Populismo

Brexit

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Marx previu que o amadurecimento do socialismo colocaria fim à política, visto que as tarefas públicas estariam restritas ao campo da “administração das coisas”. A filosofia política está de certa forma alinhada a Marx, exceto que para chegarmos a esse ponto não foi necessário adotarmos o socialismo. Se ainda há política, ela se dá essencialmente no plano internacional.

Aos britânicos, foi solicitado que decidissem sobre a permanência na União Europeia. Venceram os que defendiam a retomada da soberania, para uns, ou o isolacionismo, para outros. No dia seguinte, a imprensa brasileira estava em luto. Rádios, TVs e jornais foram uníssonos nos lamentos e queixumes diante da decisão democrática da população do reino unido.

Poucos se deram conta de que a divisão na população britânica se deu, também, por ter diante de si uma questão complexa. No final, como é comum em plebiscitos, as posições extremadas deram as cartas. Costumamos, no entanto, nós, democratas, respeitar a decisão popular, ainda que as consequências dela ainda sejam imprevisíveis.

Mas estranhamente é neste momento que muitos democratas emitem críticas contra a decisão da maioria da população britânica. Interessante como a democracia parece mais conveniente quando a maioria abraça as teses que nos são simpáticas. Sempre me lembro que Tocqueville tinha sérias desconfianças com relação à democracia. Para ele, a dispensa da existência de uma aristocracia produziria bons profissionais liberais, comerciantes, industriais e pais de família, mas jamais seria a semente de bons homens públicos.

Com a escolha da democracia pelo mundo ocidental, cada decisão apertada de um povo em torno de causa complexa provoca críticas que, de certa forma, me fazem lembrar de Tocqueville. Ora, a democracia é trabalhosa, incerta, suscetível à populistas e à simplificação.

Apesar da condenação quase unânime da saída do Reino Unido da União Europeia, é necessário ponderar que a escolha não era óbvia. Se por um lado a ideia de um mundo sem fronteiras e sem países é velha bandeira da esquerda dos anos 1960, o movimento mais evidente após a derrocada do bloco socialista foi o nacionalismo, com a divisão de países como a Iugoslávia e a Tchecoslováquia em novos estados-nação.

A União Europeia exigiu a entrega de parte da soberania nacional. A cultura inglesa pouco se assemelha à francesa ou italiana, por exemplo. As normatizações sobre apresentação de produtos, embalagem, corte de carnes e peixes, tributos e o custo disso tudo – o custo da burocracia europeia – iria naturalmente ocasionar resistência da população. E isso foi utilizado na campanha.

Os favoráveis os Brexit foram muito eficientes ao manejar os preconceitos da população. Como resultado da crise de 2008 e a ascensão do partido conservador, iniciou-se um movimento de contenção de despesas, com cortes nos repasses para o sistema de saúde que chegaram a 40% em 2015 em relação a 2011. O sistema público de saúde é uma das instituições do Reino Unido. O corte nos gastos elevou as filas e degradou a qualidade do atendimento.

É importante lembrar que os britânicos não aderiram ao Acordo de Shengen, que garante a livre circulação de pessoas na União Europeia com abertura das fronteiras. Logo, o risco decorrente da crise de refugiados sírios dificilmente teria grande impacto sobre o Reino Unido, não só pela distância a ser percorrida, mas também por falta adesão ao acordo.

De outro lado, o Reino Unido é exportador de serviços para a Europa. O setor bancário, financeiro, é o carro-chefe dessas atividades, fruto de muita riqueza que pouco é dividida com os britânicos.

David Cameron negociava duramente condições melhores para o Reino Unido na União Europeia. Na tentativa de aumentar a força de sua posição, Cameron deu uma cartada que, em princípio, não parecia arriscada: convocou um plebiscito (que tem sido chamado por lá de referendo) para decidir sobre o Brexit. Na visão de Cameron, o plebiscito reforçaria sua liderança em caso de vitória e ainda forçaria a União Europeia a fazer mais concessões.

A política, no entanto, é imprevisível. Boris Johnson, ex-Prefeito de Londres, mostrou-se um hábil político. Populista, mas hábil. Para conseguir virar a disputa, Johnson apoiou-se em dois pilares: a xenofobia sempre presente em parte da direita conservadora e a aversão à elite comum aos discursos de esquerda.

Os turcos e demais imigrantes passaram a ser vistos como os responsáveis pelas filas no sistema de saúde britânico. E a elite financeira foi vendida como a única beneficiada com o acordo com a União Europeia. Foi essa união de preconceitos, contra os imigrantes e contra as elites, à direita e à esquerda, que acabou por dar a vitória ao Brexit.

Não foi a derrota da democracia nem o fim dos tempos. O Reino Unido passará a ser uma País como os demais, Canadá, EUA e Brasil, que decidem, de forma soberana, suas questões, sua moeda, sua taxa de juros, sua tributação e o acesso de estrangeiros ao País. A crise de deve menos ao que pode ocorrer com o Reino Unido, mas sim pelo temor, real, de que a utopia de um mundo sem fronteira e sem países, como John Lennon nos sugeriu nos versos de “Imagine” não exista. “Imagine there’s no countries, It isn’t hard to do”

Esse mundo sem países talvez de fato não seja viável. Lamentemos pelo populismo, pela xenofobia e pela evocação de preconceitos. Mas a decisão foi tomada de forma democrática. Não devemos desmerecê-la por discordar. Nem atribuir, repetindo chavões e emulando nossos próprios preconceitos, que idiotas e ignorantes decidiram o futuro do Reino Unido. Ou somos democratas e aceitamos as dificuldades de conviver com esse regime, ou somos simplesmente autoritários, que só aceitamos os resultados que correspondem a nosso modo de pensar. Viva a democracia e boa sorte para a sorte para os britânicos.

Gustavo Theodoro

Guerra ao Terror

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Diz o ditado que é justa bella quibus necessária, ou seja, é justa a guerra quando necessária. Guerras sempre foram meios de defesa das cidades e dos estados ou meio de garantir a segurança futura da população por meio de domínio de novos territórios, como no Império Romano.

Na era moderna, tivemos as duas grandes guerras, cujas razões são complexas, mas que encerraram aquele ciclo de conflitos. Nos anos de Guerra Fria, as guerras passaram a ser travadas por pequenos países, incentivados e armados pelas duas potências dominantes. Com o fim da Guerra Fria, houve quem esperasse que adentraríamos num período de menos conflitos; levantaram até a possibilidade de estarmos diante do fim da história, quando a democracia liberal avançaria pelo mundo de maneira irresistível.

No entanto, o que se viu foi um período de novos conflitos de proporções não desprezíveis. A comunidade internacional conseguiu se portar mal em quase todos os novos conflitos. A primeira Guerra do Iraque (1991) ainda foi precedida de razoável negociação multilateral. Ainda assim, não é consenso de que aquela era uma guerra necessária, mesmo se a análise estiver em suas consequências.

Pouco tempo depois houve a guerra civil em Ruanda. A ONU optou por não intervir e deixou ocorrer o massacre de quase um milhão de pessoas. O mesmo se pode dizer quanto à Guerra do Kosovo; ainda que tenha havido ação dos países vizinhos (OTAN), a ajuda militar efetiva demorou a aparecer, o que possibilitou a ocorrência de novos massacres.

Com o atentado às torres gêmeas, os EUA, liderados por George W. Bush, abriram duas novas frentes de guerra: a do Afeganistão, apoiada pela OTAN e pela população americana, visto que não eram poucos os indícios de que o regime Talibã fomentava a formação de grupos terroristas e abrigou em seu território Osama Bin Laden; e a do Iraque, que tinha por fundamentos inexistentes armas de destruição em massa.

Os mecanismos multilaterais nunca funcionaram muito bem, mas as guerras só eram travadas mediante negociações prévias com os países com assento no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA deram então um passo à frente: contrariando a própria política americana do pós-guerra, os americanos resolveram remover Saddam Hussein do poder de forma unilateral. Conseguiu o apoio dos ingleses e iniciaram nova guerra, sem nenhuma legitimidade. Não se tratava de uma guerra necessária.

Acossados pela crise financeira internacional, os EUA precisavam reduzir o orçamento militar e, consequentemente, reduzir o número de frentes. Obama foi eleito estabelecendo alguns acordos com os eleitores: dar fim à Guerra do Iraque, vencer a Guerra do Afeganistão (que havia recrudescido) e fechar Guantánamo. Nenhuma dessas promessas foi cumprida.

Guantánamo foi consequência natural da guerra ao terror liderada por Bush. Como os EUA deflagraram conflitos não autorizados pela ONU, não passava pela cabeça dos ideólogos da guerra respeitar as cláusulas da Convenção de Genebra no trato dos prisioneiros de guerra. O modo de se legitimar essas práticas passou pela denominação de terroristas aos prisioneiros de guerra. A prisão localizada em solo não americano completou a construção legal da anomalia jurídica de Guantánamo.

Obama, que como candidato atuou como típico líder populista, prometeu fechar Guantánamo no primeiro ano. E prometeu encerrar o conflito no Iraque. A promessa de fechar Guantánamo não dependia apenas de vontade política. É mais fácil criar uma anomalia jurídica do que desfazê-la. Nenhum país quer os prisioneiros de Guantánamo. Não é politicamente aceitável levá-los ao EUA. E assim o tempo está passando sem que a prometida solução seja encontrada.

O fim da guerra do Iraque foi decidido nos gabinetes de Washington. Feita breve transição, as forças armadas americanas deixaram o Iraque nas mãos de um governo frágil, fruto de uma democracia que lhes foi imposta.

As guerras impopulares impediram o mundo ocidental de tomar medidas mais duras contra o Irã, que pode estar desenvolvendo bombas nucleares. A falta de interesse do atual governo americano pela política externa propiciou apoio irresponsável à Primavera Árabe, que até agora só produziu novas ditaduras e guerras civis. Face ao provável esfacelamento do Iraque, os EUA buscam apoio iraniano para conter o movimento rebelde ISIS, que ameaça instituir nova ditadura no conturbado Iraque.

É inegável a responsabilidade do governo George W. Bush, que deu início às guerras do Afeganistão e do Iraque, pela situação atual vivida pela política externa americana. Mas está claro que falta ao Governo Obama rumo, falta real interesse pelo mundo e consciência do que estão fazendo. É nesse sentido que o Governo Obama se assemelha os de países menos desenvolvidos: sua ênfase nos efeitos internos nas decisões de política externa; seu desinteresse pela história dos países envolvidos nos conflitos; sua tibieza alternada com declarações que beiram ao destempero; sua falta de cuidado com os aliados tradicionais.

Tudo isso levou os EUA à perda de relevância internacional, à perda do papel de potência hegemônica, posição atingida com o esfacelamento do bloco soviético. Paralelamente a isto, a diplomacia chinesa vem ocupando, a cada dia, posição de maior destaque no mundo, levando sua influência para além do oriente. A guerra ao terror pode ser muito popular entre os americanos; mas tem como consequência a limitação de seu poderio internacional. Para piorar, com o mundo mais complexo, seria desejável que houvesse um fortalecimento dos mecanismos multilaterais. A deflagração de guerras à margem da ONU só contribuiu para o seu enfraquecimento. Talvez esteja aí a explicação para o surgimento contínuo de conflitos de difícil solução, como os da Síria, da Ucrânia, do Egito e do Iraque.

Gustavo Theodoro