Ética

O Fim da Esquerda

Esquerdas

Se é fato que a direita floresce no Brasil, com a crescente popularidade de políticos como Bolsonaro e Feliciano, está claro que a esquerda padece, atônita, diante do desmoronamento de seu principal partido, o PT.

Tal como afogado, o PT parece querer abraçar o que resta da esquerda nacional para seu melancólico enterro. Ao mesmo tempo em que Dilma luta para preservar Renan Calheiros, José Sarney, Fernando Collor e os partidos mensaleiros a seu lado, por meio da entrega de cargos no Governo, lideranças do PT buscam retomar a velha aliança com os “movimentos sociais”, que hoje não guardam nada da espontaneidade exibida nos tempos de oposição.

E lá vão PSOL e PCdoB defenderem o Governo do PT, que gradualmente devolve todos os ganhos obtidos no período de bonança. Com a desvalorização do real, o índice de pobreza vai explodir novamente. O índice GINI também já indica alteração de tendência. As duas últimas trincheiras desse Governo, a taxa de desemprego e o aumento da renda, inverteram, de forma assustadora, a tendência no último ano.

Com a reversão das expectativas quanto aos indicadores sociais, a crise dos Governos do PT só faz aumentar. O Governo Dilma irá entregar, seja lá quando for o fim de seu mandato, o pior crescimento econômico da história, pior do que o período da crise de 1929, pior do que o da crise do petróleo nas décadas de 1970 e 1980. A dívida pública já saltou 16 pontos, deixando uma herança maldita para as futuras gerações.

O Governo do PT, é preciso deixar claro, nunca foi de esquerda. A primeira reforma encaminhada por Lula foi a da Previdência. Reforma esta que gerou uma crise com a esquerda do partido, que foi expulsa por Delúbio Soares e sua turma ainda em 2004. As políticas sociais foram um pouco mais abrangentes do que as do Governo Sarney (cujo lema era Tudo Pelo Social) e do FHC, graças ao boom das commodities. Com o fim desse ciclo, percebe-se que o Governo não se preparou para o momento.

Quem não assistiu não deve perder o vídeo da delação de Fernando Moura. Ele participou da montagem da estrutura corrupta que agora está sendo desmantelada pela Lava Jato. Sim, Fernando Moura cita Aécio Neves como parceiro de Lula na divisão do butim de Furnas. Mas percebam a naturalidade como o esquema se instalou assim que o PT assumiu o Governo. Petrobras, Eletrobrás, Furnas, Correios, as empresas foram loteadas, com participação de 1% do PT nacional e 1% do PT estadual, dependendo do caso. Isso já quando assumiram.

Não é a Lava Jato que está roubando o futuro do País. Foi a opção feita pelo PT logo que assumiu a presidência. Não se trata de coincidência as ligações evidentes entre o mensalão e o petrolão. Se parecia claro que o objetivo inicial era “roubar” para o partido (como se isso fosse admitido), todo o trânsito de dinheiro vivo acabou corrompendo parte considerável do Governo, de modo que não se poderia distinguir – tal como a cena final de Revolução dos Bichos – petistas de pemedebistas e tucanos. A figura de Lula remete muito mais a Sarney do que a Vargas.

Lembro que, no Rio, dizia-se no passado que o brizolismo impediu o surgimento de uma verdadeira esquerda no Estado. Pois penso que essa longa agonia do PT está tragando consigo o que resta da esquerda brasileira. A ideia de que tudo se justifica transforma até os idealistas da esquerda em pragmáticos, em que qualquer ato é defensável.

Ainda causa perplexidade que pessoas de esquerda apareçam defendendo grandes empreiteiros, como Marcelo Odebrecht e os donos da Andrade Gutierrez, grandes banqueiros, como André Esteves, e estejam contra funcionários concursados da Política Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Causa espanto que a maior operação em andamento de combate à corrupção do mundo seja constantemente torpedeada pelas esquerdas.

É normal que o PT reaja dessa forma, pois é a sobrevivência do partido que está em jogo. O que o restante da esquerda deveria ter em mente é que unir-se ao PT nesse momento significa ser cúmplice dos crimes do partido. E mais: unir-se ao PT significa apoiar um partido que já não é de esquerda há anos. Há muito mais dignidade na defesa de suas ideias longe do poder do que na composição com o que há de pior na política nacional.

A situação está de tal modo que até Maluf resolveu fazer troça com o PT. Ele, que é um dos únicos de seu partido que segue apoiando o PT, disse que se sente “enojado” com o balcão de negócios em que se transformou a disputa dos ministérios. A que ponto chegamos.

A união das esquerdas para “evitar o golpe” pode, no curtíssimo prazo, salvar o Govero. Concomitantemente, vemos aproximar o fim do que resta da esquerda no Brasil. Política se faz com promessa, diálogo e compromisso, mas também com valores, pois sem eles nem as ideias nem a esperança sobrevivem. Esse abraço de afogado ainda pode custar caro à esquerda.

Gustavo Theodoro

A Ética dos Mercados

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O mercado, quando é livre, cria suas anomalias e as corrige por meio de desvalorizações abruptas e, geralmente, descontroladas. A febre das tulipas na Holanda do século XVII ilustra bem o fenômeno.

Tulipas eram flores raras, de longa maturação, cujo desenvolvimento se dava em até 12 anos. O mercado girava em torno dos bulbos das tulipas. Devido ao tempo de maturação das tulipas, as tulipas foram substituídas por contratos. Especuladores passaram a comprar e vender o direito sobre as tulipas quando desabrochassem. Esse é talvez o primeiro exemplo de contrato futuro, fundado na expectativa de valorização do ativo (no caso, as tulipas).

Esses contratos chegaram a Londres e a Paris. Os preços desses contratos subiram exponencialmente até que um comerciante resolveu não exercer o direito da compra da tulipa no vencimento do contrato. Subitamente, a desconfiança com o preço exorbitante do bulbo se espalhou e o valor das tulipas chegou a um centésimo do valor do pico. O estouro da bolha provocou recessão e desconfiança quanto a esse tipo de investimento.

No século XX assistimos ao amadurecimento dos mercados, principalmente a partir da crise de 1929. Mas não se pode dizer que tenhamos, de fato, aprendido algo. Nos acostumamos a duvidar da ética dos políticos, principalmente depois do que escreveu Maquiavel, mas ingenuamente acreditamos nas instituições de controle criadas pelo próprio mercado.

O filme concorrente ao Oscar The Big Short – A Grande Aposta – ajuda a contar como a crise econômica de 2008 teve início com a criatividade dos operadores de mercado, mas foi o absoluto desprezo pelo comportamento ético que atrasou as avaliações e levou os bancos e seguradoras a uma queda ainda maior.

O milagre da segunda hipoteca por quem não podia sequer pagar a primeira foi percebido por muitos. As agências de avaliação de risco sabiam que títulos de boa qualidade estavam misturados a títulos cujo pagamento dependia da contínua valorização dos imóveis. O esquema de pirâmides, proibido na maioria dos países há quase um século, estava de volta. Mas ainda assim as agências de risco continuavam atribuindo nota máxima aos títulos hipotecários mistos, os subprimes.

Quando as duas empresas autorizadas a conceder empréstimos imobiliários, a Fannie Mae e Freddie Mac, empresas de capital aberto mas garantidas pelo governo americano, começaram, ainda em 2007, a apresentar dificuldades, uma parte dos analistas teve certeza de que a crise do subprime estava a caminho. Naquele momento, uns poucos abnegados gestores já estavam apostando muito dinheiro contra os títulos hipotecários.

Ocorre que os bancos, a essa altura, estavam sentados em bilhões de dólares de títulos impagáveis. Ninguém queria – nem podia – reconhecer o prejuízo. Assim, apesar de evidente a crise, os títulos continuaram subindo e as agências de risco não rebaixaram a nota dos bancos e seguradoras.

Entre a ética e o dinheiro, os que operam no mercado raramente se questionam: o dinheiro sempre ganha. Os bancos pressionaram as agências de risco, que mantiveram baixo o risco das hipotecas. Ao invés de ajustar, o sistema deu corda à exuberância irracional, aumentando sua disfuncionalidade. Nem na quebra do Bear Stearns, no início de 2008, o risco foi admitido. Foi necessário que o centenário Lehman Brothers quebrasse, levasse junto a AIG e centenas de outras financeiras e seguradoras, para que a crise fosse reconhecida.

Só então aventou-se o risco de quebra dos maiores bancos americanos, em uma crise que se alastrou para os sistemas bancários de todo mundo. Foi quando os Estados foram chamados a cobrir o rombo.

Desregulado, livre, criativo, quando vencido o mercado foi em busca do estado. Sim, o mesmo Estado que cuja intervenção era combatida, cuja forma de gestão era considera ultrapassada, o mal necessário foi convertido em solução para os problemas. “É necessário proteger os que donos de hipotecas”, passaram a dizer os banqueiros.

Por ser o fiador do mercado, entendo que seja dever dos estados estabelecer regras para o seu funcionamento. O estado interventor é tido por corrupto e ineficiente. Vimos no escândalo da Enron que as empresas de auditoria independente podem se corromper. Na crise dos subprime, vimos que as agências de classificação de riscos também têm seus interesses.

Assim, quando virem por aí a defesa de que o Estado não deve estabelecer regras e controles, pensem consigo próprios: mas quem exercerá essa tarefa? O mercado ou os empresários não são necessariamente mais éticos, tal como nos informa o preconceito que grassa por aqui, devido à presença do Estado em muitos setores da economia. Pelo contrário: por ter outros objetivos, aqueles que atuam em nome do Estado costumam agir com muito maior compromisso com o interesse público do que aqueles que têm por objetivo principal fazer dinheiro. É grande a corrupção nos órgãos de Estado. Mas ela é continuamente denunciada e combatida. Já o escândalo financeiro deste século, passados poucos anos, já está sendo visto como mero ajuste cíclico da economia. E quase ninguém foi punido.

Gustavo Theodoro