O Mal-Estar da Civilização

Há algumas obsessões da modernidade que tornam a vida mais difícil de ser vivida. Uma delas é o significado da vida, que faz com que o homem se pergunte constantemente se sua existência lhe está sendo satisfatória. Desde o fim da expropriação do homem da terra promovida pela secularização (século XVIII) – com a consequente dissolução da vida em comunidade – está presente um mal-estar, aparentemente advindo da civilização, como disse Freud, que nos acompanha.

Com a migração dos homens para a cidade e com as descobertas da ciência, somados à concepção da escola da suspeita, formulada por Descartes, o homem se viu cada vez mais desamparado, ainda que cercado de pessoas. O progresso material demonstrou que o mal-estar está um pouco além das necessidades físicas. A crise que acomete a humanidade desde o século XVIII é mesmo de significado.

Talvez por isso, o homem tenha se voltado tanto para si mesmo (o que tanto pode ser aventada como causa ou como consequência). Ao perceber este processo – tanto do predomínio da dúvida, quanto da alienação humana – Nietsche escreveu uma de suas frases mais duras, mas muito longe de ser desesperançada, como pode parecer: De agora em diante, a morada da alma só pode ser construída com firmeza na sólida fundação do mais completo desespero.

Ocorre que o homem é um animal social (na melhor tradução de Aristóteles, e não animal político, como costumamos ver). A vida social não parece ter sido capaz de superar a dissolução das esferas pública e privada. E a solidão, desde então, vem se tornando cada dia mais necessária e, ao mesmo tempo, mais rara.

A modernidade preenche os dias de atividades de questionável suprimento de valor para o homem, que segue em sua busca por algo mais. As atividades cotidianas, mesmo sem preencher aquela sede que está presente em quase toda a totalidade dos seres humanos, nos distraem de nós mesmos. Talvez ainda influenciados por teorias Weberianas, o trabalho adquiriu uma centralidade nunca vista na história.

Voltando ainda a Nietzsche, ele utilizou o camelo como uma metáfora do humano sob o domínio do tu deves (remetendo à imagem do animal que ajoelha para receber todo peso que aguentar em suas costas, em clara referência ao cristianismo); para retratar o homem com sua liberdade recém conquistada, Nietzsche escolheu a imagem do leão. Para Nietzsche, em seu tempo, o humano evoluiu de camelo a leão. Mas parece que tudo não passava de um sonho de liberdade.

Com a redução das esferas públicas e privadas e com o abandono da vida contemplativa, tudo isso acompanhado do esmaecimento da vida em comunidade – com a emergência da esfera social, que não foi capaz de substituir a vida comunitária –, o homem segue em busca de saciar sua sede de significado.

Goethe, o escritor de Werther, um marco do romantismo, tinha verdadeira aversão às práticas científicas que acabaram por construir esse novo mundo. Ao mesmo tempo, é herdeiro dos tempos pré-Galileu, que colocava o homem em um lugar especial no mundo e no universo. Talvez por isso ele tinha verdadeira obsessão pelo conhecimento criado por seu vasto interior, levando-o a proferir a sentença:  eu submerjo em mim mesmo e encontro o mundo.

Vejam que este mundo não era mais aquele do universo contemplativo. Talvez Goethe estivesse mais próximo do pensamento platônico, que julgava que o homem detinha em si todo o conhecimento das coisas, mas que este conhecimento estava apenas esquecido.

A incapacidade de se estabelecer vínculos reais e o abandono dos valores do passado – vejam que não sou nostálgico de épocas não vividas, nem estou entre os partidários daqueles que asseveram que antes tudo era melhor – degradaram a relação entre os humanos. Não se trata de um fenômeno apenas contemporâneo; trata-se sim de um produto da nova sociedade surgida na revolução industrial e do capitalismo. Neste novo mundo – e sou obrigado a citar Nietzsche novamente – é que me aproximo cada dia mais do filósofo do martelo que cunhou umas das melhores frases do pensamento humano: Não me roube de minha solidão se não for para me fazer verdadeira companhia.

Gustavo Theodoro

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