verdade

Fatos e Versões

O que tomamos como um fenômeno local, a divisão face às opiniões políticas das pessoas, é, na verdade, um fenômeno global. Vozes possivelmente potencializadas pelas redes sociais, cujos clicks e curtidas são vistas sintoma de sucesso, tendem a empurrar a opinião pública para extremos, reduzindo o espaço para o diálogo e aumentando o clima de animosidade entre cidadãos, eleitores, pessoas enfim.

Espanta, no entanto, que sintomas de sociedades totalitárias estejam presentes num mundo tão diferente. Nos tempos do totalitarismo, a verdade era sempre fugidia, as versões mudavam de acordo com as circunstâncias. Lembremos do Regime Soviético: Trotsky passa de líder revolucionário para traidor da revolução em poucos anos. Os fatos antes glorificados passam a ser vistos como sintoma de comportamentos reprováveis.

Lembremos da distopia de George Orwell, seu sufocante mundo controlado de “1984”, cujo regime havia compreendido que “quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado”. Tarefa das mais necessárias em regimes assim é dos responsáveis por reescrever a história, de forma a adaptá-la à conveniência do regime.

No início da guerra fria, os políticos de todo mundo tomaram conhecimento de que uma guerra nuclear poderia por fim à existência humana na terra. Líderes do partido soviético, no entanto, defendiam internamente que um ataque aos EUA colocaria fim apenas no país americano, em clara dissimulação da verdade, o que colocava em risco toda a nossa civiliação.

Esse fenômeno retira dos debates a opinião sobre as coisas, e os próprios fatos passam a estar em questão. Vejam recentemente a questão de Trump e a separação de crianças imigrantes. Nem é necessário tanto esforço para obtermos informações de que a prática existe há mais de uma década nos EUA, mas só nos últimos meses virou efetivamente política de estado. Como a condenação foi geral, os apoiadores de Trump começaram a disseminar que nada havia mudado sobre Trump.

Veja que Trump poderia ter mantido a separação das crianças e dizer que a culpa é da justiça e de quem imigra, ou mesmo tomar para si a ingrata tarefa de defender a medida (isso é política, defender posições). Mas ele preferiu revogar a ordem executiva. Mesmo assim, seus apoiadores seguem disseminando informações de que Obama fazia o mesmo. É certo que havia casos de separação de pais e crianças no Governo Obama, assim como é certo que o número de separações disparou nos últimos meses.

Hannah Arendt via nessa forma de debater uma herança dos tempos de totalitarismo. Escreveu ela lá na década de 1950: “A questão não está nas diferenças de opinião e convicções básicas, nem nas dificuldades concomitantes de se chegar a um acordo, mas na impossibilidade muito mais atemorizante de se estar de acordo quanto aos fatos”.

E testemunhamos os mais diversos exemplos dessas dificuldades, como as divergências sobre a correta qualificação do impeachment de Dilma Rousseff, as diferentes formas de se posicionar sobre o processo que levou à condenação de Lula, sobre a reforma trabalhista – atualizou nossa legislação ou significou o fim da CLT-, o debate sobre a necessidade da reforma da previdência, etc.

Sobre a previdência, há candidatos que negam até mesmo haver problemas, outros criam realidades paralelas, citando dado falso de que a dívida pública consome 51% de nosso orçamento. Ou seja, nem números objetivos sobrevivem a esses tempos. O espaço das opiniões deixa de existir, e com ela também a possibilidade da política.

Marina Silva costuma dizer que nossa capacidade de conciliar é, talvez, o nosso maior ativo, mas ele tem se degradado com o tempo, engolido pelo Zeitgeist. O afastamento dos extremos talvez possa nos levar de volta à possibilidade de nós todos formarmos um país, com opiniões divergentes, com disputa, debates, plebiscitos e votos, mas com posições mais honestas. Não podemos perder de vista que construir uma civilização é muito mais trabalhoso do que destruí-la.

Gustavo Theodoro

 

Física Quântica Vilipendiada

quem somos nós (1)

No final do século XIX, os físicos estavam certos de que tinham descrito completamente o mundo. Newton formulara a teoria da gravitação universal, Maxwell sintetizou a eletrodinâmica em quatro elegantes equações e a termodinâmica estava incorporada ao conhecimento de então. Em 1900 começaram a surgir artigos em que o termo quanta era citado. Einstein foi um dos primeiros a utilizar esse conceito para descrever a luz em um revolucionário artigo de 1905 (no que foi um ano revolucionário para Einstein também).

Quanta, na física, tem o sentido de partição, de parte. Einstein propunha, a partir de um experimento de Max Planck, que a luz parecia ser discreta, sendo, talvez, constituída de pequenas partículas, ao contrário da ideia que predominava na época. A física que envolvia as partículas subatômicas começou a se revelar diferente de tudo o que se conhecia até então. E a novidade não era pequena.

Partículas subatômicas ora se comportavam como partículas, ora como ondas, como se os estados coexistissem em uma partícula, revelando uma dualidade que causou perplexidade quando descoberta. Heisenberg, um dos mais eminentes formuladores da física quântica, foi o primeiro a propor que não éramos mais capazes de saber, com precisão, a posição e a velocidade de uma partícula subatômica. Tal condição ganhou o nome de princípio da incerteza.

Face à dualidade das partículas, muitos fenômenos não intuitivos foram observados. Na chamada física clássica, formulada por Newton, uma bola lançada contra uma elevação do terreno só a ultrapassa se ela for lançada com velocidade suficiente. Na mecânica quântica, uma partícula de 10 Kev de energia lançada contra uma barreira de potencial de 20 Kev, por exemplo, a ultrapassará algumas vezes, dependendo da largura da barreira. O mesmo não ocorre na física clássica, em que a bola, com 10 Joules de energia, nunca ultrapassará um plano elevado com energia potencial de 20 Joules.

O princípio da incerteza impede que o expectador seja retirado do experimento, de forma que a objetividade, que é pressuposto da ciência natural, passou a ser inatingível, tal como demonstra o experimento mental de Shrödinger e seu famoso gato.

Tudo isso causou imensa perplexidade na época e atraiu o interesse do público leigo em geral. Com o tempo, a dualidade onda-partícula, o colapso da função de onda (a que fiz referência em considerações sobre a verdade II), o princípio da incerteza, tudo isso começou a ser utilizado por especialistas em ciências humanas, sendo apropriadas por uma certa psicologia de auto-ajuda e por religiosos.

É fácil topar com pessoas que se interessam muito pela física quântica, mas por essa que fala de alma e comportamentos. Os conceitos da física quântica, apesar de apreensíveis, têm origem bastante complexa. A teoria, segundo a linha da ciência contemporânea, há muito abandonou o “por que” tão presente na antiguidade pelo “como”. O fato é que a ciência da atualidade só busca descrever o mundo, sendo o experimento, tal como propôs Galileu, o pai da ciência natural moderna, uma pergunta formulada à natureza.

Fora desse território, a dualidade onda-partícula, o colapso da função de onda e o princípio da incerteza são, quando muito, expressões de nosso mundo cultural. Podem até servir para especulações da epistemologia. Mas jamais houve um físico sério que utilizou esses conceitos, ou mesmo o termo “física quântica” para descrever estados da alma, para propor que o humano é constituído por uma dualidade corpo-alma ou para fazer qualquer ilação sobre o humano.

Sei que isso será um choque para alguns, mas o uso do termo e dos conceitos da física quântica, mesmo por pessoas com formação acadêmica, não passa de charlatanice. A ciência conquistou imensa reputação ao não especular sobre o que não estava em seu alcance. Frutos que somos da escola da dúvida de Descartes, a pseudociência, a psicologia charlatã e a religião sem fé buscam na ciência os conceitos que lhe darão leitores, pacientes e fieis. Com isso, a física quântica é vilipendiada, enquanto incautos seguem sendo enganados pelo seu mau uso.

Gustavo Theodoro

A Alegoria da Caverna

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                Há pouco mais de uma década, Harold Bloom provocou um intenso debate no campo das ideias acerca dos livros que comporiam o cânone ocidental, a lista mínima de livros que deveriam fazer parte da formação de todos os universitários. Seu livro causou enorme controvérsia, visto que toda escolha implica descarte.

                É cada dia mais difícil elaborar listas como essas. À medida que a lista de livros indispensáveis para nossa formação se torna maior, mais distantes ficamos de finalizarmos a leitura de todos esses livros.

                Reconhecendo nossa incapacidade ler todos os livros indispensáveis, volta e meia tomarei a liberdade de trazer algum trecho de livro que considero essencial para os debates que faço por aqui. Em minha discussões sobre verdade e política, inevitavelmente retorno à alegoria da caverna, presente em A República de Platão. Trago abaixo um resumo da alegoria, elaborado pelo saber coletivo da Wikipédia, que descreve adequadamente o diálogo havido entre Sócrates e seu discípulo Glauco. É um resumo, pois o diálogo é um pouco mais longo.

                Sócrates nunca escreveu uma linha sequer. Tudo o que se sabe dele nos chegou por seus discípulos ou antagonistas. Esta passagem especificamente nada tem de socrática, sendo identificada como da filosofia do próprio Platão, que usa Sócrates nesta passagem para ilustrar seu pensamento.

Imaginemos todos os muros bem altos separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.

Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos – desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras.

                A linguagem adotada pela alegoria é metafórica. O homem que se solta dos grilhões é identificado como o filósofo, aquele que se dispõe a pensar detidamente sobre a verdade, sobre o mundo e sobre o ser. A passagem não deixa de constar uma advertência àqueles que deixam o mundo das luzes e da verdade em busca de trazer compreensão aos que vivem aprisionados por seus grilhões.

Gustavo Theodoro

Filosofia e Política

A dissociação entre verdade e política se reflete, também, na dissociação entre filosofia e política. A filosofia foi marcada, desde de a antiguidade, por um sentimento de desconfiança da política pelos filósofos. A morte de Sócrates marca o momento em que os filósofos perceberam os riscos que corriam.

Sócrates foi condenado à morte em razão da livre atividade de pensamento que exercia. Como incitava o debate com o objetivo mais de provocar dúvidas que certezas, os tribunais de Atenas julgaram que ele desencaminhava a juventude. Platão, que era seu discípulo, passou a insistir em um modelo político que tinha os filósofos como tiranos, pois – assim ele pensava – só dessa maneira os filósofos poderiam prosseguir em sua busca pela verdade. Para Platão, não era o gosto pela política que levariam os filósofos a praticá-la. O que estava em jogo era a própria segurança física.

O episódio é importante para ilustrar que, se é fato que os políticos não são bons filósofos, é igualmente de se esperar que os filósofos não sejam bons políticos. Quase parafraseei Kant, que dizia que não é de se esperar, nem é desejável, que os reis filosofem e os filósofos reinem.

Heidegger foi um dos maiores filósofos do século XX, influenciou mais de uma geração e ainda hoje é muito lido e estudado. No entanto, quando resolveu participar da vida ativa, quando buscou seu espaço na esfera política, associou-se ao Nazismo, filiou-se partido e foi Reitor da Universidade de Freiburg entre 1933 e 1934.

Assim como políticos têm dificuldades com a filosofia – até pela falta de familiaridade com a verdade -, filósofos têm dificuldades com a política, talvez por desconhecimento da vida prática. Além disso, nunca se pode esquecer que a atividade política exige compromissos, com consequente redução da liberdade que caracteriza a atividade do filósofo. Na descrição de Schopenhauer, o verdadeiro filósofo vive perigosa, mas livremente (Gefährlich, aber frei).

Fernando Haddad, Prefeito de São Paulo, é Doutor em Filosofia. Político e filósofo, talvez para desafiar a experiência histórica. Apesar de elogiado em pequenos círculos intelectuais, já apresenta taxas de aprovação muito baixas. Não é meu interesse tratar disso. Interessa-me mais seu modo de pensar, descobrir se é possível fazer uma composição adequada entre os campos da filosofia e da política. Diversos atos dele são capazes de demonstrar que a incompatibilidade permanece presente. Ou talvez só demonstrem que filosofia talvez não seja mesmo sua vocação. Cito apenas uma frase de sua autoria proferida quando ainda era Ministro da Educação:

Há uma diferença entre o Hitler e o Stálin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas o Stálin lia os livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferença.

Não sei se Haddad é um bom político. Mas estou certo de que quem profere uma sentença como essa jamais será um grande filósofo.

Gustavo Theodoro

Dilma em Portugal e a Verdade na Política

                Nos últimos dias pudemos presenciar a confusão estabelecida nas relações públicas do Governo Federal, confusão criada em decorrência de seu hábito de não dizer sempre a verdade. A Presidente Dilma fez uma pernoite em Portugal não prevista em sua agenda. Diante do fato noticiado pela imprensa, o Palácio do Planalto informou que a pernoite foi decidida na véspera, em razão da mudança nas condições climáticas que desaconselhavam voos noturnos. No entanto, posteriormente, o restaurante e o hotel em que a Presidente estive confirmaram que a visita foi preparada com dias de antecedência. Trata-se de fato menor, uma pequena mentira, mas que revela bastante sobre a confusão que os Governos fazem sobre o texto de Maquiavel e seu discurso sobre meios e fins.

Na filosofia, é pela verdade que se busca. Já na política, em geral – e é natural que assim seja -, impera a lógica utilitária e as posições são discutidas em razão dos meios e fins. O estadista visa ao bem público e, por vezes, é necessário manter sigilo sobre alguns fatos, especialmente no que tange à política externa.

A filosofia é campo da verdade. E é perigoso falar a verdade. Esta foi a lição aprendida por Platão com a condenação de Sócrates à morte. Foi a partir deste momento que Platão passou a defender uma tirania de filósofos, para que seus pensamentos – e, consequentemente, a verdade – fossem protegidos. É interessante observar que também Cícero, político e filósofo,  acabou seus dias na ponta de uma espada, condenado que foi à morte.

É de se reconhecer que Platão não estava pensando como um ser político ao defender a tirania, já que não era o bem comum que ele tinha em mente, mas sim a segurança dos filósofos. Montesquieu, que conhecia bem o assunto, sabia que as tiranias são condenadas porque destroem a união dos homens; isolando uns dos outros, elas buscam destruir a pluralidade humana. No entanto, o caso ilustra adequadamente o antagonismo existente entre filosofia e política, antagonismo decorrente, em grande parte, da diferença de objetivos entre eles (verdade e bem comum).

Ao contrário do que imaginam os assessores dos Governos e os responsáveis pelo marketing e pelas relações públicas, não é porque o político nem sempre é obrigado a dizer a verdade que suas atividades devam ser constantemente protegidas por mentiras deliberadas, a não ser que tenham objetivos muito específicos.

De Gaulle propagou, durante a Segunda Guerra, a ideia de que uma França livre lutava contra a Alemanha. Mas é fato bem conhecido que a França havia sucumbido e que os franceses, em larga maioria, não estavam lutando contra os Nazistas. O certo é que mesmo a teoria política, muito afeita à teoria dos meios e fins, admite em pouquíssimos casos a mentira deliberada, mesmo assim em condições extremas.

O que se percebe com essa pequena mentira contada pelo Governo acerca da estadia da Presidente em Portugal é que a mentira deliberada passou a ser utilizada, indiscriminadamente, como prática corrente; foi incorporada à cultura de governo. Nas últimas décadas, parece ter havido uma grande extrapolação dos já discutíveis parâmetros maquiavélicos – em que a exceção da verdade tinha motivos e condições bem estabelecidas – para um absoluto descaso com a verdade.

Cultura vem do latim colere e tem significado bastante próximo do atual: significa cultivar, habitar, tomar conta, criar, preservar. Já no latim era utilizado na agricultura (daí vem a ideia mais forte atualmente, pois as plantas precisam de cuidados constantes para ser mantidas).

A importância das relações públicas – atualmente sob cuidado de marqueteiros – tem papel na criação deste ambiente cultural que incentiva o uso da mentira. Episódios como este, de grande repercussão, mas de baixo impacto sobre o futuro de uma País ou de um Governo, revelam que mentir se tornou prática comum e que o primado de verdade deixou de prevalecer não em razão do bem público, mas do costume de sempre moldar a realidade à conveniência dos Governos. E é bastante provável que o descrédito da política – em que o lema sem partidos das manifestações é emblemático – decorra, em parte, de a mentira ter sido incorporada como meio de ação política.

Gustavo Theodoro

Considerações sobre a Verdade II

Que mundo existiria se não existíssemos? São as coisas como as percebemos ou há algo nelas de intrínseco, que independe de nossa presença? Questões como estas são matéria da filosofia há milênios. O mundo tal como o percebemos foi descrito como o mundo das aparências por Platão, das representações (Vorstellungen) por Shopenhauer, dos fenômenos (Ercheinungen), por Kant. Outros filósofos deram a este mundo outros nomes, o que revela o imenso interesse no mundo tal como ele é, na busca da coisa-em-si, independente do olhar humano.
A ciência, desde o Iluminismo, tenta descrever o mundo, de certo modo, de forma a independer da presença do espectador. Assim, os resultados decorrentes das experiências científicas podem ser reproduzidos por qualquer outro cientista.
Foi nesse ambiente que Kant admitiu a existência da coisa-em-si, do objeto existente por si próprio, mas deixou esta questão de lado, sendo ele, sob muitos aspecto, mas muito em decorrência deste posicionamento, o mais político dos filósofos. O abandono da metafísica deixou seu tempo livre para tratar da racionalidade, inclusive em suas consequências para a vida prática.
A ciência do século XX, no entanto, trouxe algumas questões que lançam uma dúvida sobre a suposta não interferência do observador no objeto observado, que foi a premissa da ciência a partir do século XVIII.
Com o advento das pesquisas em pequenas partículas (partículas elementares), uma nova teoria foi proposta para explicar o mundo dos quanta, a física quântica. Se por um lado o resultado das experiências era surpreendentes, igualmente surpreendente era a teoria proposta.
A nova teoria propunha algumas premissas extremamente contra-intuitivas: que as partículas ora se comportavam como partículas ora como ondas (dualidade onda-partícula); que era impossível conhecer com precisão sua posição e velocidade (princípio da incerteza de Heisenberg); e a mais interessante para este texto, a influência do observador no objeto observado.
Esta questão da influência do observador no objeto, aliada à incerteza das medidas e às descrições probabilísticas propostas pela física quântica, proporcionou debates científicos de grande interesse na metade do século passado. Einstein, que combatia com paixão a física quântica, disse a célebre frase: Deus não joga dados.
Há uma experiência descrita por Feynman que evidencia todas estas questões de forma bastante elementar. Imagine um canhão que atira elétrons contra uma antepara com dois furos. A experiência nos mostra que se emitíssemos ondas eletromagnéticas em direção à antepara, o resultado seria uma imagem de vales e picos cujo pico dominante estaria posicionado entre o furos da primeira antepara.
A surpresa da experiência envolvendo elétrons é que, neste experimento, ao invés de formar picos posicionados na frente de cada um dos furos (o que seria o comportamento típico das partículas), a imagem formada parece indicar que, neste caso, os elétrons estão se comportando e interagindo como onda. A imagem abaixo descreve adequadamente o fenômeno*:

imagem 1

Mas isto não é tudo. Se o canhão de elétrons reduzir sua produção de forma que ele emita um único elétron de cada vez, a imagem à direita permanece a mesma. Como não sabemos por onde o elétron passou (se pelo furo A ou B), é como se o elétron tivesse passado pelos dois furos, tendo como resultado a mesma figura mostrada acima.
Nosso senso lógico nos diz: mas o elétron não pode passar, ao mesmo tempo, pelos dois furos. A resposta dada pela física quântica para esta questão é a de que ele pode sim, desde que, naquele momento, esteja se comportando como onda.
O observador, no entanto, não ficou satisfeito com essa explicação e tentará enviar um fóton para descobrir, afinal, por onde o elétron passou. Ao fazer isso, o sucesso do observador é parcial. Ao emitir um fóton, é possível descobrir por qual furo o elétron passou: A ou B. No entanto, a figura resultante do experimento já não é esta e sim uma curva normal em torno do furo A ou B.
Ao descobrir por onde o elétron efetivamente passou, não há mais a interferência e o elétron, ao passar da fenda, acaba se direcionando para um dos pontos da segunda antepara. Executando o experimento repetidas vezes, o que se observa são duas curvas tal como mostrado na figura abaixo:

imagem 2

É o princípio da incerteza agindo, impedindo o observador de ficar à margem de seu experimento. Se o observador pretende conhecer exatamente o percurso do elétron, ele precisará intervir no experimento de uma maneira que alterará o resultado. Portanto, sem o observador, o elétron passa, ao mesmo tempo, pelas duas fendas. Ao tentar descobrir a trajetória do elétron, o observador acaba interferindo em seu percurso.
Se este fato fosse do conhecimento dos filósofos do passado, é possível que a metafísica não tivesse desaparecido dos debates filosóficos. Se eu me permitisse extrapolar estes resultados – o que não é recomendável – poderia chegar à mesma conclusão de Kant: de que a coisa-em-si é inalcançável, não significando isto que ela não exista. Talvez estejamos mesmo voltando a Platão que percebeu que a verdade existe, mas reconheceu a impossibilidade de todos termos acesso a ela. Sei que isto parece um pouco distante de nossos objetivos ao iniciar este debate – que é discutir a verdade na política -, mas penso que é impossível estar no mundo sem nos darmos conta da enorme herança de que dispomos. Conhecer um pouco desta herança nos ajuda a encontrar nosso lugar no mundo.
Gustavo Theodoro
*As figuras deste texto foram obtidas de texto de Osvaldo Pessoa Jr.

Considerações sobre a Verdade

O espírito dos tempos do iluminismo privilegiou o racionalismo, a certeza de que o mundo seria complemente dominado e explicado pelo homem por meio de seu intelecto.

Alguns idealistas se opunham a esta ideia. Goethe, por exemplo, mostrava-se absolutamente inconformado com o empirismo e o racionalismo e dizia frases como eu me submerjo em mim mesmo e encontro o mundo (frase que poderia ter sido proferida por Platão) e a natureza emudece quando é torturada.

Este idealismo, como sabemos, foi derrotado pelo racionalismo e pela crença do progresso e na possibilidade da criação da Teoria de Tudo (que Einstein passou o restante de sua vida tentando formular).

No final do século XIX, havia uma certeza na física de que todos os fenômenos estavam prestes a serem plenamente explicados. Houve um cientista que chegou a dizer: dêem-me as condições iniciais e as forças que eu descreverei o mundo. Estávamos indo além das aparências, vendo o invisível por meio dos microscópios e dos telescópios, parecíamos que invadíramos a Caverna de Platão e estávamos levando seus habitantes para conhecer a verdade e o esclarecimento.

São ambientes deste tipo que podem produzir assertivas com a de Nietzsche (Deus está morto) e o doutrinas como o materialismo dialético de Marx e Engels, que consideravam a religião o ópio do povo, um dos motivos de sua alienação.

O século XX promoveu, pelo menos no campo da física, um distanciamento nosso da verdade científica. O princípio da incerteza, a mecânica quântica, a dualidade entre onda e matéria arrefeceram os ânimos daqueles que pretendiam dominar todo o conhecimento humano e geraram os grandes debates científicos do século XX.

O objetivo ainda é a verdade, sua influência e seus efeitos sobre a política. Mas no próprio post sigo discutindo a verdade no campo da ciência e, se possível, a crença no progresso.

Gustavo Theodoro

Sobre o Nome

                 Segue uma breve explicação sobre o nome do blog. Ágora, como todos sabem, era a praça central das Cidades-Estado gregas. Lugar de reunião, representava a esfera pública, local próprio para as discussões políticas.

Já o termo aporético não consta dos dicionários. Aporia, segundo o Aurélio, significa paradoxo ou dificuldades de ordem racional.

Os diálogos platônicos são ditos aporéticos. Isto porque, na metafísica doutrina platônica, somos seres que, quando nascemos, perdemos o contato com o mundo das ideias a que pertencemos. Com isso, nos esquecemos de toda a verdade. Isto explica por que os gregos utilizam alétheia como sinônimo de verdade, sendo que, literalmente, a expressão seria traduzida por desvelamento, no sentido de tirar o véu.

Assim, na teoria platônica, quando nascemos nos esquecemos de tudo, não cabendo, portanto, ensinar nada a ninguém, mas sim fazer as pessoas se lembrarem de um conhecimento esquecido.

Por isso, os diálogos estabulados por Sócrates não tinham por objetivo convencer ninguém de nada nem pretendiam ensinar o que quer que seja, sendo a maioria deles inconclusivo. O que ele pretendia era, por meio do debate de conceitos abstratos, aproximar da verdade os partícipes dos diálogos, dentro do pressuposto de que a verdade não está no outro, mas em nós mesmos, mesmo que esquecida.

Portanto, tomem aporético como inconclusivo, porém reflexivo.

 

Gustavo Theodoro

O Abandono da Política

Continuo averiguando as razões de nosso afastamento da vida política e do concomitante encolhimento do espaço público. Recente pesquisa divulgada pelos jornais nos informou que os políticos da Alemanha têm idade média de 58 anos. Média é um conceito estatístico fraco, mas podemos inferir que, mesmo em um País desenvolvido, com bom IDH e PIB per capita, a política não atrai os jovens.

Aqui no Brasil, temos o hábito de esculhambar os políticos (não chega a ser um hábito apenas nosso). E os políticos, aqui no Brasil, raramente nos decepcionam, sempre tendo o comportamento vil que esperamos deles.

A questão tem bases bastante profundas e pretendo, quem sabe, um dia respondê-la integralmente. Sinto, no entanto, que o abandono da busca da verdade e, principalmente, o abandono da verdade como conceito político tem provocado parte deste afastamento.

Os gregos tinham desprezo acintoso pela opinião (doxa), que, segundo eles, nos afastava da verdade (aletheia). Platão, na descrição do mito da caverna, revela a forma como estes conceitos eram considerados pelos gregos. Os habitantes da caverna só viam as sombras projetadas nas paredes. Para Platão, eles viviam no mundo onde imperava a opinião, a doxa. Já o filósofo tinha a capacidade de se libertar dos grilhões e até sair da caverna, onde a luz o cegava, mas onde o filósofo tinha acesso à verdade (aletheia).

Na descrição do mito, o filósofo, ao voltar para a caverna e contar a verdade, percebe que a verdade a que ele teve acesso era tratada como opinião. Nietzsche, em seu Zaratustra, descreve o mito de forma semelhante, sendo o filósofo não compreendido pelos demais.

É interessante observar como, na política, os políticos se esforçam para fazer algo pior: confundir a opinião com a mentira propriamente dita.

Os conceitos de esquerda e direita estão em constante rearranjo desde a revolução francesa (onde os termos emergiram). Lembrei anteriormente que, aqui no Brasil, nos anos 1990, focalização dos gastos públicos era programa da direita e era odiada pela esquerda. Neste sentido, tanto o Obamacare como o Bolsa Família, que são programas focalizados (isto é, são direcionados a uma parcela menos favorecida economicamente da população, ou seja, os pobres), deveriam ser encarados como programas ligados ao campo da direita.

É interessante observar que, em 2002, o então pré-candidato do PT, Lula, se manifestou contrariamente ao Bolsa Escola pois, segundo ele em declaração gravada, o importante era dar emprego e, além disso, deveríamos “ensinar a pescar e não dar o peixe”.

Esta opinião está absolutamente de acordo com o modo de pensar da esquerda até então. No entanto, passados mais de 10 anos desses acontecimentos, o debate político evoluiu. Há um partido em formação, que se diz da direita liberal (o Partido Novo), que tem defendido a redução do estado e o fim dos programas de caráter assistencial, sem se dar conta de que a direita liberal prefere programas assistenciais focalizados. E a esquerda, hoje, está bem confortável em defender o bolsa família do atual governo, sem se dar conta de que foi contra o mesmo tipo de programa há pouco mais de 10 anos. A mentira de alguns modificou a opinião de muitos.

Hannah Arendt dizia que “só se pode confiar nas palavras na certeza de que sua função é revelar e não dissimular”. Esta frase explica muito de nosso afastamento da política. Há muito a ser dito sobre a verdade, a coisa-em-si e o mundo das aparências. Mas o debate político não tem sequer arranhando estas questões, visto que o debate de ideias foi substituído, há um bom tempo, pela luta pelo poder. No próximo post, trato de fazer algumas considerações sobre a verdade na ciência.

Gustavo Theodoro