PT

Liberdade e Golpe

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A utilização de termos abstratos na política é evento razoavelmente recente. Liberdade em sentido político quase não aparece nos escritos dos filósofos contemporâneos de Sócrates. Isso porque o modo de vida do filósofo era oposto ao que seria requerido pelo ambiente político. Só com o cristianismo e a discussão do livre-arbítrio o tema liberdade começou a penetrar nas discussões públicas.

Santo Agostinho tratou de discutir o significado de “liberdade”, mas ainda dentro do conceito individual, opondo o querer ao poder. Era de conhecimento de Agostinho que na solidão, livre da relação com outros seres humanos, estabelecia-se uma dialética interna. Na ausência dos outros, dialogamos constantemente com nós mesmos, de modo que o querer solitário é sempre um querer e não querer ao mesmo tempo.

Os romanos eram incrivelmente práticos e pouco se aprofundaram nessa discussão. A filosofia e o pensamento grego eram muito mais legados sobre os quais deveria ser erigida a sua civilização do que fonte de novas reflexões. Era sobre a tradição e o mito da fundação de Roma que se assentava aquela república.

Só com Hobbes e o nascimento da ciência política, além da separação entre política e Igreja, o pensamento secular sobre vida pública voltou a florescer. Foi então que Montesquieu retomou o assunto iniciado por Santo Agostinho, agora trazendo-o definitivamente para a discussão política. Para isso, relegou a liberdade filosófica ao campo do pensamento e da liberdade para pensar e deu outro sentido à liberdade política. Desde então, liberdade na vida pública consiste em poder fazer o que se deve querer. Kant quase reproduziu esse pensamento, mas aplicando-o à sua filosofia moral.

Foi então que a liberdade política ganhou forma, a ponto de ser um dos lemas da revolução francesa. O conceito de liberdade, no entanto, estava naturalmente limitado pela liberdade alheia. E a forma de lidar politicamente com a liberdade era por meio do diálogo que se estabelece entre as pessoas, com a possibilidade de divergência, acordos e até, muito raramente, a formação de consensos.

Foi Rousseau, com sua teoria da soberania, quem mais se aproximou de apresentar um pensamento que confrontasse Montequieu. Na visão de Rousseau, uma “vontade dividida seria inconcebível”. Para ele, “os cidadãos não têm comunicação entre si” e “cada cidadão deve pensar apenas seus próprios pensamentos”.

O ambiente das redes sociais no Brasil, com sua notável divisão, com pessoas bloqueando amigos e se juntando em grupos de afinidades semelhantes, tem o efeito de fazer valer o pensamento de Rousseau. O que se tem verificado nessas condições é que, na prática, as pessoas estão cada vez menos expostas a opiniões divergentes, ou já as tem como adversárias em face da fonte que a emitiu. A cada dia mais se nota o fenômeno dos grupos voltarem-se a “apenas seus próprios pensamentos”.

Fechados em pequenas redes, os conceitos abstratos afloram, com muito significado político (golpe, elite, liberdade, democracia), o que é um fenômeno estritamente moderno. Entretanto percebe-se que é no criticado congresso nacional que as ideias opostas mais se confrontaram. Ou seja, enquanto a sociedade fechou-se em seus grupos, a dialética se instalou no ambiente especialmente desenhado para tal acontecimento, ainda que desdenhado.

É nesse sentido, com a consideração de que as discussões se deram no ambiente da livre expressão das opiniões, que o conceito abstrato de “golpe” e de “atentado à democracia” parece-me exagerado. Em regimes presidencialistas é evidente que o impeachment impõe um teste às instituições do país. É bastante natural que ocorra acirramento nos ânimos.

Se a disputa envolve abstrações, as instituições notoriamente democráticas exercitaram a política com liberdade e produziram o impeachment. Os acontecimentos, desde a denúncia, transcorreram no período de quase seis meses. Segundo o STF, só agora se inicia o processo, que implica, a partir de agora, a ampla defesa e o contraditório, nos limites da lei.

A vontade individual já implica considerável contradição frente à dialética que se estabelece na solidão. A vontade da sociedade, de um imenso grupo de pessoas, jamais será claramente interpretada. Talvez seja por isso que é o processo que deve ser garantido, tal como o STF fez questão de delinear. O compromisso dos inventores do conceito abstrato de democracia é com a formulação dos melhores métodos para captar a vontade coletiva. Se nós não tivemos violência até o momento – que é tipicamente identificado como o fim da política – é sinal de que nossa democracia está resistindo.

Não é o pensamento de Lindbergh Farias ou Cássio Cunha Lima que deve se impor. Impõe-se o pensamento da maioria. A teoria da soberania de Rousseau só poderia se firmar em um ambiente de distribuição desigual de liberdade, ou seja, em uma tirania. No mundo de Montesquieu, as liberdades individuais se autolimitam. Empresto, para finalizar, o pensamento de Hannah Arendt, que fornece uma boa conclusão para esse conjunto de pensamentos de modo a resumi-los: “se os homens desejam ser livres, é precisamente à soberania que devem renunciar”.

Gustavo Theodoro

Rede de Mentiras

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Lula declarou em 2005 que “a desgraça da mentira é que você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que você contou”. O caso Celso Daniel é a ilustração perfeita dessa declaração.

Celso Daniel exercia seu terceiro mandato como Prefeito de Santo André quando foi morto. Seu nome estava sendo cogitado para compor a equipe da campanha de Lula na eleição de 2002. Ocorre que Celso Daniel havia descoberto um esquema de propina envolvendo empresas de transporte municipal de passageiros em seu município.

Segundo a família do Prefeito, Celso Daniel preparara um dossiê apontando o montante desviado e os destinatários finais, que seriam pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores.

Celso Daniel foi assassinado e até hoje não estão claras as circunstâncias de sua morte. A polícia de São Paulo seguiu o caminho do crime comum e o Ministério Público de São Paulo propôs a tese de crime de mando em face da possível denúncia que o ex-Prefeito faria sobre o esquema de corrupção.

Em 2004 um dos empresários que teria participado do esquema de propinas da Prefeitura de Santo André, Ronan Maria Pinto, estava, segundo depoimento de Marcos Valério, incomodado com as reportagens que o Diário do Grande ABC vinha publicando. Ainda segundo Marcos Valério, Ronan passou a chantagear o PT: queria dinheiro em troca de seu silêncio envolvendo o assassinato de Celso Daniel.

No mesmo ano, o amigo de Lula, José Carlos Bumlai, foi acionado para providenciar a solução para o problema. Para tanto, fez contato com o Banco Schahin e negociou a contratação de um empréstimo. O Grupo Schahim, segundo delação de seus sócios, queria abrir portas com o novo Governo. As reuniões para viabilizar o empréstimo tiveram participação de Delúbio Soares e Marcos Valério. Para comprovar que a empréstimo reforçaria os laços entre Shahin e o governo, José Dirceu telefonou para Milton Schahin.

O dinheiro foi liberado pelo Banco Schahin. Bumlai o repassou ao frigorífico Bertin, que o repassou a Ronan Maria Pinto. Os R$ 6 milhões foram utilizados para comprar o Diário do Grande ABC, silenciando-o quanto ao caso Celso Daniel. Isso tudo ocorreu em 2004.

No entanto, restava agora o empréstimo tomado por Bumlai que deveria ser pago ao Grupo Schahim. A Petrobras foi acionada para resolver a questão. Eduardo Musa, gerente da empresa, declarou que a compra do navio-sonda Vitória 10.000 era desnecessária. Havia um navio-sonda atuando na África, onde a possibilidade de encontrar petróleo já havia sido descartada. Porém, a dívida com a Schahin precisava ser paga.

Sérgio Gabrielli determinou a Nestor Cerveró que contratasse o Grupo Schahin. O contrato de compra do navio-sonda sem licitação foi aceito pelo Grupo Schahin como quitação pelo empréstimo concedido a Bumlai. Pela operação da sonda, os Schahin teriam que desembolsar em propina para o PT o valor de R$ 60 milhões (segundo Eduardo Musa) ou R$ 50 milhões (segundo Nestor Cerveró).

O navio-sonda custou R$ 1,6 bilhões à Petrobras. O negócio só deslanchou pela necessidade de o PT pagar a dívida resultante da chantagem de Ronan a respeito da morte de Celso Daniel. A Transocean seria a escolha natural para a operação do navio-sonda, mas a Petrobras optou por uma menos capacitada, sem licitação, para que a propina pudesse ser paga.

O intermediário do novo contrato, desta vez, foi João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. Como o contrato só foi efetivamente assinado em 2009, era necessário que o negócio fosse garantido por alguém do governo, nos moldes do telefonema de José Dirceu em 2004. Foi então que José Carlos Bumlai disse a Fernando Schahin, filho de Milton Schahin, que o negócio estava “abençoado pelo Presidente Lula”. A partir daquele momento, Milton Shahin deu como certo que o negócio iria sair.

Um dia antes da assinatura do contrato entre o Grupo Schahin e a Petrobras em 2009, o empréstimo de Bumlai com o Banco Schahin foi pago, sem juros, com a contabilização de “embriões de gado de elite” entregues por Bumlai à Schahin. Tanto Bumlai quanto os membros da família Schahin já confessaram que a operação de venda de embriões foi simulada para que o empréstimo pudesse ser baixado.

A partir da assinatura dos contratos, o Grupo Schahin montou uma estrutura de offshores para pagar a propina exigida pelo PT e pelos funcionários da Petrobras, que foi paga a partir de 2009.

As delações e as provas obtidas pela operação Lava Jato indicam que a tentativa de ocultar a propina paga ao PT pelas empresas de ônibus de Santo André pode ter resultado na morte de Celso Daniel. Para esconder as reais circunstâncias desse assassinato, Dirceu, Lula, Delúbio e Vaccari teriam movido mundos para calar um chantageador com dinheiro público. Grandes grupos econômicos e a Petrobras foram envolvidos na desnecessária compra de um navio-sonda para dar ares de normalidade ao roubo que estava em curso.

Agora que toda a verdade veio à tona, é de se lembrar da frase de Émile Zola sobre o caso Dreyfus: “Se você cala a verdade e a enterra no chão, ela crescerá e acumulará tanto poder explosivo que, quando estourar, vai jogar pelos ares tudo que estiver no seu caminho”.

Não chega a ser surpresa a explosão do PT.

Gustavo Theodoro

Da Defesa das Instituições

praça dos três poderes

As apurações da Polícia Federal, em especial nas operações Zelotes e Lava-Jato, gradualmente se aproximam do ex-Presidente Lula. O recebimento de recursos por parte de um filho dele e as histórias muito mal contadas envolvendo sua tríplex no Guarujá o colocam no foco da investigação.

Como era de se esperar, imediatamente os defensores do PT começaram a se manifestar da maneira habitual. O site Brasil 247 repercutiu a fala do Deputado Waldir Damous, do PT, que disse que o envolvimento do Lula é para “dar manchete”. Luis Nassif questionou o destaque dado à notícia. O Diário do Centro do Mundo repercutiu uma nova postura do Governo, dizendo que a época do “republicanismo ingênuo” já passou. A rede de desconfianças acerca de possível golpe das elites, da imprensa, do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal é tema dominante e cotidiano desses sites.

O filme Spotlight – Segredos Revelados é uma demonstração eloquente de como o andar de cima pode se aliar e pode, em nome de valores nobres, deixar pessoas indefesas ao relento. O aliciamento, a afabilidade, o pertencimento à sociedade e até mesmo ameaças são usadas para fazer impedir a polícia, o judiciário e a imprensa de fazer o seu trabalho.

É evidente que cada um de nós deve ler as notícias com olhar crítico, deve perceber se, em alguma notícia, não houve destaque exagerado ou minimizado. Em especial aos menos favorecidos, aos que estão em posição mais frágil e desprotegida, a esses devemos nos manter mais vigilantes, para que evitemos nos aliar justamente àquele que tem mais poder e que, possivelmente, oprime.

Pois bem. O PT ocupa a Presidência da República há mais de treze anos. Como o estado brasileiro concentra boa parte do poder na União, é evidente que o grupo que está no poder representa uma elite política. Sendo assim, o partido do governo concentra considerável poder, seja por meio do uso da máquina governamental, seja por meio do despejo de verbas na publicidade, seja por meio do controle de importantes estatais, dentre outros. O PT e seu governo é forte e poderoso. Os dirigentes do PT e do governo denunciados todos contaram com a defesa das mais importantes bancas de advogados do país. Não se trata de pessoas indefesas, nem de perseguição ao fraco.

No entanto, apesar de tantos anos dominando a política nacional, está totalmente disseminado, pelo menos entre os defensores do governo, que a instituições brasileiras atuam em alinhamento com as “elites” com o objetivo de destruir o PT e sua principal liderança, o Presidente Lula.

É esperado que críticas e acusações de adversários políticos sejam levados para o campo da opinião. Por meio desse expediente, o ataque ad hominem, à pessoa que faz o ataque, torna-se prática corriqueira. É muito eficiente esse contra-ataque, pois de fato adversários políticos se utilizam de denúncias para fazer política.

A história se complica quando outras instituições começam a ser reiteradamente criticadas pelo partido do governo. Quando o mensalão foi julgado, o STF sofreu com essa tentativa de desqualificá-lo. A ampla cobertura da imprensa gerou acusações de parcialidade. Mas os problemas no governo foram se intensificando. Ações da Polícia Federal levaram o PT a se referir a uma suposta “ala tucana” da PF.

O mais novo odiado é o Juiz Sérgio Moro, que conduz a lava-jato. Junto dele, lideranças do governo e até mesmo a Presidente da República manifestam-se levantando dúvidas sobre a condução das investigações, sugerindo parcialidade e acusando a ocorrência de “vazamentos seletivos”. Na esteira desse pensamento, quase todas as instituições do Estado são colocadas sob ataque. Instituições que a Presidência da República deveria proteger são alvos de contínuos ataques. Vimos em alguns países da América Latina essa tática sendo aplicada para mitigar esses poderes, tornando-os inócuos e descaracterizados. Aqui no Brasil essa tática até o momento só gerou desconfiança de uma parte da população contra nossas instituições.

Incomoda-me particularmente a utilização do ceticismo e da empatia que seriam necessárias para defender pessoas em posição de fragilidade para capturar a simpatia a um grupo poderoso, uma elite política e econômica. Nunca é demais lembrar que o governo do PT contrariou pouquíssimos interesses, não fez reforma agrária, não instituiu tributação progressiva, não tornou os gastos públicos menos regressivos, não diminuiu ou participou do lucro dos bancos e fez alianças no mínimo suspeitas com parte do empresariado. Os rentistas, os bancos e as empresas amigas ainda são os maiores vencedores da disputa por nossas escassas riquezas.

Só a conta do swap (operações com dólar realizadas pelo banco central) já rendeu mais dinheiro ao andar de cima do que toda a distribuição de renda do bolsa-família. Simular estar ao lado dos desprotegidos e dos mais fracos para dar verossimilhança ao ataque a nossas instituições é medida canalha, que deve ser denunciada continuamente, com a mesma persistência utilizada pelo partido do governo.

Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e imprensa são instituições humanas e falíveis; mas penso que devemos olhar com desconfiança esse ataque reiterado por quem tem poder similar ou até maior. A cada dia parece mais que o PT chegou ao poder e se aproveitou da estrutura existente. Depois que várias de suas lideranças foram presas e condenadas, as instituições passaram a ser tratadas como partidos políticos. Isso é ruim para as instituições – que estão continuamente sob ataque – e para o PT, que não faz uma autocrítica. E atenção: não é difícil que essa postura tenha por resultado o fim do PT.

Gustavo Theodoro

O País da Perplexidade

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Não tem sido fácil entender o País. Atos a favor do impeachment de Dilma Rousseff contam com faixas em defesa de Eduardo Cunha. Manifestação de apoio à manutenção do Governo Dilma faz duras críticas à condução de seu Governo, em especial com relação à área comandada por Joaquim Levy. PSDB faz união estratégica com Cunha em um movimento contra a corrupção (se é que entendi bem). Renan Calheiros, ele mesmo, propõe uma “Agenda Brasil”, com intuito de dar sobrevida ao Governo Dilma. Michel Temer, o Vice-Presidente, disse que o Brasil precisa de alguém com capacidade de “reunificar o Brasil” (estaria pensando nele mesmo?).

Brasileiros com camisa da CBF marcham contra a corrupção. Alguém sabe o que se passa na CBF? Dizem que na ditadura não havia acordo com empreiteiras e que as obras terminavam. Alguém se lembra da ferrovia do aço? E de Angra 3, cujos escândalos duram décadas?

O PSDB votou contra o fator previdenciário criado em seu Governo. Justo quando pirâmide populacional parecia indicar que nova reforma era necessária, mas desta vez para aumentar a idade mínima para aposentadoria. Apesar de ser a favor da responsabilidade fiscal, negou apoio à política de ajuste fiscal. Já os parlamentares do PT têm se rebelado com frequência e votado contra seu próprio Governo. Ao mesmo tempo, evitam condenar o ex-Ministro José Dirceu, preso novamente por receber “pixulecos”.

Sim. Petistas até hoje negam a existência do mensalão. Alguns até admitem que ele existiu, mas que ele era mais barato do que dar ministérios para o PMDB. Pode ser. Mas será que vale a pena ganhar o poder para rasgar seu programa? Sim, pois se bem nos lembrarmos, a primeira traição foi a Carta ao Povo Brasileiro. Pelo menos ali não foi cometido estelionato eleitoral. Os petistas de carteirinha – convivi com eles – nunca acreditaram na carta. Eis que foi cumprida. Para ter maiorias, compraram deputados. Descoberto o esquema, entregaram as Estatais e parte dos Ministérios aos aliados como o PMDB, o PP e o PL. Ministérios de “porteira fechada”, como se diz. Para ganhar eleições, precisava arrecadar dinheiro público que transitava pelas empreiteiras. Assim foram presos dois tesoureiros do PT: Delúbio Soares (já condenado) e João Vaccari Neto (em prisão preventiva).

Quase dois bilhões de reais foram ou estão para ser devolvidos aos cofres públicos. Trata-se, provavelmente, do maior esquema de corrupção do mundo. O que não se entende é quem ainda defenda esse Governo: “ah, mas tem os programas sociais”; “ah, mas se eles não estivessem lá estaria o PSDB”. É esse o nível da argumentação. Estamos completando o primeiro ano de estelionato eleitoral. As profecias dos pessimistas estão todas se realizando. Dois anos de recessão (pelo menos). Aumento do desemprego. Diminuição da renda. É provável que venhamos a devolver boa parte do que ganhamos nos últimos tempos. Nesse momento, emerge meu lado idealista: vale a pena manter o poder a qualquer custo, mesmo comprando parlamentares, entregando ministérios com porteira fechada, roubando dinheiro público para financiar campanhas (mas também para benefício pessoal dos envolvidos) e mentindo descaradamente? Pois eu acho que não. O renascimento da direita está aí para demonstrar. O PT está acabando não só com seu partido, mas também com as esperanças normalmente emuladas pela esquerda.

Lembremo-nos de Leonard Blum, grande líder socialista francês, que evitou alianças com comunistas e segurou o partido dentro de seu programa. Pragmatismo não era com ele. Em cinquenta anos de liderança do partido socialista, em apenas um esteve conduzindo o Governo. Era um partido respeitado justamente por respeitar seu programa e conviver bem com o tamanho de seu eleitorado. Mitterrand e seu pragmatismo assumiram o poder a diminuíram o tamanho da esquerda francesa. Nas próximas eleições é provável que se tenha Sarcozy (liberal) contra Jean-Marie Le Pen (ultradireita). Valeu a pena?

Enquanto isso, aqui no Brasil, somos obrigados a ouvir o Senador do PMDB, Romero Jucá, dizer que não há demérito nenhum em ser denunciado. E Dilma fazer discursos sobre a mandioca e “mulheres sapiens”. E que não vai cortar recursos de programas sociais (mas já cortou). E o PSDB lançar uma frente em defesa da ética e tirar foto ao lado de Eduardo Cunha, o “guerreiro do povo brasileiro”, segundo coro proclamado pela turma do Paulinho da Força.

Bom, pelo menos parece que o Canadá está com política de incentivos à imigração. Nem tudo está perdido.

Gustavo Theodoro

Sobre as Manifestações

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O exercício da democracia compreende manifestações de rua. Desde o início do ano, testemunhamos algumas manifestações contra o Governo Dilma e o PT. A manifestação de hoje parece ser menor do que as anteriores. Não é difícil entender os motivos.

Desde o início, os movimentos que convocaram a manifestação dão claros sinais de independência dos partidos políticos. De certo modo, isso é reflexo da baixa popularidade dos políticos, e também da política, para parte dos brasileiros. No entanto, esse distanciamento da política, com o tempo, acabou por desidratar o movimento com o tempo. Pois, se acreditamos na democracia, em reformas, e não em revoluções, a política é o único caminho para qualquer tipo de transformação social.

Movimentos populares dessas características têm sido observado em diversos países do mundo. A chamada primavera árabe derrubou algumas antigas ditaduras, mas, em regra, outras foram instaladas em substituição. Na Espanha, o movimento dos Indignados acabou se legitimando por meio da formação do Podemos, partido que passou a influenciar os rumos da política espanhola. Nem seria necessário lembrar do Syriza, fruto do acordo de vários partidos de esquerda, que só foi constituído como partido em 2012 e foi guindado ao poder esse ano em razão da intensidade e da duração da crise grega. Em março deste ano, era possível imaginar um cenário semelhante ocorrendo aqui no Brasil. Mas não foi o que se viu, mesmo com a queda da popularidade do Governo e com a crise política e econômica se agravando.

É necessário ressaltar que tanto o Podemos como o Syriza faziam forte oposição ao ideário do ajuste fiscal. Há muitos bons economistas que defendem linhas alternativas como formas de lidar com a crise daqueles países. O conjunto de ideias que representavam receberam forte apoio popular. Novas lideranças se expuseram ao grande público e conquistaram votos. Na Espanha dirigem algumas cidades e influenciam o parlamento. Na Grécia, foi possível formar um Governo a partir desses movimentos.

Aqui no Brasil, percebe-se algum esvaziamento desses movimentos de rua. Não se vê partido constituído se aproveitando deles. Não se vê, dentre seus líderes, qualquer deles em condições de transformar esse movimento em um conjunto organizado de ideias que possa congregar o sonho das pessoas. “Fora Dilma” e “Fora PT” são slogan fortes como era o “Fora FHC”. Mas eles por si sós constroem muito pouco.

Contra a corrupção todos somos. É certo que a Lava Jato talvez seja um dos maiores escândalos de corrupção do mundo. As cifras devolvidas por alguns operadores são assustadoras (mais de R$ 1 bilhão de reais negociados para devolução pelos delatores). Mas ser contra a corrupção não necessariamente constrói alternativas.

Parece certo agora que o Governo Collor desviou muito menos do que o atual. Mas naquele momento parecia que a alternativa ao Collor era um Brasil melhor. Hoje, ao constatar que Michel Temer é o Vice-Presidente, Renan Calheiro é o Presidente do Senado e Eduardo Cunha é o Presidente da Câmara, a animação dos participantes dessas marchas tende mesmo a diminuir. O movimento contra a corrupção e contra o PT parece que não é mais suficiente mostrar o caminho da esperança e que vale a pena o esforço para abreviar esse mandato.

Além disso, a situação econômica é terrível. Parece que estamos perto da tempestade perfeita aludida por Delfim Neto: inflação alta, emprego e renda em queda, investimento em baixa, esgotamento do “choque de demanda”, desindustrialização, desequilíbrio fiscal, recessão. Não há boa notícia na área econômica. Assim, é possível que o Governo Dilma devolva todos os ganhos de renda – e talvez de queda da desigualdade – do Governo Lula.

Sim, teremos motivos para atribuir a seu Governo uma herança maldita. É evidente que, para o País, seria melhor que tivéssemos um governo forte com uma substancial base de apoio. Pois o segundo Governo Lula e, em especial, o primeiro Governo Dilma aceleraram a necessidade de algumas reformas estruturais que tememos fazer. Pois não só os impostos são regressivos. A distribuição de gastos governamentais também é regressiva. E exagerada. Com a mudança a distribuição etária da população, é certo que não será possível manter o atual regime de previdência, a universalização da saúde, o ensino superior gratuito, dentre outros. Mas esse debate não vai dar as caras com esse governo fraco.

Não há, nos atuais movimentos, quem se arrisque a ir além da agenda de rejeição à corrupção e ao PT. Se isso não ocorrer, não se verá, de fato, a tentativa de construção de algo novo. Rejeitar a política e os políticos é o melhor caminho para o surgimento de arrivistas. De alguma forma, a redução do movimento de rua reflete esse momento. Eu não critico que vai às ruas. É uma maneira das mais legítimas de se praticar a democracia. Mas algo me diz que esse tipo de movimento se aproxima de seu esgotamento.

Gustavo Theodoro

Da Coerência Política

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Não se discute mais o estelionato político do PT. Está claro que o partido prometeu um cardápio, mas está entregando um prato diferente. Isso é fato. Espanta-me, no entanto, que a oposição, que denunciou o estelionato eleitoral do PT, se comporte de forma semelhante. Como pode o PSDB votar contra o ajuste fiscal e contra o fator previdenciário que eles próprios criaram?

Sei que vão me dizer que eu não deveria esperar nada mesmo de políticos, que são todos iguais, que na situação defendem a manutenção do poder e na oposição apostam no quanto pior melhor. Pode ser. Mas isso não nos impede de fazer uma cobrança por coerência. Nessa confusão em que estamos, torna-se impossível apoiar qualquer grupo.

É certo que a história nos ensina que pessoas excessivamente coerentes, muito racionais e éticas, não costumam ter grande sucesso na política. Pois a política exige, sempre, capacidade de recuar, de transigir e de compor. Mas o que ocorre em nossa política atual é muito mais do que isso. Há uma completa inversão de papéis, justificada por uma visão política de curto prazo, voltadas a paixões imediatas.

Sim, Robert Aron disse que, há algumas décadas, que é uma ilusão da experiência do nosso século supor que os homens sacrificarão suas paixões a seus interesses. É um pensamento inovador e surpreendente, mas muito aplicável ao momento atual. Era de conhecimento da maioria dos economistas que a política desenvolvimentista do Governo Dilma nos levaria ao ajuste fiscal de agora. A paixão pelo ideário igualitário, distributivista, com forte papel estatal, nos conduziu a esse desajuste que ora se apresenta, comprometendo os próprios interesses do PT.

Ao mesmo tempo, o PSDB, ao contribuir para o agravamento da situação das finanças públicas pelos próximos anos, não atua em favor do País. De certa forma isso pode aumentar suas chances eleitorais, mas adiciona dificuldade a um eventual futuro governo seu. Nesse deserto de estadistas, são as raposas que se criam e dominam o cenário. Enquanto assistimos à derrocada de PT e PSDB, é o PMDB que passa a dar as cartas. Alguém pode estar satisfeito com isso?

Gustavo Theodoro

neoliberalismo

neoliberalismo

A crise da Petrobras faz surgir o debate acerca da privatização da Petrobras. Desde as reformas promovidas por FHC, a privatização passou a ser vista como uma das principais características do neoliberalismo. Ocorre que, assim como o termo capitalismo, o termo neoliberalismo acabou por adquirir conotações negativas, principalmente em decorrência do uso que lhe é dado pela esquerda mundial.

Como se sabe, superamos a era das ideologias. Candidatos de centro ganham eleições em todo o mundo. Quando algum radical assume o poder, suas opções acabam se resumindo a migrar para o centro ou radicalizar e fracassar. A queda do muro de Berlim só intensificou o movimento pelo fim das ideologias já prenunciado pela invasão soviética na Tchecoslováquia. Se não há mais socialismo, se não há mais marxismo, o sonho parece ter acabado. Estranhamente a esquerda passou a se apegar à socialdemocracia europeia, historicamente rejeitada por socialistas e comunistas. Já a direita flerta com um liberalismo não conhecido na Europa, mas que faz parte da formação dos EUA.

Por isso torna-se necessário revisitar a história recente da Europa e entender a origem das ideologias e dos termos que herdamos de então.

A Europa passou por um vasto período de privatizações entre os anos 1970 e 2000. O processo teve início na Inglaterra e na França, sendo seguido pelo leste europeu após a dissolução do bloco soviético. Apesar de ter sido um fenômeno de toda a Europa, a Inglaterra de Thatcher é até hoje o principal símbolo do fenômeno, visto que a Dama de Ferro tinha gosto pelo conflito e por ideias de cunho liberal. Thatcher venceu a disputa com os sindicatos, fechou empresas ineficientes e privatizou as demais. E fez isso sempre com muito barulho, acompanhado de forte discurso contra o Estado.

Como se sabe, a Inglaterra precisava disso. Sua indústria sobreviveu no pós-guerra à custa de subsídios do Governo. Subsídios premiam ineficiência. Garantem empregos, mas mantém em funcionamento minas deficitárias e empresas pouco produtivas que, com o tempo, produz atraso e falta de competitividade. A personalidade e as frases constantemente reproduzidas de Margaret Thatcher fazem supor que seu Governo não era solidário, que suas medidas produziram pobreza e destruição. Nada mais falso. Ao final de mais de uma década de Governo, o gasto público governamental esteve em torno de 42%, sendo percebida até mesmo pequena alta, e nunca redução. A proteção social criada nos anos 1940 não foi desmontada: saúde e educação universal, além de vasta rede de proteção social (seguro desemprego, pensões e previdência social) não deixou quase ninguém desabrigado.

A maioria dos trabalhadores das minas de carvão fechadas na principal batalha ganha por Thatcher voltaram a trabalhar no setor de serviços ou sobreviveu à custa do amplo sistema de benefícios da Grã-Bretanha. É evidente que Thatcher tinha intenção de atacar o estado previdenciário inglês, mas quando tentou fazê-lo, percebeu que não tinha apoio da sociedade e seu Governo terminou.

Ou seja, o tão comentado neoliberalismo de Thatcher reduziu a propriedade direta do Estado, mas em nenhum momento conseguiu reduzir as conquistas da socialdemocracia.

A França de Mitterrand teve resultado equivalente, partido de premissas indiciais absolutamente distintas. Com o fim da liderança conservadora e onipresente do General De Gaulle, os socialistas finalmente chegaram ao poder. O discurso da vitória era o mesmo do velho socialismo: fim da propriedade privada e controle, pelos trabalhadores, dos meios de produção. Políticos, no entanto, raramente são ideólogos. O furacão Thatcher já havia iniciado suas reformas na Inglaterra e Mitterrand percebeu que sua agenda encurtaria seu Governo. Em uma guinada de fazer corar a Presidente Dilma, no ano seguinte a sua posse ele passou a defender as privatizações com manutenção das políticas de bem estar social. Nem mesmo as empresas petrolíferas foram poupadas. A icônica Elf foi vendida pelo Estado francês, para desespero dos comunistas e socialistas.

A guinada ao centro propiciou a Mitterrand apoio popular e quase 15 anos no poder. Alguma reforma no sistema previdenciário foi executada – como a alteração na idade mínima de aposentadoria – mas sem redução do gasto social.

No leste europeu não havia propriedade privada. Com o desmantelamento do bloco comunista, todos os estados libertos ambicionavam participar do mercado comum europeu e, para isso, era necessário tirar suas economias do atraso decorrente de décadas de regime comunista. Privatizações em série, apressadas e por vezes permeadas de interesses escusos foram realizadas em todo o leste europeu. A cleptocracia russa produziu instantaneamente bilionários, a maioria deles hoje refugiado na Inglaterra. A imagem das privatizações passou a estar definitivamente ligada à corrupção e ao termo então em voga, o neoliberalismo.

A onda neoliberal – cujo principal atributo eram as privatizações – chegou aos países do terceiro mundo. Aqui no Brasil, as empresas de aço e concessionárias de serviço público foram vendidas. As economias europeias, em sua maioria, conseguiram de desfazer dos bancos e das empresas públicas. Por aqui ainda temos o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobras e os Correios, que continuam públicos e constantemente aparecem ligados a escândalos de corrupção. O processo de privatizações foi interrompido com a chegada do PT ao poder.

Em sua essência, a agenda do PT para a economia pouco difere da dos militares que deram o golpe em 1964. Há ainda muita crença na economia planejada, em que o Estado exerce papel fundamental na coordenação dos interesses privados. A indústria privada é protegida dos importados, mantendo, tal como fazia a Inglaterra, indústrias ultrapassadas e deficitárias. Para sobreviver, essas indústrias se tornam cada dia mais dependentes das benesses governamentais, como os benefícios fiscais e os empréstimos do BNDES. Com esse enredo, não chega a ser surpresa os sucessivos escândalos de corrupção de que somos testemunhas nem a baixíssima parcela exportada de produtos de maior valor agregado.

O partido que deveria representar a socialdemocracia no Brasil, o PSDB, não trata mais de privatizações. O programa de governo de Aécio Neves parecia a reprodução, por escrito, da prática adotada pelo PT em seus Governos, com exceção de maior rigor fiscal, que agora o PT parece querer adotar. A socialdemocracia europeia retirou os subsídios e reduziu sua participação na iniciativa privada de modo a ter uma economia mais vibrante, eficiente e produtiva e, com isso, obter maior arrecadação de impostos para manter a ampla proteção social que é oferecida a seus cidadãos.

Nossa esquerda parece flertar com a socialdemocracia diante da absoluta ausência de novas ideias. Assim, é necessário que se considere a adoção de uma agenda dita por seus detratores como neoliberal, aplicando alguns remédios aparentemente amargos como as privatizações, a abertura comercial e o fim de benefícios fiscais e subsídios de qualquer natureza. É essa agenda que pode permitir a manutenção e ampliação da rede de proteção social tão defendida pela esquerda, pelo centro e até por uma parte da direita.

O momento, evidentemente, não é propício para a venda da Petrobras. Mas a sinalização de que as privatizações seriam retomadas poderia dar importante alento para a economia, pois ajudaria o Governo a contornar as dificuldades do imenso ajuste fiscal que se anuncia. O PT rasgaria, com isso, o seu não escrito programa de Governo. Tudo indica que manutenção de seu programa nunca foi preocupação do partido, como o mês de janeiro de 2015 demonstrou de forma categórica. Se é assim, é essa a sugestão que dou ao Governo aqui de minha pequena Ágora: inicie uma nova rodada de privatizações.

Gustavo Theodoro

O Rumo da Oposição

PT na oposição

As primeiras medidas tomadas pela Presidente Dilma seriam condenadas pela candidata Dilma. Ajuste fiscal, mudanças nas regras de pensões e auxílio-desemprego, elevação nas taxas de juros seriam medidas atacadas pela propaganda petista. Ao roubar a agenda adversária, percebe-se na oposição uma paralisia, um silêncio, seguido de algumas críticas a medidas que foram defendidas por seus candidatos.

É o próprio PT que passa a ocupar o espaço que seria destinado à oposição. A Carta Capital publicou reportagem em que critica os rumos ortodoxos seguidos por Joaquim Levy. Luis Nassif, blogueiro empregado da Rede Brasil, critica a rendição do Governo Dilma aos mercados. Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo, lembra que o caminho da ortodoxia foi derrotado nas eleições. Membros da direção do PT se arriscam a criticar publicamente o ajuste fiscal e o aumento da taxa básica de juros.

Enquanto isso, Aécio Neves tirou férias. Não tem participado da eleição das mesas diretoras da Câmara e do Senado. E não é visto indicando rumos para a oposição. Marina Silva também tirou férias. Há mais de um mês não dá entrevista ou fala ao público. Seu recolhimento afastou antigos aliados, tornando mais árdua sua tarefa de montar uma oposição que vise a superar a velha disputa PT-PSDB.

Com isso, o PT voltou a dominar o noticiário especializado, ocupando os dois lados do espectro político: situação e oposição. Não é a primeira vez que isso ocorre. A oposição mostra-se mais perplexa com os rumos tomados pelo governo do que a própria esquerda. Não se deve exigir que o PSDB condene o ajuste fiscal. Nem que Marina Silva critique a adoção do tripé econômico, tão defendido por ela durante a campanha. Deixemos a incoerência para os que não cumprem suas promessas.

Mas há diversas reformas defendidas pelos partidos de oposição que não estão no horizonte do atual governo, como a reforma tributária, por exemplo. Uma das maiores fontes de desigualdade do país é nosso sistema tributário, que é regressivo em razão de sua preferência por impostos sobre o consumo. Com isso, os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos do que os mais ricos. O bolsa família e os programas sociais não dão conta de devolver todo o tributo indevidamente recolhido. A proposta constante dos programas de oposição era bastante genérica, mas indicava a necessidade de revisão desse sistema.

Outras reformas estruturais são necessárias para que o Brasil volte a crescer, mas ninguém mais parece interessado em projetos de longo prazo. Até mesmo o choque ortodoxo aplicado pelo Governo Dilma é preguiçoso, não contempla um horizonte para além dos quatro anos de governo. A ideia parece ser economizar um pouco nos dois primeiros anos – mesmo que isso produza crescimento zero – para depois liberar os gastos com vistas às próximas eleições.

Com essa visão de curto prazo, seguiremos dando pequenos voos de galinha. E a oposição parece não perceber a importância de seu papel, que não se resume a apresentar candidaturas a cada quatro anos. Críticas consistentes, apresentação de caminhos alternativos, visão de futuro e defesa de reformas estruturais são ideias que ajudam a construir uma identidade partidária, encontrar aliados, elevar o nível do debate político e melhorar o país.

É um erro dar pouca importância utilização da palavra como método da ação política. Esse contínuo esvaziamento da oposição entre os eventos eleitorais dá caráter oportunista a seus candidatos. Além disso, o debate político acaba só ocorrendo durante o pleito eleitoral. Com isso, as eleições passam a se assemelhar a um plebiscito. É a ausência de uma oposição forte, consistente, propositiva e com perspectiva de poder que cria espaço para que o PT e o fisiológico PMDB ocupem um espaço dúbio, de situação/oposição, que ajudam a dar permanência ao ciclo de mediocridade de que somos testemunha nos últimos anos.

Gustavo Theodoro

Das Comparações com Stálin

Stalin

Semana passada escrevi uma coluna comparando algumas táticas utilizadas por Stálin que teriam sido herdadas pela esquerda da América Latina. Percebi que Stálin, ao tentar influenciar a política do leste europeu sem utilizar a força (entre os anos de 1945 e 1948), formava governos de coalizão, mas exigia que aos comunistas fossem distribuídos os ministérios que controlassem os meios de comunicação, a justiça, as polícias e as forças armadas. Relatei ainda que Stálin, quando buscou aumentar seu poder, passou a identificar aqueles que não seguissem precisamente seus preceitos, mesmo que fossem comunistas ferrenhos, como inimigos, utilizando-se de campanhas de difamação.

No artigo anterior, avaliei o legado stalinista no governo petista, em especial no Governo Dilma, e constatei que os mesmos ministérios que Stálin requisitava estavam nas mãos de petistas (Secom, Ministério das Comunicações, Ministério da Justiça e Ministério da Defesa). A seguir, observei que aqueles que se afastam de petistas são alvos de campanhas de difamação, tal como ocorreu com Marina Silva na campanha eleitoral.

O artigo teve muitos leitores, sendo que alguns não gostaram nada do que escrevi e consideraram impertinentes as comparações, já outros gostaram muito das coincidências e viram sinais de que a história pode se repetir, mesmo com outros personagens.

Não imaginava que Stálin tivesse uma imagem tão ruim junto à esquerda. Sou do tempo que em o Muro de Berlim ainda estava de pé e que muitos defendiam o regime soviético (como muitos ainda hoje defendem o regime cubano). É interessante observar que, na década de 1950, mesmo com conhecimento dos Gulags, dos campos de trabalho forçado e dos julgamentos forjados, o regime stalinista era defendido pela esquerda mundial.

Tanto é assim que Trotsky, legítimo herdeiro de Lenin e líder do exército revolucionário bolchevique, passou a ser visto pelo mundo, com base na propaganda soviética, como agente do imperialismo econômico, sendo que por toda sua vida Trotsky jamais flertara com o liberalismo ou com o capitalismo.

Apesar desse histórico, a figura de Stálin seguiu como referência para a esquerda mundial mesmo após a denúncia de seus crimes por Kruschev. Naquele momento, houve uma divisão entre os que defendiam o regime soviético de Kruschev (como o PCB no Brasil) e os que defendiam Stálin (como o nosso PCdoB) e que negavam seus crimes. Hoje parece que Stálin está se tornando tão impopular como Hitler.

É bastante conhecida a Lei de Godwin, em especial em sua referência ao fato de que aquele que utiliza comparações com Hitler, em regra, perdeu a discussão por falta de argumentos. É inesperado para mim, mas parece que Stálin atingiu, em termos de rejeição, o mesmo patamar de Hitler, mesmo que ainda haja alguns que ainda teimam em defendê-lo. Lembro que Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, disse há pouco tempo que há uma diferença entre Hitler e Stálin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas Stálin lia os livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferença. Ele viu grande diferença nisso. De diferença essencial, não vi nenhuma. Talvez influenciado por falas como esta imaginei que Stálin não estivesse com a imagem tão rejeitada entre nós.

O certo é que eu não disse que o Brasil está se tornando uma ditadura ou que o Brasil está no caminho bolivariano. Disse apenas que o pensamento da esquerda, assim como o da direita, tem uma tradição por trás de si. Marx separou a sociedade em classes. Hoje vemos a esquerda utilizar discurso semelhante, atualizando a estratificação de Marx. Lenin defendia a necessidade de um grande inimigo, agente do capitalismo, que buscava aniquilar o regime de igualdade soviético. A esquerda brasileira elegeu o PSDB seu grande inimigo, caracterizado como aquele que quer ver retornar um velho Brasil. O PT poupou o PSDB no primeiro turno, despejando todo seu arsenal contra Marina Silva. Em outras palavras, o PT escolheu o PSDB como seu inimigo a ser batido. Stálin atualizou algumas táticas, em especial as listadas no artigo anterior, como forma de obtenção de poder em países em que o partido comunista não era majoritário. Fiz a comparação com o Brasil e percebi que o PT controla os mesmos ministérios que Stálin não abria mão.

É preciso notar que nosso presidencialismo é de coalizão. O PT ocupa apenas 17 dos 40 Ministérios. Segundo minhas contas de análise combinatória e probabilidade, as chances de quatro Ministérios específicos estarem nas mãos de petistas é de cerca de 3%. Logo, não tomei como coincidência o fato de o PT ocupar justamente os ministérios sugeridos por Stálin.

Ao mesmo tempo, ressaltei que, até aqui, exceto quanto ao Toffoli, todos os Ministros do STF indicados por Lula e Dilma tinham currículo para estar lá. Destaquei ainda que os meios de comunicação agiram com liberdade nas eleições, ainda que o PT tenha constantemente cobrado a aprovação de lei que regule a atividade da imprensa.

A esquerda é herdeira das práticas e dos pensamentos dos que nos antecederam. Segundo Delfim Netto, o cenário econômico que se apresenta é de uma tempestade perfeita. É fácil ser estadista e democrata em momentos de bonança. Não podemos nos esquecer de que o mundo experimentou o maior crescimento de sua história no período de 2001 a 2008. O Brasil conseguiu uma migalha disso, mas já nos fez muito bem. A época de bonança acabou. O país parou de crescer há alguns anos. É nesses momentos que aflora a tentação de concentrar o poder. Por isso, precisamos estar atentos e vigilantes.

Há setores da direita pedindo intervenção militar. E há setores da esquerda pedindo intervenção no judiciário e cassação da concessão da Rede Globo. Precisamos nos afastar desses radicais. A eleição foi acirrada, mas teve um vencedor. Em regimes ditatoriais, o partido do governo raramente obtém menos que 95% dos votos. Aqui muita luta foi travada para obter menos de 53% dos votos. Ou seja, tivemos disputa e por pouco o partido do Governo não perdeu as eleições. Temos uma democracia forte e as instituições continuam funcionando. Mas a vigilância é algo de que não devemos abrir mão.

Gustavo Theodoro

O Petismo e a Democracia

PT Foice e Martelo

Não são poucas as vozes que acusam o governo petista tentar solapar instituições para se perenizar no poder. Citam o exemplo da Venezuela e da Argentina, constroem teorias acerca do Foro de São Paulo e acusam o petismo de bolivarianismo.

Ainda não tenho o dom de prever o futuro. No entanto, conhecemos a história das ditaduras, em especial aquelas incentivadas pela esquerda.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava destruída e faminta. Comunistas, socialistas, democratas-cristãos e conservadores disputavam o apoio em cada país. A União Soviética apresentava-se como vitoriosa e pretendia dominar os países do leste europeu.

Stálin adotou, entre os anos de 1945 e 1948, um modo suave de influenciar os países em sua esfera de poder: aconselhou os comunistas, minoritários em quase todos os países, a se associarem aos socialistas – estes mais moderados e antirrevolucionários – e até mesmo aos democratas-cristãos para formarem governos de coalisão.

Na divisão de cargos, os comunistas exigiam apenas três ministérios: o do interior, que em geral controlava a polícia e as licenças para o exercício do jornalismo, o da justiça, que exercia influência sobre o judiciário e o Ministério da Guerra ou da Defesa, para controlar as forças armadas. Com os expurgos de jornalistas, a prisão de adversários e com o controle do judiciário, os comunistas gradualmente assumiram o controle dos governos e reduziram a democracia a eleições forjadas. Onde isso não ocorreu, os soviéticos patrocinaram um golpe stricto sensu.

Voltando os olhos para o Brasil, percebemos que, nos governos petistas, a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, responsável pela distribuição de verbas de publicidade e propaganda do governo central, sempre esteve sob responsabilidade de petistas, como Luiz Gushiken, Franklin Martins e Helena Chagas. Atualmente a pasta é ocupada pelo petista Thomas Traumann.

O Ministério das Comunicações foi entregue ao PMDB na época do escândalo do mensalão, como estratégia para preservação do mandato, mas no governo Dilma o petista Paulo Bernardo assumiu a pasta.

O Ministério da Justiça foi inicialmente ocupado por Márcio Thomaz Bastos. No segundo Governo Lula o petista Tarso Genro assumiu a pasta que, após breve período de interinidade, foi transferida para José Eduardo Cardozo, já no governo Dilma.

O Ministério da Defesa transitou entre petistas e não petistas no Governo Lula, mas desde o início do governo Dilma a pasta esteve com o petista Celso Amorim.

Resumindo, desde o início do governo Dilma os ministérios escolhidos por Stálin estavam nas mãos de petistas.

Uma segunda estratégia utilizada por Stálin que remete ao momento atual tem relação com o modo de se livrar da oposição constituída. Quando Moscou ordenou que o partido comunista se afastasse dos socialistas que não aderissem ao comunismo, teve início uma campanha difamatória contra os membros da oposição que, em geral, levavam à sua prisão, desterro ou morte, mas essas medidas eram sempre precedidas pela desmoralização.

Impossível não lembrar da campanha difamatória sofrida por Marina Silva, que esteve no PT por 24 anos participando inclusive do governo Lula. Sustentada por banqueiros, contra o pré-sal, foram parte dos ataques sofridas pela campanha petista.

Não por acaso, blogs patrocinados por verbas distribuídas pelo Secom tratavam da distribuição do ataque do dia à ex-aliada. Sem qualquer escrúpulo, Marina Silva foi desconstruída e retirada do segundo turno das eleições.

Gera incômodo ainda a forma como o Governo e os mesmos blogs sustentados por verbas federais atacam sistematicamente os meios de comunicação e o Poder Judiciário. O ataque a esses poderes, que Stálin percebeu como imprescindíveis, virou tática rotineira, que começa a fazer efeito, como vimos nos ataques aos jornalistas nas manifestações de junho.

Os Juízes do STF passaram a ser duramente atacados durante julgamento do mensalão, reproduzindo a mesma estratégia utilizada por Stálin nos países colocados sob a cortina de ferro.

Os partidos de esquerda da América Latina têm se encontrado desde a década de 1990 em congressos semelhantes aos da Internacional Socialista no século passado. E alguns países, tais como Venezuela e Argentina, fizeram reformas no judiciário e nos meios de comunicação que garantiram maior poder aos governos daqueles países.

O petismo evidentemente flerta com esse comportamento. E há setores do petismo que, sem dúvida, gostariam de ver aplicadas as técnicas utilizadas por nossos vizinhos.

Apesar dos indícios acima colacionados, ainda não se pode afirmar que há intenção deliberada do PT de solapar as instituições e vencer a democracia por meio dela mesma. Os meios de comunicação ainda são independentes e o judiciário continua funcionando com autonomia. Nas indicações para o STF, exceto a do Ministro Tóffoli, foram respeitados os critérios mínimos de honorabilidade e saber jurídico exigidos pela CF. Assim, o judiciário segue independente e a imprensa livre.

O momento é de crise econômica, que parece ser de grandes proporções. As facções do petismo que defendem a intervenção no judiciário, por meio da ventilada indicação do Ministro Cardozo, e na imprensa, por meio da limitação à propriedade cruzada, podem ganhar força dentro do Governo. Se é certo que até o momento as instituições têm funcionado livremente, é também certo que a pressão das alas mais à esquerda no petismo será mais forte do que nunca. Resta saber de que lado ficará o governo petista. É algo que devemos observar com cuidado, pois a história nos ensina que há semelhanças entre o bolivarianismo e o comunismo. E se o fim é a manutenção do poder, o meio é a própria democracia. É interessante observar que os historiadores da atualidade são quase unânimes em declarar que Stálin nunca se interessou muito pelo comunismo: seu objetivo sempre foi o poder. O paralelo é evidente, mas a natureza do petismo só poderemos declarar com maior distanciamento histórico. O que o momento exige de nós é vigilância.

Gustavo Theodoro