Obama

O Espaço da Política

EUA Cuba

Marx previu que a crise do capitalismo levaria a sociedade à ditadura do proletariado e, a seguir, pelo socialismo, um mundo igual onde não haveria mais espaço para a política, que seria substituída pela “mera administração das coisas”.

Apesar de o prognóstico de Marx ter se mostrado equivocado, de certa forma o espaço para atuação política se reduziu. O paradoxo previsto por Tocqueville se confirmou: o fim da aristocracia, com a criação de um espaço público onde todos podem participar, criou condições também para que poucos efetivamente se envolvam nas questões públicas.

A evolução das burocracias também limitou a abrangência da política, pelo menos a da política interna. Talvez apenas nas relações internacionais a política tenha conseguido manter seu status.

Por isso é tão interessante, para quem gosta de política, observar a reaproximação entre os EUA e Cuba. Tratou-se de ato de vontade dos governantes, que tinham a seu dispor esse caminho, podendo percorrê-lo ou não. É provável que o regime cubano seja destruído com essa aproximação. Já vimos esse filme com a queda do muro de Berlim. Já foi superada a discussão sobre a possibilidade da transição para o socialismo democrático, tema tão comum aos socialistas ocidentais dos anos 1980.

O reatamento das relações, quando levar à abertura comercial, aumentará a pressão para reformas no sistema político cubano. O turismo levará estrangeiros, haverá mais acesso aos bens de consumo e à informação. A pressão da sociedade cubana aumentará. E não era necessário que nada disso ocorresse. Esse fato novo só ocorreu neste momento por decisão dos líderes políticos, que “iniciaram” um diálogo por ato de vontade, exercendo a liberdade que é característica da política.

Os gregos e romanos tinham a política em alta conta. Mas dificilmente eles relacionariam o termo “política” à eleição pela liderança do PMDB na Câmara ou às disputas envolvendo Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Já o reatamento das relações EUA e Cuba é evidência de nossa milenar herança política.

Gustavo TheodoroO

O Diabo e o Bom Deus

Obama paz

Uma das melhores obras de Sartre, O Diabo e o Bom Deus, conta a história de um governante que se assemelha ao Diabo, praticando o mal a todo momento. No meio da peça há uma virada e o comportamento adotado passa a ser de fazer o bem a qualquer custo, independentemente do resultado de cada ação. É o princípio kantinano seguido à risca, com o olhar sempre no valor moral do ato em si, sem nenhuma conexão com seu resultado.

Escrito com muita inteligência, resta ao final a dúvida sobre quem afinal era Deus ou o Diabo, tal a quantidade de injustiças e vilanias praticadas. A lição que se tira é que se devemos nos precaver é com os bons, pois dos maus já sabemos o que esperar.

Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2009. Na campanha, prometeu acabar com a guerra do Iraque, fechar Guantánamo e estabelecer diálogo mesmo com países de reputação duvidosa. Sua eleição fez a festa dos que torcem para o bem. E despertou o ceticismo de quem já conheceu políticos com esse discurso.

Os EUA são, de várias maneiras, responsáveis pelo estado como se encontra a situação no Oriente Médio. Por diversas vezes esse grande país sem nome da América do Norte atuou para desestabilizar governos, apoiando rebeldes ou mantendo ditaduras. É incontável o número de grupos terroristas que já tiveram apoio dos EUA. A começar pelos sionistas, que explodiam bombas na palestina nos idos de 1947 em busca da formação de seu Estado, contrariando vontade da Grã-Bretanha.

Em 1979, com a revolução do Irã, até então parceiro americano, o Iraque passou a ser armado pelos EUA, o que incentivou o conflito Irã-Iraque. Detentor de um poderoso exército, em 1990 o Kuwait foi invadido por Saddam Hussein. Atacado por Bush pai, o exército iraquiano foi vencido, mas Saddam não foi derrubado. Os curdos do norte do Iraque iniciaram um movimento separatista que foi duramente reprimido por Saddam. Clinton bombardeou bases iraquianas para impedir os ataques aéreos aos curdos.

Bush filho pretendia terminar o trabalho do pai. O ambiente de guerra ao terror criado após a derrubada das torres gêmeas tornou possível novo ataque ao Iraque. Sob a alegação de posse de armas de destruição em massa – cujas provas foram forjadas pela CIA -, a segunda guerra do Iraque teve início e resultou na destruição total do país. Com isso, a frágil harmonia exibida entre sunitas e xiitas foi rompida. A guerra civil não foi escancarada enquanto os EUA estavam lá.

Mas Obama fez muitas promessas. Disse que iria fechar Guantánamo. Após sete anos, os prisioneiros seguem na prisão, sem direitos de prisioneiros de guerra e sem as garantias da constituição americana. Ninguém quer os prisioneiros. Mas levá-los para serem julgados pelas leis americanas pode fazer mal à popularidade interna de Obama. A Fox News gritaria: Obama traz terroristas para dentro dos EUA. Mas Obama prometeu. E o certo a se fazer é dar direitos aos prisioneiros. A popularidade do governo Obama parece estar acima de sua disposição, reiterada e propalada, de fazer o bem.

No Iraque, Obama prometeu tirar as tropas de lá. Chega de mortos (leia-se, chega de mortos americanos). As tropas foram para o Afeganistão, mas disso os defensores do bem não fingem não enxergar. A segunda guerra do Iraque já estava com popularidade semelhante à guerra do Vietnã. E então, depois de eleições forjadas e às pressas, os americanos saíram do Iraque.

No dia seguinte à retirada dos americanos, a maioria xiita e o primeiro-ministro iraquiano passaram a perseguir os sunitas, inclusive alguns com assento no Governo. Rebeldes sunitas começaram a aterrorizar cidades no norte do país. Os EUA não iriam mais se envolver com envio de tropas, mas deixaram o Governo do Iraque com os melhores tanques dos EUAs. E seguiu fornecendo armas para o fraco governo iraquiano.

Seguindo orientação de uma passagem do Alcorão, os rebeldes sunitas decretaram o nascimento de um Estado Islâmico. Com a conquista de algumas cidades, tanques e helicópteros americanos caíram nas mãos do ISIS.

A Síria é velho aliado da Rússia. Não é de hoje a relação difícil entre Síria e os EUA. Na chamada “primavera árabe”, a revolta popular chegou ao Governo de Bashar al-Assad. O Governo Obama viu a possibilidade de conquistar mais um aliado na região. E passou a armar os grupos rebeldes de origem sunita. Terroristas, membros da Al-Qaeda, qualquer um que se identificasse como oposição ao Governo da Síria, que de fato oprimia a população, poderia receber armas do Governo Obama.

Dois países vizinhos foram desestabilizados, Síria e Iraque. Ambos tiveram forte influência americana. Com a desestabilização da Síria, o grupo que se intitulou Estado Islâmico passou a avançar rumo ao território Sírio. Enquanto o Estado Islâmico ganhava força, cortava cabeças, estuprava e escravizava mulheres, Obama insistia em apoiar os rebeldes da Síria.

O “bem” é uma força tão mobilizadora que até Dilma interveio e defendeu que o Brasil deveria “estabelecer diálogo” com o Estado Islâmico. Pois entendam: as pessoas de bem conversam; as más gostam de guerra.

Evidente que a culpa dos atentados terroristas da França não é de Obama, nem da Dilma, que queria conversar com o Estado Islâmico. Mas é certo que o Estado Islâmico não existiria se Obama não estivesse tão empenhado em “fazer o bem”. Ou talvez seu principal interesse seja “dar a impressão” de que está fazendo o bem.

Enquanto isso os presos seguem em Guantánamo – porque é popular defender o fim de Guantánamo, mas não é popular soltar os prisioneiros nos EUA -; enquanto isso o Estado Islâmico ganha força, e Obama continua defendendo a existência de um governo “democrático” no Iraque (afinal ele saiu de lá, pois a guerra era impopular); enquanto isso Bashar al-Assad, que poderia combater o Estado Islâmico, continua sendo atacado por rebeldes apoiados pelos EUA. Moral da história? Tomem cuidado com os que só fazem o bem.

Gustavo Theodoro

Guerra ao Terror

Imagem

Diz o ditado que é justa bella quibus necessária, ou seja, é justa a guerra quando necessária. Guerras sempre foram meios de defesa das cidades e dos estados ou meio de garantir a segurança futura da população por meio de domínio de novos territórios, como no Império Romano.

Na era moderna, tivemos as duas grandes guerras, cujas razões são complexas, mas que encerraram aquele ciclo de conflitos. Nos anos de Guerra Fria, as guerras passaram a ser travadas por pequenos países, incentivados e armados pelas duas potências dominantes. Com o fim da Guerra Fria, houve quem esperasse que adentraríamos num período de menos conflitos; levantaram até a possibilidade de estarmos diante do fim da história, quando a democracia liberal avançaria pelo mundo de maneira irresistível.

No entanto, o que se viu foi um período de novos conflitos de proporções não desprezíveis. A comunidade internacional conseguiu se portar mal em quase todos os novos conflitos. A primeira Guerra do Iraque (1991) ainda foi precedida de razoável negociação multilateral. Ainda assim, não é consenso de que aquela era uma guerra necessária, mesmo se a análise estiver em suas consequências.

Pouco tempo depois houve a guerra civil em Ruanda. A ONU optou por não intervir e deixou ocorrer o massacre de quase um milhão de pessoas. O mesmo se pode dizer quanto à Guerra do Kosovo; ainda que tenha havido ação dos países vizinhos (OTAN), a ajuda militar efetiva demorou a aparecer, o que possibilitou a ocorrência de novos massacres.

Com o atentado às torres gêmeas, os EUA, liderados por George W. Bush, abriram duas novas frentes de guerra: a do Afeganistão, apoiada pela OTAN e pela população americana, visto que não eram poucos os indícios de que o regime Talibã fomentava a formação de grupos terroristas e abrigou em seu território Osama Bin Laden; e a do Iraque, que tinha por fundamentos inexistentes armas de destruição em massa.

Os mecanismos multilaterais nunca funcionaram muito bem, mas as guerras só eram travadas mediante negociações prévias com os países com assento no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA deram então um passo à frente: contrariando a própria política americana do pós-guerra, os americanos resolveram remover Saddam Hussein do poder de forma unilateral. Conseguiu o apoio dos ingleses e iniciaram nova guerra, sem nenhuma legitimidade. Não se tratava de uma guerra necessária.

Acossados pela crise financeira internacional, os EUA precisavam reduzir o orçamento militar e, consequentemente, reduzir o número de frentes. Obama foi eleito estabelecendo alguns acordos com os eleitores: dar fim à Guerra do Iraque, vencer a Guerra do Afeganistão (que havia recrudescido) e fechar Guantánamo. Nenhuma dessas promessas foi cumprida.

Guantánamo foi consequência natural da guerra ao terror liderada por Bush. Como os EUA deflagraram conflitos não autorizados pela ONU, não passava pela cabeça dos ideólogos da guerra respeitar as cláusulas da Convenção de Genebra no trato dos prisioneiros de guerra. O modo de se legitimar essas práticas passou pela denominação de terroristas aos prisioneiros de guerra. A prisão localizada em solo não americano completou a construção legal da anomalia jurídica de Guantánamo.

Obama, que como candidato atuou como típico líder populista, prometeu fechar Guantánamo no primeiro ano. E prometeu encerrar o conflito no Iraque. A promessa de fechar Guantánamo não dependia apenas de vontade política. É mais fácil criar uma anomalia jurídica do que desfazê-la. Nenhum país quer os prisioneiros de Guantánamo. Não é politicamente aceitável levá-los ao EUA. E assim o tempo está passando sem que a prometida solução seja encontrada.

O fim da guerra do Iraque foi decidido nos gabinetes de Washington. Feita breve transição, as forças armadas americanas deixaram o Iraque nas mãos de um governo frágil, fruto de uma democracia que lhes foi imposta.

As guerras impopulares impediram o mundo ocidental de tomar medidas mais duras contra o Irã, que pode estar desenvolvendo bombas nucleares. A falta de interesse do atual governo americano pela política externa propiciou apoio irresponsável à Primavera Árabe, que até agora só produziu novas ditaduras e guerras civis. Face ao provável esfacelamento do Iraque, os EUA buscam apoio iraniano para conter o movimento rebelde ISIS, que ameaça instituir nova ditadura no conturbado Iraque.

É inegável a responsabilidade do governo George W. Bush, que deu início às guerras do Afeganistão e do Iraque, pela situação atual vivida pela política externa americana. Mas está claro que falta ao Governo Obama rumo, falta real interesse pelo mundo e consciência do que estão fazendo. É nesse sentido que o Governo Obama se assemelha os de países menos desenvolvidos: sua ênfase nos efeitos internos nas decisões de política externa; seu desinteresse pela história dos países envolvidos nos conflitos; sua tibieza alternada com declarações que beiram ao destempero; sua falta de cuidado com os aliados tradicionais.

Tudo isso levou os EUA à perda de relevância internacional, à perda do papel de potência hegemônica, posição atingida com o esfacelamento do bloco soviético. Paralelamente a isto, a diplomacia chinesa vem ocupando, a cada dia, posição de maior destaque no mundo, levando sua influência para além do oriente. A guerra ao terror pode ser muito popular entre os americanos; mas tem como consequência a limitação de seu poderio internacional. Para piorar, com o mundo mais complexo, seria desejável que houvesse um fortalecimento dos mecanismos multilaterais. A deflagração de guerras à margem da ONU só contribuiu para o seu enfraquecimento. Talvez esteja aí a explicação para o surgimento contínuo de conflitos de difícil solução, como os da Síria, da Ucrânia, do Egito e do Iraque.

Gustavo Theodoro

A Importância da Política

A situação da Crimeia nos remete aos tempos da Guerra Fria, em que o tom de voz subia na mesma proporção em que os enfrentamentos reais se reduziam. Apesar da aparente baixa beligerância dos países centrais, a prudência no trato com as palavras se faz necessária neste momento.

Na Guerra, a primeira vítima é a verdade. Está é a bem conhecida frase do Senador americano Hiram Johnson. Não estamos em guerra ainda, mas já não está fácil descobrir o que se passa na Crimeia.

A situação torna-se mais grave na medida em que o Europa ainda não se recuperou totalmente de sua crise financeira, os EUA estão incapacitados de participar de nova aventura militar após o desfecho da situação no Iraque e no Afeganistão e a Rússia parece estar prestes a aderir à crise que se aproxima dos países emergentes.

A crise da Rússia impulsiona o Governo pouco democrático de Putin na busca de um inimigo externo, algo que costuma afetar favoravelmente a popularidade de líderes autoritários.

Os EUA não têm se mostrado à altura dos desafios no campo da diplomacia. O caso das armas químicas na Síria é boa demonstração do amadorismo do Governo Obama no trato de problemas externos. Obama havia indicado a existência de um limite imposto ao Governo Sírio: se armas químicas fossem usadas no conflito, os EUA fariam intervenção militar. Armas químicas foram utilizadas, os russos intervieram e os EUA não cumpriram com o prometido. A diplomacia russa saiu vencedora, o que pode ter dado a ela confiança para dar o passo agora dado rumo à Crimeia.

Na primeira eleição de Obama para a Presidência dos EUA, o então candidato Obama fez duro discurso contra um País não alinhado com os americanos, ameaçando inclusive um ataque militar. John McCain então ensinou a Obama que política externa não se faz com retórica agressiva, guardando a agressividade para eventual conflito bélico. Pelo jeito Obama não aprendeu a missão.

Na crise da Crimeia, mas um vez Obama e seus Secretários têm subido o tom, fazendo menções imprecisas sobre o fim da diplomacia com a Rússia. Será isso uma declaração de guerra? Os precedentes da diplomacia americana indicam que não. Tudo não parece passar de mera bravata.

Na Ucrânia, a situação é, também, pouco clara. Movimentos nacionalistas, parte deles neonazistas, tornam difícil o alinhamento automático da opinião pública mundial com o novo Governo. A Crimeia, como se sabe, tem maioria descendente de russos. A Ucrânia, antiga república soviética, vive divisão interna entre os simpáticos à União Européia e à Rússia. O ordem institucional foi quebrada pelo movimento revolucionário. A Rússia, que já tinha tropas na Crimeia em decorrência do acordo que cedeu este território à Ucrânia no meio do século passado, utilizou seu imenso poderio militar para, apenas com a demonstração de força (mas aparentemente sem violência), impedir a influência ucraniana sobre a região.

É preciso saber ler a realidade: plebiscitos com 96% de aprovação dificilmente indicam escolhas livres e independentes. Precisamos nos lembrar das lições de Cícero: Inter arma legis silente ou cercada de armas as leis se calam. Hitler procurou dar legitimidade à tomada de Estados pela utilização de plebiscitos e referendos. Em clara semelhança com o momento atual, todas as anexações propostas por Hitler antes da Segunda Guerra Mundial foram aprovadas por percentuais próximos à unanimidade.

Nós aqui no Brasil adquirimos certa familiaridade com esses processos de consulta nas últimas décadas com o plebiscito do parlamentarismo e com o do Estatuto do Desarmamento. Ambos os processos tiveram um razoável período de debate (alguns meses, ao contrário do da Crimeia, de poucos dias), seguido de votações que apresentaram resultados razoavelmente equilibrados. Ou seja, plebiscitos e referendos, ainda mais quando tratam de desmembramento e anexação de estado, dificilmente são resolvidos por números próximos à unanimidade.

Reconhecendo que o referendo provavelmente não informa a real opinião da população da Crimeia e que a Revolução da Ucrânia colocou em cheque a legitimidade do novo Governo, urge que a boa política, caracterizada pela conversa e pelo acordo, volte a ser praticada. Evidente que para isso os estadistas aparecer, atuando com firmeza na esfera pública.

Já se sabe que a diplomacia dos EUA não está em seu melhor momento. A Rússia tem tradição de agir antes de pensar. É o que temos visto. No momento, Ângela Merkel é quem parece estar em melhores condições para recolocar a Alemanha em uma posição de protagonista no cenário mundial.

Sim, nem todas as decisões estão no campo da mera administração das coisas, como nos fazem crer diariamente. A política, mais do que nunca, é essencial na solução de conflitos desta natureza.  Ainda não sabemos que desdobramentos a situação pode revelar. Neste assunto, estamos com Proudon que profetizou: a fecundidade do inesperado excede de longe a prudência do estadista. Só nos resta esperar que a ação ponderada dos estadistas consigam resolver o conflito de forma pacífica.

Gustavo Theodoro