Filosofia e Ciência

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Kant levou dez anos para escrever sua obra mais importante: a Crítica da Razão Pura. Uma vez publicada, o autor percebeu que muito raramente foi compreendido e que, por vezes, foi elogiado por características não presentes em sua obra. Para lidar com a opinião pública, Kant escreveu um segundo livro, muito mais enxuto, com o sugestivo nome prolegômenos a toda metafísica futura que possa de apresentar como ciência. Com essa obra, ele pretendia desfazer alguns equívocos de interpretação incorridos na análise contida em sua primeira crítica.

Esse segundo livro evidenciou uma questão que atormentou filósofos e pensadores até há pouco tempo atrás: será a metafísica, será a filosofia uma ciência? Ou não estaríamos diante de algo incognoscível, cuja comprovação seria a falta de evidência de evolução consistente do conhecimento acumulado?

A ciência se firmou, nos campos da matemática, física e química, como um conjunto de saberes estruturados que têm como referências a realidade tal como ela é. A queda controlada de um objeto, a reação química, a demonstração probabilística, toda essa ciência se escora em experimentos realizados. A confirmação da ciência produzida se dá quando leis ou equações têm potencial de prever comportamentos futuros. Quando o conhecimento é finalmente sedimentado, ele deixa o campo da ciência e passa a habitar o campo da técnica.

Portanto, ciência pressupõe apreensão do mundo tal como ele existe, redução dos fenômenos a descrições mais genéricas capazes de explicar outras situações e possibilidade de reprodução do experimento por qualquer outro grupo. Para que seja científico, o experimento deve ser reproduzível. As teorias científicas mais abrangentes, que se aplicam a maior número de casos, são as de maior repercussão e que atingem de forma mais completa os objetivos da ciência.

O que se nota do estudo da Metafísica – fato esse que não fugiu à observação de Kant – é que cada filósofo construiu a sua no decorrer dos séculos, refutando o conhecimento anterior e propondo novos caminhos. Como então algo que exigiu tanto de mentes tão ilustres pode não ter o status de ciência?

Kant, como se sabe, era um estudioso da razão humana e nunca pretendeu responder a questões fora de nosso alcance, como, por exemplo, tentar entender como seria o objeto independentemente de nossa existência, ou seja, como descrever algo sem nos utilizarmos de nosso material sensível ou, em termos filosóficos, nunca se preocupou em saber do que se tratava a coisa-em-si.

Talvez por isso, para Kant, a Metafísica não poderia ser considerada uma ciência, visto que a razão sozinha não era capaz de dar os atributos que uma ciência necessita, universalidade e necessidade. Como Nietzsche não cansou de demonstrar, apesar da potência de sua filosofia, Kant é, muitas vezes, contraditório. Quanto à Metafísica a situação não é muito diversa: apesar de insistir na inaplicabilidade de recorrer à ela para resolver os problemas da moralidade, Kant se viu obrigado a fazer uso da Metafísica para fazer valer seus imperativos categóricos.

Nos dias atuais, qualquer pseudociência – como homeopatia, acupuntura e astrologia – utiliza linguajar científico como técnica de mimetização, para se apropriar do status da ciência aumentando seu próprio valor. Acredito que, no campo da filosofia, tal expediente seja desnecessário. Ainda que não se apresente como ciência, a investigação das coisas e do ser é necessária para parte da humanidade, mesmo que dela não resulte aplicações práticas. É certo que Kant, cujo objetivo era “apenas” desvendar os limites da razão, foi talvez o que mais tenha avançado no campo das atividades práticas humanas. Ainda assim, mesmo que o resultado da investigação a aproxime do campo da utilidade, isso não é suficiente para que a Metafísica usufrua do status de ciência.

Gustavo Theodoro

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