A Razão da Liberdade

Kant é considerado um filósofo exigente, de difícil leitura – não pelas razões pelas quais é difícil ler Heidegger ou Nietzsche –, mas foi um dos pensadores que erigiu um dos mais completos edifícios filosóficos. Além disso, relatos sobre sua vida indicam que ela foi bastante coerente com seus pensamentos.

Retratado por Nietzsche como o filósofo do dever e dos valores elevados (expressão essa utilizada não sem ironia), o fato é que Kant se dedicou bastante à liberdade. Liberdade é, acima de tudo, tema político. Kant, apesar de nunca ter escrito um tratado sobre política, nunca deixou de abordar o assunto, pois todos seus imperativos categóricos só se justificam na presença de um terceiro, com a existência do outro.

Com a mediocrização do debate atual, liberdade é muitas vezes tratada como sinônimo de fazer o que eu quero. Com Maquiavel sendo levado à sério, a lógica utilitarista predomina em nosso quadro político contemporâneo. É nesses momentos que a se faz necessário retornar a Kant, pois seus conceitos estão muito longe de terem sido superados.

A primeira grande contribuição de Kant foi ter dado à razão um destaque que ainda não tinha alcançado com os demais filósofos. Sócrates jamais pensou em utilizar a razão para moldar nossa vida. Platão tinha mais interesse pelo desvelamento, pela verdade revelada, sem o véu, do que pela razão em si. Thomas Hobbes definia a razão como a sentinela dos desejos. David Hume a denominava escrava das paixões. Para esses filósofos a razão era instrumental, desnecessária ou mesmo sujeita à vontade. Com Kant, tudo se inverteu.

A razão na Crítica à Razão Pura passou a ser senhora da vontade. Kant observou que tudo na natureza funciona de acordo com leis. Como somos livres, podemos escolher que leis irão reger nossas vidas. Se somos seres racionais, devemos ser capazes de escolher nossas leis independentemente dos ditames da natureza ou da inclinação. E a razão nos leva à construção de imperativos, que não passam de leis de nossa própria construção, mas com validade na esfera política. Ou seja, para Kant, os valores liberdade e igualdade têm pesos semelhantes, pois a liberdade nos leva a escolher a razão em lugar dos instintos (pois nós dispomos da razão), assim como a igualdade nos impede de criar leis utilitaristas, resguardando o valor do ato praticado e não a sua consequência.

Ao impor a si mesmo a construção de uma lei geral, construída a partir da aplicação da razão, surge o famoso enunciado que corresponde ao primeiro imperativo categórico de Kant: Age como se a máxima de tua ação devesse se tornar, através da tua vontade, uma lei universal. O verbo agir presente em sua máxima nos convence de que toda a filosofia kantiana é, acima de tudo, uma filosofia política. Torna-se mais claro o porquê de o imperativo citar a vontade e não a razão em sua máxima.

O imperativo é categórico, no dizer de Kant, pois não é condicional: deve se aplicar independentemente de seus fins. Na prática, veremos que o imperativo tem alguns aspectos irrealistas, mas não vamos tratar disso hoje.

Para Kant, nossa liberdade está em nossa autonomia, presente no fato de agirmos segundo lei que nós mesmos nos outorgamos, e não a natureza ou nosso inconsciente. E é nesse ponto que Kant é mais criticado, por estabelecer essa firme relação entre moralidade e liberdade, o que para muitos mitiga o conceito de liberdade normalmente utilizado na política. Nesses tempos em que a moralidade deu lugar à corrupção, relembrar Kant sempre nos faz bem. Sem Kant, dificilmente a política consegue se afastar de máxima de Roham, que diz que os reis governam os países, e os interesses governam os reis.

Gustavo Theodoro

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