Os Limites do Crescimento

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Há algo que aproxima os ecologistas dos conservadores: é nosso modelo de permanente crescimento econômico. Pelo lado dos conservadores, há um ceticismo quanto à crença no progresso que, na opinião deles, substituiu antigas crenças (religiosas e ideológicas). Pelo lado dos ecologistas, o que está em vista é o esgotamento dos recursos do planeta.

Talvez devido à força desses movimentos, muitos economistas têm combatido a tese de que os governos precisam se comprometer com metas de crescimento econômico, visto que nem sempre isto produz impacto na qualidade de vida das pessoas.

Apesar dessa onda contemporânea, percebe-se que críticas com este teor não são novas. Na década de 1960, Bob Kennedy disse que o PIB não mensura nosso talento ou nossa coragem, nossa sabedoria ou nosso aprendizado, nossa compaixão ou nossa devoção a nosso país. Ele tem a ver com tudo, em suma, exceto com tudo aquilo que faz a vida valer a pena. Além da retórica e do romantismo de sua fala, Kennedy deixou claro seu inconformismo com a ênfase que os governos têm na medição do PIB e no seu crescimento.

Recentemente o economista André Lara Resende, um dos formuladores de economia da Rede de Sustentabilidade de Marina Silva, fez uma observação que também se relaciona com o tema: A partir de certo nível de renda, onde com certeza já nos encontramos, a qualidade de vida não está mais necessariamente associada ao consumo material. Vejam que a crítica atual ao modelo de crescimento a que nos acostumamos nas últimas décadas vem sendo reformulada no tempo, com premissas semelhantes.

O fato é que a sociedade demanda tanto um crescimento relativo superior ao atual como a melhoria nas condições de vida. É evidente que a melhora nas condições de vida nem sempre está ligada aos números do crescimento econômico. Ao mesmo tempo, é de se supor que baixo crescimento por longo período deteriora as condições de vida da população (enquanto o tamanho da população seguir crescendo).

Na época do milagre econômico, o Governo entregou números realmente fantásticos de crescimento. No entanto, a sociedade não percebeu proporcional melhoria em sua qualidade de vida. Delfim Netto teria dito, em razão desta percepção, que primeiro era necessário fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo. Em entrevista recente, ele desmentiu que tivesse proferido tal declaração. O que reconhece é ter alertado para a impossibilidade de distribuir riqueza ainda não criada. De todo modo, a polêmica entre crescimento e qualidade de vida está longe de ser recente.

Na medida em que o crescimento começa a derrapar, os governos começam a minimizar a importância do crescimento econômico, destacando outros números como desemprego ou renda, dependendo de como os números se apresentem. O segundo Governo FHC, que apresentou fraco crescimento, tentou sustentar sua popularidade mantendo a lembrança da vitória da estabilização da moeda. O atual Governo tenta se apoiar na melhora da situação econômica das classes sociais mais baixas.

No entanto, apesar da declaração de André Lara Resende, a renda per capita brasileira não nos dá indícios de que já atingimos o ponto em que a melhoria na qualidade de vida da população seja independente do crescimento econômico. Este equívoco é semelhante ao cometido por FHC em seu discurso de posse, que defendeu que o Brasil não é um país pobre; é um país injusto. Não tenho dúvidas de que o país seja um país injusto. Mas é impossível considerarmos que já atingimos o nível necessário de produção de riquezas.

Portanto, os candidatos que têm se apresentado para a disputa presidencial não poderão se esquivar das questões que envolvem o crescimento econômico do país. Sem crescimento, não há riquezas a serem distribuídas. E sem atendimento das necessidades materiais básicas, não se pode dar o passo seguinte, que envolve sim o reposicionamento dos valores da sociedade de consumo em que nos transformamos. A discussão proposta é envolvente e talvez seja apropriada aos países mais desenvolvidos. Por aqui, governos que não promovem o crescimento econômico fracassam.

Gustavo Theodoro

3 comentários

  1. Gustavo,

    Muito bom o seu texto. Gostei. Eu já disse várias vezes em outros fóruns (você já leu muito o que vou relatar), mas sempre gosto de lembrar que em 1976 Celso Furtado publicou O Mito do Desenvolvimento Econômico onde ele coloca a questão ecológica como um dos freios importantes do crescimento econômico no longo prazo.

    Quanto ao André Lara Rezende (que eu aprecio muito) acho interessante destacar que ele faz parte do grupo de economistas do Instituto Casa das Garças.

    Outro fato que gosto de destacar é que a China é a economia que mais investe em alternativas energéticas de baixo carbono. Segundo os especialistas, em um futuro não muito distante, das grandes economias do planeta, a China será a mais limpa!

    Para reflexão. Na prática, a China parece ter adotado a lógica do mercado e abandonado os velhos dogmas comunistas… pero no mucho. O Estado chinês ainda é muito forte e comanda a atividade econômica que, aliás, recebe muito investimento capitalista estrangeiro. Esta presença forte do Estado “comunista” na economia chinesa, impondo regras ao capital estrangeiro, talvez os livre dos lobbies das grandes empresas petrolíferas, permitindo ao governo investir pesadamente em energias limpas.

    O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas prevê que o aumento da temperatura do planeta para as próximas décadas já está encomendado para algo em torno de 4% e isto representaria um desastre ecológico sem precedentes. Se algo substantivo for feito para reduzir drasticamente as emissões de carbono, conseguiríamos conter essa elevação para algo em torno de 2%, o que já traria incomensuráveis prejuízos para o planeta. Os prejuízos para a agricultura, por exemplo, seriam imensos e os preços dos alimentos aumentariam muito. As consequências sociais seriam imprevisíveis. Para a saúde pública, idem.

    Acho muito difícil a “mão invisível” do mercado, com todos os lobbies da indústria petrolífera, conseguir reverter este processo.

    Um abraço

    Ângelo

      1. Caro Gustavo,

        Eu é que agradeço. Eu também tenho um enorme interessante neste assunto sobre o qual pretendo me aprofundar muito no doutorado. Vamos trocando ideias.

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