De tempos em tempos alguns temas tomam os meios de comunicação de assalto. Posta a questão, vemos rápida divisão de pontos de vista sem que tenha transcorrido o necessário tempo para reflexão.
O assunto do momento são os chamados “rolezinhos”. Segundo noticiado por alguns veículos de informação, eles se constituem grupos de jovens que se reúnem em shoppings, andam pelos corredores, cantam raps ou funks e não compram nada.
Incapazes de raciocinar, os afoitos comentaristas rapidamente passaram a adotar suas premissas para a novidade do momento, utilizando para isto os velhos arquétipos dos grupos de que participam.
Para os que se identificam com o chamado pensamento de esquerda brasileira, trata-se de um movimento de ocupação pelos pobres negros dos espaços higienizados criados para os brancos ricos. Assim, de acordo com esta facção sectária, os rolezinhos são um fato novo positivo que deve ser encampado pelos demais movimentos sociais. Se havia alguma espontaneidade nestes movimentos, podemos estar certos de que ela se encerrou com a adesão do Black Blocs, da Mídia Ninja, de alguns Sindicatos, da UNE, do Passe Livre, etc…
Para os que se identificam com o chamado pensamento de direita brasileira, tudo isto não passa de baderna de jovens desocupados, que deveriam estar na escola estudando. Tendo isto em vista, o polícia deveria agir com rigor para conter os pobres, já que os shoppings são um espaço privado, sujeito às normas dos donos desses estabelecimentos.
Sofro de certo cansaço com estas discussões, em especial por mitigar sua espontaneidade e por transformar um movimento que pode até ter nascido espontaneamente em símbolo da disputa política que oblitera os debates que dignificariam a esfera pública. Ao final, tudo se reduz ao velho fla-flu em que uma luta de classes criada pelo próprio debate tem preponderância. Uma vez estabelecido o embate entre opiniões bem conhecidas, cada um passa a exercer um papel que deles se espera, onde o hábito supera em muito a reflexão.
Apesar de o socialismo ter sido derrotado pelo capitalismo naquilo que é mais importante – dar melhores condições de vida às pessoas -, a análise das situações sociais no Brasil deve muito ao marxismo (e talvez também a Rousseau). Foi Marx que descreveu como ninguém o conflito entre as classes existente na sociedade no século XIX, opondo a burguesia ao proletariado. Foi também Marx que defendia o uso de força (mas não da violência) para alterar a relação de poder entre as classes.
O fato é que aquelas categorias distinguidas por Marx já não existem, mas nossos pensadores ainda não se deram conta. Continuamos, ingenuamente, a separar pessoas por classe, tentando adaptar ao momento atual algo que já fez algum sentido no passado. E os oportunistas de aproveitam disso, distorcendo conceitos e fazendo mau uso da esfera pública.
A verdade se perde então em um mundo de opiniões alicerçadas em terreno sem fundação. Mas, como dizia Gottfried Keller, a verdade não nos foge. Não deixamos de notar que, em determinado contexto, um grupo social é tratado ora como pobres ora como nova classe média. Outro grupo social é tratado ora como elites ora como classe média. É neste alagadiço terreno que ocorre o debate, feito antes para esconder que para revelar.
E se forem me chamar para dar um rolezinho neste debate, desistam. Prefiro seguir interessado em discussões inúteis sobre a verdade, a antiguidade, a tradição e sua influência sobre a contemporaneidade.
Gustavo Theodoro