7 X 1

Muito já foi dito sobre a humilhante derrota sofrida pelo Brasil para a Alemanha. Característica nossa é procurar os culpados, julgá-los, condená-los, e continuarmos vivendo nossa vida de onde paramos.

Parece que dessa vez ao Felipão e ao Fred estão sendo dirigidas as mais duras condenações. Interessante como nossa população se comporta de forma previsível. Em todas as Copas do Mundo (ops, Copa da Fifa), o técnico da seleção brasileira é pessoa respeitada e admirada pela maioria (como demonstram as pesquisas de opinião) até que seja eliminado da Copa.

De herói a vilão, a mudança de julgamento é praticamente instantânea. Na Copa de 2006, Parreira, Roberto Carlos – e seu meião – e a geração de craques sem comprometimento foi condenada. Em 2010, Dunga, Felipe Mello e Júlio César foram os alvos da vez. Agora nova leva de culpados já começa a ser selecionada, o que deve nos manter sossegados por mais quatro anos.

O futebol se tornou mais competitivo. A ciência é mais utilizada a cada dia. A preparação física, os tratamentos médicos, o estudo tático, o planejamento das bases, tudo evoluiu. Evidente que nada disso ganha jogo. O investimento da Inglaterra em sua seleção foi imenso. As mais modernas tecnologias de análise de adversários, de resfriamento de corpos, de curvas de calor foram utilizadas e, ainda assim, lá se foi a Inglaterra na primeira fase. Ainda que a seleção inglesa não seja uma força das maiores do futebol, tem um dos melhores campeonatos do mundo – senão o melhor, mas não consegue formar suficientes jogadores de qualidade.

O Brasil, com população quatro vezes superior a da Inglaterra, deve produzir maior número de bons jogadores, tendo em conta apenas a base populacional. Como o futebol é praticamente o único esporte praticado por aqui, é natural que nosso País seja um celeiro de bons jogadores.

Houve um tempo em que a prática era mais importante do que a teoria ou a ciência no futebol. Dispor dos melhores jogadores poderia levar uma seleção nacional ao título. Quando a melhor técnica era combinada a uma evolução do preparo físico, como foi o caso da seleção de 1970, o título conquistado era incontestável. Sim, por muito tempo chegamos a exportar técnicos de futebol.

No entanto, ciência e planejamento bem executados parecem estar fazendo diferença nesta copa. Quando a Alemanha foi derrotada pelo Brasil na final da Copa de 2002, um grande debate nacional foi proposto, visto que o time tinha apenas um craque. Além disso, havia sido diagnosticada dificuldade de se produzir jogadores criativos. A federação alemã de futebol assumiu parte do processo de formação de jogadores, com vistas à formação desse tipo de talento. Com exceção do Klose, todos os jogadores que golearam o Brasil nesta semana são frutos desse trabalho.

No Brasil, a área de formação de jogadores tem regredido. Empresários e cartolas se articulam para fazer dinheiro rápido com qualquer promessa de craque que apareça. É bastante incomum que uma jovem promessa de craque esteja vinculada apenas a um clube de futebol. Normalmente, há uma empresa ou um conjunto de empresários que detém a maior parcela do passe dos jogadores. O objetivo dessas pessoas – todas ligadas a nossos cartolas, a nossas federações de futebol e à CBF – é enriquecer, solapando a possível renda dos clubes em proveito próprio. Não à toa, Presidentes da CBF são alvos de CPI e, por vezes, são até obrigados a deixar o país.

No passado os clubes tinham interesse em formar jogadores, pois poderiam reforçar seus times ou mesmo seus caixas. Hoje poucos clubes investem em formação de jogadores, já que o lucro quase sempre é direcionado a empresários.

E aqui entra nosso baixo desenvolvimento. Países desenvolvidos dão especial atenção aos orçamentos públicos. Nenhuma obra de grande porte é aprovada sem discussão com a sociedade. Grandes eventos são vinculados à aprovação do parlamento, no mínimo, isso quando não são objeto de plebiscito.

No Brasil, tendemos a tratar o dinheiro público como ilimitado. Além disso, dinheiro público parece não pertencer a ninguém. Isso é condição cultural, reflete nível civilizatório. E o comportamento de desinteresse pelo orçamento comum é também verificado nos condomínios e clubes, como os de futebol.

É interessante observar que, em 1970, a seleção da Alemanha Ocidental teve problemas na discussão da premiação de jogadores. Em 1990, foi a vez de os jogadores brasileiros se revoltarem com a premiação, o que culminou na famosa foto com as mãos sobre o brasão do patrocinador e a eliminação precoce da seleção daquela Copa. Na Copa de 2014, foram as seleções africanas que brigaram por dinheiro, exigindo, em alguns casos, pagamento adiantado e em dinheiro. É impossível não relacionar esses comportamentos a níveis de desenvolvimento, da capacidade de cada grupo de dialogar e firmar acordos.

Ocorre que, no passado, o planejamento, a ciência, a tática, tinham maior relação com a prática contínua do esporte. Ou seja, países com maior número de praticantes do esporte tendiam a apresentar melhores resultados nos torneios internacionais. Países como o Brasil, capazes de apresentar ao mundo maior quantidade de craques, acabava por serem detentores de maior número de títulos.

Desde o fim da era de Telê Santana, o futebol brasileiro parou de evoluir. A seleção de 1990 foi desastrosa. A seleção de 1994 foi a pior seleção brasileira a ganhar um título. A ajuntamento desordenado de jogadores de 1998 conseguiu um inacreditável vice-campeonato. A seleção de 2002, apoiada em três jogadores excepcionais, conseguiu vencer a Copa, mas sem apresentar ao mundo um novo caminho para o futebol. Em 2006, uma de nossas melhores safras de craques foi desperdiçada por uma comissão técnica incapaz provocar o comprometimento dos jogadores, o que nos levou à eliminação precoce. Em 2010, a seleção tinha um técnico disciplinador, porém novato. A geração não ajudou muito, visto que Kaká já havia entrado em decadência física e Robinho se mostrara apenas um bom jogador.

Em 2014, tentamos reviver a campanha de 2002, pela contratação do mesmo Felipão que nos levou a nosso último triunfo. O desastre foi absoluto. O time, formado na enganadora Copa das Confederações, não convencia. Todos os jogos foram difíceis. Nem sinal da posse de bola que tivemos em 1982 e 1994. Não foi observada nenhuma influência do futebol reinventado por Guardiola no Barcelona. Nem mesmo sombra do retranqueiro Mourinho foi notada em nossa seleção. Provincianos, acabamos ficando para trás.

Com quatro minutos de jogo entre o Brasil e a Alemanha, foi possível perceber que os principais jogadores do meio de campo alemão não eram marcados. O time brasileiro entrou mais uma vez pressionado, comportando-se como se suas vidas dependessem daquela partida. Time que se percebe sem condições de competir se desequilibra emocionalmente, ainda mais quando a pressão é grande. Com sete minutos de jogo, os volantes alemães construíram a primeira jogada perigosa de ataque. A seleção brasileira continuava comportando-se de forma afoita, indo ao ataque de forma desordenada.

A falta de treinamento revelou sua face no escanteio cobrado pela Alemanha aos 11 minutos. O jogador mais perigoso da Alemanha nesta Copa apareceu sozinho na pequena área para marcar o primeiro gol da partida com os pés. Um atacante jamais pode conseguir concluir, livre, com os pés, dentro da pequena área, em uma cobrança de escanteio.

O mapa de calor da partida indicou que David Luiz não guardou sua posição. O mesmo mapa indicou que Fred quase não se movimentou durante a maioria das partidas. Mas o problema não é só técnico, nem só tático. A goleada revelou que temos problemas muito mais sérios do que supúnhamos. Nossa recém descoberta incompetência em formar técnicos foi agravada por não formamos mais craques na quantidade que já formamos. E isso tem relação com nossos clubes, com a CBF e com o ambiente cultural em que vivemos.

Não estamos condenados ao atraso. O Brasil é um país incrível. Em algumas áreas, conseguimos competir com o primeiro mundo. Não podemos é pensar que sem estudo, sem técnica, sem resolver os problemas dos clubes e da CBF, vamos conseguir dar a vota por cima. Não podemos é nos enganar e pensar que só trocando o técnico e substituindo alguns jogadores vamos voltar a ser os melhores. A derrota por esse placar revelou o tamanho da crise de nosso futebol. Esperemos que a mensagem seja devidamente compreendida. O 7×1 é eloquente. É humilhante. E não pode ser resolvido apenas com a escalação de mais um jogador de meio de campo ou com a substituição do treinador. É preciso ir além disso.

Gustavo Theodoro

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