Hegel

O Julgamento da História

França Revolução

O julgamento do impeachment desmembrou a aplicação da pena em duas votações. Uma delas garantiu a Dilma Rousseff o direito de ocupar função pública. O Senador Lindbergh Farias foi perguntado sobre o futuro político de Dilma. Lindbergh disse que o que estava em jogo não era o futuro de Dilma, mas sim o julgamento da história.

Há uma obsessão no momento sobre como o processo que levou ao impeachment da ex-Presidente Dilma será retratado pelos livros de história. Os defensores da tese de que houve golpe parecem se satisfazer com a perspectiva de que, em algum momento futuro, os historiadores julgarão o afastamento de Dilma como golpe. Não sei se percebem de que tradição de pensamento eles são herdeiros.

Homero seguia a tradição do pensamento grego, sendo a história a forma de ressaltar os heróis e seus feitos. A obsessão dos gregos por ser “o melhor” (aristói), por ser o ator responsável pelos grandes feitos e por proferir grandes palavras foi muito bem retratada por seus historiadores.

Os contos morais prevaleceram na sociedade romana, seguindo a tradição dos mitos, em que a história servia como pano de fundo das mensagens morais. Havia ainda os panegíricos envolvendo autoridades políticas e eclesiásticas. Mas raramente imaginava-se que a história teria um sentido político. A tradição grega era tomada pelos romanos como herança civilizatória, retratando os pensamentos fundadores da cidade, realçada pelos mitos.

Foi só no século XVII, com o Iluminismo, que Hegel escreveu sua Filosofia da História, retratando-a como uma série de eventos que teriam origem causal, descrevendo a evolução da sociedade. Hobbes e Maquiavel tentaram construir uma ciência política, previsível e domesticada, com a sistematização de regras comumente observada nos eventos políticos para dar previsibilidade à ação humana. Apesar de serem, em especial Maquiavel, continuamente citados até em tempos modernos, suas tentativas fracassaram. A política segue imprevisível e a ação humana continua a fazer diferença.

Marx trouxe o conceito de Hegel para sua teoria e, com base no passado, no sentido da história, propôs-se a “prever o futuro”, declarando o fracasso do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. Percebendo que o tempo passava e a história não se encerrava, Marx, que não acreditava na violência como método de ação política, passou a ansiar pelo sucesso dos trabalhadores na revolução de 1848 na França. A burguesia moderada se aproveitou do movimento para derrubar a monarquia e assumir o poder. Ainda não havia chegado o momento do proletariado. O ponto de interesse é que Marx imaginou que aquela revolução poderia “acelerar” os acontecimentos. Isto só poderia decorrer da reflexão de quem realmente acreditava em um sentido para a história.

Na Revolução Bolchevique de 1917, a preocupação deixou de ser apenas o futuro. Se a história tem um sentido, um começo, um meio e um fim, era necessário adequar os fatos do passado para dar sentido aos eventos futuros. Como disse George Orwell, em 1984, o regime soviético era regido pela máxima: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Ora, se a história tem um sentido, basta adequar o passado para que o futuro desejado por um determinado grupo político se realize.

Talvez por isso considero curioso o posicionamento do Senador Lindbergh, por identificar de forma muito precisa a corrente ideológica a que esse pensamento está vinculado. E mais: se estamos mesmo em um ambiente democrático, em que as pessoas manifestam suas opiniões livremente, não há esforço dos políticos que poderá, de fato, levar os historiadores do futuro a adotar tal ou qual julgamento histórico.

Os fatos ainda estão em andamento e é impossível realizar julgamentos históricos sem o distanciamento temporal. Importa mais, para cada um de nós, continuar a seguir os ensinamentos kantianos e julgar os fatos cada um por si mesmo. Além disso, soa patético preocuparmo-nos com o julgamento de historiadores, imersos que estamos na contemporaneidade. Mais importante é continuar abertos aos debates, respeitar as manifestações divergentes e buscar acordos que nos permitam conviver em sociedade, pois quem costuma ganhar com esse acirramento de posições são os radicais. E já não é possível ignorar a existência deles.

Gustavo Theodoro

Outro Mundo é Possível

Não é sempre que será possível seguir em linha reta neste blog. A realidade é difusa, o conhecimento é espraiado, as referências são inúmeras. Nos encontramos sobre longa tradição de pensamento e, ao lado disso, temos uma sociedade e um mundo complexos, cuja interpretação dificilmente será a definitiva e única. Por isso, dou um passo atrás na análise dos termos direita e esquerda para tratar de um dos temas caros à esquerda dos dias atuais: pode o homem se reinventar criando um mundo novo? Ou, nos termos do lema do Fórum Social Mundial, outro mundo é possível?

Os leitores deste blog provavelmente perceberão com o tempo que eu gosto muito de fazer perguntas, mas as respostas quase nunca são dadas diretamente. Em alguns casos, nem serão dadas. Importa-me mais a discussão, a elucidação do contexto em que as questões são colocadas, do que a conclusão propriamente dita, o julgamento do assunto. No entanto, deixemos essas digressões de lado e tratemos de enfrentar o tema.

A ideia de construir um mundo novo, livre das mazelas humanas, é relativamente recente. No passado, foi provavelmente Platão quem primeiro imaginou um mundo que não fosse tão imperfeito como o nosso, tendo proposto que o nosso aprendizado nos aproximaria dele (teoria das reminiscências). Ainda no campo metafísico, as religiões erigiram mundos muito mais perfeitos do que o nosso, cujo ingresso de nossas almas dependeria de condições e escolhas de cada um sujeitas a um julgamento moral.

O mundo em que vivemos era, portanto, reconhecido como palco de misérias e sofrimento que só seriam redimidos após a morte desde que virtuosas escolhas fossem feitas durante a vida.

Com o progresso da ciência, houve uma mudança de ambiente na humanidade. Para retratar esta mudança, cito os versos de Ulrich Von Hutten, datados de pouco depois de 1500, tratando do avanço das ciências:

“Ó século, ó ciências!

                É um prazer viver.

                O saber floresce, e os espíritos agitam-se.

                Barbárie, pega na tua corda e prepara-se para o exílio!”

Sim, parecia que o progresso científico poderia modificar o próprio homem e suas sociedades. A ideia do homem criando a si mesmo está na base do pensamento hegeliano e marxista. E este conceito está também na base de todo o humanismo de esquerda. No entanto, Hegel era um idealista; nesse sentido, o homem só poderia criar a si mesmo por meio do pensamento. Já Marx virou ao contrario o idealismo de Hegel, elegendo o trabalho como protagonista desta criação.

O que no século XIV começou como uma crença na ciência e em seu poder de dar fim à barbárie, no século XIX parecia bastante possível que o progresso atingisse o humano e suas relações sociais, a ponto de nos transformar em pessoas moralmente superiores e as sociedades em repositório de igualdade e colaboração.

Sei que estou abordando a velha questão da possibilidade da evolução moral do homem, e a quantidade de vezes que cito antigos textos dá uma dica de minha forma de pensar, mas não é nesse ponto a que quero me ater.

É interessante observar que, apesar de Hegel considerar possível a formação de um novo homem, ele ao mesmo tempo dizia que nada mais surgirá exceto aquilo que já existia, denotando que o novo homem era prerrogativa de uns poucos, mas não de toda a sociedade. Esta é outra das reviravoltas provocadas por Marx no pensamento hegeliano, na medida em que, na visão de Marx, o capitalismo caminhava para uma crise, e um novo homem surgiria no socialismo.

Não há nada pior do que tentarmos prever o futuro, pois corremos o risco de sermos desmentidos pela história. O futuro idílico em que um novo mundo seria criado, provavelmente, ainda não chegou. Neste ponto, os marxistas se assemelham aos da religião judaica, que continuam esperando seu Messias assim como os marxistas aguardam a derrocada do capitalismo. E a todo momento vemos, em seus fóruns e discussões, que o capitalismo está em sua crise final, que desta vez o modelo será superado. E continuam a ser desmentidos pela história.

O que descobrimos com o tempo é que as crises são o mecanismo de correção do próprio capitalismo e que são as crises é que garantem sua permanência. Não estou com isso dizendo que esta forma de nos relacionarmos em sociedade e produzirmos nossos bens e mercadorias seja a mais adequada ou que não possa sofrer ajustes futuros. Mas há mais chances para aqueles que apostam que a próxima crise não passará de mais um ajuste do sistema, e não seu fim.

Aliás, se há alguma crise, ela está é no socialismo, que só existe na Coreia do Norte e, de certo modo, em Cuba (apesar de a ilha de Castro estar gradualmente aderindo ao sistema capitalista). A China não poderá jamais ser tomada por socialista ou comunista, já que os meios de produção são controladas por iniciativa privada (não preciso esclarecer que o capitalismo pode ser encontrado nas tiranias, nas monarquias, nas aristocracias ou nas democracias liberais).

A ideia de que outro mundo é possível decorre da percepção de Marx de que o homem pode se reconstruir pelo trabalho. Derivações dessas teorias tomaram de assalto até mesmo as estantes das livrarias, com seus grandes espaços destinados à auto-ajuda, sem se dar conta de que o Dr. House estava quase sempre certo quando dizia: people don’t change.

A esperança de um futuro melhor, de uma humanidade mais humana, de pessoas mais altruístas e solidárias é sempre postergada para um futuro em que o homem se dará conta de sua situação, deixando de se alienar e passando a agir apenas em favor do interesse comum. E essa a visão dos utópicos.

É digno de nota que séculos se passaram sem que conseguíssemos transformar o mundo. Talvez sejam demasiadas as expectativas de quem pensa que outro mundo é possível. E é, também, por essa razão que discursos como a da ex-Senadora Marina Silva devem ser vistos com certo ceticismo, na medida em que condena tudo isso que está aí, recusando-se ela até mesmo a aceitar que seu partido tenha o nome de partido, substituindo-o por rede.

A sociedade utópica, em que os homens bons finalmente vencerão homens maus continua como miragens no deserto. E como disse Camus certa vez, dando à frase uma conotação nostálgica e um tanto pessimista, os únicos paraísos são aqueles que perdemos.

Gustavo Theodoro