Dos Colunistas de Esquerda

Apesar de ainda não ter terminado a série sobre a esquerda e a direita, permito-me utilizar o rótulo “de esquerda” para me referir a alguns colunistas que escrevem em jornais e blogs, visando a identificar alguns comportamentos que já haviam sido relatados em textos anteriores.

O objetivo não é demonizar ninguém, nem ofender aqueles que apreciam os textos desses colunistas. O objetivo é identificar padrões, tentar refletir sobre a correção deles e, por que não, julgar sua procedência à luz da racionalidade.

O primeiro deles escreveu um texto na Folha de São Paulo de hoje. É Vladimir Safatle, intelectual filiado ao PSOL, que hoje tratou de reverenciar o aplauso que teria sido dirigido aos garis na greve do Rio de Janeiro.

É certo que o Prefeito do Rio de Janeiro fez algumas bravatas e teve uma postura muito pouco aberta ao diálogo, o que ajudou a reforçar o movimento grevista. É inegável ainda que, pelas informações disponíveis, os garis estavam com seus salários defasados. Foi notificado ainda que, antes da iniciado o desfile da Banda de Ipanema, houve alguns aplausos por parte de integrantes daquele bloco a garis em manifestação em rua próxima.

A partir desses poucos elementos, o colunista Vladimir Safatle criou uma alegoria em sua coluna, uma narrativa independente. Segundo ele, nada mais simbólico do que recolher o lixo, colocar a mão naquilo que os outros desprezaram. Que isto parece transformar os garis na representação natural do fracasso humano.

Interessante observar que um trabalho digno e honesto como qualquer outro tenha adquirido este simbolismo na visão deste colunista de esquerda. Ao ler sua coluna, fica-me a impressão de que é o colunista que acha o trabalho degradante. A partir deste ponto, o colunista passa para o campo da mistificação. Segundo ele, ao desfilar pela rua, deu-se o improvável: a população sai às ruas para aplaudi-los. Interpretação muito distante do relato da imprensa, que noticiou alguns aplausos de integrantes da banda de Ipanema.

Diz ainda Vladimir Safatle que nunca em sua vida viu grevistas serem aplaudidos. Esta percepção, se não for pura mentira, revela que o colunista não tem acompanhado o movimento grevista, que normalmente recebe o apoio da sociedade. A última greve dos professores do Rio, antes de ser aparelhada pelo PSOL e vandalizada pelos Black Blocs, tiveram aplausos vindos das janelas dos apartamentos da zona sul do rio, revelando que a prática está muito longe de ser incomum.

Não satisfeito, o colunista deu o salto que considero definitivo em sua intenção de criar mistificações a partir de traços de realidade. Destaco o seguinte trecho, que vem logo após sua declaração de que nunca viu a população aplaudir movimento grevista:

Isto demonstra como parcelas da população não querem esquecer a situação de desprezo e espoliação na qual os trabalhadores pobres brasileiros vivem.

Não vou encher a paciência dos que me leem com mais trechos do texto do colunista. O tom pouco se difere e o raciocínio mistificador, em tom de má poesia, permanece. O aplauso fortuito de um pequeno grupo concentrado para o Carnaval se transformou em uma demonstração da população de que não se esquece da situação de desprezo e espoliação da população pobre. Trata-se de salto retórico com o agravante de que não se fundamenta na realidade.

É mérito dos grevistas a vitória de seu movimento. Os trabalhadores responsáveis pelo recolhimento do lixo do Rio de Janeiro tiveram seus vencimentos adequadamente aumentados. O fato em si já é vitória suficiente para a categoria. Não é necessário enfeitá-la com alegorias inúteis.

Este tipo de categorização tem o DNA do modo classificar as pessoas em categorias, tal como ensinou o velho Marx. Se é lixeiro, é pobre, logo, é oprimido e desprezado. Como tal deve se comportar. E os civilizados devem reverenciar a presença o homem natural, o selvagem, livre da civilização que corrompe e entorpece. É de se pensar se devemos encarar as pessoas como categorias, deferindo um comportamento que deles se espera.

Não me alongo mais.

No próximo post tratarei de outros dois colunistas que abordaram um tema ainda mais polêmico, de uma forma ainda mais equivocada, e de como seus erros são tolerados pelos seus pares.

Gustavo Theodoro

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