Inverno da Alma

inferno de dante

Não são poucos os que dizem que o homem vive uma crise sem precedentes. Notícias de suicídios de celebridades nos chegam de tempos em tempos. O consumo de medicamentos para os males de alma não para de crescer. No Brasil, o Rivotril só perde para a pílula anticoncepcional. O Prozac abriu caminho para uma muito bem-sucedida classe de antidepressivos. Raros são aqueles que não conhecem ninguém com depressão, com bipolaridade, com síndrome do pânico ou algum outro transtorno menos cotado.

Há os que defendam que foi a indústria farmacêutica que aumentou a abrangência dessas doenças, que continuariam muito raras. É a melancolia, a tristeza, a euforia, são sentimentos tipicamente humanos que estão sendo descritos como sintomas de doenças. Há quem acredite que a vida corrida e a necessidade de atender a múltiplas exigências é que produz esses sentimentos de inadequação, de desespero, de derrota ou de ansiedade típicos dos transtornos descritos pela psiquiatria.

Este blog não se propõe a dar respostas para as perguntas e os aporéticos que o acompanham sabem disso. Como de hábito, prefiro, ao invés de responder diretamente essas questões, provocar outras que, quem sabe, possam auxiliar nossa compreensão do mundo em que vivemos.

O pensamento filosófico sempre esteve, de alguma forma, ligado à metafísica e aos conceitos de verdade, do bem e do mal, e discutiu por muito tempo o Ser, essa entidade inapreensível. A tradição de pensamento criada na Grécia antiga foi resolutamente apropriada pelos romanos na formação daquilo que hoje consideramos a civilização ocidental.

As perguntas clássicas da metafísica cabiam neste contexto. Por que existe algo e não nada? Warum erwas ist und nicht nichts ist? A pergunta feita pelos filósofos alemães do século XIX poderia ser feita em qualquer momento na tradição do pensamento filosófico mundial.

O racionalismo que caracterizou o desenvolvimento das ciências exatas adentrou e esfacelou o mundo filosófico. Marx tentou salvar o mundo que restava elevando o status do trabalho. O mesmo trabalho que era garantia, no Grécia Antiga, do alijamento de participação no processo político, passou a ser central na filosofia marxista, como se o trabalho correspondesse ao um processo natural.

Se pensarmos bem, era uma segunda inversão em nossa tradição de pensamento. Se Platão inverteu Homero retratando os moradores da caverna tal como Homero retratara os habitantes de Hades, para Marx o processo natural consistia na vida no interior da caverna e a religião – equivalente a um passeio fora da caverna na concepção de Platão – não passava do ópio do povo. Se Platão equiparou o inferno a nossa vida ativa, Marx recuperou seu status, dando conotação natural aos habitantes da caverna.

Ciente dos efeitos da escola da dúvida inaugurada por Descartes, Kierkegaard tentou salvar a metafísica trazendo, para dentro dos estudos religiosos a dúvida e a razão. Involuntariamente obteve efeito oposto ao pretendido com a agora evidente derrota da fé pela dúvida.

Seguindo a trilha de Hannah Arendt, não poderia deixar de falar de Nietzsche, que foi o primeiro a proferir que havia chegado o fim dos tempos do solene, dos valores absolutos, dos argumentos irrefutáveis e buscou, apoiando-se no conceito de liberdade, uma alternativa para o pensamento humano. Apesar de sua imensa capacidade de distinguir as cores do momento em que vivia, todas as suas tentativas fracassaram.

Como herança recebemos um mundo em que a metafísica estava morta e a fé contaminada pela dúvida. Não há conversa sobre fé que não seja mediada pelo tema da dúvida. Não há pensamento absoluto que não possa ser relativizado. Até o imperativo categórico, marco do racionalismo, teve que se apoiar na metafísica.

A física do século XX só fez agravar esse quadro com o princípio da incerteza, com o experimento mental de Schroedinger e seu famoso gato e com a influência do observador no objeto observado, que tornaram ainda menos provável o conceito de objeto-em-si.

É evidente que o pensamento filosófico não é compartilhado por toda a humanidade e que, às vezes, parece exagerado descrever algum sintoma social como decorrência desse pensamento. Não é disso que se trata. Mas é inegável a relação existente entre a sociedade e o pensamento produzido, de forma que o caminho inverso pode ser tentado, desde que tomados os devidos cuidados.

O pensamento filosófico nos levou a um beco sem saída pois, ao destruir os conceitos absolutos, a verdade absoluta, a verdade que podia ser desvelada, ao retirar a autoridade do solene, passamos a viver em um mundo em que verdades e opiniões são indistintas. A tradição grega nos tirou do estado de necessidade, em que o único objetivo é sobreviver, prover alimentos e descansar e nos levou a um mundo em que a ação humana, particularmente a ação política, nos distinguia.

Marx errou quase todas as suas previsões, mas acertou ao dizer que no futuro a atividade política perderia espaço para a administração das coisas. Hoje é comum vermos políticos se apresentarem como gerentes, esvaziando de sentido o espaço público. O que ninguém esperava é que o niilismo percebido por Nietzsche e que o esvaziamento da esfera pública previsto por Marx nos levasse à repentina valorização do trabalho, a ponto de ser raro aqueles que não se identifiquem pela sua profissão, em perfeita oposição a nossa tradição, quando só escravos trabalhavam.

A falta de parâmetros para o pensamento inundou o mundo com uma enxurrada de guias efêmeros e de livros de autoajuda que tentam ocupar o espaço deixado pelo fim da filosofia. E a filosofia, em muitos sentidos, passou a se equivaler à arqueologia ou, pior, à exibição de erudição como meio de projeção social. Quase ninguém, nem mesmo filósofos, se ocupam realmente das questões filosóficas da tradição ocidental.

Não são mares seguros esses que navegamos. Disse Camus que a única questão relevante da filosofia do século XX é o suicídio. Talvez esse espírito tenha gradualmente penetrado na sociedade. O certo é que, junto do comportamento conforme, da redução dos homicídios em todo o mundo, da diminuição da fome e da miséria, algo não parece ir bem na alma humana. Pode ser devido á promoção do homem médio como novo objeto de admiração. Ou pode ser a falta dos conceitos absolutos. Ou pode ser simplesmente manipulação da indústria farmacêutica. É evidente que há um pouco de cada razão destas e podemos enumerar outras. A falta de um norte, de um guia, de um Deus, de um absoluto, aliado à emergência do conceito de liberdade e muito recente dignificação do trabalho nos tirou do Paraíso e nos aproximou da liberdade e do livre-arbítrio, tal como na metáfora do Gênesis. A observação da sociedade parece nos dizer que não está fácil viver assim.

Gustavo Theodoro

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