esquerda

A Luta de Classes

triplex-lula

A teoria socialista tem como base fundadora o conflito entre a burguesia e o proletariado. O desenvolvimento europeu no pós-guerra provocou uma reificação do marxismo, uma alteração de sua natureza, de modo a refletir um mundo onde a escassez já não era tão visível e o estado do bem estar social havia mitigado as diferenças dos tempos da Revolução Industrial. O regime soviético fazia água aos olhos da maioria e já não era possível negar a forma totalitária do comunismo.

Para manter a teoria de pé, era necessário apontar novas espécies de divisões sociais, de modo a preservar uma ideologia que era tão cara a tantos. O jovem Marx foi resgatado e substituiu o aborrecido, mas bem mais consistente, Marx economista de O Capital. Movimentos feministas, negros, hippies, LGBT gradualmente tomaram o lugar da velha luta de classes, que ainda remanescia, mas com muito menos vigor.

Essas ideologias provocaram novas divisões na sociedade e nem sempre contribuíram para a causa que ostentavam defender. Diz uma antiga ex-feminista que seu movimento nasceu fazendo a defesa da mulher de classe média-alta, instruída e branca, ou seja, era essencialmente um movimento de elite, mas que ainda assim encontrou seu lugar no liberalismo de costumes dos anos 1960 e 1970 como um subproduto do marxismo.

As divisões sociais inventadas a partir da derrocada do comunismo não passaram despercebidas pela esquerda, que tratou de instrumentalizá-las, transformando os novos grupos minoritários em eleitores potenciais. De certa forma, a estratificação da sociedade em subclasses criou, com o tempo, um reflexo condicionado, uma forma automática de lidar com os fatos cotidianos.

Se um homem agride uma mulher, a humanidade da agredida submerge em face de seu gênero, de modo que o fato passa a ser tratado como uma classe: “a agressão da mulher pelo homem”, em oposição à agressão de um ser humano por outro. Da mesma forma, quando um negro é assassinado, o que perpassa o noticiário é o racismo da sociedade, independente das motivações do crime.

Como já me referi acima, esse modo de pensar, essa consciência coletiva, esse arquétipo junguiano tomou conta das discussões políticas e sociais. A esquerda pode ter sido afastada do poder, mas é certo que ela ainda dá as cartas na identificação e classificação dos eventos  contemporâneos.

Talvez por isso seja tão difícil encontrar uma narrativa adequada à esquerda para o depoimento do zelador do triplex do Lula. Como os aporéticos devem ter acompanhado, José Afonso Pinheiro, o zelador do triplex, depôs na última sexta-feira e se indispôs com os advogados de Lula.

De um lado estava um negro, pobre e trabalhador, o que faz ligar uma série de reflexos condicionados na intelectualidade bem alimentada. Advertido pela OAS de que deveria negar em depoimento à polícia que o triplex pertencesse à Lula, Afonso preferiu dizer o que sabia. Foi demitido, perdeu seu teto e deixou de dar sustento e proteção a sua família. Convidado a ser candidato nas eleições de 2016 pelo PP, concorreu a vereador como Afonso do Triplex, mas perdeu as eleições. Do outro lado estava o caríssimo advogado de Lula, branco, de classe alta, bem formado, ponderado, de linguagem escorreita.

Perguntado sobre as visitas de Lula, Afonso confirmou os fatos já narrados em depoimento na PF. Disse que ex-Presidente esteve no triplex por duas vezes, que era tratado como proprietário, que mostrara a D. Marisa as áreas comuns e reproduziu algumas falas da mulher de Lula.

O advogado de Lula buscou atacar a credibilidade de Afonso a partir de sua candidatura a vereador. O ex-zelador se irritou com as perguntas que buscavam tisnar sua honra e reagiu prontamente com a voz visivelmente alterada: “Posso falar o que vocês são? Vocês são lixo, lixo. Isso que vocês são”. Como expôs em seu depoimento, o ex-zelador foi colocado em uma situação impossível: se mentisse à polícia, poderia estar cometendo perjúrio; se relatasse os fatos, poderia ser demitido. Os caminhos eram difíceis e nenhum deles lhe parecera promissor. Se pudesse escolher, Afonso preferia ter ficado à margem dessa história.

Se fosse outro o contexto, o representante da elite branca estaria sendo apedrejado e açoitado em público por ousar atacar não uma pessoa, mas uma categoria social, o homem negro, pobre e trabalhor, um oprimido, despossuído e merecedor da proteção do Estado. Mas não. O que se ouve por aí é silêncio, na maioria das vezes, e pós-verdade (novo nome para mentira).

Luis Nassif publicou em seu blog um texto tratando do assunto. Já na segunda frase percebe-se uma distorção dos fatos: “…, além de chamar os políticos de lixo, não apresentou nenhuma prova para sustentar as afirmações dos promotores contra Lula”. Ora, o ex-zelador não chamou “os políticos de lixo”; lixo era Lula, seu advogado e as pessoas que os cercam. Já o Diário do Centro do Mundo, outro conhecido reduto da esquerda, reconheceu quem Afonso chamara de lixo, tanto é assim que foi noticiado que a banca de Lula cogita processar o ex-zelador por esses termos. Dois blogs, duas versões.

Por não saber como lidar com um depoimento contundente do representante de uma minoria que o esquerdismo diz defender, resta atacar a honra pessoal, a imagem do trabalhador negro, em revelação transparente de que é melhor salvar as aparências a ser fiel às categorias que sustentam suas teses. Entre a salvação pessoal e a preservação da verdade parece não haver hesitação sobre o caminho a tomar.

Aconselhava o conservador Burke a “nunca separar por completo os méritos de qualquer questão política dos homens envolvidos nela”. A forma como esse episódio está sendo tratado revela, como desconfiávamos, a natureza instrumental, descartável, sujeita às conveniências, dessas teses que professam a defesa das minorias. As ideologias, desconfie profundamente delas. Sobre os homens envolvidos nesses fatos, já temos elementos suficientes para julgá-los.

Gustavo Theodoro

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Extremismo

Fiquei uns dias sem escrever, mas não pude passar incólume ao volume das discussões dos últimos dias. Pude perceber nesse recesso que o homem é movido a paixões e, na maioria das vezes, elas nos cegam. Sei bem que a utilização da razão (pensamento) é apenas auxiliar à atividade de julgar. E que particularmente nos assuntos políticos é a emoção que dá as cartas, ainda que travestida de razão.

Cito o caso do estupro coletivo, por exemplo. Assim que divulgado o fiapo de informação da história, já se formaram barricadas em sentido contrário, cujos limites extremos defendiam a culpa de todas as mulheres ou a culpa de todos os homens. Ao final, acho que pouco evoluímos na discussão que realmente importa sobre o estupro, já que a grande maioria das pessoas atacadas é de meninas menores de idade em companhia de parentes ou conhecidos.

O atentado da boate gay, em que foram mortas cinquenta pessoas, também foi um prato cheio para os formuladores de teses extremas. Raramente, na comoção que se segue a esses eventos, a culpa é atribuída ao autor dos disparos. A esquerda e os movimentos LGBT imediatamente atribuíram responsabilidade à cultura do ódio contra os gays (tal como houve o movimento de atribuir aquele estupro aqui no Brasil à cultura do estupro) e ao porte de armas. Já os conservadores chegaram a culpar a política de restrição às armas da boate, que transformou o assassino no único armado no local.

O que se nota nessas comoções é que grupos organizados se aproveitam desses momentos para fazer valer suas teorias. Enquanto isso, problemas reais são deixados de lado. Há quase 50.000 estupros por ano no Brasil. E percebemos no caso do estupro coletivo que não temos delegacias especializadas para lidar com esses casos nem mesmo em nossas grandes cidades.

A discussão das armas tampouco avança. Se por um lado continuará impossível conter os lobos solitários, sujeitos de pouco convívio social que eventualmente resolvem praticar homicídios em série, é certo que não se exige, para defesa pessoal, e não deveria ser admitido, um rifle com capacidade para matar dezenas de pessoas em um minuto. Nesse sentido, a busca do consenso é bloqueada pelos radicais, que buscam de um lado a proibição de todas as armas legais, enquanto o outro lado quer manter todo tipo de armamento.

As paixões dominam igualmente a cena política brasileira. Uma série de factoides e falácias conduzem o atual acirramento de posições. A contradição acaba se revelando com a evolução dos acontecimentos. Em um momento a Lava Jato era ruim, parcial e golpista. Como não fica bem passar falar o oposto do que se dizia, resta comemorar que agora políticos dos mais diversos partidos e do atual governo estão sendo delatados.

A delação era algo que não merecia respeito. “Eu não respeito delator”, disse Dilma Rousseff, sobre a delação contida em lei por ela mesma sancionada. Agora passa a ser motivo de comemoração pelos que condenavam a delação. É certo que há oportunismo dos políticos profissionais. Mas uma boa leitura das delações de Delcídio do Amaral e Sérgio Machado nos dispensa até mesmo da leitura de Raymundo Faoro e sua fenomenal obra “Os Donos do Poder”.

A Lava Jato não existiria se as ruas, em 2013, não tivessem derrubado a PEC 37/2011, que impedia o Ministério Público de iniciar operações. E pensar que muita gente boa combateu essa atuação do MP, por puro alinhamento ideológico, sem saber direito as razões pelas quais os políticos queriam calar esse quarto poder. Agora tudo ficou mais claro.

Por isso sempre aconselho que revisitemos nossas certezas, testemos nossos conceitos formados, duvidemos de nossas conclusões. E sublimemos um pouco essa divisão bastante artificial de “esquerda”, “direita“, “desenvolvimentista”, “liberal”, pois elas parecem que mais contribuem para fomentar a discórdia do que revelar nossas verdadeiras diferenças. Vejo que ainda há, para muitos, uma superioridade moral ao se dizer inclinado a alguma dessas correntes: “sou de esquerda”, “sou liberal”, é sempre dito com orgulho. Mas costuma ser os preconceitos de cada grupo que molda as opiniões das pessoas. Pertencer a um grupo tem um valor. Refletir isoladamente sobre cada questão é solitário e cobra um preço. Mas é o preço da liberdade. Vamos pensar sobre isso?

Gustavo Theodoro

Extremismo Político

Le Pen

Escrevi diversos textos críticos aos governos petistas nos últimos anos. Não fui condescendente com o comportamento do restante da esquerda que seguiu a reboque do PT, mesmo com sua adesão ao mesmo jogo político praticado pelos demais partidos.

Sempre entendi que havia um mundo era muito mais complexo do que a disputa entre categorias abstratas “esquerda e direita” ou, aplicando especificamente a nosso caso, entre petistas e anti-petistas. Mas a crise que levou ao impeachment praticamente extinguiu a ponderação das pessoas. A razão sucumbiu definitivamente diante das paixões.

Tem sido exigido da esquerda que apoie incondicionalmente a tese do golpe. Dos críticos ao petismo, exige-se a defesa do Governo Temer, “pois só assim se pode evitar a volta do PT”. Jucá, Geddel, Moreira Franco, Eliseu Padilha e Picciani assumem ministérios e quase não se nota crítica dos que foram para rua pelo fim da corrupção.

O Ministério da Cultura foi extinto. Há diversos argumentos que poderiam sustentar essa fusão com a área de educação. Mas o que se tem visto são argumentos defendendo o fim do financiamento público da cultura. Para isso, alguns casos emblemáticos são usados para sustentar essas teses.

A discussão do financiamento da cultura é difícil e complexa. Mas o novo Governo sequer falou em extinguir a verba para financiamento cultural. O que havia sido anunciado até então era apenas o fim da pasta, sem que a discussão tivesse avançado para o tema da necessidade de cortes de recursos.

Pronto. Foi suficiente para que a área cultural reclamasse, o que é postura absolutamente normal em ambientes democráticos. Cada grupo de pressão e de interesse deve mesmo se pronunciar sobre os seus assuntos. Os incendiários então entraram em ação.

A esquerda que tem disseminado a tese do golpe passou a denunciar o fim do financiamento da cultura. A perda da razão, no entanto, não escolheu lado. Imediatamente outro grupo barulhento passou a denunciar os artistas como parasitas estatais. A difícil discussão da aplicação de dinheiro público na cultura ficou restrita a chavões, palavras de guerra e “memes”. Em um ambiente assim, como podemos nos entender?

Apesar de os nomes para a economia terem respaldo do mercado, o restante do ministério de Temer foi forjado a partir das mesmas técnicas utilizadas nos governos anteriores: indicações de partidos buscando, quase que tão somente, maioria no congresso. O líder do governo na Câmara era da tropa de choque de Eduardo Cunha, é investigado na Lava Jato e tem sobre si acusação de tentativa de homicídio.

Não entendo o porquê de pessoas de bem defenderem esse “novo” governo apenas porque não gostam do PT. É direito de todos não gostar do PT. Argumentos teleológicos, finalísticos, quando resultados se colocam à frente de princípios, nunca me emocionaram. Seja qual for o resultado, apoio à canalha não nos enobrece. Se muitos diziam não ter “bandidos de estimação”, em uma referência aos petistas que seguiram defendendo os condenados no mensalão, agora é momento de demonstrar isso.

Há, ainda, outro incômodo que pretendo trabalhar mais nos próximos dias: a polaridade que engessa e conduz os lados em disputa a acirrarem suas posições. O exemplo venezuelano deve ser estudado com muito cuidado. A radicalização do país está prestes a produzir uma guerra civil. E foi o acirramento dos discursos que os levou a esse ponto.

Assim com a esquerda não precisa necessariamente se aliar aos pensamentos marxistas e trotskistas, nem necessariamente adotar os subprodutos culturais dos anos 1970, tampouco a direita precisa se conformar em seguir líderes xenófobos, machistas, violentos e nacionalistas.

Se de um lado a esquerda acabou se confundindo com o panfletário movimento de 1968, que atualizou conceitos do jovem Marx para utilizar seus arquétipos e criar novas “classes”, denominadas a partir de então de “minorias”, a direita não deixou por menos. As ideias de economistas austríacos foram apropriadas para se transformar em novos preconceitos nas mãos de políticos midiáticos, como Thatcher e Reagan.

O fim do comunismo criou espaço para aproximação de tendências, algo até verificado em alguns países da Europa e, de certa forma até no Brasil, quando muitos identificavam semelhanças nos dois principais partidos do Brasil, o PT e o PSDB.

O século XXI, no entanto, promoveu acirramento das divisões. Nos EUA o Tea Party levou a direita americana a outro patamar. Em quase todos os países europeus uma nova direita começa a dar as caras, reintroduzindo o nacionalismo e conceitos de raça na agenda política que tem como fundamento a xenofobia e o egoísmo.

No meio desse tiroteio, quase não sobra lugar para a socialdemocracia de formulação europeia, baseada no livre mercado, mas com garantias de direitos básicos a todos os cidadãos. É de se notar que essa socialdemocracia, apesar de ser usualmente identificada como fruto do pensamento moderado de centro-esquerda, apresenta diversas ligações com os pensadores liberais, no sentido inglês do termo. A começar por Locke, Mill, mas principalmente com os pensadores do século XX, que conviveram com o fascismo e com o comunismo, foi formulado um conjunto de ideias que estão na base de uma direita moderada, que presa a liberdade acima da igualdade, que acredita no livre mercado e na livre iniciativa, mas que atribui considerável papel para o Estado como necessário a garantir os direitos mínimos aos cidadãos.

A partir de 1989, com o fim do comunismo, imaginou-se que as divisões se dariam basicamente em torno do tamanho dos mecanismos de compensação utilizados, ou seja, o quanto de igualdade o Estado iria garantir sem impor demasiados limites à liberdade. O que se vê, no entanto, é um resgaste do feminismo, dos mitos dos bons selvagens, no valor da “mistura de raças” como elementos de valor, de um lado, e xenofobia, revisionismo histórico e excesso de pragmatismo de outro.

O radicalismo a que assistimos no Brasil está muito longe de ser caso isolado. Costumo dizer que quase sempre as explicações são locais, mas os fatores indutores da história são globais. Ou seja, o choque do petróleo dos anos 1970 e 1980 gerou desequilíbrio que desaguou em hiperinflação em diversos países. Governos caíram, assim como ditaduras. Nos anos 1990, quase todos os países da américa latina venceram a guerra contra a inflação. Governos se tornaram populares.

Nos anos 2000, tivemos a maior fase de crescimento da história mundial, pelo menos até 2008. Os governos locais acabaram sendo beneficiados, sendo muitos deles prolongados. A quebra das subprime levou crise aos países que passaram a substituir seus governos. Agora vemos a onda de radicalismo que essas crises, em grande parte, provocaram.

Assim, quando vejo nascer um movimento de apoio incondicional ao Governo Temer, quando me incitam a fechar os olhos aos Jucás e aos Geddeis, pois senão há risco da volta do PT, lamento, mas nessa escolha prefiro ficar com os princípios ao pragmatismo de boteco.

Eu sei que o período que passamos foi duro, o PT se excedeu na mentira e na manipulação e que todos gostariam que tivéssemos entrado em um “novo amanhã”, uma fase macia e doce, onde mel jorra nos campos e os pássaros cantam.

Mas vejam. Apesar das boas escolhas para a área econômica, houve pouca mudança na composição da base aliada e do próprio ministério. Alguns ministros, inclusive, passaram menos de vinte dias fora do governo, mal tendo tempo de trocar a cor da gravata.

Aí vão de dizer que eu não me contento com nada e que é necessário suportar o mal passageiro para se obter um bem maior. Diria Platão que o bem não será obtido a partir do mal. Vejam, o líder do governo recém escolhido está sendo acusado de tentativa homicídio. “Ah, mas é necessário garantir a governabilidade”. Sei não. Bom, o texto ficou longo e acabei não abordando todos os assuntos que pretendia. Volto ainda para falar sobre essa direita que está se apresentando no Brasil, a direita de Bolsonaro, que homenageia torturador e se vangloria disso.

Eu sei que não estou muito otimista. Mas é como dizia o mestre Pessoa: “O emprego excessivo da inteligência, o abuso da sinceridade, o exemplo da justiça, são qualidades que não permitem nenhuma ilusão de felicidade.” Ele sempre parece estar certo.

Gustavo Theodoro

Para Além do Passado

isaiah berlin

Por muito tempo, dei conselhos à esquerda. De longe, ficava parecendo que eu queria ensinar a esquerda a ser esquerda. A forma como eu percebia a realidade nos anos do PT indicavam-me que a existência de uma esquerda mais autêntica parecia comprometida em face do espaço que o PT e seu Governo ocupavam. O lixo cultural da esquerda dos anos 1960 e 1970 nunca contribuiu muito para o movimento, por dividi-lo em torno de teses improváveis.

Tudo indica que teremos à frente – se ele vingar – um governo conservador. Não gostei do primeiro retrato. Quando me afastei da esquerda há alguns anos descobri que havia muitos pensadores críticos da esquerda, mas ao mesmo tempo muito pouco afinados com a nova direita – que teve seu início com Thatcher e Reagan, mas que culminou em Tea Party e Fox News –, e em total oposição à velha direita, representada pelo comportamento autoritário, cuja expressão pode ser encontrada, de alguma forma, no fascismo.

Eu pretendo contribuir formulando alguns pensamentos e críticas a esse movimento que parece se enamorar de políticos populistas, grossos e autoritários, como Bolsonaro, ou, em outro campo, buscam um resgaste às tradições aristocráticas, resgatando imagens do passado para reembalá-las e apresentarem aos incautos como novidade.

Assim como para a esquerda havia alternativas ao populismo nacionalista em conchavo com a nata da corrupção, à direita há opções às alternativas conservadoras, elitistas e autoritárias. Não sei se esses caminhos alternativos algum dia deixarão de ser minoritários.

Na esquerda, Léon Blum, histórico líder do partido socialista Francês, esteve brevemente no Governo graças à sua persistência em manter seu partido fora do campo de influência dos soviéticos. Alexis de Tocqueville nunca foi apreciado pela direita ou pela esquerda, em face de seu pensamento singular. Isaiah Berlin tampouco era cortejado pelos movimentos organizados face à sua crítica ao determinismo (que afastava os marxistas), à sua defesa do pluralismo, à sua crítica a Hegel e Rousseau – e até a Kant – e sua condenação do autoritarismo, da conformidade e do “procustianismo”*.

O mundo é esse mesmo que temos diante de nós. Mas nossos alinhamentos não precisam ser automáticos nem irrefletidos. É essa a discussão que me interessa no momento.

Gustavo Theodoro

*Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente.

O Fim da Esquerda

Esquerdas

Se é fato que a direita floresce no Brasil, com a crescente popularidade de políticos como Bolsonaro e Feliciano, está claro que a esquerda padece, atônita, diante do desmoronamento de seu principal partido, o PT.

Tal como afogado, o PT parece querer abraçar o que resta da esquerda nacional para seu melancólico enterro. Ao mesmo tempo em que Dilma luta para preservar Renan Calheiros, José Sarney, Fernando Collor e os partidos mensaleiros a seu lado, por meio da entrega de cargos no Governo, lideranças do PT buscam retomar a velha aliança com os “movimentos sociais”, que hoje não guardam nada da espontaneidade exibida nos tempos de oposição.

E lá vão PSOL e PCdoB defenderem o Governo do PT, que gradualmente devolve todos os ganhos obtidos no período de bonança. Com a desvalorização do real, o índice de pobreza vai explodir novamente. O índice GINI também já indica alteração de tendência. As duas últimas trincheiras desse Governo, a taxa de desemprego e o aumento da renda, inverteram, de forma assustadora, a tendência no último ano.

Com a reversão das expectativas quanto aos indicadores sociais, a crise dos Governos do PT só faz aumentar. O Governo Dilma irá entregar, seja lá quando for o fim de seu mandato, o pior crescimento econômico da história, pior do que o período da crise de 1929, pior do que o da crise do petróleo nas décadas de 1970 e 1980. A dívida pública já saltou 16 pontos, deixando uma herança maldita para as futuras gerações.

O Governo do PT, é preciso deixar claro, nunca foi de esquerda. A primeira reforma encaminhada por Lula foi a da Previdência. Reforma esta que gerou uma crise com a esquerda do partido, que foi expulsa por Delúbio Soares e sua turma ainda em 2004. As políticas sociais foram um pouco mais abrangentes do que as do Governo Sarney (cujo lema era Tudo Pelo Social) e do FHC, graças ao boom das commodities. Com o fim desse ciclo, percebe-se que o Governo não se preparou para o momento.

Quem não assistiu não deve perder o vídeo da delação de Fernando Moura. Ele participou da montagem da estrutura corrupta que agora está sendo desmantelada pela Lava Jato. Sim, Fernando Moura cita Aécio Neves como parceiro de Lula na divisão do butim de Furnas. Mas percebam a naturalidade como o esquema se instalou assim que o PT assumiu o Governo. Petrobras, Eletrobrás, Furnas, Correios, as empresas foram loteadas, com participação de 1% do PT nacional e 1% do PT estadual, dependendo do caso. Isso já quando assumiram.

Não é a Lava Jato que está roubando o futuro do País. Foi a opção feita pelo PT logo que assumiu a presidência. Não se trata de coincidência as ligações evidentes entre o mensalão e o petrolão. Se parecia claro que o objetivo inicial era “roubar” para o partido (como se isso fosse admitido), todo o trânsito de dinheiro vivo acabou corrompendo parte considerável do Governo, de modo que não se poderia distinguir – tal como a cena final de Revolução dos Bichos – petistas de pemedebistas e tucanos. A figura de Lula remete muito mais a Sarney do que a Vargas.

Lembro que, no Rio, dizia-se no passado que o brizolismo impediu o surgimento de uma verdadeira esquerda no Estado. Pois penso que essa longa agonia do PT está tragando consigo o que resta da esquerda brasileira. A ideia de que tudo se justifica transforma até os idealistas da esquerda em pragmáticos, em que qualquer ato é defensável.

Ainda causa perplexidade que pessoas de esquerda apareçam defendendo grandes empreiteiros, como Marcelo Odebrecht e os donos da Andrade Gutierrez, grandes banqueiros, como André Esteves, e estejam contra funcionários concursados da Política Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Causa espanto que a maior operação em andamento de combate à corrupção do mundo seja constantemente torpedeada pelas esquerdas.

É normal que o PT reaja dessa forma, pois é a sobrevivência do partido que está em jogo. O que o restante da esquerda deveria ter em mente é que unir-se ao PT nesse momento significa ser cúmplice dos crimes do partido. E mais: unir-se ao PT significa apoiar um partido que já não é de esquerda há anos. Há muito mais dignidade na defesa de suas ideias longe do poder do que na composição com o que há de pior na política nacional.

A situação está de tal modo que até Maluf resolveu fazer troça com o PT. Ele, que é um dos únicos de seu partido que segue apoiando o PT, disse que se sente “enojado” com o balcão de negócios em que se transformou a disputa dos ministérios. A que ponto chegamos.

A união das esquerdas para “evitar o golpe” pode, no curtíssimo prazo, salvar o Govero. Concomitantemente, vemos aproximar o fim do que resta da esquerda no Brasil. Política se faz com promessa, diálogo e compromisso, mas também com valores, pois sem eles nem as ideias nem a esperança sobrevivem. Esse abraço de afogado ainda pode custar caro à esquerda.

Gustavo Theodoro

As Portas da Percepção I

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A descriminalização das drogas é um tema que está na ordem do dia, não só pela campanha havida nos últimos anos, mas também pelas experiências que estão sendo realizadas em dois países de culturas muito distintas: os EUA e o Uruguai.

Apesar de já termos assistido a décadas de discussões, o tema continua muito controverso e opõe diversos setores organizados da sociedade. A esquerda é normalmente identificada com a causa da liberação das drogas, mas a classificação do tema exige maior aprofundamento do debate (aqui não abordarei a diferenciação dos termos descriminalização, legalização e liberação, por considerá-la mais retórica do que de conteúdo). E não se espere que alguém que entre em nossa Ágora saia daqui com respostas definitivas. O tema apresenta diversos pontos de vista e vou tentar abordar a maioria deles, o que fará com que o tema seja tratado em mais de um artigo.

Vamos começar a abordagem do tema tentando responder se a liberação das drogas deveria ser uma causa normalmente atribuída à esquerda ou à direita. Os liberais ingleses do século XIX consideravam o Estado um mal necessário. Sua principal função estaria ligada à defesa da nação contra os inimigos externos, à segurança interna e à mínima regulação econômica (para dar garantia monetária, segurança dos negócios e para garantir a livre concorrência).

De resto, predominou naquele liberalismo a teoria de que o indivíduo deveria ser o único responsável pelos seus atos, inclusive aqueles que pudessem lhe fazer algum mal. Por este ângulo, a liberdade para consumir substâncias alucinógenas, relaxantes, estimulantes ou sociais deveria pertencer a cada indivíduo.

Não se pode esquecer que a mesma liberdade invocada na discussão da liberação das drogas poderia ser aplicada na discussão do uso de armas para autodefesa, na obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e demais itens de segurança veicular, no direito ao suicídio, dentre outros. Assim, aquele que tem por hábito buscar classificações abstratas – baseadas em liberdade, igualdade, por exemplo – corre o risco de não conseguir pertencer a grupo nenhum (esquerda e direita) ou de ser incoerente.

Aliás, aquele que se julgar estranho à esquerda e à direita, sinta-se bem-vindo ao clube. Estamos em boa companhia. Sobre Tocqueville já se disse que ele era demasiado liberal para o partido de onde ele provinha, não muito entusiasta por ideias novas aos olhos dos republicanos, ele não foi adotado nem pela direita nem pela esquerda: ele permaneceu suspeito a todos.

Por outro ângulo, a velha referência do movimento de esquerda do século XIX, Karl Marx, manifestava-se fortemente contra a alienação humana (que é acentuada pelo uso de drogas que modificam nossa percepção do mundo) ao mesmo tempo em que não previu qualquer papel para o estado após a revolução do proletariado. Assim, é bastante provável que Marx fosse, hoje, contra a liberação das drogas.

Conservadores, geralmente identificados com a direita, costumam se manifestar contra substâncias que alterem nossa percepção natural, por terem grande apreço pela segurança e pela racionalidade (ainda que conservadores tenham hábito de consumir bebidas alcoólicas). Substâncias que eventualmente coloquem em risco o homem ou a sociedade são combatidas pelos conservadores.

Em caso de liberação das drogas, aqueles mais afinados com uma maior presença do estado na economia – geralmente situados à esquerda do espectro político – optariam pela solução uruguaia, em que o estado controla inteiramente a produção e comercialização da maconha produzida. Na solução americana, a produção e comercialização estão nas mãos da iniciativa privada. Ao estado cabe os altos tributos incidentes sobre a droga produzida por lá.

Como se pode notar pelas considerações acima, apesar de serem os partidos e grupos ligados aos movimentos de esquerda que conduzem a luta pela liberação das drogas, a causa pela liberação não pertence exclusivamente a nenhum dos grupos, não podendo ser considerado natural a alinhamento atualmente verificado.

No próximo post serão considerados os argumentos de cunho utilitário, com ênfase nos efeitos que uma possível liberação das drogas poderia ter sobre a sociedade, com considerações sobre as promessas e os receios ligados à adoção desta medida.

Gustavo Theodoro

Neoliberalismo

Na semana passada o economista Wilson Cano concedeu uma entrevista ao jornal Valor Econômico que nos permite revisitar o conceito de neoliberalismo. Para quem não sabe, Wilson Cano é aposentado da Unicamp, onde exerceu a atividade de professor por décadas. O economista é nacionalista e admirador de Celso Furtado. Comecemos logo por sua entrevista e a seguir passaremos a comentá-la. Logo na segundo pergunta, o professor atribui à política neoliberal adotada na década de 1990 a responsabilidade pela atual situação de baixo crescimento e investimento. Na terceira resposta, que reproduzo abaixo, ficam mais claras suas ideias:

Os erros advindos do neoliberalismo são as reformas do Consenso de Washington — desregulamentação financeira, abertura comercial, as reformas da relação capital-trabalho, reforma da previdência social, privatização e encolhimento do aparelho do Estado. Essas coisas, que motivaram palmas e elogios na mídia durante muito tempo a muitos empresários, cobram um preço muito pesado para o futuro.

Nos livramos das estatais e nos livramos também da possibilidade de atuar diretamente no comando da política econômica de vários setores-chave. Se hoje estamos com problemas de logística, de comunicações, de energia, em parte se deve a isso. Simplesmente se entregou a coisa ao setor privado, achando que ele iria resolver os problemas. O setor privado se move com uma perspectiva de uma taxa de lucro. Quando essa taxa estremece, ele recua. Além disso, infraestrutura exige pesado financiamento de longo prazo, portanto, imobilização de recursos por muito tempo.

É muito complexo deixar exclusivamente na mão do setor privado. E foi muito pior, porque foi uma privatização de fato e de direito. Aquilo que estava afeto a ministérios, controlar telecomunicações, eletricidade, navios, virou todo um arremedo de controle público que são as agências, como Anatel e Aneel. Aquilo é um conjunto de pessoas que vieram do setor privado e que não são o Estado. É um ente híbrido e que, portanto, não pode fazer uma administração pública desses setores. Então, o Estado foi desmantelado.

Recomendo aos que se interessam por economia a leitura da entrevista na íntegra, pelo seu didatismo. A questão que me chamou a atenção no momento foi a atribuição ao neoliberalismo a crise atual de nossa economia.

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Como é de conhecimento de todos, o liberalismo econômico teve suas ideias iniciais formuladas por Adam Smith no século XVII. Para Adam Smith, a livre circulação de mercadorias tinha a capacidade de integrar os povos, dar maior acesso aos produtos, sendo o motor do progresso da civilização. Com o tempo, o liberalismo foi a cada dia mais identificado com a liberdade para fazer negócios. Para isso, conforme identificava o próprio Adam Smith, ao Estado cabia garantir a livre iniciativa e a livre concorrência. Se criado um clima de saudável competição entre as empresas, a mão invisível do mercado daria conta de remover da economia empresas menos produtivas e produtos muito caros. Ou seja, em sua visão, o liberalismo tornaria o mundo mais produtivo e os produtos mais baratos. Ao mesmo tempo, os proprietários dos meios de produção e mesmo os trabalhadores poderiam se tornar mais prósperos em razão dos ganhos em escala.

O neoliberalismo foi assim nomeado a partir da nova onda de liberalismo iniciada por Thatcher e Reagan entre os anos 1970 e 1980. A recuperação da economia inglesa e, em especial, o enorme crescimento do mercado financeiro americano nos anos 1980 deram fôlego a um outro tipo de liberalismo.

Tanto Reagan quanto Thatcher defendiam um liberalismo que ia além da garantia da livre concorrência das empresas privadas. Havia uma forte crença na autorregulação dos mercados e nos efeitos nocivos da atuação estatal na economia. Reagan e Thatcher fizeram ressurgir as teses de que o Estado era um mal necessário. Se era um mal, deveria ser mínimo. Com isso, não só o Estado não deveria participar da economia – por meio de empresas estatais, como defenderam Hayek e Von Mises – mas também não deveria regular a economia.

No entanto, o neoliberalismo foi apropriado de tal forma pela política que seu sentido original foi perdido. Qualquer referência à privatização ou redução de investimento governamental no setor produtivo é retratada como prática neoliberal.

A crise imobiliária americana de 2008 pode sim ser atribuída à política neoliberal. Desde a disparada dos valores negociados na bolsa de valores, o mercado financeiro tem pressionado os Governos pela redução de seu poder regulador. Veja que não se está apenas discutindo a participação direta do Estado na economia. O que os grupos de pressão de Wall Street demandam é a redução das regras impostas sobre o mercado financeiro. Foi a busca por lucros cada vez maiores que levaram os bancos a se alavancarem de forma irresponsável.

O trecho da entrevista reproduzido acima revela que o economista Cano acabou sucumbindo ao discurso político de seu grupo. Privatização de empresas e abertura comercial nada têm a ver com neoliberalismo. Trata-se sim do velho e bom liberalismo econômico que tanto desenvolvimento trouxe a nossa civilização.

Os problemas do Brasil são de outra ordem e o trato adequado dos conceitos podem nos ajudar na busca de soluções. O pensamento de Wilson Cano parece estar datado, preso a conceitos que tiveram grande importância na segunda metade do século passado. A ordem de grandeza dos recursos privados disponível para investimento no mundo tornam cada dia mais difícil a competição dos entes privados com os públicos. Ao mesmo tempo, atrair o investimento privado livre no mundo deve ser uma das prioridades de qualquer Governo. E não se consegue isso aumentando barreiras comerciais e a participação do Estado na economia ao mesmo tempo em que reduz a confiabilidade nos marcos regulatórios.

Diz o professor Cano que o Brasil está sem rumo. Isso qualquer observador distraído consegue perceber. No entanto, minha concordância com o professor vai só até aí. Como escreveu Camões:

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

O mundo mudou e os Estados Nacionais devem sim estar atentos à possibilidade de acesso aos imensos recursos livres no mundo em busca de boas oportunidades de investimento. Sim, as empresas visam ao lucro e não há mal nenhum nisso. Empresas estatais, por mais bem administradas que sejam, estão sempre sujeitas aos heterodoxismos do Governo (clientelismo, intervenção na economia via controle dos preços administrados, marco legal, lei de licitações, etc.). E é melhor pagar para ter bons aeroportos, boas estradas e bons portos do que tê-los como hoje se encontram, reduzindo nossa competitividade e afetando diretamente a capacidade de crescimento do Brasil.

Atribuir nossos males ao neoliberalismo só traz mais sombras sobre o debate, pois além de distorcer o significado de um termo econômico, nos afasta da busca pelo diagnóstico de nossos problemas.

Gustavo Theodoro

Dos Colunistas de Esquerda III

Talvez ainda chegue o momento de tratar dos colunistas de “direita”. Por enquanto, é a esquerda que têm oferecido os melhores pratos. Vladimir Safatle, de quem já tratei nesse espaço (em Colunistas de Esquerda) publicou uma coluna no dia 08/04/2014 que merece ser discutida.

O título da coluna é Menos Prisões. Vou reproduzir a coluna tal como publicada, emitindo meus juízos entre os parágrafos. O Safatle segue em itálico:

O número aproximado de pessoas presas no Brasil é de 550 mil. Trata-se do quarto maior contingente do mundo, atrás apenas dos EUA, da China e da Rússia.

Há pelo menos um estudo respaldando a informação. O dado é de 2013, bastante recente portanto. Bom ponto de partida.

Desses, pouco mais de 10% estão presos por homicídio (simples ou qualificado). Nos outros 90% encontram-se pichadores, pessoas que “desacataram” a autoridade policial e ladrões de quase todo o tipo (os que dilapidam o erário público e corrompem funcionários estão em outro lugar).

Neste ponto Vladimir Safatle começou a plantar algumas ideias tendo em vista a estratégia que pretende desenvolver a seguir. É destacado o número de homicídios (de cerca de 10% do total dos crimes), mas a seguir é feita referência a pichadores e a pessoas que desacataram a autoridade policial. Consultando-se as estatísticas de crimes, verifica-se que o crime dos pichadores ou dos que desacataram autoridade são residuais, não sendo estatisticamente importantes.

Para que citar crimes que quase não são cometidos se eles têm pouca relação com o número de presos? A resposta virá em seguida. Segundo Schopenhauer, a técnica utilizada pelo colunista é muito conhecida, utilizada para convencimento dos incautos. Trata-se de pré-silogismo, em que o leitor tende a aceitar algumas proposições que o levará, fatalmente, à conclusão pretendida pelo condutor do texto. Sigamos.

Um dos maiores grupos, a saber, 138 mil pessoas, representa aqueles presos por problemas ligados a drogas; na maioria das vezes são casos que, com um pouco de boa vontade, um sobrenome “classe média alta” e um bom advogado, seriam vistos como consumo, não como tráfico.

Este dado já contém alguma estimativa (o número oficial ligado às drogas está em torno de 90 mil). Se formos nos basear apenas nas estatísticas divulgadas pelos órgãos oficiais, os crimes ligados às drogas estão longe de serem predominantes nas cadeias. Pelo contrário, os crimes contra o patrimônio respondem por mais de 50% do total dos presos. Apenas isoladamente o crime de tráfico de drogas é importante (cerca de 20% do total). Os atos normativos publicados pelo Governo afastaram quase que totalmente a possibilidade de um usuário de drogas (pego com pequena quantidade) ser encarcerado. Portanto, os que estão presos com atividades ligadas às drogas são, predominantemente, traficantes.

No final deste parágrafo, o colunista faz uma ilação de que os traficantes presos poderiam, com um bom advogado, transformar sua quantidade de drogas em consumo, o que é bastante provável. A referência ao “sobrenome de classe média-alta” serve apenas para ligar os reflexos condicionados daqueles que se acostumaram a separar a sociedade por classes.

Desde a aprovação da nova Lei de Drogas, as notícias publicadas na imprensa dão conta de que os traficantes estão orientados a portarem pequena quantidade de drogas, distribuindo aos poucos suas mercadorias com o objetivo de evitar o enquadramento no crime de tráfico. Logo, a nova regulamentação já retirou da cadeia uma parte daqueles ligados às drogas. No entanto, as cadeias continuam cheias, o que é verdade.

Apesar dessa população carcerária em crescimento vertiginoso (lembre-se que há 20 anos haviam “apenas” 129 mil presos), apesar da polícia brasileira matar a esmo, nem a sensação de segurança aumentou, nem os números de crimes diminuíram. O que mostra como o Brasil é a maior prova da ineficácia brutal da política massiva de encarceramento.

Aqui o colunista começa a dar seu salto semântico, provocando um colapso da função de onda (como diriam os falsos conhecedores de física quântica), misturando silogismos à mentira, abandonando o método em favor da causa. A população carcerária aumentou em alguns Estados da Federação (como São Paulo), mas se manteve estável em outros (como a Bahia). No entanto, o número de homicídios (dado mais importante para acompanhamento dos crimes) caiu muito em São Paulo e subiu muito na Bahia nos últimos 20 anos.

No momento, o que se pode dizer é que parece haver uma correlação entre o aumento de prisões e a redução dos crimes (quando segregamos Estados), assim como parece haver uma correlação entre a redução das prisões e o aumento do crime. Não se pode deixar de considerar que correlação nada tem a ver com causalidade. A comparação centrada em um único dado sem causalidade definida é insuficiente para estabelecer qualquer tipo de relação entre presos e criminalidade. De todo modo, o colunista optou pela pior correlação, comparando números nacionais, sendo que a política de segurança é estadual e apresenta muita diversidade de ações. Vamos seguir.

Assim, quando as campanhas eleitorais começam, sempre há alguém a prometer maior número de vagas em cadeias, construção de mais presídios e, como se diz, uma política dura de “guerra” contra o crime. No entanto, seria o caso de insistir que esse encarceramento massivo é caro, burro e completamente ineficaz.

É interessante como o próximo parágrafo irá contradizer este. Vou deixar fluir e comento a seguir.

Se por volta de 60% dos encarcerados reincidem no crime, é porque as condições medievais das cadeias, a humilhação cotidiana e o contato com o crime organizado acabam por anular qualquer esperança de reorientação. É no encarceramento sistemático de sua população pobre que o Brasil demonstra sua verdadeira face totalitária.

Ora, primeiro Safatle condena os políticos que prometem construir mais presídios, como se a ideia fosse absurda. A seguir, o colunista passa a reclamar das condições medievais das cadeias. Seria bom que alguém o lembrasse que as condições medievais das cadeias têm ligação direta com a falta de vagas nas cadeias. Alguém também poderia lembrá-lo que condições mais adequadas nas cadeias poderiam reduzir a taxa de reincidência.

A seguir, o filósofo Vladimir Safatle utiliza o termo totalitário de uma forma que apenas o político filiado ao PSOL poderia fazê-lo (pensando bem, se ele é um político filiado ao PSOL, às favas com zelos terminológicos).

Percebendo seu equívoco, tenta retornar à linha de sua argumentação.

Levando isso em conta, há de se lembrar que o Brasil não precisa de mais vagas nas cadeias.

Sim, o Brasil precisa sim de mais vagas nas cadeias. Mas precisa também soltar aqueles que cumprem pena indevidamente. É necessário construir presídios agrícolas, próprios para o regime semi-aberto e aberto, pois isso sim pode recuperar os presos. Hoje, como não há presídios suficientes para cumprimento de penas mais brandas, pequenos criminosos são misturados às facções criminosas, realimentando a espiral do crime. Sem novos presídios, é impossível seguir a legislação vigente. Não seria melhor se passássemos a cumprir nossa legislação ao invés de tentar revogar as leis que não são cumpridas? Sigamos.

Ele precisa de menos pessoas presas. Na verdade, as autoridades do nosso país normalmente prendem quem não precisa e deixam solto quem deveria estar na cadeia.

Aqui não há nada além de jogo de palavras. É a retórica a serviço de uma ideia. Dizendo deste modo, o leitor se lembrará do político corrupto (que realmente deveria estar preso) levando-o a pensar que o ladrão de carros deveria estar solto (mas não vamos falar em ladrões de carros; falemos de pichadores…). Ora, ambos deveriam estar presos e deveríamos envidar esforços para que a impunidade não seja mais uma característica do País. Tratar com paternalismo aqueles que roubam residências e carros dificilmente nos colocará em situação melhor do que a que estamos.

Neste sentido, uma verdadeira discussão a respeito da descriminalização de drogas leves, nos moldes do que vimos ser feita de maneira corajosa no Uruguai, seria algo muito mais eficaz para encontrar respostas aos problemas prisionais do Brasil do que as velhas propostas que sempre ouvimos. Uma política massiva de transformação de penas em trabalhos comunitários e soluções alternativas seria, por sua vez, algo não apenas mais humano, mas simplesmente mais eficaz.

Parece que chegamos onde o colunista pretendia. Desde o início os crimes contra o patrimônio foram deixados em segundo plano, apesar de representarem 52% da incidência nos presídios, em favor dos crimes ligados à droga (ao tráfico em especial). Foi dado relevo às pichações e ao desacato à autoridade, que são estatisticamente irrelevantes, para tentar associar os presos à ideia de anarquistas livres (não à toa coloca desacato entre aspas). E então propõe a legalização das drogas, conclusão que vinha sendo preparada desde o início de seu discurso.

A seguir, novo arroubo retórico é jogado para a plateia, como se vê neste último parágrafo de seu texto.

No entanto, como há uma parcela canina da população, que tem orgasmos quando vê o porrete da polícia acertar a cabeça de alguém que ela não conheça, colocar tal debate não é das coisas mais fáceis.

Aqui a estratégia é tentar identificar os contrários à prisão com simpatizantes do fascismo ou da barbárie. Ora, nem todos aqueles que defendem a prisão após um julgamento adequado são fascistas ou têm orgasmos quando o porrete da polícia se encontra com a cabeça de um desconhecido. Reconheço a dificuldade de se discutir com bárbaros e fascistas. Mas é igualmente desestimulante discutir com quem maneja seus argumentos com desonestidade.

Dois pontos merecem esclarecimento. O primeiro diz respeito à liberação das drogas. Parece-me que há um espaço interessante para a discussão sobre o assunto. Os argumentos utilizados pelos dois grupos – contra e favor – são relevantes e parece haver espaço para algum tipo de entendimento. Além disso, há experiências em andamento (no Uruguai e nos EUA) que nos fornecerão dados preciosos sobre o assunto. Assim, não faz sentido recorrer a argumentos inconsistentes para demonstrar uma tese. Isso faz mais mal do que bem à premissa que o articulista procurava defender.

O segundo ponto se relaciona ao modo como o colunista se refere à autoridade, ao Estado e à polícia. Vejam como o Estado brasileiro é prontamente identificado como totalitário, uma palavra forte que se presta a descrever o regime de controle total (tal como se deu no Nazismo e no Stalinismo). Aqui Safatle mostra seu lado leninista, com sua desconfiança do Estado e da autoridade constituída. Tal como Lênin, Safatle vê a polícia como a força pela qual as elites controlam os pobres (substitua elites e pobres por burguesia e proletariado que teremos uma citação).

De fato é necessário tornar a polícia menos violenta e os presídios mais humanos. Direitos humanos devem estar sempre em primeiro plano. Não se pode esquecer que o poder do Estado (polícia, julgamento e prisão) substituiu a velha Lei de Talião. Tornamo-nos mais humanos com este sistema.

Em coluna futura trato de Foucault, mas trato também daqueles que proferem frases como quem não reagiu está vivo.

Gustavo Theodoro

Direita e Esquerda V – Do Direito à Vida

No campo econômico, as diferenças entre os conceitos de esquerda e direita se estreitaram e por vezes até se confundiram. Há poucos no Brasil que percebem que o programa de bolsas do Governo Federal (o Bolsa-Família) tem origem no ideário normalmente atribuído à direita. Da mesma forma, boa parte da opinião pública americana considera o Obamacare um programa pertencente ao ideário de esquerda; sendo um programa focalizado, com exigência de contraprestação do usuário, trata-se de programa defendido pela maioria dos liberais do mundo, em oposição aos sistemas universalizados.

Percebe-se, pois, que a imagem do governante afeta consideravelmente o julgamento do eleitor sobre o espectro político a que pertence o programa. Se Lula é o Presidente identificado com o Bolsa-Família, sendo ele de esquerda, a maioria da população tende a tomar o programa como sendo de esquerda. O mesmo ocorre com o Obama nos EUA. Há, no entanto, outras frentes, normalmente ligadas ao comportamento, em que a divisão esquerda-direita se apresenta. Também nesses casos contradições são encontradas. Hoje vou tratar do direito à vida.
Há vários temas em que esta questão se apresenta: na pena de morte, no aborto, na eutanásia, no direito ao suicídio assistido e até mesmo no direito ao uso de armas de fogo.

Na sociedade contemporânea, o direito à vida é o mais preservado dos direitos, estando presente na Declaração Universal dos Direitos do Homem promulgada pelo ONU em 1948, em seu artigo III, e em quase todas as Constituições promulgadas pelo mundo. Há quase um consenso mundial sobre a sacralização da vida humana e de sua inviolabilidade. Meu lado filósofo gostaria de enfrentar este cânone, mas aqui estamos analisando apenas os grupos políticos, a esquerda e a direita, e como eles se comportam diante das situações práticas que ainda se apresentam.

Não é possível afirmar de forma peremptória que um dos grupos é o maior defensor do direito à vida, se o de esquerda ou o de direita. No campo das classificações, seria possível ver coerência na divisão entre os que defendem o direito à vida em qualquer situação, e os que flexibilizam esse direito. Assim, seria bastante coerente que aqueles que defendessem a pena de morte fossem favoráveis ao aborto, à eutanásia, ao suicídio assistido e ao uso de armas de fogo. Para quem a vida fosse direito a ser protegido em qualquer situação, optaria pelo contrário disso tudo. Mas não é assim que os grupos se dividem.

Vejamos o caso da pena de morte. A defesa da pena de morte é usualmente feita por aqueles que se intitulam de direita. Em regra, os de esquerda são contra a pena de morte. Acho que são dois os sentimentos presentes naqueles que defendem a pena de morte: o direito de vingança mesmo (já que é o Estado que detém o monopólio da força) e o direito à segurança (dentro do pressuposto de que um assassino morto impede que ele cometa outro assassinato). A ênfase na segurança, é bom que se diga, normalmente é atribuída ao pensamento de direita.

No caso do aborto, a situação se inverte. Sem adentrar as discussões sobre o momento em que a vida se estabelece, aqueles que se intitulam de direita normalmente fazem o discurso de defesa da vida humana desde o princípio (esquecendo-se de que, muitas vezes, defendem a pena de morte). Já o grupo identificado com as ideias de esquerda se vê forçado a considerar a situação das mulheres (grupo normalmente tratado como uma minoria que necessita de tratamento especial por sua condição) de forma a dar a ela mais proteção, defendendo seu direito de não levar a gravidez até o final. Assim, o direito à vida, que era tão importante no caso da pena de morte, é flexibilizado na discussão do aborto por meio do argumento de que o corpo é de propriedade da mulher. É um argumento no mínimo polêmico, já que não se autoriza – e nem há defesa disso – que a mulher possa extirpar de si mesma um órgão saudável – como um rim, por exemplo – se ela assim desejar. E o assunto é, então, desviado para uma inócua discussão sobre o momento em que a vida humana é considerada inviolável, como se fosse essa a chave para a questão.

Também na eutanásia e no suicídio assistido, os que se denominam de direita são fervorosos defensores da vida, enquanto os de esquerda advogam pela possibilidade de morte por vontade própria ou de familiares. Não é possível tornar coerente as posições nem quando consideramos a viabilidade do ser, já que no aborto é um feto viável que é descartado (ou assassinado, de acordo com a identificação de cada um).
Está provado que o porte de armas têm alguma relação com o número de homicídios. Os países que têm mais armas, em regra, têm também mais homicídios. A discussão aqui é complexa e será também evitada. Fiquemos apenas na correlação já estabelecida. O ferrenho defensor da vida humana deveria, sem qualquer dúvida, defender a redução do número de armas de fogo. Neste caso, é a direita que se vê em luta com um outro valor que lhe é muito caro: o direito à segurança. Assim, normalmente aqueles que se intitulam de direita defendem a legalização do porte de armas.

Como vimos, se tentarmos buscar uma classificação com base em pressupostos comuns, não é possível encontrar nem na esquerda nem na direita coerência para as escolhas feitas. Kant tinha um sistema filosófico que jamais admitiria este tipo de contradição. Já Burke admitia que os grandes sistemas de pensamento só produziam desastres e que deveríamos julgar as questões uma a uma, já que cada uma delas encerra uma única discussão. Se formos por este caminho, padece definitivamente a utilidade dos conceitos esquerda e direita. Teses há muitas nas prateleiras do conhecimento humano. Cada um que escolha a sua.

Gustavo Theodoro

Dos Colunistas de Esquerda

Apesar de ainda não ter terminado a série sobre a esquerda e a direita, permito-me utilizar o rótulo “de esquerda” para me referir a alguns colunistas que escrevem em jornais e blogs, visando a identificar alguns comportamentos que já haviam sido relatados em textos anteriores.

O objetivo não é demonizar ninguém, nem ofender aqueles que apreciam os textos desses colunistas. O objetivo é identificar padrões, tentar refletir sobre a correção deles e, por que não, julgar sua procedência à luz da racionalidade.

O primeiro deles escreveu um texto na Folha de São Paulo de hoje. É Vladimir Safatle, intelectual filiado ao PSOL, que hoje tratou de reverenciar o aplauso que teria sido dirigido aos garis na greve do Rio de Janeiro.

É certo que o Prefeito do Rio de Janeiro fez algumas bravatas e teve uma postura muito pouco aberta ao diálogo, o que ajudou a reforçar o movimento grevista. É inegável ainda que, pelas informações disponíveis, os garis estavam com seus salários defasados. Foi notificado ainda que, antes da iniciado o desfile da Banda de Ipanema, houve alguns aplausos por parte de integrantes daquele bloco a garis em manifestação em rua próxima.

A partir desses poucos elementos, o colunista Vladimir Safatle criou uma alegoria em sua coluna, uma narrativa independente. Segundo ele, nada mais simbólico do que recolher o lixo, colocar a mão naquilo que os outros desprezaram. Que isto parece transformar os garis na representação natural do fracasso humano.

Interessante observar que um trabalho digno e honesto como qualquer outro tenha adquirido este simbolismo na visão deste colunista de esquerda. Ao ler sua coluna, fica-me a impressão de que é o colunista que acha o trabalho degradante. A partir deste ponto, o colunista passa para o campo da mistificação. Segundo ele, ao desfilar pela rua, deu-se o improvável: a população sai às ruas para aplaudi-los. Interpretação muito distante do relato da imprensa, que noticiou alguns aplausos de integrantes da banda de Ipanema.

Diz ainda Vladimir Safatle que nunca em sua vida viu grevistas serem aplaudidos. Esta percepção, se não for pura mentira, revela que o colunista não tem acompanhado o movimento grevista, que normalmente recebe o apoio da sociedade. A última greve dos professores do Rio, antes de ser aparelhada pelo PSOL e vandalizada pelos Black Blocs, tiveram aplausos vindos das janelas dos apartamentos da zona sul do rio, revelando que a prática está muito longe de ser incomum.

Não satisfeito, o colunista deu o salto que considero definitivo em sua intenção de criar mistificações a partir de traços de realidade. Destaco o seguinte trecho, que vem logo após sua declaração de que nunca viu a população aplaudir movimento grevista:

Isto demonstra como parcelas da população não querem esquecer a situação de desprezo e espoliação na qual os trabalhadores pobres brasileiros vivem.

Não vou encher a paciência dos que me leem com mais trechos do texto do colunista. O tom pouco se difere e o raciocínio mistificador, em tom de má poesia, permanece. O aplauso fortuito de um pequeno grupo concentrado para o Carnaval se transformou em uma demonstração da população de que não se esquece da situação de desprezo e espoliação da população pobre. Trata-se de salto retórico com o agravante de que não se fundamenta na realidade.

É mérito dos grevistas a vitória de seu movimento. Os trabalhadores responsáveis pelo recolhimento do lixo do Rio de Janeiro tiveram seus vencimentos adequadamente aumentados. O fato em si já é vitória suficiente para a categoria. Não é necessário enfeitá-la com alegorias inúteis.

Este tipo de categorização tem o DNA do modo classificar as pessoas em categorias, tal como ensinou o velho Marx. Se é lixeiro, é pobre, logo, é oprimido e desprezado. Como tal deve se comportar. E os civilizados devem reverenciar a presença o homem natural, o selvagem, livre da civilização que corrompe e entorpece. É de se pensar se devemos encarar as pessoas como categorias, deferindo um comportamento que deles se espera.

Não me alongo mais.

No próximo post tratarei de outros dois colunistas que abordaram um tema ainda mais polêmico, de uma forma ainda mais equivocada, e de como seus erros são tolerados pelos seus pares.

Gustavo Theodoro