Economia

Perder é Ganhar

A Itália luta para controlar o déficit público. Foi possível limitá-lo em 2,4% para o ano que vem. Aqui vemos os candidatos brigando muito para ser presidente. Tenho dúvidas das razões. Será que eles sabem o que os esperam?

Lembro que o PT, ao receber o Governo de FHC, disse ter recebido uma “herança maldita”. Mas vejam, o superávit primário em 2002 ficou em 4,4% do PIB. Superávit, repito. O custo da previdência estava em torno de 5% do PIB. Hoje a situação é muito pior.

O déficit primário está em 1,9% do PIB. O déficit nominal projetado para 2019 está em quase 7% (a Itália foi admoestada pela União Europeia por seu déficit de 2,4%). Nossa dívida pública pode chegar a 100% do PIB em dois anos. O bônus demográfico está no fim. O gasto previdenciário deve chegar a 8,5%.

Haddad prometeu isenção do IRPF para os que ganham até cinco salários mínimos. São mais 70 bilhões, para se somar ao déficit de R$ 170 bilhões. Paulo Guedes disse que vai arrecadar R$ 1 trilhão vendendo estatais. Zaina Latif designou esse número como o maior “terreno na lua” dessas eleições. O posto ipiranga não tem ideia de como funciona a máquina pública.

O clima das eleições está acirrado. E o próximo governante terá que fazer um rigoroso ajuste. O Ciro mentiu para vocês: não gastamos 50% com juros, mas 4,4% líquido. Não é esse nosso calcanhar de Aquiles.

Se o presidente eleito não fizer o ajuste, terá que seguir por algum caminho heterodoxo, seja pelo caminho do keynesianismo brasileiro (aumenta o gasto público a qualquer preço que o crescimento futuro nos devolverá recursos), seja pela inflação, seja pelo calote nos detentores de títulos públicos (aplicadores em tesouro direito e fundo DI), seja pela maquiagem das contas públicas (como as pedaladas fiscais), ou, não duvido, pela criação de um imposto exótico (o imposto sobre o spread é um ótimo exemplo disso).

Conclusão. Se 2014 já era uma boa eleição para se perder, a de 2018 a derrota deveria ser perseguida com afinco por todos. Acho muito difícil que o próximo governo não fracasse. Vamos torcer para nossa democracia resistir a isso. E dar uma boa conferida no nome dos candidatos a vice-presidente.

Gustavo Theodoro

Perdas Necessárias

A situação é pior do que parece. O déficit público está na ordem de 10% do PIB. Mesmo com a recuperação da economia, é improvável que voltemos a ter déficit nominal de menos de 5% do PIB, o que é um descalabro.

Temos um Governo com baixa legitimidade, que parece estar fadado a fazer cortes bruscos nos gastos públicos. A Lava Jato chegou agora à fase dos políticos e as lideranças do PMDB já foram citadas por diversos delatores. O congresso segue praticando seu fisiologismo, indicando Ministros para o Governo Temer que acabaram de deixar o Governo Dilma.

Logo, apesar da onda de otimismo que atingiu os meios de comunicação, é provável que a falta de carisma do Presidente, a forma não usual com que chegou ao poder, o prosseguimento da Lava Jato e a oposição de uma relativamente pequena mas barulhenta esquerda pode levar o País a um novo impasse.

O tamanho do desafio é muito grande. Pode ser que só um governo eleito possa pacificar o País. É cedo para proclamar o fim do governo, assim como é cedo para declarar os problemas resolvidos, como tenho visto muitos fazerem, principalmente nos meios de comunicação.

O ajuste nas contas públicas não parece mais trivial. Há esqueletos de todos os tamanhos aparecendo. E o fim do bônus populacional parece estar cobrando a sua conta, tanto no sistema de saúde como no previdenciário. São discussões impopulares evitadas por quase todos os governos. Na França, com o sistema político estável, há confrontos na rua e greve geral em face da reforma trabalhista. Aqui nosso sistema político está em frangalhos. E as contas públicas nos empurram para algum corte. Definitivamente, o jogo ainda não acabou. E o país está muito longe de se sair vencedor.

Gustavo Theodoro

A Ética dos Mercados

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O mercado, quando é livre, cria suas anomalias e as corrige por meio de desvalorizações abruptas e, geralmente, descontroladas. A febre das tulipas na Holanda do século XVII ilustra bem o fenômeno.

Tulipas eram flores raras, de longa maturação, cujo desenvolvimento se dava em até 12 anos. O mercado girava em torno dos bulbos das tulipas. Devido ao tempo de maturação das tulipas, as tulipas foram substituídas por contratos. Especuladores passaram a comprar e vender o direito sobre as tulipas quando desabrochassem. Esse é talvez o primeiro exemplo de contrato futuro, fundado na expectativa de valorização do ativo (no caso, as tulipas).

Esses contratos chegaram a Londres e a Paris. Os preços desses contratos subiram exponencialmente até que um comerciante resolveu não exercer o direito da compra da tulipa no vencimento do contrato. Subitamente, a desconfiança com o preço exorbitante do bulbo se espalhou e o valor das tulipas chegou a um centésimo do valor do pico. O estouro da bolha provocou recessão e desconfiança quanto a esse tipo de investimento.

No século XX assistimos ao amadurecimento dos mercados, principalmente a partir da crise de 1929. Mas não se pode dizer que tenhamos, de fato, aprendido algo. Nos acostumamos a duvidar da ética dos políticos, principalmente depois do que escreveu Maquiavel, mas ingenuamente acreditamos nas instituições de controle criadas pelo próprio mercado.

O filme concorrente ao Oscar The Big Short – A Grande Aposta – ajuda a contar como a crise econômica de 2008 teve início com a criatividade dos operadores de mercado, mas foi o absoluto desprezo pelo comportamento ético que atrasou as avaliações e levou os bancos e seguradoras a uma queda ainda maior.

O milagre da segunda hipoteca por quem não podia sequer pagar a primeira foi percebido por muitos. As agências de avaliação de risco sabiam que títulos de boa qualidade estavam misturados a títulos cujo pagamento dependia da contínua valorização dos imóveis. O esquema de pirâmides, proibido na maioria dos países há quase um século, estava de volta. Mas ainda assim as agências de risco continuavam atribuindo nota máxima aos títulos hipotecários mistos, os subprimes.

Quando as duas empresas autorizadas a conceder empréstimos imobiliários, a Fannie Mae e Freddie Mac, empresas de capital aberto mas garantidas pelo governo americano, começaram, ainda em 2007, a apresentar dificuldades, uma parte dos analistas teve certeza de que a crise do subprime estava a caminho. Naquele momento, uns poucos abnegados gestores já estavam apostando muito dinheiro contra os títulos hipotecários.

Ocorre que os bancos, a essa altura, estavam sentados em bilhões de dólares de títulos impagáveis. Ninguém queria – nem podia – reconhecer o prejuízo. Assim, apesar de evidente a crise, os títulos continuaram subindo e as agências de risco não rebaixaram a nota dos bancos e seguradoras.

Entre a ética e o dinheiro, os que operam no mercado raramente se questionam: o dinheiro sempre ganha. Os bancos pressionaram as agências de risco, que mantiveram baixo o risco das hipotecas. Ao invés de ajustar, o sistema deu corda à exuberância irracional, aumentando sua disfuncionalidade. Nem na quebra do Bear Stearns, no início de 2008, o risco foi admitido. Foi necessário que o centenário Lehman Brothers quebrasse, levasse junto a AIG e centenas de outras financeiras e seguradoras, para que a crise fosse reconhecida.

Só então aventou-se o risco de quebra dos maiores bancos americanos, em uma crise que se alastrou para os sistemas bancários de todo mundo. Foi quando os Estados foram chamados a cobrir o rombo.

Desregulado, livre, criativo, quando vencido o mercado foi em busca do estado. Sim, o mesmo Estado que cuja intervenção era combatida, cuja forma de gestão era considera ultrapassada, o mal necessário foi convertido em solução para os problemas. “É necessário proteger os que donos de hipotecas”, passaram a dizer os banqueiros.

Por ser o fiador do mercado, entendo que seja dever dos estados estabelecer regras para o seu funcionamento. O estado interventor é tido por corrupto e ineficiente. Vimos no escândalo da Enron que as empresas de auditoria independente podem se corromper. Na crise dos subprime, vimos que as agências de classificação de riscos também têm seus interesses.

Assim, quando virem por aí a defesa de que o Estado não deve estabelecer regras e controles, pensem consigo próprios: mas quem exercerá essa tarefa? O mercado ou os empresários não são necessariamente mais éticos, tal como nos informa o preconceito que grassa por aqui, devido à presença do Estado em muitos setores da economia. Pelo contrário: por ter outros objetivos, aqueles que atuam em nome do Estado costumam agir com muito maior compromisso com o interesse público do que aqueles que têm por objetivo principal fazer dinheiro. É grande a corrupção nos órgãos de Estado. Mas ela é continuamente denunciada e combatida. Já o escândalo financeiro deste século, passados poucos anos, já está sendo visto como mero ajuste cíclico da economia. E quase ninguém foi punido.

Gustavo Theodoro

Pensamento Como Fenômeno Local

barreira mental

Assistimos nas últimas décadas a uma acirrada polarização do debate econômico. Duas correntes acabaram predominando: uma, centrada em valores liberais, privilegia ideias propagadas a partir do chamado Consenso de Washington; outra, de contornos desenvolvimentistas, acredita na participação do Estado na função do ordenamento da economia e privilegia, por exemplo, o emprego e a renda sobre a inflação e o equilíbrio fiscal.

Esse debate é, de certa forma, requentado, pois a história do pensamento econômico já nos revelou, no século passado, eminentes pensadores com as mesmas sérias divergências de enfoques e de prioridades.

Friedrich Hayek, grande economista austríaco, alcançou destaque mundial por suas ideias combatendo o planejamento da economia. Seu principal alvo, depois de reconhecido, passou a ser o regime soviético. Hayek testemunhou a ascensão do fascismo nos anos 1930 e se convenceu de que, independentemente da existência do comunismo, o planejamento concentrava poderes e terminava por arruinar a democracia.

Apesar de ser tido como representante do liberalismo e um dos fundadores do neoliberalismo, Hayek raramente utilizava argumentos econômicos para combater o planejamento e as economias centralizadas. Constantemente seus escritos abordavam o planejamento para, a seguir, tratar de seu resultado: o autoritarismo.

John Maynard Keynes já era admirado na universidade, pois era pessoa de notável brilho pessoal e de inteligência vibrante. Mesmo antes de publicar a sua principal obra, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, em 1936, já tinha alcançado sucesso com os seus Um Tratado Sobre a Probabilidade e Um Tratado Sobre a Moeda.

No pós-guerra, Keynes foi o economista mais influente do mundo e dominou o cenário econômico até os anos 1970, quando Thatcher adotou Hayek e o partido republicano adotou as ideias de Milton Friedman.

Interessante observar que Keynes, que testemunhou o crash de 1929 na Inglaterra, sempre deu destaque ao emprego em sua teoria econômica. Já Hayek, que testemunhou o processo de hiperinflação alemã, realçava o controle da inflação em sua abordagem econômica.

Um velho professor de história ensinava que geografia trata de clima, vegetação e mapas, enquanto a história trata de pessoas. No entanto, é notável como a vivência de cada um influencia até mesmo a produção acadêmica de grandes pensadores.

Não se sabe até que ponto a geografia influenciou o pensamento econômico de Keynes ou de Hayek. Mas é certo que, no local e no tempo onde o emprego era o maior dos problemas, foi formado o economista que é um dos preferidos de toda a esquerda mundial em sua ênfase no combate ao desemprego. Do mesmo modo, a parte do mundo que conviveu com o fenômeno da hiperinflação e com o nascimento de regimes autoritários produziu um economista extremamente libertário que influenciou Thatcher, Reagan e, de certa forma, até hoje influencia a direita do mundo (o debate do partido republicano revela bem a força de suas ideias, com a aversão aos controles estatais e a ênfase ao controle da inflação).

Muitas vezes nos julgamos únicos donos de nossos próprios pensamentos. Mas é útil que nos questionemos o quanto somos influenciados pelo ambiente que nos cerca. Talvez assim possamos, quem sabe, superar algumas das limitações geográficas que se instalaram em nosso cérebro.

Gustavo Theodoro

Economia de Educação

Educação em Economia

As notícias da economia indicam agravamento da crise brasileira. O ajuste fiscal pretendido pelo Ministro Levy – que para muitos era insuficiente – corre o risco de não ser alcançado neste ano. Além disso, o momento não foi aproveitado para discussão do caminho que temos percorrido. Há assuntos orçamentários importantes que foram tratados à maneira brasileira, com cortes disfarçados, sem a precedência do debate necessário.

Na verdade, há programas que foram iniciados sem maiores discussões sobre sua pertinência. Em 2011, o Brasil gastava cerca de 19% do PIB com educação, enquanto os países da OCDE gastavam, em média, 13%. Apesar disso, no primeiro Governo Dilma houve sensível incremento no número de alunos incluído nos programa Prouni, que permite que alunos sem recursos frequentem, com subsídio federal, faculdades privadas.

Ocorre que, apesar do alto comprometimento do PIB, o gasto por aluno acaba sendo inferior ao de outros países. Isso porque parte considerável do gasto é destinada ao nível superior, que ainda é frequentada por uma pequena elite. Nunca é demais lembrar que só 10% da população brasileira têm nível superior, enquanto o Chile apresenta taxa de 35%. Ou seja, todos esses anos de forte campanha publicitária em torno do incremento dos gastos em educação pouco modificou o cenário do nível superior. Eu sei que fomos bombardeados nos últimos anos com muitas informações (propaganda) sobre Prouni, Reuni e Fies, mas o fato é que isso tudo pouco contribuiu para nos tirar das últimas posições em gasto por aluno (somos penúltimos comparados à OCDE).

Sem um forte redirecionamento de recursos para os níveis fundamental e médio, com melhoria na taxa de repetência e nas taxas de aprendizado das crianças, os investimentos em educação superior são, quase sempre, desperdiçados. A progressão continuada pode até melhorar os indicadores de repetência, mas nunca dará boa leitura a um aluno do 9º ano se a progressão não for acompanhada de medidas suplementares, como aulas de reforço e a introdução do segundo professor em sala de aula. Para isso, são necessários mais recursos, mas nosso gasto com educação já é muito alto, mesmo se comparado aos demais países da OCDE.

Isso nos coloca diante da necessidade de se rediscutir os gastos em educação superior. Se já é questionável a destinação de imensas quantias às universidades públicas, o que se dirá de programas como o Prouni, que destina escassos recursos a universidades privadas de qualidade duvidosa? Sim, é de se reconhecer que o aluno que recebe o benefício se sente gratificado. Mas é preocupante saber que o recurso do Prouni financia o estudo de alunos de nível superior em cursos mal avaliados pelo MEC.

Um país que já despendia considerável parte de seu orçamento para financiar o ensino superior com as universidades públicas optou por investir ainda mais recursos nesse setor que já era razoavelmente bem assistido. Os gastos com o Prouni e, principalmente, com o Fies, dispararam no último ano do Governo Dilma. Mesmo assim, o crescimento de matrículas no nível superior durante o Governo Dilma foi similar ao do Governo FHC, comparação que o petismo costuma gostar de fazer (algo em torno de 6% ao ano). O gasto com o Fies chegou perto de R$ 10 bilhões em 2014. Foi subitamente cortado em 2015. O gasto desse programa não foi discutido com a sociedade brasileira ao ser implantado e tampouco seu corte está sendo discutido agora. Um país com democracia madura dificilmente deixaria de dar atenção a um debate orçamentário dessa natureza.

E assim os cortes são feitos, sem muitos critérios, com o único objetivo de se atingir uma meta que parece cada dia mais distante. A Congresso Nacional, infelizmente, pouco tem contribuído para elevação do nível das discussões. Apesar da aceleração do ritmo das votações, o parlamento se comporta de forma autista, como se não tivesse qualquer responsabilidade sobre os gastos públicos. Além disso, a pauta conservadora parece ter dado as caras justamente quando assuntos orçamentários essenciais eram demandados.

Educação é prioridade. Dilma adotou o slogan Pátria Educadora (slogan da pior qualidade, por sinal). Mas não parece nem um pouco interessada no assunto. Sem educação de qualidade não conseguimos ganhos em produtividade. Sem ganhos em produtividade, a economia não cresce. Para surpresa de muitos, gosto de revelar que economia não se faz apenas com juros e superávits primários. A discussão da qualidade do gasto público, em regra, costuma ser muito mais importante do que o mero número do déficit nominal. Pois déficit acima de 3% com alta taxa de investimento pode ser melhor do que déficit em 3% com investimento baixo (como o Brasil apresentou no segundo Governo Lula). Só no Governo Dilma atingimos a proeza de combinar baixa taxa de investimento com déficit primário.

Obviamente, o momento não é bom para discutirmos nosso futuro. Há uma crise política de grandes proporções em andamento, a operação lava-jato permeia o mundo político, as maiores empreiteiras do país estão com sérios problemas na justiça e a avaliação do Governo nunca foi tão baixa. Mas é bom que não percamos de vista os assuntos essenciais para o país. E a educação fundamental e média é um desses assuntos. E não parece ser possível resolver essa equação sem discussão do nosso modelo de educação superior.

Gustavo Theodoro

Tragédia Grega

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Com a aprovação de um pacote de ajuda à Grécia, a novela em que se transformou a crise do euro ganhará alguma sobrevida. Para um analista imparcial, a dívida externa grega parece impagável. Além disso, a contínua aplicação de receitas ortodoxas fez com que o PIB continuasse caindo, tornando o pagamento da dívida mais incerto.

Apoiado pela população grega, o Syrisa prometeu um futuro com menos sofrimento, ou menos austeridade pelo menos. Ganhou as eleições e, até semana passada, parecia disposto a tudo para fazer prevalecer a vontade do provo grego. Eis que essa semana tudo mudou. Com a mudança do ministro da economia, o discurso se moderou e o líder grego, Alexis Tsipras, aceitou o dinheiro da troika em troca de um pacote bilionário de ajuda.

Ao que parece, a receita do medicamento que vinha fazendo o doente definhar foi dobrada. Resta saber se o doente vai sobreviver. O debate está polarizado, o que dificulta o entendimento da situação. Os detratores da Grécia se satisfazem ao lembrar que por anos a Grécia deu pedaladas fiscais, que gastos de atividades ilícitas eram incluídas do PIB e que a disciplina fiscal foi relaxada por muitos anos. Tudo isso é verdade.

Mas é verdade também que há seis anos a receita ortodoxa tem sido aplicada e não se vê possibilidade de saída da crise no curto prazo. É também verdade que os indicadores fraudados da Grécia não evitaram que bancos estrangeiros emprestassem grandes quantias à Grécia, o que provocou a exuberância irracional cujo preço vem sendo pago nos últimos anos.

Recente pesquisa divulgada pela OCDE indica que os trabalhadores gregos são os que trabalham mais horas por semana dentro da zona do euro. É certo que isso tem a ver com a baixa produtividade de sua mão-de-obra, mas não se pode tachar o povo de preguiçoso ou malandro a partir da observação da indisciplina fiscal dos governantes do passado. O interessante da pesquisa da OCDE é que são os alemães os que trabalham menos horas (e são, não por coincidência, os mais produtivos). A Alemanha – ou seus bancos – é a maior credora da dívida grega.

É de se notar que os países da zona do Euro não contam com uma das principais ferramentas para a saída de uma crise dessas, que passaria pela desvalorização da moeda acompanhada de alguma inflação. A Argentina e o Brasil passaram por crise semelhante na década de 1990 e ela só foi superada com o fim da paridade com o Dólar ou com o fim do controle cambial. O câmbio flutuante passou a compor o tripé econômico ortodoxo. Interessante observar que quase não se comenta que a moeda única europeia retira dos países em crise essa possibilidade de ajuste.

O debate entre keynesianos e hayekianos também não ajuda muito a iluminar o debate. Para os discípulos de Keynes, deveria estar em análise a política anticíclica, com expansão dos gastos públicos para controlar a crise no mercado de trabalho. O foco de Keynes sempre foi o emprego, nunca a inflação. Hayekianos tendem a colocar a inflação como centro das discussões, como se fosse esse o grande inimigo a ser debelado (além do “planejamento”, citado com muita frequência pela escola austríaca, mesmo não se tendo por certo seu real significado). Como como adotar a política anticíclica com esse buraco no orçamento? E como ajustar o orçamento com o congelamento cambial?

O jogo político do Syrisa parecia ter objetivos claros: conseguir o máximo da união europeia impondo o mínimo de sacrifícios ao provo grego. A elevação do tom de Tsipras parecia indicar que estávamos diante de dois caminhos: calote combinado de parte da dívida grega em troca de calote combinado ou saída da zona do Euro, para que o câmbio flutuante voltasse a dar competitividade à Grécia.

Ambos os caminhos eram temidos pela União Europeia. Sabe-se que a dívida italiana supera em muito a grega e tem a França como principal credora. O desfecho da situação grega pode afetar significativamente a possibilidade de existência futura do euro. Eram essas as armas que Tsipras parecia estar utilizando.

O plebiscito convocado pelo Syrisa parecia indicar que a Grécia tinha as melhores cartas nas mãos. Assim, é surpreendente que, depois de um jogo político bem feito, a Grécia aceite um pacote de ajuda – que não passa de renovação dos empréstimos – em troca de mais austeridade. Ontem o premier grego se manifestou da seguinte maneira: “Não vou tentar fazer este acordo parecer melhor do que é. É um plano difícil. Eu tive que escolher entre um acordo com o qual não concordava, uma quebra confusa ou a opção de Shäuble, a saída do euro.”

Parece-me que, se Tsipras estava disposto a concordar com “um acordo com o qual não concordava”, o jogo político dos últimos meses deixou de fazer sentido. Quando estava prestes a conseguir algo, optou pelo caminho tradicional, não sem antes inflamar os eleitores gregos, talvez inviabilizando seu futuro político. Kant dizia que quem não sabe o que procura não entende o que encontra. Tsipras acabou de fazer uma bela demonstração dessa máxima.

Gustavo Theodoro

Os Ensinamentos da Grécia

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Desde 2010 a União Europeia tem imposto um rigoroso programa de austeridade à Grécia. A crise de 2008 revelou a fragilidade de sua economia. O déficit e a dívida pública grega já estavam fora de controle antes da crise. Mas foi a crise que revelou a gravidade da situação. O programa de austeridade imposto pela autoridade monetária da UE teve efeito direto sobre a vida das pessoas. A economia passou por sete anos de recessão e a situação fiscal só se agravava enquanto mais sacrifícios eram exigidos da população grega.

A maioria dos economistas defende o acerto das medidas impostas pela troika. Frases como “o país não pode gastar mais do que arrecada” e “não há almoço grátis” podem atrair a atenção de leitores, mas não devem balizar o comportamento de governos. Economia é assunto complexo e sujeito a interpretações e pontos de vista. Na zona do Euro, os remédios ortodoxos podem não funcionar. E eu explico o porquê.

Há algumas ferramentas que economias em crise fiscal podem adotar quando administram suas próprias moedas. Países em crise normalmente observam saída de divisas. A saída de divisas desvaloriza suas moedas, que pode resultar em redução nas compras externas e aumento das exportações. A desvalorização da moeda, em país integrado aos demais mercados, provoca alguma inflação. Inflação persistente deve ser rigorosamente controlada. Mas a inflação decorrente da desvalorização da moeda, pontual, pode auxiliar os governos a ajustarem suas contas.

Como a Grécia está na zona do Euro, não tinha a sua disposição esses mecanismos. Ao adotar a receita ortodoxa, o efeito sobre a população grega foi mais profundo do que os choques promovidos pelo FMI nos países em desenvolvimento nos anos 1980 e 1990. O desemprego chegou a 27%. A dívida pública foi a 170% do PIB. O déficit público chegou a 20% do PIB. São números impressionantes, já que para entrar na zona do Euro é exigido que os países apresentem dívida de no máximo 60% e déficit de até 3% do PIB (interessante observar que o Brasil não seria admitido na Zona do Euro com seus números: dívida de 68% e déficit de 8% d PIB).

Quando os números da economia grega começaram a melhorar, a população cansou-se da receita. Exigia que o ajuste de agora em diante fosse feito sem que tanto sofrimento fosse imposto à população. Economia não se trata de mera manipulação de números. São pessoas que, ao final, definem a continuidade de uma política ou de um Governo. O limite da população grega chegou. Resta saber qual será a reação de Alemanha e França.

Sobre esses países é interessante relembrar que em 2004 nenhum dos dois conseguiu atingir as metas impostas pela autoridade econômica europeia. O descumprimento das metas é sujeito a multas. O Banco Central europeu aplicou a multa, que simplesmente não foram pagas pelos dois países. Ou seja, quando a Alemanha e a França se viram diante da necessidade de aplicar um plano de cortes para garantir o atingimento das metas impostas pela UE, os governos de seus países preferiram não sacrificar tanto suas populações. Quando veio a conta, Alemanha e França desafiaram a autoridade da União Europeia. É sob a sombra desse passado que o rigoroso regime de austeridade foi imposto à Grécia. E é a Alemanha que tem se mostrado inflexível quanto à disciplina fiscal grega.

O resultado disso tudo era esperado. Um partido que nasceu de um conglomerado de grupos marxistas, trotskistas, maoístas e anarquistas venceu as eleições gregas e declarou que a população grega teria prioridade a partir daquele momento. Esse fato político é uma aula para os que pensam que economia é uma ciência dura, de equações, fórmulas e números. Esse aspecto de ciência social já deixou de ser percebido por diversas vezes nos últimos anos. Recentemente o parlamento italiano indicou um técnico para conduzir o país. Armado de ortodoxia e pouquíssimo carisma, seu governo foi curto.

A crise grega é, também, a crise do estadista, que se reflete na falta de pessoas capazes de liderar, de dar confiança para que a população vença os desafios, mas com suficiente sensibilidade para perceber os limites de sacrifícios que podem ser impingidos. O fracasso grego revelou o fracasso da receita econômica não só pelos seus fundamentos, mas principalmente pela cegueira ao perceber sua inextrincável relação com a política.

Gustavo Theodoro

Além do Tripé Econômico

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A eleição presidencial que se avizinha é a mais aberta dos últimos anos. Em 2002 havia um clima de mudança no ar. O segundo mandato do Governo Fernando Henrique apresentou crescimento econômico pífio. Diversas suspeitas foram levantadas acerca do processo de privatização de estatais. Houve racionamento de energia elétrica, revelando a carência de investimentos governamentais em área estratégica para o País.

A eclosão do escândalo do mensalão 2005 parecia pôr fim ao Governo Lula já em seu primeiro mandato. O clima era de fim de festa no dia em que Duda Mendonça confessou ter recebido a pagamento no exterior por sua atuação em campanhas do PT. Mas o Governo foi bem avaliado e já no início do ano de 2006 Lula havia recuperado a estima do povo.

Ao final do segundo mandato do Presidente Lula, com a superação da crise econômica internacional pelo Brasil, a avalição do Governo Lula era ainda melhor e, mesmo tendo segundo turno naquelas eleições, a vitória da Presidente Dilma foi razoavelmente tranquila.

O cenário hoje é muito diferente do observado nas últimas duas eleições. Há um impreciso clima de insatisfação no ar, representado em parte pelas manifestações que tiveram início em junho de 2011. Pesquisas de opinião têm relevado um contingente de insatisfeitos há muito tempo não observado no Brasil.

Diante deste cenário, faz-se mais necessária uma análise isenta da situação, uma análise equidistante, de modo que possamos entender em que medida estão corretas as avaliações aos 12 anos de Governo de PT e a pertinência das críticas e propostas da oposição neste momento. Eleições apertadas exigem maiores compromissos do eleito com os eleitores. Isso pode ser bom, desde saibamos cobrar dos políticos as respostas aos nossos questionamentos.

O que a mim me parece certo é que os Governos – todos eles – vêm cometendo erros nos últimos anos que fazem com que o Brasil tenha inflação alta (1973 a 1994), cambio artificial (1995 a 1998), juros altos (1999 a 2008) e juros e inflação acima do desejável (de 2008 até agora) por todo esse tempo. Poucos economistas conseguem explicar por que a taxa de juros no Brasil precisa ser tão alta e por que ela é tão pouco eficiente no combate à inflação. Mas é certo que isso tem relação com erros cometidos por nossos governos desde a ditadura militar.

Na próxima coluna – que deve ser entremeada por mais uma porta da percepção – vou rever meu próprio histórico em busca de avaliar se eu tenho condições de fazer uma análise isenta do assunto. A seguir, devo destacar alguns pontos da política econômica e social do PT que muito me agradam. Só então passarei a tratar das críticas a essa política econômica, muitas delas já levantadas por outros economistas. Pretendo, outrossim, ir além da velha discussão de câmbio, juros e tripé econômico, se a tanto me ajudar o engenho e a arte.

Gustavo Theodoro

Piketty e a Matemática

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Nesta semana, o colunista da Folha de São Paulo Hélio Schwartsman citou experimento de Dan Karam. Neste experimento restou demonstrado que as preferências políticas de um indivíduo prejudicam até mesmo sua capacidade de fazer cálculos matemáticos. O tema foi evocado diante das discrepâncias entre os números do rombo causado por decisão do STF relativa à constitucionalidade de um reajuste aplicado na caderneta de poupança nos anos 1990.

Nesta semana, o Financial Times colocou em cheque os cálculos realizados por Thomas Piketty em seu O Capital do Século XXI. Segundo o jornal, para alguns dados contidos no livro, em especial no que tange à desigualdade entre ricos e pobres, não foi possível justificar sua origem. E o foco das críticas é justamente o capítulo 10 do livro, considerado central pela maioria dos resenhistas, visto que congrega os dados sobre a desigualdade de patrimônio entre ricos e pobres.

Uma das críticas mais relevantes do Financial Times diz respeito a um dado sobre o Reino Unido: Piketty estima que 10% dos britânicos têm 71% da riqueza nacional, enquanto o governo do país fala em 44%.

O tema é complexo, já que nem sempre é possível confiar nos dados disponíveis referentes a essas grandezas. Aqui no Brasil compradores de imóveis costumam registrar a transação por valor inferior ao efetivamente desembolsado. O Reino Unido e especialmente os EUA incentivam, por seu sistema tributário, a criação de Fundações para gestão do patrimônio próprio. Além disso, dentre os cálculos efetuados pelos órgãos governamentais – como desemprego, PIB e inflação – não está o cálculo da desigualdade de renda e patrimônio.

Assim, cada pesquisador deve buscar as melhores maneiras de se mensurar desigualdades de renda – que normalmente é mais facilmente medida – e de patrimônio. Piketty criou, em parceria com algumas dezenas de pesquisadores, um sistema de informações cujos dados foram divulgados para a comunidade científica antes da publicação do livro. Assim, os dados do livro partem com relativa credibilidade.

No entanto, como analista Piketty se mostrou parcial e, por que não dizer, marxista, no pior sentido do termo. Ou seja, Piketty parece acreditar na profecia de Marx de que o capitalismo tende à sua própria destruição, pois a concentração de renda levaria, inevitavelmente, à revolução deflagrada pelos que estão na base na pirâmide. Ao mesmo tempo, a solução apontada por Piketty – de estabelecer um imposto agressivamente progressivo sobre o patrimônio – foi majoritariamente refutado pelos estudiosos em tributação em razão dos conhecidos efeitos contrários aos pretendidos.

É de se notar que o Financial Times é jornal de perfil liberal, sempre pronto a combater qualquer iniciativa dos estados nacionais tendentes ao aumento da regulação da economia ou da carga tributária. Com essa vocação, é provável que o escrutínio dos repórteres buscasse erros nos fundamentos ou na argumentação. Após poucas semanas de pesquisa, o jornal deu apenas um dia para que o autor se manifestasse sobre as críticas levantadas. A seguir publicou a matéria. Piketty disse que precisará de tempo para responder às críticas, mas reiterou que não há erros em seu livro.

Voltemos a Dan Karam. Tanto o Financial Times quanto Piketty têm preferências políticas que justificam o surgimento das diferenças nos cálculos formulados. É certo que a discussão, que ganhou destaque na imprensa mundial, tende a se esclarecer nas próximas semanas. Ao contrário dos desejos de Piketty, o acerto de seus números deve contribuir apenas para reduzir a desigualdade, e não para por fim ao capitalismo como sistema dominante no mundo.

Isto porque a economia é ciência social e não exata. Nela, a política desempenha importante papel, provocando até a derrubada de governos que não promovem suficiente justiça social. Como escreveu Delfim Netto nesta semana, a economia sempre implicará uma valorização filosófica. E esta valoração acionará os mecanismos de controle de que os estados dispõem. Seguiremos acompanhando este assunto por aqui.

Gustavo Theodoro

A Economia da Crise

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                Os países desenvolvidos e parte dos países em desenvolvimento viveram um período de exuberância irracional, marcado por forte crescimento econômico e melhoria geral dos indicadores do setor público e privado entre o final da década de 1990 e os anos 2000.

                O Brasil demorou um pouco para participar da festa, visto que tentava se recuperar de décadas de desajuste, com a constante instabilidade das contas do setor público provocando descontrole inflacionário. Quando o Brasil finalmente começou a sentir os efeitos na bonança internacional, a festa acabou.

                Não há dúvidas de que a crise de 2008 foi a maior observada no mundo capitalista desde o crash de 1929. Poucos analistas previram a crise, apesar de alguns sinais estarem presentes. Os países centrais estavam com suas contas públicas razoavelmente equilibradas, no entanto o endividamento privado havia chegado a níveis nunca antes registrados.

                A dívida privada americana em 1929 era da ordem de 300% do PIB. Depois do terrível ajuste daquele ano, o endividamento privado jamais havia ultrapassado 150% do PIB. Na véspera da crise de 2008, a dívida privada americana tinha atingido o recorde de 350% do PIB. Apesar deste indicador apontar para uma possível crise, a maioria dos economistas atribuía ao mercado de capitais moderno mecanismos de controle muito superiores aos existentes na crise de 1929, acreditando ser possível manter o ritmo de endividamento sem estar sujeito a um forte ajuste.

                Em 2008, havia o temor de que um ajuste na economia americana poderia se assemelhar ao ambiente de estagnação e deflação observado no Japão desde 1990. André Lara Resende lembrou que Ben Bernanke, Presidente do Fed, havia proferido uma palestra no ano 2000 em que tentava apontar saídas para a deflação nipônica. Após apontar as diferenças entre depressão de 1929 e a deflação sem crescimento japonesa, observou que as soluções propugnadas por Keynes não se aplicavam ao Japão. Isto porque a estagnação não estava ligada à falta de crédito privado, mas à falta de demanda por crédito de uma população que preferia poupar.

                Assim, Bernanke havia chegada a uma solução perturbadora: a melhor forma de sair de um regime deflacionário é não entrar nele. Coincidentemente, Bernanke teve que tentar superar seu próprio pensamento ao se confrontar com a crise de 2008. A economia americana parecia acometida do mesmo mal observado no Japão.

                Evidentemente a situação americana era diferente da japonesa. Sendo moeda de lastro, era possível emitir dólares no mercado sem que isso provocasse inflação. No entanto, isso é tanto bom quanto ruim, visto que provocar um pouco de inflação era de interesse da autoridade monetária. O setor público americano teve que absorver quase US$ 1,3 trilhão de dívida privada, de forma a permitir que os demais bancos americanos não sucumbissem, levando com eles parte das empresas americanas.

                A Islândia tinha um setor público extremamente organizado. No entanto, as dívidas contraídas pelo setor privado – e que foram absorvidas pelo setor público – levou à quebra de sua economia. Ou seja, a solução americana aplicada à Islândia provocou sua ruína, o que mostra a peculiaridade de cada problema.

                A crise nos países centrais, em especial dos EUA, é mais grave do que a dos países periféricos porque o que começa a entrar na agenda econômica é o próprio modelo de consumo americano, é o american way of life que está em jogo. O planeta começa a dar sinais de esgotamento, as mudanças climáticas demandam novas soluções e a maioria dos economistas reconhece que o modelo de consumo americano não pode ser replicado para os países em desenvolvimento.

                Ao mesmo tempo, sem aumento da riqueza a economia americana não oferece condições de melhoria da renda e do emprego, que é demanda cultural da sociedade americana. Shumpeter pensou na inovação como força motriz do crescimento. Ocorre que agora a inovação tem o papel de manter o crescente consumo americano, que muitos consideram desmedido e insustentável.

Apesar de acompanharmos com interesse as discussões envolvendo as economias centrais, a situação brasileira se apresenta de forma totalmente diversa. Aqui ainda há muito espaço para o crescimento e as novas tecnologias na área de energia nos permitem a adoção de caminhos mais sustentáveis.

No entanto, o enfrentamento da crise pelo Governo Lula, que se afigurou a muitos como bem sucedido, tem mostrado suas inconsistências. Como se sabe, o enxugamento do crédito privado em razão da crise americana espalhou uma crise de crédito pelo mundo. Como os mercados centrais deixaram de importar commodities, era mesmo necessário provocar algum crescimento do mercado interno.

Crises costumam gerar explosão de nacionalismo e protecionismo. Esses fenômenos se alastraram pelo mundo, tornando as economias mais fechadas. O Brasil, uma das economias mais fechadas do mundo, quase extinguiu a importação de veículos por meio de medidas tarifárias associadas a forte incentivo à indústria automobilística local. Esta situação provocou um boom na venda de veículos, o que agravou nosso déficit de infraestrutura.

A solução de Keynes de fato sugere medidas expansionistas no combate à contração provocada pelo desaparecimento do crédito privado e da queda nas expectativas futuras de crescimento. No entanto, apesar de qualquer estímulo ser bem-vindo em situações como essa, recursos públicos direcionados para investimentos poderiam gerar efeitos multiplicadores de longo prazo.

O despejo de recursos no consumo aliado à expansão do crédito teve um efeito eleitoral significativo, como era de se esperar, melhorando a situação presente das classes menos favorecidas. O risco desta situação é o governo político se tornar refém do bônus eleitoral. Esta narrativa explica muito bem as atuais crises da Venezuela e da Argentina, nas quais a única alternativa de permanência no poder é por meio do acirramento do conflito de classes, opondo pobres a ricos.

Ao dobrar a aposta, ou seja, manter o incentivo ao consumo ao mesmo tempo em que protegia a economia, o Governo brasileiro cultivou uma inflação persistente que desafia a elevação de juros pelo Banco Central. O congelamento das tarifas produz impacto eleitoral e segura a inflação, mas contribui para a deterioração das contas públicas ao mesmo tempo em que produz impacto negativos nas perspectivas futuras.

Por contraditório que possa parecer, é muito provável que a crise que vem se desenhando no cenário futuro brasileiro decorre inicialmente da crise do subprime de 2008, mas foi alimentada pelos remédios utilizados pelo próprio Governo. Hoje a crise é de natureza fiscal e de balanço de pagamentos, mas a baixa produtividade da economia, o núcleo da inflação persistente, a estagnação no campo da educação e o baixo nível de investimentos (que impacta a infraestrutura, impedindo o desenvolvimento de novos negócios e encarecendo o custo brasil) indicam que podemos estar mais próximos da Argentina do que do Chile. E o ambiente de crise impede o País de pensar na aplicação de alternativas sustentáveis ao modelo de sociedade de consumo que importamos dos EUA.

A ciência econômica é muito complexa e comporta todo tipo de argumentação. No entanto, ao fim de algum tempo, erros contínuos e repetitivos tendem a se mostrar com mais clareza. O embate eleitoral impõe ao Governo e oposições enfrentamento desses temas espinhosos, reafirmação ou abandono de posições, e correções de rumo. No momento, a equipe de Eduardo Campos (herdada de Marina Silva, cujas figuras de proa são Eduardo Giannetti e André Lara Resende) é a que parece estar na dianteira dessas discussões. Torçamos para que a atual disputa política vá um pouco além dos velhos embates que caracterizaram as últimas eleições.

Gustavo Theodoro