Direita e Esquerda III

Norberto Bobbio escreveu um pequeno livro de nome Direita e Esquerda logo após o esfacelamento do regime soviético. Era necessário recolocar as questões em seu lugar, já que a velha divisão socialismo x capitalismo havia caído rapidamente em desuso (exceto em alguns lugares mais atrasados do mundo).

Para Bobbio, o velho conflito entre esquerda e direita poderia ser reinterpretado pelo choque entre os ideais abstratos de liberdade e igualdade. Bobbio se apoiou na própria tradição de pensamento dos séculos precedentes, pois, na Revolução Francesa, o fim dos privilégios de classe era um alvo a ser atingido pelo fenômeno revolucionário.

A ideia de igualdade como decorrência da aplicação do direito natural teve poucas vezes presente na história da humanidade. Na democracia das cidades-estado gregas, cada cidadão representava um único voto (não que este conceito fosse muito relevante, pois os debates na Ágora sempre buscavam o consenso, e não a maioria). Mas havia um enorme contingente da população que não tinham direito de participar das discussões (escravos, mulheres, entre outros).

No Império Romano, a questão passava ainda mais distante dos conceitos de igualdade. Práticos, os romanos tratavam de estabelecer leis e contratos reconhecendo desigualdades presentes em sua sociedade. Ao contrário da visão dos filósofos do Iluminismo, a desigualdade era considerada natural.

Com o progresso da ciência e com a redução da autoridade do clero e da nobreza é que as ideias envolvendo um direito natural à igualdade começaram a ganhar força. E é bastante evidente que as ideias de igualdade estavam presentes nos revolucionários franceses. O Socialismo também previu uma sociedade mais igualitária, uma sociedade sem classes.

É evidente que era o que Bobbio tinha em mente ao reeditar o conflito entre capitalismo e socialismo por meio do embate entre liberdade e igualdade. Percebemos que os que se declaram de direita no Brasil e nos EUA costumam referir a si mesmo como libertários. Este termo está obviamente vinculado à liberdade exigida para o bom funcionamento dos mercados livres. E a igualdade, como observamos acima, esteve na base teórica do Iluminismo e do Socialismo. Logo, pode-se concluir que, em primeira análise, Norberto Bobbio poderia estar correto em sua análise e os termos esquerda e direita poderiam sobreviver em torno dos ideias de igualdade e liberdade.

A realidade, no entanto, é sempre mais complexa do que nossas teorias gostariam, o que torna a tarefa daquele que faz classificações sempre e cada vez mais complexa. Talvez seja mesmo o caso de abandonar esta busca por classificações a aceitar a profusão de significados com que convivemos. A mente racional, no entanto, não se conforma com isso e segue tentando interpretar e classificar a realidade. Este ceticismo quanto ao poder da razão estava presente em Pope quando comentou acerca do poder da razão sobre aquele que deve aplicar a justiça:

Em vão tua razão lançará finas teias

Para envolver a justiça em seu aranhol,

E o certo, rígido demais, retorcer em errado.

Portanto, sigamos com o racionalismo, mas sem abandonar o ceticismo profissional. Vamos guardar as ideias de Bobbio para retomá-las mais à frente. Não cheguei a analisar ainda os conceitos da esquerda brasileira nem a atualização do conflito de classes, mas prometo que chegarei lá.

Gustavo Theodoro

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