O Brasil de Dilma

O Fim de Dilma

Adversários do PT costumam ser injustos com o período em que Lula foi presidente. É necessário reconhecer que a ética nunca foi um valor muito considerado nos governos do PT. Por outro lado, há ações que devem ser defendidas, como a ortodoxia econômica do primeiro governo Lula e a assistência aos pobres promovida pela expansão dos programas de bolsas.

Já o Governo Dilma tem se esforçado para reverter os ganhos não só dos tempos de Lula, mas também de FHC. Os propagandistas do atual governo gostam de tratar, conjuntamente, dos últimos 12 anos como se fossem uma continuidade. No entanto, se dissociado dos demais, ou seja, se julgarmos o Governo Dilma apenas pelos últimos quatro anos, é muito difícil evitar termos como desastre ou derrocada.

As contas públicas se deterioraram. O crescimento foi o pior dos últimos 100 anos. A renda já quase não sobe mais. A Petrobras vive às voltas com escândalos de corrupção. O governo promoveu o desarranjo econômico por meio de excessiva intervenção na economia, com a política dos campeões nacionais, com investimento de grande porte em empresas que acabaram falindo, com incentivos às indústrias que apresentavam lobbies mas eficazes e com a introdução de maior confusão tributária (vide a Cofins e suas inúmeras regras e exceções). A balança comercial se inverteu e nos tornou dependentes do dinheiro estrangeiro de curto prazo. Não demos o necessário salto na área de educação e nossa infraestrutura continua contribuindo para aumento do custo brasil. Nenhuma reforma estrutural, como a tributária, por exemplo, foi levada adiante.

No entanto, havia duas áreas em que o Governo podia se declarar vencedor: o baixo desemprego e a redução da desigualdade. Sobre o desemprego baixo, já escrevi anteriormente. Houve imenso salto nos seguros desemprego (cujo gasto saltou de R$ 10 bi para R$ 50 bi em 5 anos) em decorrência da flexibilização de suas regras. A aposentadoria precoce continuou absorvendo parte da mão de obra ativa. As bolsas também contribuíram para a inatividade da população. O resultado disso é que há mais pessoas em idade ativa sem trabalhar no Brasil do que na Europa em crise. Nosso desemprego baixo, sob este prisma, parece mais um problema do que uma solução.

Ainda restava a queda da desigualdade. Ainda restava o discurso: o Brasil perdeu a credibilidade internacional, mas reduziu a desigualdade. Nesta semana tomamos conhecimento de um detalhado estudo publicado por pesquisadores da UnB e do Ipea. Para surpresa de muitos, inclusive minha, a conclusão foi a de que a desigualdade, na verdade, está estável desde 2006. A suposta queda, baseada apenas nas Pnad, não se confirmou quando dados de imposto de renda foram levados em consideração. Ou seja, utilizando-se método similar ao proposto por Piketty, os pesquisadores concluíram que a desigualdade está estável nos últimos anos.

Como destacou Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo desta semana, o próprio inventor da nova classe média e do mito da queda da desigualdade, Marcelo Neri, sabia da fragilidade da utilização da Pnad, conforme destacou em sua afirmação de 2008: As pesquisas não captam bem a renda dos ricos e do capital em geral. Por isso não acredito em estimativas de ricos no Brasil a partir de pesquisas domiciliares.

Caros aporéticos, a verdade quando emerge tem um poder devastador. E ela tem nos revelado que o Governo Dilma, de fato, fracassou. Não conseguiu manter o crescimento entregue por seu antecessor, nem a credibilidade externa do país. A maquiagem dos dados tem tirado a credibilidade das contas públicas e, agora, a credibilidade dos nossos órgãos de pesquisa, como o IPEA e o IBGE. Agora tomamos conhecimento de que todo o discurso da queda da desigualdade se baseava em pesquisas de campo, que Marcelo Neri colocou em dúvida em 2008 por não captar a renda dos ricos e do capital em geral. Quando Piketty revelou que o Governo brasileiro se recusara a entregar os dados agregados de imposto de renda, uma luz amarela se acendeu. Pesquisadores brasileiros agora tiveram acesso aos dados e revelaram que a queda da desigualdade nunca passou de publicidade governamental. Não há mais como ficar ao lado desse Governo. É hora de mudança. A próxima coluna virá com declaração de voto.

Gustavo Theodoro

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