Declaração de Voto

Trinca

A eleição presidencial de 2014 representa a quebra de uma dualidade que já perdura por 20 anos. Desde 1995, os dois principais candidatos são do PT e do PSDB. Neste ano, o fenômeno Marina Silva se interpôs a essa dualidade e tem grandes chances de ir para o segundo turno contra Dilma Rousseff.

Tanto PSDB quanto PT tiveram raízes no pensamento de esquerda. O PSDB foi formado por lideranças do antigo MDB, que resolveram estar presentes na primeira eleição direta realizada no Brasil após a ditadura militar. O PT teve como berço o trabalhismo sindical da região do ABC paulista. Agregou, a contragosto, a turma ligada ao socialismo e disputou suas primeiras eleições presidenciais também em 1989. Em 1993 a esquerda brasileira poderia ter se reunido no Governo Itamar, na primeira tentativa de se fazer um governo dos bons. O que poderia ter unido os partidos acabou por separá-los. FHC se apropriou do Plano Real, o PSDB virou governo e o PT seu grande adversário. Quem se aproveitou desta divisão foram os velhos políticos do PFL/DEM, inicialmente, e do PMDB, posteriormente.

Vivemos anos de razoável estabilidade econômica, de alguma recuperação da renda, de evolução institucional, mas vimos prosperar as velhas práticas políticas e o ressurgimento de figuras como José Sarney, Jader Barbalho, ACM, Jucá, Renan Calheiros, Collor, dentre outros. Vimos ainda os principais partidos políticos do Brasil se degradarem em suas passagens pelo poder. O PSDB deixou diversas situação não explicadas em sua gestão, principalmente no que concerne às privatizações e à compra de apoio parlamentar para a emenda da reeleição. O PT comprou a base parlamentar no primeiro mandato de Lula e esteve presente nos principais episódios de corrupção dos últimos anos.

A atual campanha começou já cansada das disputas anteriores. O PSDB indicou Aécio Neves, que parece não estar muito disposto a ser presidente. Até hoje não escreveu seu programa de governo. Apresenta uma equipe razoavelmente competente, mas o tema dominante da sua campanha é a retirada do PT do poder. Nesta semana, teve desempenho fraco no Bom Dia Brasil justamente quando as perguntas se referiam a suas propostas se eleito presidente.

O Governo de Aécio em Minas Gerais foi marcado por seu famoso choque de gestão. Já demonstrei aqui que toda a parafernália de indicadores e remuneração por resultados não trouxeram melhorias além da média do país na área da educação. Na área de segurança, o mesmo sistema implantado gerou aumento da violência, se o indicador observado é o número de homicídios por 100 mil habitantes.

O PSDB tem minguado a cada eleição. Com a entrada de Marina Silva na disputa, o partido corre o risco de estar fora do segundo turno pela primeira vez desde que Lula venceu as eleições de 2002. Resta São Paulo, onde Alckmin deve vencer no primeiro turno, e dois ou três estados menos significativos economicamente. Pode-se dizer que esse resultado é fruto de suas escolhas.

Depois de oito anos ocupando a presidência, o PSDB renegou seu legado. Os candidatos José Serra e Geraldo Alckmin tentaram, de todos os modos, se desvincular dos anos FHC, como se não fossem do mesmo partido. O PT se aproveitou desta fraqueza. Cunhou o termo herança maldita, relacionou o governo do partido à velha herança patrimonialista brasileira, atirou o partido para a direita e passou a ocupar a centro-esquerda.

O PT demonizou o PSDB a ponto de o próprio PSDB se ver como um partido dos ricos. Aécio Neves utiliza termos que a maioria da população não conhece. Ao ser questionado sobre a resistência dos sindicatos a seu nome, ele declarou que é assim mesmo, que a relação entre governos e sindicatos, entre patrão e empregado, é sempre conflituosa, adotando, como andar de cima, a tese do conflito de classes inventada pela esquerda.

Por conta disso, parece ser verdadeira a ideia de que o PSDB não gosta de povo. Ao tratar de metas de inflação, é evidente que a decisão deve ser técnica. Mas não precisa ser insensível. Podemos achar que, para as finanças públicas, o salário-mínimo está alto. No entanto, mesmo que a decisão técnica seja tomada, é necessário ter a sensibilidade suficiente para reconhecer que seu valor não permite a subsistência de uma família. Mesmo que seja necessário fazer algum ajuste, ele deve ser feito com dor. O discurso técnico é necessário, mas a sensibilidade social se faz presente. O político por vezes deve se sobrepor ao técnico. O político é o maestro da orquestra. Sem descuidar dos músicos, é o maestro que dá o ritmo da música. O certo é que o PSDB parece ter gostado do discurso técnico envolvendo juros, câmbio e gasto público, esquecendo-se de que cada decisão dessa têm um impacto nem sempre desprezível na população de um país. E esse discurso tecnicista e a notável insensibilidade social o afastou do povo.

Do Governo Dilma já escrevi suficientemente nos últimos meses. Foram cometidos erros terríveis na condução da política econômica que reduziram nossa credibilidade internacional, impedindo o crescimento no investimento privado. O programa Mais Médicos é o retrato acabado da falência de nosso sistema de saúde. Depois de 10 anos do poder, não temos médicos suficientes para suprir a demanda, o que revela falhas também na política de formação de profissionais de saúde. O número de leitos caiu no Governo do PT. Na educação, o Pisa nos revela anualmente que não temos evoluído na velocidade necessária. O nível superior não forma engenheiros e médicos, o ensino médio não retém os alunos, e o nível fundamental não consegue atingir nem mesmo as modestas metas estabelecidas pelo Governo. Nossa infraestrutura continua precária, com filas em portos e aeroportos. E o mais importante: no Governo Dilma paramos de crescer. E não há perspectivas de crescimento para os próximos anos.

Aliás, Dilma também não escreveu seu programa de Governo. Tem feito ameaças de repetir o que fez nos últimos quatro anos. Disse a Presidente que não precisa de programa de governo, pois ela já mostrou do que ela é capaz. Às vezes Dilma é involuntariamente engraçada.

Se eu fosse de esquerda, diria que pela primeira vez uma negra, e ainda mulher, pode ser Presidente da República no Brasil. Como não costumo discriminar raças ou gêneros, cito apenas as qualidades intrínsecas de Marina. Sua história política sempre foi ligada à causa verde e à defesa do meio ambiente. Militou no PT por 24 anos. Deixou o PT ao perceber que o partido se transformou em mero instrumento da luta política. Concorreu há quatro anos pelo PV e ameaçou tirar José Serra na reta final. Saiu fortalecida com 20% dos votos e com tempo para se preparar para o próximo pleito.

Uniu-se a dois dos melhores pensadores brasileiros contemporâneos, André Lara Resende, de quem sou admirador, e Eduardo Gianetti, instigante filósofo. Marina fez uma autocrítica que lhe permitiu compreender os erros cometidos pela política econômica de Dilma. E passou a defender a ortodoxia econômica como instrumento para melhoria da condição de vida da população.

Depois de se preparar para fundar seu partido, sofreu o revés de não vê-lo formalizado a tempo para disputar as eleições presidenciais deste ano. A união com Eduardo Campos e a queda do avião deram nova chance a Marina Silva.

Apesar de ter uma campanha ainda sem estrutura, com pouco dinheiro e quase nenhum tempo de televisão, apesar de sofrer ataques diários – e mentirosos – das campanhas de Dilma e de Aécio, mantém, nas pesquisas, cerca de 30% do eleitorado. A explicação para isso é difusa, mas está relacionada ao cansaço do brasileiro com o velho embate PT x PSDB, com o esgotamento do Governo Dilma e com a rendição do PSDB.

Além disso, Marina Silva tem se revelado extremamente habilidosa nas entrevistas que concedeu até aqui. Os quatro anos longe do Senado e da atividade política cotidiana lhe permitiram a ampliação de seu leque de leituras, que vai de Hannah Arendt a Lacan. Com isso, as imensas dificuldades que passou em sua infância e juventude, inclusive seu atraso na alfabetização, parecem ter sido totalmente superados.

As dificuldades de seu eventual governo são evidentes: seu casamento com o PSB ainda está conturbado, sua base parlamentar terá que ser construída e seus quadros terão que ser buscados na sociedade civil e em outros partidos. Não são dificuldades pequenas, reconheço, mas que podem ser vencidas. É bom que se ressalte que Marina Silva é detentora de experiência parlamentar e que milita na política há mais de trinta anos, o que lhe dá credencias para superar os desafios e construir uma nova base política.

Das três principais candidaturas, só Marina Silva divulgou seu programa de governo. Os adversários muito criticaram seu programa, que foi modificado em alguns pontos. No entanto, os mesmos adversários que formularam as críticas nem sequer se deram ao trabalho de detalhar suas propostas.

Marina Silva gosta de repetir a história de sua vida, a sua luta contra as doenças da Amazônia, a malária, a leishmaniose, a hepatite e a contaminação por mercúrio, chumbo e ferro. Quando lhe são apresentadas as dificuldades de governar sem uma base de sustentação sólida, é à sua história pessoal que ela remete para demonstrar sua força. Quando a todo momento lhe cobram o pragmatismo, ela cita Santo Agostinho e a capacidade de humano de criar o novo de onde antes só havia uma ideia, um sonho. Nesse sentido, Marina se coloca tal como o super-homem de Nietzsche, o homem que supera a si mesmo, que vai além de suas capacidades atuais, que cria o novo. Nessas eleições, é Marina que representa a esperança, o novo e possibilidade de devolver à política sua dignidade perdida. Como contraponto ao pragmatismo do mundo, nessa eleição resolvi ser sonhático. Por isso, voto em Marina Silva para Presidente da República.

Gustavo Theodoro

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