Em Busca da Felicidade

Carnaval, para muitos, é sinônimo de excessos. Para outros, é sinônimo de viagens. Há os que preferem simplesmente ficar em casa, dividindo o tempo entre atividades familiares e outras mais introspectivas.

A existência de tempo livre é algo bastante recente na história da humanidade. As atividades voltadas à sobrevivência sempre exigiram muito do ser humano e o pouco tempo disponível para além das atividades necessárias era, na maior parte das vezes, dedicada exclusivamente ao descanso.

Uma pequena nobreza tinha a vida de dedicada a atividades outras que não fossem aquelas absolutamente necessárias. Talvez por isso, a preocupação com a ideia de felicidade não é tão antiga, apesar de haver alguns registros de discussão sobre o assunto entre os pré-socráticos, em Sêneca e mais alguns poucos autores.

No entanto, de uns séculos para cá o tema felicidade tornou-se quase uma obsessão humana, preocupação esta que só produziu mais infelicidade. Há diversos escritos antigos tratando a vida como um rosário de sofrimentos e necessidades. A Bíblia retrata várias histórias com este teor. Essas percepções levaram Brecht a escrever os seguintes versos:

Pensem nas trevas e nas grandes friagem

Neste vale onde ecoam lamentações

Até mesmo Hegel, o filósofo das grandes causas, escreveu: tratai primeiro do comer e do vestir, e o reino de Deus será naturalmente vosso. O fato é que, com a Revolução Industrial, com o aumento da produtividade das atividades agrícolas ou industriais, mais tempo livre passou a estar disponível a todos.

Quantos mais se livraram do jugo da necessidade, mais as pessoas se viram diante de reflexões sobre a vida, mais o tema felicidade começou a se esgueirar para as vidas das pessoas e mais necessária se tornou a busca de atividades para preenchimento do tempo livre.

Não poderia deixar de falar de Marx, que anteviu alguns dos fenômenos modernos, ainda que estivesse quase totalmente equivocado em suas previsões. Como se sabe, Marx considerava a religião o ópio do povo, responsável pela alienação das pessoas. Marx ainda imaginava que, nas sociedades do futuro, parte considerável das pessoas não precisaria trabalhar, estaria livre das obrigações do trabalho, que sempre foi visto por seus contemporâneos como um fardo. Só recentemente o trabalho passou a ser algo que dá um referencial à vida das pessoas, que faz com que as pessoas identifiquem seu lugar na sociedade, que tem papel fundamental da autoimagem de cada um.

No entanto, há um resto de pensamento disseminado na sociedade que toma o trabalho com um fardo. E o Carnaval é simbólico ao livrar as pessoas das obrigações do cotidiano, contribuindo para este clima de excessos de que somos testemunhas.

Vou deixar esta coluna sem uma conclusão, com as ideias meio jogadas e um pouco soltas, pois ainda pretendo voltar a estes assuntos algumas vezes mais. De todo modo, faço uma última citação, de Cícero sobre Catão, que pode apresentar um contraponto para este período momesco:

Ele nunca era mais ativo do que quando nada fazia,

Ele nunca estava menos só no mundo do que quando se encontrava solitário

Gustavo Theodoro

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