Política Externa

Política externa

Segundo as previsões de Marx, a crise do capitalismo resultaria no comunismo, sendo a violência sua provável parteira. Para ele, a política tinha por finalidade lidar com o conflito de classes e o fim das classes equivaleria ao fim da política, restando aos humanos a mera administração das coisas. Pode-se até condescender com algumas análises econômicas de Marx, mas seu poder premonitório mostrou-se reduzido. Suas premissas estavam erradas – pois política que tem aplicação muito mais ampla do que a preconizada por ele – assim como suas conclusões.

Apesar da redução do espaço público, consequência da redução do interesse das pessoas pela condução das atividades públicas, a política continua importante na administração interna dos países. No entanto, é na esfera externa que ela ainda retém parte da glória do passado, em que a ação política era a mais importante das atividades humanas. Isso porque é o espaço em que o estadista pode atuar e efetivamente fazer a diferença.

O exemplo dos EUA é, talvez, aquele que mais desperta interesse, já que é o país que, desde o final da Segunda Guerra, tem atuado no plano externo com mais constância e que cujas ações provoca maior impacto. O Plano Marshall, a Guerra do Vietnã, o Golpe em Allende no Chile, é raro um acontecimento do mundo que não tenha tido alguma contribuição da política externa americana.

Ocorre que os muitos erros do passado desacreditaram sua política externa. Os EUA, que tiveram papel decisivo na criação da ONU, passaram a atuar militarmente sem aprovação de qualquer organismo internacional. Por vezes foi possível aprovar ações no âmbito da OTAN, por vezes nem isso foi possível.

É verdade que foi elogiável a atuação do Governo Clinton na Guerra do Kosovo. O França mostrava extrema simpatia pelo Governo da Sérvia, bloqueando ações da OTAN. A China e a Rússia vetavam iniciativas do Conselho de Segurança da ONU. Enquanto isso, albaneses sofriam limpeza étnica pelos sérvios, que já haviam agido de forma semelhante na Guerra da Bósnia e da Croácia. Os ataques americanos puseram fim à guerra em pouco tempo e evitaram o massacre dos albaneses.

Em compensação, o ataque do Governo Bush II ao Iraque foi um verdadeiro desastre. Nem a ONU nem a OTAN deram aval ao ataque. As supostas armas de destruição em massa pareciam não existir, apesar dos relatórios da CIA. Mas Bush resolveu prosseguir na aventura, destruiu o Governo do Iraque e implantou um governo fantoche, fraco, incapaz de unificar o país.

Quando veio a chamada primavera árabe, foi a vez de Obama não sabe como se posicionar. Os ocidentais têm a propensão de pensar de forma semelhante a Marx, acreditando no progresso constante do mundo e na democracia liberal como o fim da história, tal como previu Fukuyama. Assim, sem considerar a cultura dos países árabes, sem atentar para o caráter teocrático da oposição que liderava os protestos, deu apoio velado à desestabilização dos regimes de força do oriente médio.

Estamos agora diante da tentativa de formação de califados, como o ISIS (ocupando parte do Iraque e da Síria), que representam um embrutecimento ainda maior daquela região, fenômeno que pode levar parcela significativa da humanidade a reviver condições de vida semelhantes às vividas há mais de dois milênios. E novamente não se vê reação à altura. Devido aos erros do passado, que resultaram em baixas e desgastes para os EUA, o Presidente já não quer enviar tropas terrestres, apesar de as circunstâncias atuais exigirem.

A guerra civil na Ucrânia mobiliza as principais potências ocidentais (EUA, Rússia, França e Alemanha) e não se vê solução à vista. A redução dos orçamentos provocada pela crise mundial tirou dessas nações poder militar para atuar em áreas distantes. Com isso, mais risco humanitário é suportado e mais uma vez as potências mostram-se egoístas, deixando de intervir de forma mais decisiva quando a situação se impõe.

É evidente que a situação da chamada guerra ao terror é paradoxal, pois parece que o combate ao terrorismo tem o estranho efeito de fortalecê-lo. Para isso, é necessário repensar as armas que estão sendo utilizadas. Mas nos confrontos com exércitos regulares em faixas delimitadas de território, os métodos de ação são muito bem definidos. Se houve energia para atacar o Iraque, deve haver energia para enfrentar o ISIS e para evitar um desastre humanitário da Ucrânia. Sei que a Presidente Dilma sugeriu que nos reuníssemos com o ISIS enquanto eles cortam cabeças e aterrorizam pessoas. Lembro-me da frase de Orwell, que dizia que os pacifistas pregam sua doutrina sob a proteção da Marinha Britânica. Estando com a cabeça ligada ao pescoço, é mais fácil propor uma longa negociação diplomática com o ISIS. Apesar de defender os organismos multilaterais, é preciso reconhecer que, por vezes, eles não estão à altura da situação posta. E é nessas horas que o estadista mais faz falta.

Gustavo Theodoro

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