A Ética dos Mercados

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O mercado, quando é livre, cria suas anomalias e as corrige por meio de desvalorizações abruptas e, geralmente, descontroladas. A febre das tulipas na Holanda do século XVII ilustra bem o fenômeno.

Tulipas eram flores raras, de longa maturação, cujo desenvolvimento se dava em até 12 anos. O mercado girava em torno dos bulbos das tulipas. Devido ao tempo de maturação das tulipas, as tulipas foram substituídas por contratos. Especuladores passaram a comprar e vender o direito sobre as tulipas quando desabrochassem. Esse é talvez o primeiro exemplo de contrato futuro, fundado na expectativa de valorização do ativo (no caso, as tulipas).

Esses contratos chegaram a Londres e a Paris. Os preços desses contratos subiram exponencialmente até que um comerciante resolveu não exercer o direito da compra da tulipa no vencimento do contrato. Subitamente, a desconfiança com o preço exorbitante do bulbo se espalhou e o valor das tulipas chegou a um centésimo do valor do pico. O estouro da bolha provocou recessão e desconfiança quanto a esse tipo de investimento.

No século XX assistimos ao amadurecimento dos mercados, principalmente a partir da crise de 1929. Mas não se pode dizer que tenhamos, de fato, aprendido algo. Nos acostumamos a duvidar da ética dos políticos, principalmente depois do que escreveu Maquiavel, mas ingenuamente acreditamos nas instituições de controle criadas pelo próprio mercado.

O filme concorrente ao Oscar The Big Short – A Grande Aposta – ajuda a contar como a crise econômica de 2008 teve início com a criatividade dos operadores de mercado, mas foi o absoluto desprezo pelo comportamento ético que atrasou as avaliações e levou os bancos e seguradoras a uma queda ainda maior.

O milagre da segunda hipoteca por quem não podia sequer pagar a primeira foi percebido por muitos. As agências de avaliação de risco sabiam que títulos de boa qualidade estavam misturados a títulos cujo pagamento dependia da contínua valorização dos imóveis. O esquema de pirâmides, proibido na maioria dos países há quase um século, estava de volta. Mas ainda assim as agências de risco continuavam atribuindo nota máxima aos títulos hipotecários mistos, os subprimes.

Quando as duas empresas autorizadas a conceder empréstimos imobiliários, a Fannie Mae e Freddie Mac, empresas de capital aberto mas garantidas pelo governo americano, começaram, ainda em 2007, a apresentar dificuldades, uma parte dos analistas teve certeza de que a crise do subprime estava a caminho. Naquele momento, uns poucos abnegados gestores já estavam apostando muito dinheiro contra os títulos hipotecários.

Ocorre que os bancos, a essa altura, estavam sentados em bilhões de dólares de títulos impagáveis. Ninguém queria – nem podia – reconhecer o prejuízo. Assim, apesar de evidente a crise, os títulos continuaram subindo e as agências de risco não rebaixaram a nota dos bancos e seguradoras.

Entre a ética e o dinheiro, os que operam no mercado raramente se questionam: o dinheiro sempre ganha. Os bancos pressionaram as agências de risco, que mantiveram baixo o risco das hipotecas. Ao invés de ajustar, o sistema deu corda à exuberância irracional, aumentando sua disfuncionalidade. Nem na quebra do Bear Stearns, no início de 2008, o risco foi admitido. Foi necessário que o centenário Lehman Brothers quebrasse, levasse junto a AIG e centenas de outras financeiras e seguradoras, para que a crise fosse reconhecida.

Só então aventou-se o risco de quebra dos maiores bancos americanos, em uma crise que se alastrou para os sistemas bancários de todo mundo. Foi quando os Estados foram chamados a cobrir o rombo.

Desregulado, livre, criativo, quando vencido o mercado foi em busca do estado. Sim, o mesmo Estado que cuja intervenção era combatida, cuja forma de gestão era considera ultrapassada, o mal necessário foi convertido em solução para os problemas. “É necessário proteger os que donos de hipotecas”, passaram a dizer os banqueiros.

Por ser o fiador do mercado, entendo que seja dever dos estados estabelecer regras para o seu funcionamento. O estado interventor é tido por corrupto e ineficiente. Vimos no escândalo da Enron que as empresas de auditoria independente podem se corromper. Na crise dos subprime, vimos que as agências de classificação de riscos também têm seus interesses.

Assim, quando virem por aí a defesa de que o Estado não deve estabelecer regras e controles, pensem consigo próprios: mas quem exercerá essa tarefa? O mercado ou os empresários não são necessariamente mais éticos, tal como nos informa o preconceito que grassa por aqui, devido à presença do Estado em muitos setores da economia. Pelo contrário: por ter outros objetivos, aqueles que atuam em nome do Estado costumam agir com muito maior compromisso com o interesse público do que aqueles que têm por objetivo principal fazer dinheiro. É grande a corrupção nos órgãos de Estado. Mas ela é continuamente denunciada e combatida. Já o escândalo financeiro deste século, passados poucos anos, já está sendo visto como mero ajuste cíclico da economia. E quase ninguém foi punido.

Gustavo Theodoro

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