Mês: março 2014

A Alienação Humana

Após a queda do muro de Berlim ficou claro que o sistema que permite e incentiva a propriedade privada dos meios de produção (capitalismo) venceu o sistema que defendia seu controle coletivo e a economia planejada (socialismo e comunismo).

Como ainda temos a tendência de nos diferenciar por nossas opiniões, a velha dicotomia entre direita e esquerda, ou entre conservadores e moderados, não foi vencida. Nota-se, no entanto, que as velhas críticas de origem marxista foram superadas, mas uma nova crítica, herdada em parte do marxismo, mas relacionada a outros aspectos da vida humana ganharam corpo.

A crítica feita pela escola de Frankfurt ainda era considerada de esquerda, mas pontos essenciais da herança da velha esquerda foram abandonados.

A alienação continuou sendo combatida, sendo identificada como característica do capitalismo. Antes, Marx atribuía a alienação à falta de espírito científico do pequeno burguês, interessado que estava nas pequenas misérias da vida. Tinha ainda como causa o apego demasiado à religião, considerado o ópio do povo, lugar de florescimento de ilusões e fonte da resignação da sociedade.

A pensadores da escola de Frankfurt dirigiram suas críticas à sociedade de consumo, tida por eles como produto do capitalismo, que transforma pessoas de cidadãos em meros consumidores. O produto desse modelo seria uma sociedade extremamente individualista, pouco voltada ao estudo e ao pensamento, com poucos dos virtuosos valores celebrados pelos antigos conservadores como Burke, que prezavam a honra, o respeito, a bondade e a coragem.

Com a atomização da sociedade, com a emergência da sociedade de consumo, o vínculo entre as pessoas, a ligação das pessoas com suas comunidades, se desfez.

É evidente que boa parte da descrição da realidade está, indubitavelmente, correta. A questão é saber a alienação é, em si, um problema a ser combatido e se ainda faz sentido atribuir todas as mazelas da sociedade moderna ao capitalismo.

É útil notarmos que o sistema que defende a livre circulação de mercadorias e a propriedade privada nem sempre teve imagem tão ruim no mundo das ideias. Nos séculos XVI e XVII, o mercantilismo e a liberdade de comércio tinham boa posição na imprensa e nos livros escritos na época, eram muito bem avaliados e considerados símbolo do progresso e da civilização. Foi a crítica iniciada por Marx que tornou a palavra capitalismo sinônimo de ganância, de alienação e de ideias de valoração negativa.

O interessante desta nova rodada de críticas ao capitalismo é notar a desconfiança que os membros da Escola de Frankfurt têm do humano. Maquiavel, em sua obra-prima, imaginou um mundo onde o Príncipe poderia manipular todos, tal qual material plástico, para permanecer no poder. Era o império dos fins sobre os meios, que abre amplo debate sobre a moralidade.

Mas o ponto aqui é sua crença na capacidade do Príncipe de domar a opinião de seus súditos e adversários. Os membros da Escola de Frankfurt exibiam o mesmo preconceito com o ser humano, tomando-o por mera massa de manobra, não mais na mão do Príncipe, agora sob o jugo de uma sociedade que o transforma em um mero consumidor de coisas.

Será que se justificam as dúvidas que pairam sobre nossa espécie? Será que o Príncipe pode controlar seus súditos assim como o capitalismo pode transformar cidadãos em meros consumidores? Voltarei ao tema em breve.

Gustavo Theodoro

A PEC da Felicidade

A Venezuela, há menos de um ano, criou o Vice-Ministério da Suprema Felicidade. Ao que parece, o referido Ministério tem alguma relação com as políticas sociais. A premissa parece ser que políticas sociais trazem felicidade. No Brasil, há proposta de emenda constitucional para introduzir a busca da felicidade entre nossos direitos fundamentais (PEC 19/2010, também conhecida como PEC da Felicidade), vinculando-a aos direitos sociais. Analisando-se a doutrina jurídica nacional sobre o assunto, é possível perceber que os que tratam do tema não conhecem seus fundamentos.

Segundo Fábio Konder Comparato, a busca da felicidade, repetida na Declaração de Independência dos Estados Unidos, é preceito imediatamente aceitável por todos os povos, em todas as épocas e civilizações, sendo razão universal com a própria pessoa humana, constituindo-se em direito natural. A Coreia do Sul e o Japão tem em seus textos constitucionais referência à busca da felicidade, mas com ênfase maior à liberdade, e não nos direitos sociais. O que se pretende neste artigo é buscar as origens desta tentativa de positivar o direito à felicidade.

Por mais de uma vez relatei a importância que a ciência política tinha para os romanos. Práticos, os romanos pouco se interessavam por elucubrações vazias, importando antes para eles a ação política. Pode parecer óbvio para as pessoas de ação que a vida ativa, a vida prática, é a única que vale a pena ser vivida. Muito, no entanto, já foi escrito em sentido contrário, enaltecendo a vida contemplativa. Gosto daquela citação de São Tomás de Aquino que declara sem nenhuma dúvida que a vida dedicada à contemplação é simplesmente melhor que a vida dedicada à ação. Gosto de quem tem este tipo de certeza.

Apesar de esta corrente de pensamento continuar existindo, no anos que precederam a Revolução Francesa era a ação política que era admirada. Era a participação do cidadão na esfera pública, era a possibilidade de atuar em público, de debater e de assumir compromissos que trazia, acreditava-se, a satisfação com a vida.

Não estou com isso dizendo que era este o espírito da época. Há relatos de críticos daqueles que seguiam por este caminho. Um agricultor pré-revolucionário (revolução americana), Crèvecoeur, maldizia aqueles que tomavam posições políticas, aqueles grandes personagens que estão tão acima do comum dos homens que se interessam mais pela independência e pela fundação da república do que pelos interesses dos agricultores e chefes de família. Ele considerava que a felicidade de sua família era o único objeto de seus desejos e denunciava como ambição a virtude política, considerando aqueles que atuavam na esfera pública possuidores de uma vaidade colossal.

Não é de se espantar que o gosto pela atuação pública seja facilmente confundida com vaidade (que vem do latim vanitas e significa vazio, oco), ainda mais diante dos exemplos de políticos que conhecemos nos dias atuais. Os homens das luzes eram, no entanto, homens públicos que prezavam sua liberdade de ação e obtinham satisfação de poder construir algo novo com outras pessoas a partir do debates e acordos.

O rascunho da constituição americana continha o direito à Felicidade Pública, que havia sido identificada por Thomas Jefferson e por John Adams como a felicidade decorrente do exercício público de suas virtudes. Na versão final, constou apenas o direito à felicidade, o que acabou por mitigar seu significado original, principalmente para as gerações vindouras, que passou a tratar este artigo como o direito de ser feliz, distanciando-se bastante do sentido original pretendido.

Os países mais evoluídos, ainda que não se atenham ao sentido original pretendido pelos Pais Fundadores dos EUA, vinculam a busca da felicidade aos direitos universalmente aceitos, como os ligados à liberdade política. Os países com menor grau de desenvolvimento tendem a interpretar o texto da constituição americana de forma bastante peculiar, vinculando felicidade aos direitos sociais. É nesse sentido que vai a PEC da Felicidade.

Diante disso, só me resta relembrar alguns versos de Shakespeare:

Cujos costumes ainda em nossa atrasada e simiesca nação

Segue, manquejando, em vil e deselegante imitação

E pensar que ele se referia à Inglaterra…

Gustavo Theodoro

Em Busca da Felicidade III

No artigo anterior, escrevi sobre pesquisas indicando que a felicidade nem sempre está onde parece. Os antigos trataram das mesmas questões que hoje estão sendo estudadas pela psicologia comportamental.

Tanto os epicuristas com os estoicos abordaram questões que hoje inundam o mundo dos best-sellers, mas com muito menos sofreguidão do que se vê nos dias atuais.

Questões envolvendo prudência, perseverança, prazer, ausência de dor, sempre estiveram presentes neste tipo de discussão, mesmo entre os antigos. Sêneca, por exemplo, poderia muito bem ser classificado como literatura de auto-ajuda.

Ainda não pretendo abordar este assunto de forma definitiva. Utilizei-me dele durante o Carnaval, visto que, para muitos, política é tema sério demais para esses feriados. Mas vamos seguir um pouco mais visitando a tradição do pensamento, sem visar diretamente à felicidade (tal como ensinam os modernos).

Os gregos demonstravam deter um importante valor, que é a busca constante pelo aprimoramento. Na verdade, é um pouco mais do que isso. Em Homero, a importância de ser o melhor sempre e em toda a parte era bastante evidente. Não tem o significado atual de competição com outros, tratando antes de um olhar de volta para si mesmo. Há, inclusive, um termo, aristeuein, que significa literalmente ser o melhor, que não podia ser entendido apenas como um esforço, como dizia Hannah Arendt, mas sim como uma atividade de preenchia a vida.

Estobeu, da Macedônia, estudante que foi dos ensinamentos dos antigos gregos, acabou por dizer algo baseado neste princípio grego, mas o vinculando mais explicitamente à felicidade, introduzindo, porém, a questão da vocação: a felicidade consiste em exercer as próprias virtudes em trabalhos que atingem os resultados desejados.

Para os romanos, felicidade estava na política, na capacidade criar algo novo onde antes não existia nada, de praticar uma ação com outros homens que implicasse debate, acordo e compromisso. Felicidade, para os romanos, significava poder atuar na esfera pública e agir. Vejam que a definição de Estobeu pode ser muito bem adaptada aos ideias romanos.

No próximo post, trato do tema felicidade pública, seu significado e suas consequências em movimentos contemporâneos.

Gustavo Theodoro

Em Busca da Felicidade II

Dando seguimento ao assunto da coluna anterior, é necessário tratar com mais profundidade o tema felicidade e sua relação com o bom aproveitamento do tempo livre. Eu sei que muitas portas foram abertas e levaria algum tempo para fechar todas. Mas vamos fazer o que é possível hoje.

Sim, o tempo livre é uma novidade muito apreciada. As cidades estão vazias. Aqueles que puderam, deixaram suas residências rumo ao litoral ou ao interior. O trânsito e os eventuais desconfortos são solenemente ignorados por aqueles que buscam aproveitar ao máximo o feriado de carnaval.

A TV mostra multidões de pessoas dançando e cantando. Transparecem a alegria e, por que não dizer, a felicidade.

No entanto, há uma conhecida pesquisa envolvendo jovens universitários que trato de reproduzir aqui. Algumas questões foram apresentadas a um grupo deles. Dois grupos foram destacados para apurar seu grau de satisfação com a vida: o grupo dos estudiosos (que gastavam parte de seu tempo livre com estudos e leituras) e o grupo dos extrovertidos (que gastava seu tempo livre em festas e compras).

Pois bem, para os dois grupos em destaque os extrovertidos eram tidos por mais satisfeitos com a vida. Ou seja, ambos os grupos, os extrovertidos e os estudiosos, achavam que os extrovertidos eram os mais satisfeitos com a vida.

Mas o questionário com perguntas sobre a satisfação com a vida acabou indicando que os estudiosos eram menos ansiosos, mais seguros de si, mais capazes de vencer desafios e, se é que é possível medir isso, mais felizes.

Isto não quer dizer que as pessoas devam tomar um caminho em especial ou que devam deixar de praticar atividades de fácil execução ou de fácil consumo. Sim, são resultados intrigantes e inesperados, mas o tema ainda demandará maior aprofundamento.

Como não pretendo fazer nenhuma citação neste texto, no próximo post analiso um pouco essas experiências à luz da filosofia.

Gustavo Theodoro

Em Busca da Felicidade

Carnaval, para muitos, é sinônimo de excessos. Para outros, é sinônimo de viagens. Há os que preferem simplesmente ficar em casa, dividindo o tempo entre atividades familiares e outras mais introspectivas.

A existência de tempo livre é algo bastante recente na história da humanidade. As atividades voltadas à sobrevivência sempre exigiram muito do ser humano e o pouco tempo disponível para além das atividades necessárias era, na maior parte das vezes, dedicada exclusivamente ao descanso.

Uma pequena nobreza tinha a vida de dedicada a atividades outras que não fossem aquelas absolutamente necessárias. Talvez por isso, a preocupação com a ideia de felicidade não é tão antiga, apesar de haver alguns registros de discussão sobre o assunto entre os pré-socráticos, em Sêneca e mais alguns poucos autores.

No entanto, de uns séculos para cá o tema felicidade tornou-se quase uma obsessão humana, preocupação esta que só produziu mais infelicidade. Há diversos escritos antigos tratando a vida como um rosário de sofrimentos e necessidades. A Bíblia retrata várias histórias com este teor. Essas percepções levaram Brecht a escrever os seguintes versos:

Pensem nas trevas e nas grandes friagem

Neste vale onde ecoam lamentações

Até mesmo Hegel, o filósofo das grandes causas, escreveu: tratai primeiro do comer e do vestir, e o reino de Deus será naturalmente vosso. O fato é que, com a Revolução Industrial, com o aumento da produtividade das atividades agrícolas ou industriais, mais tempo livre passou a estar disponível a todos.

Quantos mais se livraram do jugo da necessidade, mais as pessoas se viram diante de reflexões sobre a vida, mais o tema felicidade começou a se esgueirar para as vidas das pessoas e mais necessária se tornou a busca de atividades para preenchimento do tempo livre.

Não poderia deixar de falar de Marx, que anteviu alguns dos fenômenos modernos, ainda que estivesse quase totalmente equivocado em suas previsões. Como se sabe, Marx considerava a religião o ópio do povo, responsável pela alienação das pessoas. Marx ainda imaginava que, nas sociedades do futuro, parte considerável das pessoas não precisaria trabalhar, estaria livre das obrigações do trabalho, que sempre foi visto por seus contemporâneos como um fardo. Só recentemente o trabalho passou a ser algo que dá um referencial à vida das pessoas, que faz com que as pessoas identifiquem seu lugar na sociedade, que tem papel fundamental da autoimagem de cada um.

No entanto, há um resto de pensamento disseminado na sociedade que toma o trabalho com um fardo. E o Carnaval é simbólico ao livrar as pessoas das obrigações do cotidiano, contribuindo para este clima de excessos de que somos testemunhas.

Vou deixar esta coluna sem uma conclusão, com as ideias meio jogadas e um pouco soltas, pois ainda pretendo voltar a estes assuntos algumas vezes mais. De todo modo, faço uma última citação, de Cícero sobre Catão, que pode apresentar um contraponto para este período momesco:

Ele nunca era mais ativo do que quando nada fazia,

Ele nunca estava menos só no mundo do que quando se encontrava solitário

Gustavo Theodoro