Da Defesa das Instituições

praça dos três poderes

As apurações da Polícia Federal, em especial nas operações Zelotes e Lava-Jato, gradualmente se aproximam do ex-Presidente Lula. O recebimento de recursos por parte de um filho dele e as histórias muito mal contadas envolvendo sua tríplex no Guarujá o colocam no foco da investigação.

Como era de se esperar, imediatamente os defensores do PT começaram a se manifestar da maneira habitual. O site Brasil 247 repercutiu a fala do Deputado Waldir Damous, do PT, que disse que o envolvimento do Lula é para “dar manchete”. Luis Nassif questionou o destaque dado à notícia. O Diário do Centro do Mundo repercutiu uma nova postura do Governo, dizendo que a época do “republicanismo ingênuo” já passou. A rede de desconfianças acerca de possível golpe das elites, da imprensa, do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal é tema dominante e cotidiano desses sites.

O filme Spotlight – Segredos Revelados é uma demonstração eloquente de como o andar de cima pode se aliar e pode, em nome de valores nobres, deixar pessoas indefesas ao relento. O aliciamento, a afabilidade, o pertencimento à sociedade e até mesmo ameaças são usadas para fazer impedir a polícia, o judiciário e a imprensa de fazer o seu trabalho.

É evidente que cada um de nós deve ler as notícias com olhar crítico, deve perceber se, em alguma notícia, não houve destaque exagerado ou minimizado. Em especial aos menos favorecidos, aos que estão em posição mais frágil e desprotegida, a esses devemos nos manter mais vigilantes, para que evitemos nos aliar justamente àquele que tem mais poder e que, possivelmente, oprime.

Pois bem. O PT ocupa a Presidência da República há mais de treze anos. Como o estado brasileiro concentra boa parte do poder na União, é evidente que o grupo que está no poder representa uma elite política. Sendo assim, o partido do governo concentra considerável poder, seja por meio do uso da máquina governamental, seja por meio do despejo de verbas na publicidade, seja por meio do controle de importantes estatais, dentre outros. O PT e seu governo é forte e poderoso. Os dirigentes do PT e do governo denunciados todos contaram com a defesa das mais importantes bancas de advogados do país. Não se trata de pessoas indefesas, nem de perseguição ao fraco.

No entanto, apesar de tantos anos dominando a política nacional, está totalmente disseminado, pelo menos entre os defensores do governo, que a instituições brasileiras atuam em alinhamento com as “elites” com o objetivo de destruir o PT e sua principal liderança, o Presidente Lula.

É esperado que críticas e acusações de adversários políticos sejam levados para o campo da opinião. Por meio desse expediente, o ataque ad hominem, à pessoa que faz o ataque, torna-se prática corriqueira. É muito eficiente esse contra-ataque, pois de fato adversários políticos se utilizam de denúncias para fazer política.

A história se complica quando outras instituições começam a ser reiteradamente criticadas pelo partido do governo. Quando o mensalão foi julgado, o STF sofreu com essa tentativa de desqualificá-lo. A ampla cobertura da imprensa gerou acusações de parcialidade. Mas os problemas no governo foram se intensificando. Ações da Polícia Federal levaram o PT a se referir a uma suposta “ala tucana” da PF.

O mais novo odiado é o Juiz Sérgio Moro, que conduz a lava-jato. Junto dele, lideranças do governo e até mesmo a Presidente da República manifestam-se levantando dúvidas sobre a condução das investigações, sugerindo parcialidade e acusando a ocorrência de “vazamentos seletivos”. Na esteira desse pensamento, quase todas as instituições do Estado são colocadas sob ataque. Instituições que a Presidência da República deveria proteger são alvos de contínuos ataques. Vimos em alguns países da América Latina essa tática sendo aplicada para mitigar esses poderes, tornando-os inócuos e descaracterizados. Aqui no Brasil essa tática até o momento só gerou desconfiança de uma parte da população contra nossas instituições.

Incomoda-me particularmente a utilização do ceticismo e da empatia que seriam necessárias para defender pessoas em posição de fragilidade para capturar a simpatia a um grupo poderoso, uma elite política e econômica. Nunca é demais lembrar que o governo do PT contrariou pouquíssimos interesses, não fez reforma agrária, não instituiu tributação progressiva, não tornou os gastos públicos menos regressivos, não diminuiu ou participou do lucro dos bancos e fez alianças no mínimo suspeitas com parte do empresariado. Os rentistas, os bancos e as empresas amigas ainda são os maiores vencedores da disputa por nossas escassas riquezas.

Só a conta do swap (operações com dólar realizadas pelo banco central) já rendeu mais dinheiro ao andar de cima do que toda a distribuição de renda do bolsa-família. Simular estar ao lado dos desprotegidos e dos mais fracos para dar verossimilhança ao ataque a nossas instituições é medida canalha, que deve ser denunciada continuamente, com a mesma persistência utilizada pelo partido do governo.

Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e imprensa são instituições humanas e falíveis; mas penso que devemos olhar com desconfiança esse ataque reiterado por quem tem poder similar ou até maior. A cada dia parece mais que o PT chegou ao poder e se aproveitou da estrutura existente. Depois que várias de suas lideranças foram presas e condenadas, as instituições passaram a ser tratadas como partidos políticos. Isso é ruim para as instituições – que estão continuamente sob ataque – e para o PT, que não faz uma autocrítica. E atenção: não é difícil que essa postura tenha por resultado o fim do PT.

Gustavo Theodoro

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