio sobre violência e política, deixando claro que o início da violência marca o fim da política. Não há política sem diálogo, acordos, discensos, antagonismo, luta, discurso, promessa e perdão. Sem diálogo, é ferida de morte a própria política.

O espírito das redes sociais, com suas bolhas e radicalismos, parece estar afetando os atores políticos. Isso, ao lado da incapacidade do sistema político de lidar com suas mazelas, fez com que o Judiciário assumisse certo protagonismo, o que nos aborrece a todos. O desprezo pela política fruto desse ambiente, mais do que impedimentos ou cassações de candidatos, é que pode colocar em risco a nossa democracia.

Há quem preveja um segundo semestre acirrado, dividido, violento. A dívida pública saltou de 51% para 75% em poucos anos. O desemprego explodiu e a renda despencou. A conflagração do país dificilmente nos deixará legado positivo. Voltemos as atenções para os políticos que estejam dispostos a conversar, ouvir, argumentar, pensar, pois onde há gritaria, ameaças, arruaças, e violência, não há política. E nós, nas redes, tratemos de conviver com as diferenças.

Gustavo Theodoro

 

Liberdade e Golpe

liberdade

A utilização de termos abstratos na política é evento razoavelmente recente. Liberdade em sentido político quase não aparece nos escritos dos filósofos contemporâneos de Sócrates. Isso porque o modo de vida do filósofo era oposto ao que seria requerido pelo ambiente político. Só com o cristianismo e a discussão do livre-arbítrio o tema liberdade começou a penetrar nas discussões públicas.

Santo Agostinho tratou de discutir o significado de “liberdade”, mas ainda dentro do conceito individual, opondo o querer ao poder. Era de conhecimento de Agostinho que na solidão, livre da relação com outros seres humanos, estabelecia-se uma dialética interna. Na ausência dos outros, dialogamos constantemente com nós mesmos, de modo que o querer solitário é sempre um querer e não querer ao mesmo tempo.

Os romanos eram incrivelmente práticos e pouco se aprofundaram nessa discussão. A filosofia e o pensamento grego eram muito mais legados sobre os quais deveria ser erigida a sua civilização do que fonte de novas reflexões. Era sobre a tradição e o mito da fundação de Roma que se assentava aquela república.

Só com Hobbes e o nascimento da ciência política, além da separação entre política e Igreja, o pensamento secular sobre vida pública voltou a florescer. Foi então que Montesquieu retomou o assunto iniciado por Santo Agostinho, agora trazendo-o definitivamente para a discussão política. Para isso, relegou a liberdade filosófica ao campo do pensamento e da liberdade para pensar e deu outro sentido à liberdade política. Desde então, liberdade na vida pública consiste em poder fazer o que se deve querer. Kant quase reproduziu esse pensamento, mas aplicando-o à sua filosofia moral.

Foi então que a liberdade política ganhou forma, a ponto de ser um dos lemas da revolução francesa. O conceito de liberdade, no entanto, estava naturalmente limitado pela liberdade alheia. E a forma de lidar politicamente com a liberdade era por meio do diálogo que se estabelece entre as pessoas, com a possibilidade de divergência, acordos e até, muito raramente, a formação de consensos.

Foi Rousseau, com sua teoria da soberania, quem mais se aproximou de apresentar um pensamento que confrontasse Montequieu. Na visão de Rousseau, uma “vontade dividida seria inconcebível”. Para ele, “os cidadãos não têm comunicação entre si” e “cada cidadão deve pensar apenas seus próprios pensamentos”.

O ambiente das redes sociais no Brasil, com sua notável divisão, com pessoas bloqueando amigos e se juntando em grupos de afinidades semelhantes, tem o efeito de fazer valer o pensamento de Rousseau. O que se tem verificado nessas condições é que, na prática, as pessoas estão cada vez menos expostas a opiniões divergentes, ou já as tem como adversárias em face da fonte que a emitiu. A cada dia mais se nota o fenômeno dos grupos voltarem-se a “apenas seus próprios pensamentos”.

Fechados em pequenas redes, os conceitos abstratos afloram, com muito significado político (golpe, elite, liberdade, democracia), o que é um fenômeno estritamente moderno. Entretanto percebe-se que é no criticado congresso nacional que as ideias opostas mais se confrontaram. Ou seja, enquanto a sociedade fechou-se em seus grupos, a dialética se instalou no ambiente especialmente desenhado para tal acontecimento, ainda que desdenhado.

É nesse sentido, com a consideração de que as discussões se deram no ambiente da livre expressão das opiniões, que o conceito abstrato de “golpe” e de “atentado à democracia” parece-me exagerado. Em regimes presidencialistas é evidente que o impeachment impõe um teste às instituições do país. É bastante natural que ocorra acirramento nos ânimos.

Se a disputa envolve abstrações, as instituições notoriamente democráticas exercitaram a política com liberdade e produziram o impeachment. Os acontecimentos, desde a denúncia, transcorreram no período de quase seis meses. Segundo o STF, só agora se inicia o processo, que implica, a partir de agora, a ampla defesa e o contraditório, nos limites da lei.

A vontade individual já implica considerável contradição frente à dialética que se estabelece na solidão. A vontade da sociedade, de um imenso grupo de pessoas, jamais será claramente interpretada. Talvez seja por isso que é o processo que deve ser garantido, tal como o STF fez questão de delinear. O compromisso dos inventores do conceito abstrato de democracia é com a formulação dos melhores métodos para captar a vontade coletiva. Se nós não tivemos violência até o momento – que é tipicamente identificado como o fim da política – é sinal de que nossa democracia está resistindo.

Não é o pensamento de Lindbergh Farias ou Cássio Cunha Lima que deve se impor. Impõe-se o pensamento da maioria. A teoria da soberania de Rousseau só poderia se firmar em um ambiente de distribuição desigual de liberdade, ou seja, em uma tirania. No mundo de Montesquieu, as liberdades individuais se autolimitam. Empresto, para finalizar, o pensamento de Hannah Arendt, que fornece uma boa conclusão para esse conjunto de pensamentos de modo a resumi-los: “se os homens desejam ser livres, é precisamente à soberania que devem renunciar”.

Gustavo Theodoro

Da Revolução

foto O Pensador

Nunca fui extremista. Quando jovem, era moderado em meus alinhamentos políticos. Apesar de ter lido Marx e Engels na adolescência, nunca me vi como um revolucionário. Tive muitos amigos que queriam mudar a realidade com um só golpe, com uma revolução, com a tomada de poder. Talvez George Orwell e sua Revolução dos Bichos tenha me imunizado quanto à fé nas revoluções.

Lembro-me de uma conversa que tive há mais de vinte anos com um amigo historiador e marxista. Conversávamos sobre Hannah Arendt, que eu havia descoberto poucos anos antes. Ele me disse: “é uma pensadora muito interessante; mas não defende a revolução”. Achei interessante o adversativo inserido na frase. Para maioria dos marxistas do século passado – exceto os que seguiam a linha de Gramsci -, só a revolução seria capaz de construir uma nova sociedade.

Acredito que Hannah Arendt tornou-se reformista após a leitura de Tocqueville, grande estudioso das revoluções francesa e americana. Tocqueville é pensador de difícil enquadramento. Sobre ele já se disse que era demasiado liberal para o partido de onde ele provinha, não muito entusiasta por ideias novas aos olhos dos republicanos, ele não foi adotado nem pela direita nem pela esquerda; ele permaneceu suspeito a todos.

De fato. Edmund Burke, contemporâneo da Revolução Francesa, nos dá a imagem clássica do conservador. Kant não nos remete imediatamente à imagem de um liberal, mas acompanhava o desenrolar da revolução com muito interesse, torcendo pela “maioria silenciosa” que apoiava a revolução.

A leitura da obra de Tocqueville explica as razões da dificuldade de sua classificação. Crítico da democracia representativa (que produzia bons pais de família, mas poucos estadistas), parecia ser saudoso do regime aristocrático. Ao mesmo tempo, era forte defensor das liberdades fundamentais humanas, dentre as quais a liberdade de expressão. Era um analista que se dispunha a fazer o trabalho do historiador, buscar documentos originais e se inteirar verdadeiramente sobre um assunto antes de tomar uma posição.

Apesar de não ter sido contemporâneo da revolução francesa de 1789, foi um de seus maiores estudiosos. Ainda que conhecido por seu liberalismo, Tocqueville fez um julgamento histórico bastante crítico daquele fenômeno revolucionário (que ele expandiu para as demais revoluções).

O objetivo dos revolucionários franceses era construir algo totalmente novo. Para isso, era necessário exterminar – inclusive fisicamente – qualquer resquício do velho regime. A decapitação tornou-se marca da revolução. Os revolucionários assassinaram quase todos os que se relacionavam com o antigo regime, destruíram suas instituições, seus tribunais e o poder local. Terras da Igreja e do Estado foram confiscadas. Depois da terra arrasada, novo regime foi construído.

Para Tocqueville a revolução fez muito pouco dentro da própria França. Se é fato que o mundo absorveu os ideais da revolução francesa, que passou a ser um marco em nossa história, na própria França seus efeitos não teriam sido tão notáveis.

Ao recuperar documentos históricos, Tocqueville percebeu que todas as raízes da França pós-revolucionária tinham sido plantadas no velho regime. A liberdade de expressão, por exemplo, era maior no antigo regime do que sob Napoleão. Tocqueville concluiu, ainda, que o feudalismo praticamente não mais existia nos anos que antecederam a revolução. O poder central já dava as cartas, escolhendo administradores regionais e resolvendo as contendas judiciais. E os efeitos da reforma agrária teriam sido, na prática, muito inferiores do que o que se alardeou sobre o assunto.

Lembra ainda Tocqueville que, aos poucos, o antigo regime foi sendo reconstruído sob Napoleão e os Governos que lhe sucederam. Novo Imperador foi escolhido poucos anos depois da revolução. O poder do clero foi restituído. E boa parte das instituições presentes no antigo regime foram mantidas ou retomadas algum tempo depois. Para cada assunto – tribunais administrativos, poder central, clero, reforma agrária – Tocqueville faz questão de buscar os documentos do antigo regime para demonstrar que pouco avanço se percebeu depois de meio século da revolução.

Se Tocqueville estiver correto em seu julgamento histórico, podemos dar um passo adiante e arriscar que, talvez, a utilização adequada de nossa liberdade de expressão tenha potencialmente maior poder de destruição e construção do que o uso da guilhotina. Por mais que a substituição de governos seja considerada símbolo de mudança, são homens e ideias que acabam por construir algo novo, independentemente de ter havido ou não uma revolução.

A revolução americana se deu com muito pouco sangue derramado, mas ela foi liderada por grandes estadistas que se apoiaram em ideias existentes no momento, quase no mesmo período da revolução francesa. Sem as ideias de liberdade e igualdade que corriam o mundo no momento, uma nação como os EUA não teria sido fundada naquelas bases.

Sim, sem os homens que se dispõe a agir nada se constrói. Mas é de se notar que qualquer tirania que se prese inicia-se não com a prisão dos homens de ação, mas com o cerceamento à liberdade de expressão. Os humoristas, em geral, são os primeiros a serem censurados, pois o riso destrói a autoridade. Depois são os críticos e os analistas. Por último, até as notícias são mutiladas. Ideias movem o mundo e podem fazer mais do que revoluções. Por pensar dessa forma, considero-me um reformista que, por não estar disposto a abandonar minhas convicções, por vezes acabo sendo tratado por radical. E o risco de dar opinião é evidente. Deve ser por isso que Schopenhauer disse que “o verdadeiro filósofo vive perigosa, mas livremente”. Pois é o filósofo, que só pensa, que acaba sendo o artífice da construção de um novo mundo.

Gustavo Theodoro

Pensar e Julgar

                Temos por hábito não diferenciar a atividade de pensar da de julgar. Por isso tendemos a considerar pessoas reconhecidamente inteligentes mais capazes de tomarem decisões acertadas. A ciência têm nos ensinado que esta relação nem sempre é verificada.

                Os mais modernos estudos na área de psicologia têm desconcertado os estudiosos ao concluir que as pessoas, mesmo as mais inteligentes, constantemente tomam decisões irracionais. O peso das emoções e do cansaço é muitas vezes superior ao da capacidade intelectiva da pessoa.

                A história da humanidade é repleta de exemplos de pessoas indubitavelmente inteligentes que tomaram más decisões. Heidegger, por exemplo, até hoje é considerado um dos maiores filósofos do século XX. Suas aulas atraíam multidões, muitas de suas obras são extremamente abstratas, recebendo mesmo por parte de alguns filósofos o rótulo de impenetrável. Superada a dificuldade, sua obra foi difundida e discutida por toda a Europa, sendo um marco do existencialismo alemão. Ser e Tempo, sua obra mais conhecida, revela um pensador genial, com grau de profundidade poucas vezes experimentado na filosofia. Ainda assim, filiou-se ao Nazismo e era simpático à causa antissemita.

                Assim como ele, Sartre tomou diversas decisões questionáveis. Sartre escreveu romances notáveis introduzindo em seu desenvolvimento questionamentos filosóficos de temas como ação e liberdade. Escreveu ainda obras puramente filosóficas, tendo no entanto menos expressão nessa área do que Heidegger, de quem foi contemporâneo. Escreveu ainda uma de minhas peças preferidas, O Diabo e o Bom Deus. Ainda assim fez julgamentos equivocados que o levaram a escrever que abater um europeu é matar dois pássaros com uma só pedra… obtém-se um homem morto e um homem livre. Já sexagenário, continuava defendendo a revolução – mesmo em países democráticos – e apoiou Mao, mesmo quando ele causava milhões de mortos e promovia a execução sistemática de seus inimigos.

                Nota-se, portanto, que, ainda que nos consideremos inteligentes – algo de que não podemos ter certeza absoluta -, somos passíveis de tomarmos más decisões. Por isso especialistas no assunto nos indicam que as escolhas mais difíceis devem ser feitas após as refeições e, de preferência, pela manhã. No entanto, podemos aliar essas recomendações simples às lições de Kant sobre o senso comum que bem se aplicam ao julgar.

               São elas: a máxima do esclarecimento (que significa pensar por si mesmo); a máxima da mentalidade alargada (que se manifesta quando nos colocamos no lugar dos outros em pensamento); e a máxima da consistência (que significa estar de acordo consigo mesmo – sich selbst einstimming denken).

                Hannah Arendt também poderia ter dado contribuição decisiva sobre a atividade de julgar, tema sobre o qual ela chegou a escrever alguns textos. Mas ao final de sua vida ela se impôs a tarefa de fazer um mergulho filosófico em busca de esclarecer os conceitos do pensar, do querer e do julgar. O longo capítulo do pensar consumiu muito mais tempo do que ela havia reservado. No entanto, o capítulo do querer foi concluído dentro do novo cronograma. Quando Arendt iniciou o esperado capítulo do julgar teve um infarto fulminante. Na máquina de escrever estava iniciado o capítulo O Julgar que ela acabara de iniciar.

                Mesmo sendo especialista em Kant, é impossível imaginar se Hannah Arendt poderia ter ido muito além das ideias de Kant sobre o julgar. Mas é certo que sua perda nos privou de uma bela reflexão sobre o assunto.

Gustavo Theodoro

De Volta às Ilusões

Nietzsche disse mais de uma vez que Deus está morto. Não era a morte de um ente externo à humanidade que havia ocorrido. Deus havia morrido dentro de cada um de nós. Apesar de ser conhecido crítico do Cristianismo, sua assertiva mais conhecida não o consolava. O risco da humanidade era adentrar a porta do niilismo, que fatalmente levaria ao cinismo, ao escárnio e à infelicidade.

Historicamente, Deus morreu diversas vezes no mundo ocidental. Quando os Romanos viraram as costas para o mundo contemplativo, fixando o olhar na vida ativa, é certo que isto significou uma morte do universo mítico (ainda que não seja exatamente este o sentido dado pela assertiva de Nietzsche).

É interessante notar que mesmo na Grécia antiga a tentativa de contato com a verdade universal, com a verdade absoluta – ou seja, com Deus – era cercada de riscos. O filósofo da alegoria da caverna, ao se desprender de seus grilhões, conseguiu perceber o mundo de sombras em que está imerso a humanidade. A verdade quase o cegou, impedindo-o de permanecer fora da caverna por muito tempo. É muito clara a referência à contemplação nesta metáfora, visto que nela também só podemos permanecer por pouco tempo.

Interessante notar que a última frase da alegoria da caverna se refere ao filósofo, àquele que conseguiu se livrar de seus grilhões e sair da caverna, e na volta, ao contar que o mundo era muito mais do que aquele que eles conheciam, ninguém nele acreditou. A última frase da alegoria se refere a este filósofo e lhe é pouco estimulante: se lhe fosse possível pôr a mão num tal homem… matá-lo-iam.

O Cristianismo adotou por um tempo a contemplação, apesar de a vida ativa nunca ter deixado de ter importância para esta religião. Mas a prática da contemplação foi abandonada lá pelo século XVIII, quase no mesmo momento em que emergia o Iluminismo e após a invenção dos telescópio, que, de certa forma, nos tirou da condição de solitários neste mundo ao mesmo tempo em que mitigou nossa importância.

De certa forma, o materialismo dialético de Marx e Engels e os exercícios literários surgidos desde então sempre lidaram com este novo retrato da humanidade: ao invés de um Ser único, criado por um Ser Perfeito, passou a ser possível que o humano não passasse de algo mais que um mero animal (a teoria da evolução acabou por dar força a esses pensamentos), de forma que nem a humanidade era especial, menos ainda o era um simples homem.

A previsão de Nietzsche, ao que parece, não se concretizou. Seu temor era que a crença na religião seria substituída por outras (tais como política, por exemplo, e seus grandes movimentos do século XX), mas com o tempo acabaríamos desamparados por sentimentos de não pertencimento, de insignificância, cercados de objetivos sem relevância.

Hannah Arendt percebeu neste caminhar histórico da cultura humana uma simplificação do humano, uma aproximação, agora real, com o mundo animal, ainda que a vida humana estivesse a cada dia menos parecida com a de seus ancestrais. Para resumir muito suas ideias, havia uma percepção de que algo foi perdido quando nos afastamos da vida contemplativa para dar ênfase à vida ativa. Ainda assim, mesmo com a descoberta do telescópio e com o pouso do homem na lua, ainda havia algo que nos distinguia dos demais seres da terra: era nossa capacidade de agir conjuntamente, nossa capacidade de transigir, de cooperar, de arguir, de concordar e de construir, a partir desta capacidade exclusiva da humanidade, algo novo, um novo País, uma nova ordem constitucional ou mesmo regras mais evoluídas de convivência.

No entanto, na visão de Hannah Arendt, apesar de a vida ativa nos reservar ainda uma vida especial, gradualmente descemos os degraus de nosso status civilizatório. Assim, se a vida ativa pode ser separada em necessidades básicas, trabalho e ação, é certo que os homens livres em Roma tinha na ação sua atividade principal. O trabalho, para Arendt, era a capacidade de construir coisas, de uma árvore fazer uma cadeira, de tecido fazer uma roupa. O resto eram as necessidades básicas.

Pois para Arendt (em livro do publicado antes de sua maturidade intelectual) o homem deixara para trás a ação política (substituindo-a pela mera administração das coisas) e com a industrialização até o trabalho (no sentido por ela empregado) havia desaparecido. Sua visão era essencialmente marxista (apesar de hoje ser difícil definir algum alinhamento para seu pensamento, já que era francamente antirrevolucionária) e ligeiramente pessimista com sua geração.

É possível dizer que nem Nietzsche nem Hannah Arendt estavam totalmente certos em suas previsões, já que o mundo hoje parece muito mais complexo e sujeito a pontos de vista do que era em suas épocas. Mas suas ideias ganham força com a atomização da sociedade, com a desagregação da vida em comunidade, com o afastamento das pessoas da política e com a inaudita valorização da vida privada.

Ao mesmo tempo, o império da técnica e a confusão de política com a administração das coisas, aliados à extrema valorização da vida privada, reforçado ainda pela recente importância das relações públicas e da publicidade, impuseram a redução do espaço público de que somos testemunhas.

Apesar desses acertos, o niilismo não prevaleceu. A teia de ilusões em que a humanidade sempre se apoiou segue firme, ganhou novas feições e está cada dia mais longe de se ver superada. Se em algum momento no século XX a literatura e a filosofia tentaram dar adeus às ilusões (O Estrangeiro, de Camus, Esperando Godot, de Beckett, O Mal Estar na Civilização, de Freud), o mundo contemporâneo trouxe de volta as ilusões que imaginávamos abandonadas. E não pudemos descobrir o que havia além do niilismo. A atitude dionísica propunha o avanço rumo ao desconhecido.

Não importa aqui indagar se estamos no caminho certo. Trata-se, antes, de perceber o caminho percorrido e seguir os caminhos ao nosso alcance nesta aventura que é a vida. No próximo post volto a temas mais prosaicos, tratando de avaliar a política sob a luz da economia.

Gustavo Theodoro