Estelionato Eleitoral

O País da Perplexidade

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Não tem sido fácil entender o País. Atos a favor do impeachment de Dilma Rousseff contam com faixas em defesa de Eduardo Cunha. Manifestação de apoio à manutenção do Governo Dilma faz duras críticas à condução de seu Governo, em especial com relação à área comandada por Joaquim Levy. PSDB faz união estratégica com Cunha em um movimento contra a corrupção (se é que entendi bem). Renan Calheiros, ele mesmo, propõe uma “Agenda Brasil”, com intuito de dar sobrevida ao Governo Dilma. Michel Temer, o Vice-Presidente, disse que o Brasil precisa de alguém com capacidade de “reunificar o Brasil” (estaria pensando nele mesmo?).

Brasileiros com camisa da CBF marcham contra a corrupção. Alguém sabe o que se passa na CBF? Dizem que na ditadura não havia acordo com empreiteiras e que as obras terminavam. Alguém se lembra da ferrovia do aço? E de Angra 3, cujos escândalos duram décadas?

O PSDB votou contra o fator previdenciário criado em seu Governo. Justo quando pirâmide populacional parecia indicar que nova reforma era necessária, mas desta vez para aumentar a idade mínima para aposentadoria. Apesar de ser a favor da responsabilidade fiscal, negou apoio à política de ajuste fiscal. Já os parlamentares do PT têm se rebelado com frequência e votado contra seu próprio Governo. Ao mesmo tempo, evitam condenar o ex-Ministro José Dirceu, preso novamente por receber “pixulecos”.

Sim. Petistas até hoje negam a existência do mensalão. Alguns até admitem que ele existiu, mas que ele era mais barato do que dar ministérios para o PMDB. Pode ser. Mas será que vale a pena ganhar o poder para rasgar seu programa? Sim, pois se bem nos lembrarmos, a primeira traição foi a Carta ao Povo Brasileiro. Pelo menos ali não foi cometido estelionato eleitoral. Os petistas de carteirinha – convivi com eles – nunca acreditaram na carta. Eis que foi cumprida. Para ter maiorias, compraram deputados. Descoberto o esquema, entregaram as Estatais e parte dos Ministérios aos aliados como o PMDB, o PP e o PL. Ministérios de “porteira fechada”, como se diz. Para ganhar eleições, precisava arrecadar dinheiro público que transitava pelas empreiteiras. Assim foram presos dois tesoureiros do PT: Delúbio Soares (já condenado) e João Vaccari Neto (em prisão preventiva).

Quase dois bilhões de reais foram ou estão para ser devolvidos aos cofres públicos. Trata-se, provavelmente, do maior esquema de corrupção do mundo. O que não se entende é quem ainda defenda esse Governo: “ah, mas tem os programas sociais”; “ah, mas se eles não estivessem lá estaria o PSDB”. É esse o nível da argumentação. Estamos completando o primeiro ano de estelionato eleitoral. As profecias dos pessimistas estão todas se realizando. Dois anos de recessão (pelo menos). Aumento do desemprego. Diminuição da renda. É provável que venhamos a devolver boa parte do que ganhamos nos últimos tempos. Nesse momento, emerge meu lado idealista: vale a pena manter o poder a qualquer custo, mesmo comprando parlamentares, entregando ministérios com porteira fechada, roubando dinheiro público para financiar campanhas (mas também para benefício pessoal dos envolvidos) e mentindo descaradamente? Pois eu acho que não. O renascimento da direita está aí para demonstrar. O PT está acabando não só com seu partido, mas também com as esperanças normalmente emuladas pela esquerda.

Lembremo-nos de Leonard Blum, grande líder socialista francês, que evitou alianças com comunistas e segurou o partido dentro de seu programa. Pragmatismo não era com ele. Em cinquenta anos de liderança do partido socialista, em apenas um esteve conduzindo o Governo. Era um partido respeitado justamente por respeitar seu programa e conviver bem com o tamanho de seu eleitorado. Mitterrand e seu pragmatismo assumiram o poder a diminuíram o tamanho da esquerda francesa. Nas próximas eleições é provável que se tenha Sarcozy (liberal) contra Jean-Marie Le Pen (ultradireita). Valeu a pena?

Enquanto isso, aqui no Brasil, somos obrigados a ouvir o Senador do PMDB, Romero Jucá, dizer que não há demérito nenhum em ser denunciado. E Dilma fazer discursos sobre a mandioca e “mulheres sapiens”. E que não vai cortar recursos de programas sociais (mas já cortou). E o PSDB lançar uma frente em defesa da ética e tirar foto ao lado de Eduardo Cunha, o “guerreiro do povo brasileiro”, segundo coro proclamado pela turma do Paulinho da Força.

Bom, pelo menos parece que o Canadá está com política de incentivos à imigração. Nem tudo está perdido.

Gustavo Theodoro

Da Coerência Política

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Não se discute mais o estelionato político do PT. Está claro que o partido prometeu um cardápio, mas está entregando um prato diferente. Isso é fato. Espanta-me, no entanto, que a oposição, que denunciou o estelionato eleitoral do PT, se comporte de forma semelhante. Como pode o PSDB votar contra o ajuste fiscal e contra o fator previdenciário que eles próprios criaram?

Sei que vão me dizer que eu não deveria esperar nada mesmo de políticos, que são todos iguais, que na situação defendem a manutenção do poder e na oposição apostam no quanto pior melhor. Pode ser. Mas isso não nos impede de fazer uma cobrança por coerência. Nessa confusão em que estamos, torna-se impossível apoiar qualquer grupo.

É certo que a história nos ensina que pessoas excessivamente coerentes, muito racionais e éticas, não costumam ter grande sucesso na política. Pois a política exige, sempre, capacidade de recuar, de transigir e de compor. Mas o que ocorre em nossa política atual é muito mais do que isso. Há uma completa inversão de papéis, justificada por uma visão política de curto prazo, voltadas a paixões imediatas.

Sim, Robert Aron disse que, há algumas décadas, que é uma ilusão da experiência do nosso século supor que os homens sacrificarão suas paixões a seus interesses. É um pensamento inovador e surpreendente, mas muito aplicável ao momento atual. Era de conhecimento da maioria dos economistas que a política desenvolvimentista do Governo Dilma nos levaria ao ajuste fiscal de agora. A paixão pelo ideário igualitário, distributivista, com forte papel estatal, nos conduziu a esse desajuste que ora se apresenta, comprometendo os próprios interesses do PT.

Ao mesmo tempo, o PSDB, ao contribuir para o agravamento da situação das finanças públicas pelos próximos anos, não atua em favor do País. De certa forma isso pode aumentar suas chances eleitorais, mas adiciona dificuldade a um eventual futuro governo seu. Nesse deserto de estadistas, são as raposas que se criam e dominam o cenário. Enquanto assistimos à derrocada de PT e PSDB, é o PMDB que passa a dar as cartas. Alguém pode estar satisfeito com isso?

Gustavo Theodoro

Estelionato Eleitoral

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Talvez tenhamos assistido nas últimas semanas ao maior estelionato eleitoral do período republicano. Dilma Rousseff foi eleita demonizando candidatos que insistiam em se referir à necessidade de ajuste fiscal ou à flexibilização dos direitos trabalhistas.

Dilma Rousseff acreditava ser saudável a expansão nos gastos públicos, ainda que isso provocasse certo desequilíbrio inflacionário, pois a injeção de recursos na economia traria frutos, como crescimento alto e desemprego baixo. Trata-se de keynesianismo de botequim. Ainda assim, não são poucos os defensores dessas heterodoxias.

A questão aqui não está tanto na defesa de ideias de cada partido, mas no cálculo político que fez com que a mentira durante a campanha seja deliberada. Pode-se alegar que as campanhas sempre foram assim, pois Fenando Collor disse que Lula iria atrás da caderneta de poupança da população, ganhando com isso alguns votos, para então bloquear a poupança de todos os brasileiros. FHC se comprometeu a manter o câmbio fixo nas eleições de 1998, mas logo no início de 1999 adotou a flutuação do câmbio.

A favor dos antecessores pode-se dizer que Collor não tinha a menor ideia do que iria fazer à frente da presidência, de forma que ele provavelmente não estava pensando em confiscar poupanças quando acusou Lula de ter essa agenda. FHC não queria flutuar o câmbio mesmo nos últimos dias que antecederam a mudança. O fim do controle do câmbio foi exigência do mercado e o Governo apenas sucumbiu. Assim, se é verdade que houve quebra de compromisso dos antecessores, em nenhum dos casos a mentira foi deliberada.

Dilma negou que fosse necessário qualquer ajuste fiscal. Demonizava Armínio Fraga. Eis que anuncia Joaquim Levy como seu Ministro da Fazenda. Trata-se de nome mais ortodoxo do que Armínio Fraga. É possível que o ajuste fiscal de Levy seja ainda maior do que o de Armínio Fraga. Além disso, quando Eduardo Giannetti mencionou a necessidade de atuar sobre alguns direitos trabalhistas, Dilma imediatamente se colocou como defensora dos trabalhadores, afirmando que nem que a vaca tossisse iria mexer nesses direitos.

No entanto, era evidente que o seguro desemprego necessitava de ajustes. Estava claro que a queda do desemprego acompanhado do aumento descomunal dos gastos com seguro desemprego era resultado de fraude e que essa fraude havia sido incentivada pela mudança nas regras efetuada pelo próprio Governo. Na campanha, a candidata Dilma negou que fosse necessário qualquer ajuste fiscal ou qualquer alteração nos direitos trabalhistas ou previdenciários.

A mudança de postura é calculada. Dilma está fazendo um Governo mais à direita do que seria o Governo Aécio ou Marina. Apesar disso, ela sabe que os que votam na esquerda se alinham naturalmente ao PT em períodos eleitorais, mesmo sabendo que ele virou as costas para seu passado. Os adversários são duramente atacados, pessoas como Marina Silva são retratadas como candidata de banqueiro e a eleição é ganha. Depois, para perplexidade dos eleitores petistas, o pragmatismo devolve o PT para os braços dos fisiológicos, dos conservadores e dos ortodoxos. De certa forma, o PT sabe que daqui a quatro anos fará ressurgir o nós contra eles, voltará a contar mentiras descaradas e então mudará após as eleições.

Não serei eu a criticar as atuais medidas do Governo. Fundamentei meu voto na necessidade de realização de um ajuste fiscal rigoroso. Aludi diversas vezes ao problema do seguro desemprego. A agricultura familiar é o sonho da velha esquerda. Para que ela se tornasse realidade, teríamos que retornar 50 anos no tempo. Logo, para mim não me desagrada ter uma representante do agronegócio, das grandes propriedades, no Ministério da Agricultura. Isso incomoda aos que são de esquerda.

Ironicamente, diria aos petistas que, se tivessem votado em Marina Silva, teriam um ministério mais à sua feição. Resta agora aos que se alinham à esquerda fazer oposição à Dilma. Até as eleições, pois sei que lá voltarão às hostes petistas, mesmo sabendo que as promessas são falsas e que é o programa dos adversários que será cumprido. Só é pena que tenhamos nos acostumado com esse festival de mentiras. Deveríamos reter a frase de Burke, que disse que a conduta das pessoas é a única qualidade que raramente diz mentiras. E a conduta dos petistas no governo não nos deixa dúvidas: eles pouco se importam com pobres ou com ideologia; atualmente, só o que resta é a busca pelo poder.

Gustavo Theodoro