Albert Camus

Frente Ampla

Cresce na sociedade a avaliação de que o Presidente Jair Bolsonaro não está à altura do cargo que ocupa. Os motivos apontados são vários e vão desde a falta de respeito às regras básicas de convivência democrática até o cometimento de crimes comuns. Acompanhada da redução na popularidade presidencial, em especial diante de suas atitudes no enfrentamento da Covid-19, o impeachment já á amplamente discutido na sociedade.

As restrições sanitárias impedem grandes manifestações populares. Ruas vazias não empurram o legislativo, que segue entorpecido aguardando a pandemia dar uma trégua para que talvez as reuniões presenciais possam ajudá-los a encontrar caminhos para o país.

Enquanto isso, o que se vê são iniciativas geralmente lideradas pela sociedade civil, que busca unir a oposição ao Governo em torno de uma causa comum. O processo de montagem dessa frente revelou as dificuldades que teremos que superar para que nossa sociedade possa ser reconstruída. A lista de vetos costuma ser infindável: “Eu não entro em lista com FHC”, “Se Moro assinar, eu não assino”, “O PT não deve fazer parte”, foram algumas das frases proferidas nas semanas que passaram. É de se perguntar se somos capazes, conjuntamente, de termos foco para atingirmos um objetivo importante que está além da luta política diária.

As experiências de acirramento das divisões, das brigas em grupos familiares e dos rompimentos de antigas amizades deveriam nos ensinar que algo não está correto na forma como temos nos portado. Política deveria ser o meio para construímos algo a partir das diferenças e não apesar delas.

O assessor da Presidência, Felipe G. Martins, escreveu o seguinte em seu twitter nesta semana: “Dizia Clausewitz que politica é a continuação da guerra por outros meios”. A citação está incorreta de uma maneira reveladora. A citação correta do general prussiano é, na verdade, que a guerra é a continuação da política por outros meios. Não se trata, evidentemente, de confusão: na visão dos que ocupam a presidência no momento, política é guerra e o adversário é o inimigo; logo, deve ser destruído.

Há tempos estamos contaminados por essa forma de ação política. Um antigo parlamentar do então PFL queria o fim do PT. Este, por sua vez, cultivou a visão de política como guerra, tal como agora defende Felipe G. Martins. O resultado disso são as dificuldades que observamos nas tentativas de formação de uma maioria democrática, multipartidária.

Para este momento é bom que recordemos o exemplo de Albert Camus, que, em 1946, um ano após a libertação da França da ocupação nazista, compreendia a necessidade de partilhar o país com seus compatriotas. Por sua atuação corajosa na resistência francesa, tornou-se uma referência no processo de reconstrução do país no pós-guerra.

Naquele momento, a situação era muito pior do que a nossa: enquanto o terror imperava, a maioria da população preferiu não se envolver e viver sua vida da maneira que melhor servisse a seus interesses. Havia ainda a questão dos colaboracionistas, que tinham inevitavelmente que ser incluídos em qualquer processo de reconstrução que almejasse o sucesso.

Sartre e, principalmente, Simone de Beauvoir cobravam de Camus uma postura mais radical com relação aos adversários políticos. A filósofa inclusive criticou a falta de menção direta ao fascismo em seu livro de 1947, A Peste, que retratava como metáfora o regime de confinamento, com o nazifascismo substituído pela peste. Mas Camus acreditava que política se faz primeiro com verdade, depois com tolerância e diálogo.

Voltando à nossa realidade, temos que ter em mente que cerca de 60% da população já votaram no PT e 55% votaram em Bolsonaro. Se a ideia da frente é constituir um grupo de pessoas que sempre pensaram como nós, estamos querendo fundar, talvez, um partido, não criar um movimento capaz de recriar o ambiente democrático e fazer frente, de forma coesa e incisiva, ao movimento autoritário que temos testemunhado.

Afastemo-nos, portanto, dos extremos, dos cancelamentos e dos vetos. O objetivo é retomar a ideia de que partilhamos um país e teremos que nos entender entre nós mesmos. Quando conseguirmos construir uma maioria, podemos nos lembrar de um trecho de Camus retratando o momento em que a epidemia começou a refluir: “Pode-se dizer, aliás, que a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população, o reinado efetivo da peste tinha terminado”. De minha parte, trabalharei pelo fim do império da peste.

Gustavo Theodoro

Honestidade Intelectual

Em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade. Ocorre que a humanidade parece sempre estar em guerra, visto que a mentira e a manipulação raramente deixam de ser observadas. Em qualquer período histórico que se escolha, a verdade teve imenso trabalho para vir à luz.

Muito disso de deve aos que tendem a aderir a pessoas ou ideias e, ao invés de aplicar seu julgamento com independência, passam a dispor de sua razão, sua energia e sua inteligência para defender um dos lados da polêmica, mesmo que, para tanto, seja necessário abrir mão da lógica e da coerência, ou, em outras palavras, de sua própria razão.

Voltando os olhos para o passado, percebemos como, em tempos de grande divisão, poucos foram os que deixaram de sucumbir às opiniões que os cercavam ou aderiram a caminhos questionáveis. Heidegger, o grande filósofo de Ser e Tempo, raramente deixa de ter lembrada sua  breve adesão ao Nazismo. Sartre, com sua grande capacidade de pensar e escrever, parece nunca ter tomado boa decisão no campo política, apoiando o Stalinismo em seus piores momentos, assim como Mao, para depois desfilar com Fidel, dentre outros. Sua lista de más escolhas não é pequena.

O século XX é repleto de exemplos de situações extremas que levaram intelectuais a relevar fatos para manterem suas crenças. Stálin tem seus defensores até nos dias atuais, mesmo com as comprovações do holocausto ucraniano pela fome, dos assassinatos em massa de oficiais poloneses, dos julgamentos forjados, dentre outras atrocidades cometidas pelo ditador. O paralelo no Brasil, ainda que fornecido em tintas menos vivas, pode ser tratado a partir da análise dos governos de esquerda dos últimos anos.

Havia indícios de que o Governo Lula não seria regido pela ética. Já em 2003, houve uma corrida de empresários tentando financiar um dos filhos do Presidente. Daniel Dantas injetou dinheiro na Gamecorp, mas foi uma companhia telefônica que fez os lances mais altos. Os fatos já estavam lá, noticiados à época. Alguns levantaram sobrancelhas. Mas a maioria relevou os maus indícios.

Em 2005, no mensalão, Duda Mendonça reconheceu que recebeu milhões de dólares em paraísos fiscais. Parlamentares foram comprados para votar com o Governo. De lá para cá, a número de provas dessa falta de comprometimento ético só fez aumentar. E mesmo assim, nossos intelectuais, assim como os intelectuais europeus da época da guerra fria, recusaram-se a referendar as críticas. Pelo contrário, comportamento ético, assim como no período stalinista, passou a ser descrito como “moralidade burguesa”.

Os freios mentais que deságuam nesse comportamento são bem conhecidos. Primeiro, são esgrimidos os argumentos mais elementares, de que criticar o lado em que se está favorece o outro, como se o mundo fosse assim, dual e simples. “Fiquemos quietos, renunciemos a nossos parâmetros éticos, pois senão a direita volta.” Depois, aparecem as tentativas de racionalização, envolvendo ideias de igualdade, crescimento e desigualdade social. Na prática, são argumentos equivalentes àqueles menos elaborados: “ele rouba, mas faz”.

Fazer críticas a questões centrais implica desfazer os próprios laços sociais que sustentam esses intelectuais. Todos aqueles por quem o intelectual tem estima estão deste lado. A frase de Hemingway “Quem estará nas trincheiras ao teu lado? ‐ E isso importa? ‐ Mais do que a própria guerra” é constantemente ecoada, sem que cada um perceba o quanto isso revela, do quanto se está abrindo mão para permanecer ligado aos seus.

O caminho da ruptura não é alegre e acolhedor, evidentemente. Albert Camus perdeu seus melhores amigos quando rompeu com o stalinismo. Mantendo-se como um pensador de esquerda, não foi aceito em nenhum círculo. George Orwell jamais abandonou a esquerda. Mas o testemunho dele dos acontecimentos na Guerra Civil Espanhola, em que os comunistas sabotaram o movimento republicano, os levaram a questionar o totalitarismo soviético.

Apesar de sua formação clássica, na esnobe Eton, de sua origem abastada, Orwell jamais se deixou corromper. O período na Birmânia o levou à abandonar a vida economicamente estável de funcionário da Coroa. Viveu do que escrevia e por toda vida teve dúvidas se teria dinheiro para pagar o jantar. Ao escrever sobre sua experiência na Catalunha, perdeu quase todos os seus amigos na esquerda. Como nunca suportou a superficialidade e a ignorância da elite, nem o autoritarismo fascista, seu isolamento sempre esteve presente.

Esse é o destino que todos tentam evitar, mas é alto o preço intelectual a ser pago. É provável que estejamos testemunhando, aqui no Brasil, uma virada na opinião pública. Gradualmente percebe-se uma literatura de direita disponível nas livrarias, jornais e programas de rádio se oferecem para esse público. Com o Governo Bolsonaro eleito, já se percebe que suas falhas e desvios éticos tendem a ser relevados em nome de se “evitar a volta do PT”. A conferir. Como vimos, é alto o preço da honestidade intelectual. E nem todos estão disposto a pagá-lo.

Gustavo Theodoro