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O Diabo e o Bom Deus

Obama paz

Uma das melhores obras de Sartre, O Diabo e o Bom Deus, conta a história de um governante que se assemelha ao Diabo, praticando o mal a todo momento. No meio da peça há uma virada e o comportamento adotado passa a ser de fazer o bem a qualquer custo, independentemente do resultado de cada ação. É o princípio kantinano seguido à risca, com o olhar sempre no valor moral do ato em si, sem nenhuma conexão com seu resultado.

Escrito com muita inteligência, resta ao final a dúvida sobre quem afinal era Deus ou o Diabo, tal a quantidade de injustiças e vilanias praticadas. A lição que se tira é que se devemos nos precaver é com os bons, pois dos maus já sabemos o que esperar.

Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2009. Na campanha, prometeu acabar com a guerra do Iraque, fechar Guantánamo e estabelecer diálogo mesmo com países de reputação duvidosa. Sua eleição fez a festa dos que torcem para o bem. E despertou o ceticismo de quem já conheceu políticos com esse discurso.

Os EUA são, de várias maneiras, responsáveis pelo estado como se encontra a situação no Oriente Médio. Por diversas vezes esse grande país sem nome da América do Norte atuou para desestabilizar governos, apoiando rebeldes ou mantendo ditaduras. É incontável o número de grupos terroristas que já tiveram apoio dos EUA. A começar pelos sionistas, que explodiam bombas na palestina nos idos de 1947 em busca da formação de seu Estado, contrariando vontade da Grã-Bretanha.

Em 1979, com a revolução do Irã, até então parceiro americano, o Iraque passou a ser armado pelos EUA, o que incentivou o conflito Irã-Iraque. Detentor de um poderoso exército, em 1990 o Kuwait foi invadido por Saddam Hussein. Atacado por Bush pai, o exército iraquiano foi vencido, mas Saddam não foi derrubado. Os curdos do norte do Iraque iniciaram um movimento separatista que foi duramente reprimido por Saddam. Clinton bombardeou bases iraquianas para impedir os ataques aéreos aos curdos.

Bush filho pretendia terminar o trabalho do pai. O ambiente de guerra ao terror criado após a derrubada das torres gêmeas tornou possível novo ataque ao Iraque. Sob a alegação de posse de armas de destruição em massa – cujas provas foram forjadas pela CIA -, a segunda guerra do Iraque teve início e resultou na destruição total do país. Com isso, a frágil harmonia exibida entre sunitas e xiitas foi rompida. A guerra civil não foi escancarada enquanto os EUA estavam lá.

Mas Obama fez muitas promessas. Disse que iria fechar Guantánamo. Após sete anos, os prisioneiros seguem na prisão, sem direitos de prisioneiros de guerra e sem as garantias da constituição americana. Ninguém quer os prisioneiros. Mas levá-los para serem julgados pelas leis americanas pode fazer mal à popularidade interna de Obama. A Fox News gritaria: Obama traz terroristas para dentro dos EUA. Mas Obama prometeu. E o certo a se fazer é dar direitos aos prisioneiros. A popularidade do governo Obama parece estar acima de sua disposição, reiterada e propalada, de fazer o bem.

No Iraque, Obama prometeu tirar as tropas de lá. Chega de mortos (leia-se, chega de mortos americanos). As tropas foram para o Afeganistão, mas disso os defensores do bem não fingem não enxergar. A segunda guerra do Iraque já estava com popularidade semelhante à guerra do Vietnã. E então, depois de eleições forjadas e às pressas, os americanos saíram do Iraque.

No dia seguinte à retirada dos americanos, a maioria xiita e o primeiro-ministro iraquiano passaram a perseguir os sunitas, inclusive alguns com assento no Governo. Rebeldes sunitas começaram a aterrorizar cidades no norte do país. Os EUA não iriam mais se envolver com envio de tropas, mas deixaram o Governo do Iraque com os melhores tanques dos EUAs. E seguiu fornecendo armas para o fraco governo iraquiano.

Seguindo orientação de uma passagem do Alcorão, os rebeldes sunitas decretaram o nascimento de um Estado Islâmico. Com a conquista de algumas cidades, tanques e helicópteros americanos caíram nas mãos do ISIS.

A Síria é velho aliado da Rússia. Não é de hoje a relação difícil entre Síria e os EUA. Na chamada “primavera árabe”, a revolta popular chegou ao Governo de Bashar al-Assad. O Governo Obama viu a possibilidade de conquistar mais um aliado na região. E passou a armar os grupos rebeldes de origem sunita. Terroristas, membros da Al-Qaeda, qualquer um que se identificasse como oposição ao Governo da Síria, que de fato oprimia a população, poderia receber armas do Governo Obama.

Dois países vizinhos foram desestabilizados, Síria e Iraque. Ambos tiveram forte influência americana. Com a desestabilização da Síria, o grupo que se intitulou Estado Islâmico passou a avançar rumo ao território Sírio. Enquanto o Estado Islâmico ganhava força, cortava cabeças, estuprava e escravizava mulheres, Obama insistia em apoiar os rebeldes da Síria.

O “bem” é uma força tão mobilizadora que até Dilma interveio e defendeu que o Brasil deveria “estabelecer diálogo” com o Estado Islâmico. Pois entendam: as pessoas de bem conversam; as más gostam de guerra.

Evidente que a culpa dos atentados terroristas da França não é de Obama, nem da Dilma, que queria conversar com o Estado Islâmico. Mas é certo que o Estado Islâmico não existiria se Obama não estivesse tão empenhado em “fazer o bem”. Ou talvez seu principal interesse seja “dar a impressão” de que está fazendo o bem.

Enquanto isso os presos seguem em Guantánamo – porque é popular defender o fim de Guantánamo, mas não é popular soltar os prisioneiros nos EUA -; enquanto isso o Estado Islâmico ganha força, e Obama continua defendendo a existência de um governo “democrático” no Iraque (afinal ele saiu de lá, pois a guerra era impopular); enquanto isso Bashar al-Assad, que poderia combater o Estado Islâmico, continua sendo atacado por rebeldes apoiados pelos EUA. Moral da história? Tomem cuidado com os que só fazem o bem.

Gustavo Theodoro

Política Externa

Política externa

Segundo as previsões de Marx, a crise do capitalismo resultaria no comunismo, sendo a violência sua provável parteira. Para ele, a política tinha por finalidade lidar com o conflito de classes e o fim das classes equivaleria ao fim da política, restando aos humanos a mera administração das coisas. Pode-se até condescender com algumas análises econômicas de Marx, mas seu poder premonitório mostrou-se reduzido. Suas premissas estavam erradas – pois política que tem aplicação muito mais ampla do que a preconizada por ele – assim como suas conclusões.

Apesar da redução do espaço público, consequência da redução do interesse das pessoas pela condução das atividades públicas, a política continua importante na administração interna dos países. No entanto, é na esfera externa que ela ainda retém parte da glória do passado, em que a ação política era a mais importante das atividades humanas. Isso porque é o espaço em que o estadista pode atuar e efetivamente fazer a diferença.

O exemplo dos EUA é, talvez, aquele que mais desperta interesse, já que é o país que, desde o final da Segunda Guerra, tem atuado no plano externo com mais constância e que cujas ações provoca maior impacto. O Plano Marshall, a Guerra do Vietnã, o Golpe em Allende no Chile, é raro um acontecimento do mundo que não tenha tido alguma contribuição da política externa americana.

Ocorre que os muitos erros do passado desacreditaram sua política externa. Os EUA, que tiveram papel decisivo na criação da ONU, passaram a atuar militarmente sem aprovação de qualquer organismo internacional. Por vezes foi possível aprovar ações no âmbito da OTAN, por vezes nem isso foi possível.

É verdade que foi elogiável a atuação do Governo Clinton na Guerra do Kosovo. O França mostrava extrema simpatia pelo Governo da Sérvia, bloqueando ações da OTAN. A China e a Rússia vetavam iniciativas do Conselho de Segurança da ONU. Enquanto isso, albaneses sofriam limpeza étnica pelos sérvios, que já haviam agido de forma semelhante na Guerra da Bósnia e da Croácia. Os ataques americanos puseram fim à guerra em pouco tempo e evitaram o massacre dos albaneses.

Em compensação, o ataque do Governo Bush II ao Iraque foi um verdadeiro desastre. Nem a ONU nem a OTAN deram aval ao ataque. As supostas armas de destruição em massa pareciam não existir, apesar dos relatórios da CIA. Mas Bush resolveu prosseguir na aventura, destruiu o Governo do Iraque e implantou um governo fantoche, fraco, incapaz de unificar o país.

Quando veio a chamada primavera árabe, foi a vez de Obama não sabe como se posicionar. Os ocidentais têm a propensão de pensar de forma semelhante a Marx, acreditando no progresso constante do mundo e na democracia liberal como o fim da história, tal como previu Fukuyama. Assim, sem considerar a cultura dos países árabes, sem atentar para o caráter teocrático da oposição que liderava os protestos, deu apoio velado à desestabilização dos regimes de força do oriente médio.

Estamos agora diante da tentativa de formação de califados, como o ISIS (ocupando parte do Iraque e da Síria), que representam um embrutecimento ainda maior daquela região, fenômeno que pode levar parcela significativa da humanidade a reviver condições de vida semelhantes às vividas há mais de dois milênios. E novamente não se vê reação à altura. Devido aos erros do passado, que resultaram em baixas e desgastes para os EUA, o Presidente já não quer enviar tropas terrestres, apesar de as circunstâncias atuais exigirem.

A guerra civil na Ucrânia mobiliza as principais potências ocidentais (EUA, Rússia, França e Alemanha) e não se vê solução à vista. A redução dos orçamentos provocada pela crise mundial tirou dessas nações poder militar para atuar em áreas distantes. Com isso, mais risco humanitário é suportado e mais uma vez as potências mostram-se egoístas, deixando de intervir de forma mais decisiva quando a situação se impõe.

É evidente que a situação da chamada guerra ao terror é paradoxal, pois parece que o combate ao terrorismo tem o estranho efeito de fortalecê-lo. Para isso, é necessário repensar as armas que estão sendo utilizadas. Mas nos confrontos com exércitos regulares em faixas delimitadas de território, os métodos de ação são muito bem definidos. Se houve energia para atacar o Iraque, deve haver energia para enfrentar o ISIS e para evitar um desastre humanitário da Ucrânia. Sei que a Presidente Dilma sugeriu que nos reuníssemos com o ISIS enquanto eles cortam cabeças e aterrorizam pessoas. Lembro-me da frase de Orwell, que dizia que os pacifistas pregam sua doutrina sob a proteção da Marinha Britânica. Estando com a cabeça ligada ao pescoço, é mais fácil propor uma longa negociação diplomática com o ISIS. Apesar de defender os organismos multilaterais, é preciso reconhecer que, por vezes, eles não estão à altura da situação posta. E é nessas horas que o estadista mais faz falta.

Gustavo Theodoro