Considerações sobre a Verdade II

Que mundo existiria se não existíssemos? São as coisas como as percebemos ou há algo nelas de intrínseco, que independe de nossa presença? Questões como estas são matéria da filosofia há milênios. O mundo tal como o percebemos foi descrito como o mundo das aparências por Platão, das representações (Vorstellungen) por Shopenhauer, dos fenômenos (Ercheinungen), por Kant. Outros filósofos deram a este mundo outros nomes, o que revela o imenso interesse no mundo tal como ele é, na busca da coisa-em-si, independente do olhar humano.
A ciência, desde o Iluminismo, tenta descrever o mundo, de certo modo, de forma a independer da presença do espectador. Assim, os resultados decorrentes das experiências científicas podem ser reproduzidos por qualquer outro cientista.
Foi nesse ambiente que Kant admitiu a existência da coisa-em-si, do objeto existente por si próprio, mas deixou esta questão de lado, sendo ele, sob muitos aspecto, mas muito em decorrência deste posicionamento, o mais político dos filósofos. O abandono da metafísica deixou seu tempo livre para tratar da racionalidade, inclusive em suas consequências para a vida prática.
A ciência do século XX, no entanto, trouxe algumas questões que lançam uma dúvida sobre a suposta não interferência do observador no objeto observado, que foi a premissa da ciência a partir do século XVIII.
Com o advento das pesquisas em pequenas partículas (partículas elementares), uma nova teoria foi proposta para explicar o mundo dos quanta, a física quântica. Se por um lado o resultado das experiências era surpreendentes, igualmente surpreendente era a teoria proposta.
A nova teoria propunha algumas premissas extremamente contra-intuitivas: que as partículas ora se comportavam como partículas ora como ondas (dualidade onda-partícula); que era impossível conhecer com precisão sua posição e velocidade (princípio da incerteza de Heisenberg); e a mais interessante para este texto, a influência do observador no objeto observado.
Esta questão da influência do observador no objeto, aliada à incerteza das medidas e às descrições probabilísticas propostas pela física quântica, proporcionou debates científicos de grande interesse na metade do século passado. Einstein, que combatia com paixão a física quântica, disse a célebre frase: Deus não joga dados.
Há uma experiência descrita por Feynman que evidencia todas estas questões de forma bastante elementar. Imagine um canhão que atira elétrons contra uma antepara com dois furos. A experiência nos mostra que se emitíssemos ondas eletromagnéticas em direção à antepara, o resultado seria uma imagem de vales e picos cujo pico dominante estaria posicionado entre o furos da primeira antepara.
A surpresa da experiência envolvendo elétrons é que, neste experimento, ao invés de formar picos posicionados na frente de cada um dos furos (o que seria o comportamento típico das partículas), a imagem formada parece indicar que, neste caso, os elétrons estão se comportando e interagindo como onda. A imagem abaixo descreve adequadamente o fenômeno*:

imagem 1

Mas isto não é tudo. Se o canhão de elétrons reduzir sua produção de forma que ele emita um único elétron de cada vez, a imagem à direita permanece a mesma. Como não sabemos por onde o elétron passou (se pelo furo A ou B), é como se o elétron tivesse passado pelos dois furos, tendo como resultado a mesma figura mostrada acima.
Nosso senso lógico nos diz: mas o elétron não pode passar, ao mesmo tempo, pelos dois furos. A resposta dada pela física quântica para esta questão é a de que ele pode sim, desde que, naquele momento, esteja se comportando como onda.
O observador, no entanto, não ficou satisfeito com essa explicação e tentará enviar um fóton para descobrir, afinal, por onde o elétron passou. Ao fazer isso, o sucesso do observador é parcial. Ao emitir um fóton, é possível descobrir por qual furo o elétron passou: A ou B. No entanto, a figura resultante do experimento já não é esta e sim uma curva normal em torno do furo A ou B.
Ao descobrir por onde o elétron efetivamente passou, não há mais a interferência e o elétron, ao passar da fenda, acaba se direcionando para um dos pontos da segunda antepara. Executando o experimento repetidas vezes, o que se observa são duas curvas tal como mostrado na figura abaixo:

imagem 2

É o princípio da incerteza agindo, impedindo o observador de ficar à margem de seu experimento. Se o observador pretende conhecer exatamente o percurso do elétron, ele precisará intervir no experimento de uma maneira que alterará o resultado. Portanto, sem o observador, o elétron passa, ao mesmo tempo, pelas duas fendas. Ao tentar descobrir a trajetória do elétron, o observador acaba interferindo em seu percurso.
Se este fato fosse do conhecimento dos filósofos do passado, é possível que a metafísica não tivesse desaparecido dos debates filosóficos. Se eu me permitisse extrapolar estes resultados – o que não é recomendável – poderia chegar à mesma conclusão de Kant: de que a coisa-em-si é inalcançável, não significando isto que ela não exista. Talvez estejamos mesmo voltando a Platão que percebeu que a verdade existe, mas reconheceu a impossibilidade de todos termos acesso a ela. Sei que isto parece um pouco distante de nossos objetivos ao iniciar este debate – que é discutir a verdade na política -, mas penso que é impossível estar no mundo sem nos darmos conta da enorme herança de que dispomos. Conhecer um pouco desta herança nos ajuda a encontrar nosso lugar no mundo.
Gustavo Theodoro
*As figuras deste texto foram obtidas de texto de Osvaldo Pessoa Jr.

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