Guerra ao Terror

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Diz o ditado que é justa bella quibus necessária, ou seja, é justa a guerra quando necessária. Guerras sempre foram meios de defesa das cidades e dos estados ou meio de garantir a segurança futura da população por meio de domínio de novos territórios, como no Império Romano.

Na era moderna, tivemos as duas grandes guerras, cujas razões são complexas, mas que encerraram aquele ciclo de conflitos. Nos anos de Guerra Fria, as guerras passaram a ser travadas por pequenos países, incentivados e armados pelas duas potências dominantes. Com o fim da Guerra Fria, houve quem esperasse que adentraríamos num período de menos conflitos; levantaram até a possibilidade de estarmos diante do fim da história, quando a democracia liberal avançaria pelo mundo de maneira irresistível.

No entanto, o que se viu foi um período de novos conflitos de proporções não desprezíveis. A comunidade internacional conseguiu se portar mal em quase todos os novos conflitos. A primeira Guerra do Iraque (1991) ainda foi precedida de razoável negociação multilateral. Ainda assim, não é consenso de que aquela era uma guerra necessária, mesmo se a análise estiver em suas consequências.

Pouco tempo depois houve a guerra civil em Ruanda. A ONU optou por não intervir e deixou ocorrer o massacre de quase um milhão de pessoas. O mesmo se pode dizer quanto à Guerra do Kosovo; ainda que tenha havido ação dos países vizinhos (OTAN), a ajuda militar efetiva demorou a aparecer, o que possibilitou a ocorrência de novos massacres.

Com o atentado às torres gêmeas, os EUA, liderados por George W. Bush, abriram duas novas frentes de guerra: a do Afeganistão, apoiada pela OTAN e pela população americana, visto que não eram poucos os indícios de que o regime Talibã fomentava a formação de grupos terroristas e abrigou em seu território Osama Bin Laden; e a do Iraque, que tinha por fundamentos inexistentes armas de destruição em massa.

Os mecanismos multilaterais nunca funcionaram muito bem, mas as guerras só eram travadas mediante negociações prévias com os países com assento no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA deram então um passo à frente: contrariando a própria política americana do pós-guerra, os americanos resolveram remover Saddam Hussein do poder de forma unilateral. Conseguiu o apoio dos ingleses e iniciaram nova guerra, sem nenhuma legitimidade. Não se tratava de uma guerra necessária.

Acossados pela crise financeira internacional, os EUA precisavam reduzir o orçamento militar e, consequentemente, reduzir o número de frentes. Obama foi eleito estabelecendo alguns acordos com os eleitores: dar fim à Guerra do Iraque, vencer a Guerra do Afeganistão (que havia recrudescido) e fechar Guantánamo. Nenhuma dessas promessas foi cumprida.

Guantánamo foi consequência natural da guerra ao terror liderada por Bush. Como os EUA deflagraram conflitos não autorizados pela ONU, não passava pela cabeça dos ideólogos da guerra respeitar as cláusulas da Convenção de Genebra no trato dos prisioneiros de guerra. O modo de se legitimar essas práticas passou pela denominação de terroristas aos prisioneiros de guerra. A prisão localizada em solo não americano completou a construção legal da anomalia jurídica de Guantánamo.

Obama, que como candidato atuou como típico líder populista, prometeu fechar Guantánamo no primeiro ano. E prometeu encerrar o conflito no Iraque. A promessa de fechar Guantánamo não dependia apenas de vontade política. É mais fácil criar uma anomalia jurídica do que desfazê-la. Nenhum país quer os prisioneiros de Guantánamo. Não é politicamente aceitável levá-los ao EUA. E assim o tempo está passando sem que a prometida solução seja encontrada.

O fim da guerra do Iraque foi decidido nos gabinetes de Washington. Feita breve transição, as forças armadas americanas deixaram o Iraque nas mãos de um governo frágil, fruto de uma democracia que lhes foi imposta.

As guerras impopulares impediram o mundo ocidental de tomar medidas mais duras contra o Irã, que pode estar desenvolvendo bombas nucleares. A falta de interesse do atual governo americano pela política externa propiciou apoio irresponsável à Primavera Árabe, que até agora só produziu novas ditaduras e guerras civis. Face ao provável esfacelamento do Iraque, os EUA buscam apoio iraniano para conter o movimento rebelde ISIS, que ameaça instituir nova ditadura no conturbado Iraque.

É inegável a responsabilidade do governo George W. Bush, que deu início às guerras do Afeganistão e do Iraque, pela situação atual vivida pela política externa americana. Mas está claro que falta ao Governo Obama rumo, falta real interesse pelo mundo e consciência do que estão fazendo. É nesse sentido que o Governo Obama se assemelha os de países menos desenvolvidos: sua ênfase nos efeitos internos nas decisões de política externa; seu desinteresse pela história dos países envolvidos nos conflitos; sua tibieza alternada com declarações que beiram ao destempero; sua falta de cuidado com os aliados tradicionais.

Tudo isso levou os EUA à perda de relevância internacional, à perda do papel de potência hegemônica, posição atingida com o esfacelamento do bloco soviético. Paralelamente a isto, a diplomacia chinesa vem ocupando, a cada dia, posição de maior destaque no mundo, levando sua influência para além do oriente. A guerra ao terror pode ser muito popular entre os americanos; mas tem como consequência a limitação de seu poderio internacional. Para piorar, com o mundo mais complexo, seria desejável que houvesse um fortalecimento dos mecanismos multilaterais. A deflagração de guerras à margem da ONU só contribuiu para o seu enfraquecimento. Talvez esteja aí a explicação para o surgimento contínuo de conflitos de difícil solução, como os da Síria, da Ucrânia, do Egito e do Iraque.

Gustavo Theodoro

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