Estelionato Eleitoral

nemqueavacatussa

Talvez tenhamos assistido nas últimas semanas ao maior estelionato eleitoral do período republicano. Dilma Rousseff foi eleita demonizando candidatos que insistiam em se referir à necessidade de ajuste fiscal ou à flexibilização dos direitos trabalhistas.

Dilma Rousseff acreditava ser saudável a expansão nos gastos públicos, ainda que isso provocasse certo desequilíbrio inflacionário, pois a injeção de recursos na economia traria frutos, como crescimento alto e desemprego baixo. Trata-se de keynesianismo de botequim. Ainda assim, não são poucos os defensores dessas heterodoxias.

A questão aqui não está tanto na defesa de ideias de cada partido, mas no cálculo político que fez com que a mentira durante a campanha seja deliberada. Pode-se alegar que as campanhas sempre foram assim, pois Fenando Collor disse que Lula iria atrás da caderneta de poupança da população, ganhando com isso alguns votos, para então bloquear a poupança de todos os brasileiros. FHC se comprometeu a manter o câmbio fixo nas eleições de 1998, mas logo no início de 1999 adotou a flutuação do câmbio.

A favor dos antecessores pode-se dizer que Collor não tinha a menor ideia do que iria fazer à frente da presidência, de forma que ele provavelmente não estava pensando em confiscar poupanças quando acusou Lula de ter essa agenda. FHC não queria flutuar o câmbio mesmo nos últimos dias que antecederam a mudança. O fim do controle do câmbio foi exigência do mercado e o Governo apenas sucumbiu. Assim, se é verdade que houve quebra de compromisso dos antecessores, em nenhum dos casos a mentira foi deliberada.

Dilma negou que fosse necessário qualquer ajuste fiscal. Demonizava Armínio Fraga. Eis que anuncia Joaquim Levy como seu Ministro da Fazenda. Trata-se de nome mais ortodoxo do que Armínio Fraga. É possível que o ajuste fiscal de Levy seja ainda maior do que o de Armínio Fraga. Além disso, quando Eduardo Giannetti mencionou a necessidade de atuar sobre alguns direitos trabalhistas, Dilma imediatamente se colocou como defensora dos trabalhadores, afirmando que nem que a vaca tossisse iria mexer nesses direitos.

No entanto, era evidente que o seguro desemprego necessitava de ajustes. Estava claro que a queda do desemprego acompanhado do aumento descomunal dos gastos com seguro desemprego era resultado de fraude e que essa fraude havia sido incentivada pela mudança nas regras efetuada pelo próprio Governo. Na campanha, a candidata Dilma negou que fosse necessário qualquer ajuste fiscal ou qualquer alteração nos direitos trabalhistas ou previdenciários.

A mudança de postura é calculada. Dilma está fazendo um Governo mais à direita do que seria o Governo Aécio ou Marina. Apesar disso, ela sabe que os que votam na esquerda se alinham naturalmente ao PT em períodos eleitorais, mesmo sabendo que ele virou as costas para seu passado. Os adversários são duramente atacados, pessoas como Marina Silva são retratadas como candidata de banqueiro e a eleição é ganha. Depois, para perplexidade dos eleitores petistas, o pragmatismo devolve o PT para os braços dos fisiológicos, dos conservadores e dos ortodoxos. De certa forma, o PT sabe que daqui a quatro anos fará ressurgir o nós contra eles, voltará a contar mentiras descaradas e então mudará após as eleições.

Não serei eu a criticar as atuais medidas do Governo. Fundamentei meu voto na necessidade de realização de um ajuste fiscal rigoroso. Aludi diversas vezes ao problema do seguro desemprego. A agricultura familiar é o sonho da velha esquerda. Para que ela se tornasse realidade, teríamos que retornar 50 anos no tempo. Logo, para mim não me desagrada ter uma representante do agronegócio, das grandes propriedades, no Ministério da Agricultura. Isso incomoda aos que são de esquerda.

Ironicamente, diria aos petistas que, se tivessem votado em Marina Silva, teriam um ministério mais à sua feição. Resta agora aos que se alinham à esquerda fazer oposição à Dilma. Até as eleições, pois sei que lá voltarão às hostes petistas, mesmo sabendo que as promessas são falsas e que é o programa dos adversários que será cumprido. Só é pena que tenhamos nos acostumado com esse festival de mentiras. Deveríamos reter a frase de Burke, que disse que a conduta das pessoas é a única qualidade que raramente diz mentiras. E a conduta dos petistas no governo não nos deixa dúvidas: eles pouco se importam com pobres ou com ideologia; atualmente, só o que resta é a busca pelo poder.

Gustavo Theodoro

7 comentários

  1. Quais direitos da legislação trabalhista a presidenta está suprimindo, Gustavo?
    Poxa, não é verdade que “a candidata Dilma negou que fosse necessário qualquer ajuste fiscal”, pelo contrário, tanto ela como o Mantega falaram em ajustes necessários após as eleições, que, todavia, não suprimiriam direitos trabalhistas e a expansão distributivista. E até agora, até onde se sabe, nenhuma medida anunciada retifica essa posição. Ela falava, durante a campanha, inclusive em mudança de equipe. Estamos no 2º dia do mandato, mas até agora ela está cumprindo o prometido.
    Por outro lado…
    … aqui em SP, um certo governador aplicou um estelionato eleitoral explícito — fratura exposta mesmo — na classe à qual pertence o autor do artigo, que no entanto, por razões que só posso presumir como partidárias, cala-se no texto solenemente a esse respeito.
    Está aí um belo exemplo de como a paixão ideológica pode levar alguém lúcido à obnubilação proposital num blog que se autoafirma “aporético”…
    Feliz 2015, Gustavo… Te adoro… rsrs.
    Abraço (nem preciso dizer) provocativo.

  2. Caro Valente, o que seria de nós sem uma boa polêmica? Vamos a seus argumentos. Primeiro, essa sutil distinção entre direitos trabalhistas e direitos previdenciários foi subitamente lembrada pelo amigo. Na campanha, a sugestão de flexibilizar direitos, que partiu da campanha de Marina, visava justamente lidar com o descontrole no seguro desemprego. Imediatamente, a candidata Dilma disse a frase sobre a vaca tossir e disse que não iria mexer no décimo terceiro e nas férias. Como se alguém tivesse proposto algo do gênero… Não, na campanha era conveniente confundir direitos trabalhistas com previdenciários. Agora não mais. Eu não me entendo com o petismo, pois sou muito racional. Ou seguro desemprego é direito trabalhista ou é previdenciário. Não consigo vê-lo como trabalhista na campanha e previdenciário depois de eleito.
    Sobre o ajuste fiscal, poderíamos recorrer ao programa de Dilma. Infelizmente, a candidata não escreveu programa de Governo. Assim, temos que lidar com suas declarações mesmo. Todos os candidatos se referiram ao desequilíbrio das contas públicas, menos a presidente Dilma. Apesar de Dilma ter dito que iria mudar a equipe econômica, em nenhum momento insinuou que iria pelo caminho oposto ao trilhado no primeiro Governo. Pelo contrário, ela disse, até para justificar a ausência de programa de governo, que “iria continuar a fazer o que já vinha fazendo”. No debate entre Armínio e Guido, Armínio disse que iria acabar com a farra dos bancos públicos, que não iria sobrar nada desse descontrole, das “pedaladas”, enquanto Guido defendeu a política que, segundo ele, gerava lucros para os bancos. Levy praticamente repetiu a frase de Armínio.
    Sobre o Governo de São Paulo, não vi nenhum depoimento público dele com qualquer tipo de promessa. Acho que as situações são diferentes.
    É isso. Grande abraço, Valente. Apareça sempre por aqui.

  3. Meu caro Gustavo, claro que nossas leituras das medidas do governo são diferentes, por simpatia eleitoral (que você é marinista confesso, e eu sou progressista-distributivista… rsrs), mas confesso, sinceramente mesmo, que não vi ainda nenhum sinal de que o 2º mandato Dilma irá por caminho oposto ao anterior.
    Ela vai fazer ajustes de sintonia fina, mínimos, na economia. O Levy não vai ser o Fraga do governo dela, não. Ela vai manter o Levy com rédeas curtas.
    O Fraga era terminantemente contra o financiamento dos programas sociais (moradia, educação, equipamentos) a juros ínfimos, subsidiados pelos bancos públicos, afirmou que acabaria com isso, literalmente. Ora, se ele fizesse o que declarou, daria um tranco enorme nos programas sociais, teriam de cair pela metade. A demanda agregada cairia.
    Já a Dilma não vai fazer isso. Minha Casa Minha Vida continua, bolsas universitárias totais ou parciais continuam, bolsa-família continua, etc. Com meros ajustes de distorções, bom mesmo que sejam feitos. O BNDES vai financiar menos os grandes grupos e mais as médias e pequenas empresas — ajuste salutar, precisava.
    Os ajustes têm de ser feitos, pois de junho/2013 (pós manifestações de rua, cc queda dos preços internacionais de comodities) para cá, a economia mundial se retraiu, a arrecadação encolheu com a retração econômica, então se as receitas encolheram, o corpo vai ter de malhar na academia para perder gorduras, senão não entra na roupa.
    Mas o governo federal creio que está no caminho certo, sem cortes verticais indiscriminados, vai ajustar o que precisa de ajuste, um cravo na receita, outro na despesa, um olho no peixe, outro no gato.
    Observe que também o Alckmin está fazendo ajustes que não fizera nos anos anteriores. Pena que ao que tudo indica ele não vá mexer onde deveria, acabando por exemplo com o desperdício de R$ 2 bilhões!!!! por ano da NF Paulista, a nossa bolsa-elite… rsrs…., tampouco nas regras da ST (acabando a farra das evasões travestidas de legais).
    Sobre a promessa que ele fez à classe, se você não acredita… será que as afirmações do pessoal do sinafresp (minúscula proposital) são mentirosas? Eles estão falando em trato de R$ 28 mil de teto… veio R$ 21… Quem estaria mentindo?
    Essas nuanças creio que você deixou em aberto para que se manifestassem, via leitor, as aporias, as opiniões contrárias, já notei essa esperteza da sua parte… rsrs. E sempre caio, mas caio de propósito. O que você faz em seus artigos, as reflexões que alça na área do adversário, são extremamente valiosas, pois as pessoas têm ideias fixas de chutes diretos, de modo que as suas aporias acabam surpreendendo.
    Parabéns pelo artigo e grande abraço.
    (P.S.: Não vou poder participar muito nestes dias, pois estou na montanha e aqui só vale a pena escrever quando chove… rsrs)

  4. Valente,

    Não se preocupe. Nos encontraremos novamente por aqui quando voltares da Montanha Mágica. Cuidado para não tomar um susto ao descer e perceber que é o Levy a economista da Dilma, e não o contrário. Se o Levy seguir de rédeas curtas, acho que o dinheiro externo necessário para financiar nosso déficit não vai aparecer. Por isso torço para que Levy seja mesmo o economista da Dilma.

    Bom descanso para você.
    Um abraço,

  5. Prezado Gustavo:
    Escrevo não apenas a fim de parabenizá-lo pelo post. Também não apenas para louvar a participação, via comentário, do seu amigo Antônio Valente. Volto a afirmar o que já citara antes, numa espécie de brincadeira-séria, de que este não é um espaço “aporético”, em que se fica “sem saída” diante de uma questão, mas, muito pelo contrário, que se trata de uma ágora poliporética, ou melhor ainda, dialética. As múltiplas perspectivas de um mesmo “fato” enriquecem, sobremaneira, a nossa percepção – enquanto leitor do blog – deste mesmo acontecimento.
    Antes de registrar efetivamente o que eu gostaria, queria apenas dizer que, por estes dias, estive assistindo ao documentário “Jango” – já havia assistido antes, mas não lembrava direito. Curioso ver a propaganda contra o supracitado presidente. Tudo sempre foi muito manipulado aqui no Brasil – nem sei se no resto do mundo inteiro -, no que concerne à propaganda política. A vantagem do documentário em questão é que temos, em alguma medida, o afastamento histórico para ver um pouco mais claramente o que se pretendia com aquela propaganda. O “terrorismo” do “Ele vai fazer isso…”, referindo-se a algo terrível sempre foi arma corrente… e não muda. Por isso é que, como você muito acertadamente registrou, daqui a quatro anos teremos novamente o “nós contra eles”. E, eu diria, vai funcionar… de novo. Afinal, sempre existirão “nós” e “eles” em lados opostos nas sociedades. E sempre haverá uma luta pelo poder. A questão é saber se aquele que se diz defensor do “eles” não está usando apenas aquele grupo como estratégico para sua manutenção de poder.
    Ainda uma última coisa, referindo-me agora à participação do Antônio Valente. Da mesma forma que um amigo petista que tenho, parece-me que o Antônio abraçou a ideia do “Vale tudo pelo social”. Sem nenhuma intenção de provocação, acho que deve haver limites para qualquer projeto ser colocado em prática, por melhor que ele seja. Equilibrar o jogo, no que diz respeito ao social, é fundamental em qualquer sociedade, sob risco de colapso total da mesma, caso isto não ocorra. Mas… forçar demais o volante pode fazer o carro sair do caminho pretendido. Contudo, sei que não há receita pronta para fazer as coisas irem bem; afinal, a cada dia a situação muda um pouco. Torçamos pelo melhor… ainda que vislumbremos o pior.
    Agora, sim… vou escrever o que queria. Rsss.
    Gostaria de registrar minha satisfação em descobrir um espaço tão interessante de debate neste ano de 2014. E, obviamente, agradecer a você por ter disponibilizado tão valoroso local de interlocução e troca de ideias. Em 2015, continuarei frequentando – enquanto for do desejo dos amigos. Rssss – sua ágora “poliporética”. Não cessa a minha provocação, hein!
    Porém, tenho que agradecer um pouco mais. Desta vez, refiro-me ao livro “Objeções de um rottweiler amoroso”, do Reinaldo Azevedo, com que fui presenteado por você e pela sua esposa. Foi minha primeira leitura extra-filosofia-spinozana após um bom tempo. Devorei o livro. Ótimo mesmo. Crítica refinada… e fundamentada… para desespero dos petistas de plantão. Muitíssimo obrigado.
    Grande abraço,
    Ricardo Garcia

  6. Ricardo,

    Obrigado pelo generoso comentário. Que bom que gostou do livro. Reinaldo é um sujeito inteligente, culto e que escreve muito bem. Acho, no entanto, que ele poderia forçar menos a mão, ser menos assertivo às vezes. Mas sei que esse é seu segredo, é o que o faz ter muitos leitores.
    O amigo Valente é meu adversário no campo de ideias há alguns anos. Posso dizer que às vezes temos opiniões coincidentes, mas quase sempre divergimos. Muito do debate que não aparece aqui acaba acontecendo no Facebook, onde divulgo esse espaço. Na campanha acaloramos a discussão, mas acho que a satisfação decorre do próprio debate, já que a lide não costuma ter vencedores.
    Sobre a manipulação da mídia, hoje acho menos eficaz e menos presente do que já foi. O espaço para debates, para surgimento da opinião pública, é muito maior do que no passado. Obviamente podemos optar por só ler Reinaldo Azevedo ou Mino Carta. Mas o enriquecimento vem do conhecimento do outro, da verdade do outro, e é isso que me estimulou a abrir esse espaço. Diria que está funcionando bem.

    Venha sempre aqui. Um abraço.

  7. Sua opinião parece plenamente confirmada a partir da apresentação das últimas ações do governo. Aliás, a revista Veja desta semana reforça ainda mais esta impressão, ao apresentar, na matéria de capa, o que nossa presidente dizia antes da eleição e o que faz, agora, já vencida a mesma.

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