Marina Silva

Justificativa de Voto

Independentemente de eventuais oscilações nas pesquisas eleitorais, meu voto segue na Marina Silva. Vou seguir explicando o porquê.
 
Em todos os meus escritos, sempre destaquei a importância do Bolsa Família. Há algumas décadas, os que defendiam políticas públicas universais eram de esquerda, os que defendiam políticas focalizadas, só para os grupos que precisam, eram de direita.
 
Estranhamente, foram Governos de esquerda, FHC e Lula, que criaram o que acabou tendo esse nome de Bolsa Família. À Ricardo Paes da Barros é atribuída a paternidade do Bolsa Família. Elaborador de políticas públicas de grande capacidade, Ricardo Paes de Barros está na equipe de Marina.
 
O candidato à Vice-Presidente, Eduardo Jorge, é outro colaborador de destaque. É identificado como um dos responsáveis pela existência do SUS, por sua atuação como deputado constituinte. É autor da lei dos medicamentos genéricos, vencendo imensa resistência da poderosa indústria farmacêutica.
 
André Lara Resende foi um dos formulares do Plano Real, que pôs fim à inflação no Brasil. Além disso, é o economista responsável pelos melhores insights dos últimos anos, afastando-se com precisão e imensa erudição dos ortodoxos, sem aderir aos heterodoxos, compreendendo os fenômenos contemporâneos ligados aos juros, à inflação, à moeda e ao crescimento econômico. Difícil pensar em autor brasileiro vivo mais importante do que ele (sim, eu li os seus livros).
 
Ele foi autor de um artigo que balançou a ortodoxia econômica brasileira ao questionar o papel dos juros altos aplicados pelo BC e relacionando esses juros, de algum modo, à inflação futura, no sentido inverso ao usualmente considerado pela ortodoxia. Não, não tem nada a ver com o voluntarismo de Dilma, que baixou os juros e turbinou os gastos, encomendando inflação, o que, ao fim, nos trouxe ao lugar que estamos hoje. Para completar ainda há a genialidade de Eduardo Giannetti.
 
Política é, antes de ideias, feita por pessoas. E nesse campo a equipe de Marina é imbatível. Compare com os demais candidatos. Não deixe os institutos de pesquisas decidirem por você.
Gustavo Theodoro

Declaração de Voto

O mundo voltou a uma fase de grande crescimento econômico. Depois dos 3% do ano passado, os indicadores americanos levarão o crescimento econômico a patamares superiores. O Brasil está perdendo este momento, consumido por suas divisões internas.
Crescimento resulta, inevitavelmente, em uma fase de ajuste, que normalmente é evidenciado pelo estouro de alguma bolha. Talvez isso ocorra já em 2019, pois os ativos tiveram disparada nos preços mundo afora. Junto com isso, o endividamento do setor privado subiu muito. A bolha pode estar escondida aí.
Enquanto isso, o orçamento enviado projeta um déficit nominal de 6,3% para 2019. Apenas 4,4% são juros. Sim, Ciro Gomes disse que juros eram 50% de nossas despesas, mas, como é seu hábito, isso não é realmente verdade. Logo, algum ajuste será cobrado da sociedade, seja pela despesa – reformas em geral – seja pela receita – mais impostos – ou pelo mercado, por meio de calote ou inflação.
Em um cenário pacífico, já teríamos um ano de 2019 difícil. Se houver algum ajuste internacional, a situação será ainda mais grave. Se tivermos um cenário de conflagração pós-eleitoral, vejo poucas possibilidades de saírmos bem disso.
Pela comparação entre os programas de Governo, pela assessoria econômica, pelo discurso repetido de paz neste momento de divisão, ainda que tenhamos diversas divergências de ponto de vista, anuncio que votarei em Marina Silva nessas eleições.
Os pontos de convergência compensam amplamente as divergências, como a proposta de progressividade dos impostos sem aumento da carga tributária, ajuste na forma regressiva com que os serviços são devolvidos para a sociedade, visão sustentável da produção e do setor agropecuário, em especial na questão energética, visão social-democrata com liberdade econômica, mas não privatista do Estado, valorização do serviço público com combate a privilégios inaceitáveis, dentre outros.
Logo, de hoje em diante, considerem meus posts a partir deste ponto de vista. Prometo escrever um texto mais aprofundado sobre juízo e razão.
Gustavo Theodoro

O Que Cabe aos Políticos

Marina em Dúvida

Marina Silva disse ao colunista Antônio Prata que não sabia o que fazer diante da crise política. Disse ainda que não conseguia tomar partido diante do acirramento de ânimos. É preciso reconhecer que o cenário político é complexo, que os personagens envolvidos na crise estão buscando a divisão e que cada político parece ter seu esqueleto no armário, propiciando o florescimento do discurso antipolítico.

É exatamente nesse quadro que a voz de Marina fez falta. Justamente por não pertencer aos polos que disputaram o poder no Brasil nos últimos anos (PT e PSDB), a responsabilidade de Marina Silva é maior a dos demais políticos. Seria, se ela se mostrasse à altura da tarefa.

Nós, que não temos simpatias por nenhuma das correntes políticas que se apresentam ao país, não devemos nos acomodar no imobilismo, no “isentismo”, por temor de possíveis rotulações de coxinha ou petralha. O silêncio não é a melhor opção diante da gritaria das redes e da polarização do cenário. É preciso saber combinar a defesa dos direitos e garantias individuais com a defesa das instituições.

John Rawls propunha que o analista social se vestisse com um “véu da ignorância”, de modo que sua posição na sociedade, sua cor, seu sexo, fosse-lhe desconhecido e os direitos e deveres de cada um fosse estabelecido a partir dessa premissa. A situação da política atual exige o mesmo tipo de vestimenta.

Collor sofreu impeachment em 1992. Naquela ocasião, vazamentos de informações bancárias sigilosas levaram à opinião pública o conhecimento das contas fantasma operadas por PC Farias. Marchas lideradas por Lindbergh Farias, jovens de caras pintadas vestidos de verde e amarelo, enfraqueceram a popularidade do Governo, que enfrentava a ruína de seu plano econômico. Depressão econômica, desemprego, base governista desmantelada, vazamentos de informações e violação da intimidade permearam aquele processo (hoje o jardim da casa da Dinda parece conta de café diante das descobertas da Operação Lava Jato). Há semelhanças e diferenças com o momento atual. Importa para mim destacar a coerência de cada um de nós.

Em 1999, em meio à escandalosa privatização das estatais levada a cabo por FHC, grampos telefônicos foram divulgados. Conversas de FHC atuando nos bastidores dos leilões foram captados. Dalmo Dallari e Celso Antônio Bandeira de Mello propuseram o impeachment de FHC em 2001. Esses mesmos juristas vieram a público na semana passada denunciar a divulgação de conversas da Presidente Dilma por supostamente colocarem em risco a segurança nacional. Na mesma cerimônia defenderam que impeachment é golpe. Esse tipo de impostura intelectual revela muito do caráter de cada um.

Sinto-me muito à vontade para reconhecer o erro da divulgação das escutas telefônicas realizadas nas linhas vinculadas ao ex-Presidente Lula. Isso não me impede de constatar que houve tentativa explícita de obstrução de justiça. Reconheço há uma enormidade de provas contra Eduardo Cunha. Isso não isenta o ex-Presidente Lula de ter recebido favores de empreiteiras ao mesmo tempo em que exercia influência sobre o Governo.

O processo contra os políticos com prerrogativa de foro corre de forma mais lenta do que os conduzidos pelo Juiz Sérgio Moro. Isso não faz nascer em mim a necessidade de compensação, de perdão, a todos os que estão sujeitos à “República do Paraná”. Os feitos da Força-Tarefa da Lava Jato são inegáveis. As principais empreiteiras do país estão dispostas a expor a corrupção do sistema que parece existir desde o Brasil Império. Faz-se necessário reconhecer seus méritos, sem, contudo, deixar de apontar os abusos e desacertos.

Não é o caso de utilizar os erros cometidos para exterminar a Lava Jato. Há dois anos, quando Paulo Roberto Costa aceitou fazer sua delação premiada, não poderíamos imaginar que chegaríamos tão longe. A Lava Jato está muito perto de imputar crimes à grande maioria dos políticos relevantes do País, como Lula, FHC, Dilma e Aécio. Ainda que ao fim disso tudo sobre apenas parte do PSOL, o Bolsonaro e o Tiririca, a Lava Jato deve seguir em frente. Não é hora de pensar em argumentos finalísticos, teleológicos, não se deve perdoar que recebeu menos benesses ou quem fez acordos mais baratos só porque a Operação Mãos Limpas na Itália desaguou em Berlusconi.

A situação é complexa, o jogo de forças é intrincado. Mas políticos que almejam à Presidência não devem se calar quando o Brasil exige participação. Aqui vai meu conselho para Marina: se os vazamentos são ilegais, denuncie. Se os favores de empreiteiras ao Lula são imorais, manifeste-se. Se o impeachment por “pedaladas fiscais” lhe parece insuficiente, pronuncie-se. Se há indícios de obstrução de justiça, diga isso claramente. Kant dizia que o verdadeiro bem político é a razão. O momento, para os intelectuais e para os políticos em geral, é de exercitá-la em público.

Gustavo Theodoro

O Rumo da Oposição

PT na oposição

As primeiras medidas tomadas pela Presidente Dilma seriam condenadas pela candidata Dilma. Ajuste fiscal, mudanças nas regras de pensões e auxílio-desemprego, elevação nas taxas de juros seriam medidas atacadas pela propaganda petista. Ao roubar a agenda adversária, percebe-se na oposição uma paralisia, um silêncio, seguido de algumas críticas a medidas que foram defendidas por seus candidatos.

É o próprio PT que passa a ocupar o espaço que seria destinado à oposição. A Carta Capital publicou reportagem em que critica os rumos ortodoxos seguidos por Joaquim Levy. Luis Nassif, blogueiro empregado da Rede Brasil, critica a rendição do Governo Dilma aos mercados. Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo, lembra que o caminho da ortodoxia foi derrotado nas eleições. Membros da direção do PT se arriscam a criticar publicamente o ajuste fiscal e o aumento da taxa básica de juros.

Enquanto isso, Aécio Neves tirou férias. Não tem participado da eleição das mesas diretoras da Câmara e do Senado. E não é visto indicando rumos para a oposição. Marina Silva também tirou férias. Há mais de um mês não dá entrevista ou fala ao público. Seu recolhimento afastou antigos aliados, tornando mais árdua sua tarefa de montar uma oposição que vise a superar a velha disputa PT-PSDB.

Com isso, o PT voltou a dominar o noticiário especializado, ocupando os dois lados do espectro político: situação e oposição. Não é a primeira vez que isso ocorre. A oposição mostra-se mais perplexa com os rumos tomados pelo governo do que a própria esquerda. Não se deve exigir que o PSDB condene o ajuste fiscal. Nem que Marina Silva critique a adoção do tripé econômico, tão defendido por ela durante a campanha. Deixemos a incoerência para os que não cumprem suas promessas.

Mas há diversas reformas defendidas pelos partidos de oposição que não estão no horizonte do atual governo, como a reforma tributária, por exemplo. Uma das maiores fontes de desigualdade do país é nosso sistema tributário, que é regressivo em razão de sua preferência por impostos sobre o consumo. Com isso, os mais pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos do que os mais ricos. O bolsa família e os programas sociais não dão conta de devolver todo o tributo indevidamente recolhido. A proposta constante dos programas de oposição era bastante genérica, mas indicava a necessidade de revisão desse sistema.

Outras reformas estruturais são necessárias para que o Brasil volte a crescer, mas ninguém mais parece interessado em projetos de longo prazo. Até mesmo o choque ortodoxo aplicado pelo Governo Dilma é preguiçoso, não contempla um horizonte para além dos quatro anos de governo. A ideia parece ser economizar um pouco nos dois primeiros anos – mesmo que isso produza crescimento zero – para depois liberar os gastos com vistas às próximas eleições.

Com essa visão de curto prazo, seguiremos dando pequenos voos de galinha. E a oposição parece não perceber a importância de seu papel, que não se resume a apresentar candidaturas a cada quatro anos. Críticas consistentes, apresentação de caminhos alternativos, visão de futuro e defesa de reformas estruturais são ideias que ajudam a construir uma identidade partidária, encontrar aliados, elevar o nível do debate político e melhorar o país.

É um erro dar pouca importância utilização da palavra como método da ação política. Esse contínuo esvaziamento da oposição entre os eventos eleitorais dá caráter oportunista a seus candidatos. Além disso, o debate político acaba só ocorrendo durante o pleito eleitoral. Com isso, as eleições passam a se assemelhar a um plebiscito. É a ausência de uma oposição forte, consistente, propositiva e com perspectiva de poder que cria espaço para que o PT e o fisiológico PMDB ocupem um espaço dúbio, de situação/oposição, que ajudam a dar permanência ao ciclo de mediocridade de que somos testemunha nos últimos anos.

Gustavo Theodoro

O Rumo de Marina

Marina

Marina Silva encarnou, nessas eleições, meu sonho de me ver livre do velho e desgastado embate entre PT e PSDB, e de tudo o que veremos nos próximos dias. A derrota de Marina pode ser explicada por diversos fatores: falta de tempo, improvisação, falta de recursos, reduzido tempo de TV e erros na condução da campanha.

No entanto, especialistas são unânimes em destacar o peso dos ataques sofridos pela candidata. A campanha do PSDB foi menos hostil nas críticas à Marina, sendo que a maioria das imputações que lhe foram feitas eram verdadeiras: que Marina foi do PT por 24 anos – não sei ao certo, mas isso parece ter sido tratado como acusação – e que durante a CPI do mensalão, Marina permaneceu Ministra de Lula. Outras críticas relativas às mudanças em seu programa de governo lhe foram dirigidas, mas isso é do jogo político.

Já o PT atuou em outro tom. Logo no início da campanha, quando Marina começou a disputar a liderança nas pesquisas, Dilma Rousseff afirmou que “não tinha banqueiro me sustentando”, em clara referência à relação de Marina Silva com a educadora Neca Setubal, uma das herdeiras do Banco Itaú.

Logo depois vieram as famosas campanhas que demonizavam os bancos e o setor produtivo, vinculando-os à Marina Silva. Nas peças publicitárias, a comida dos pobres iria irrigar a ganância das bancas e dos empresários. Depois disso, Marina Silva foi comparada, na campanha petista, a Collor e a Jânio Quadros.

Kant ensinava que na guerra, não se pode admitir que nada torne impossível a paz subsequente. A voz corrente ouvida ontem na campanha de Marina indicava que está descartada, neste momento, uma aliança com o PT. Nunca é demais lembrar que Marina ainda era próxima a diversos setores do PT e que, mesmo na reta final, era-lhe indigesta a aliança com Geraldo Alckmin. Na eleição anterior, Marina preferiu não apoiar nem Serra nem Dilma, guardando-se para, quem sabe, fazer um governo dos melhores no futuro.

Relembro, agora, a lição de outro mestre na arte de se fazer política, o pensador conservador britânico Edmund Burke, que dizia que sabedoria consiste em saber quanto mal deve ser tolerado. No longo discurso proferido ontem, com o semblante tranquilo, Marina deu claros sinais de que não irá de Dilma Rousseff no segundo turno. Mas ela foi além: disse que o Brasil sinalizou que não concorda com esse projeto (de Dilma), e que quer uma mudança qualificada. Disse ainda que não há de tergiversar com o sentimento de 60% dos eleitores. Parece que Marina não irá tolerar o mal que lhe foi impingido.

Gustavo Theodoro

Declaração de Voto

Trinca

A eleição presidencial de 2014 representa a quebra de uma dualidade que já perdura por 20 anos. Desde 1995, os dois principais candidatos são do PT e do PSDB. Neste ano, o fenômeno Marina Silva se interpôs a essa dualidade e tem grandes chances de ir para o segundo turno contra Dilma Rousseff.

Tanto PSDB quanto PT tiveram raízes no pensamento de esquerda. O PSDB foi formado por lideranças do antigo MDB, que resolveram estar presentes na primeira eleição direta realizada no Brasil após a ditadura militar. O PT teve como berço o trabalhismo sindical da região do ABC paulista. Agregou, a contragosto, a turma ligada ao socialismo e disputou suas primeiras eleições presidenciais também em 1989. Em 1993 a esquerda brasileira poderia ter se reunido no Governo Itamar, na primeira tentativa de se fazer um governo dos bons. O que poderia ter unido os partidos acabou por separá-los. FHC se apropriou do Plano Real, o PSDB virou governo e o PT seu grande adversário. Quem se aproveitou desta divisão foram os velhos políticos do PFL/DEM, inicialmente, e do PMDB, posteriormente.

Vivemos anos de razoável estabilidade econômica, de alguma recuperação da renda, de evolução institucional, mas vimos prosperar as velhas práticas políticas e o ressurgimento de figuras como José Sarney, Jader Barbalho, ACM, Jucá, Renan Calheiros, Collor, dentre outros. Vimos ainda os principais partidos políticos do Brasil se degradarem em suas passagens pelo poder. O PSDB deixou diversas situação não explicadas em sua gestão, principalmente no que concerne às privatizações e à compra de apoio parlamentar para a emenda da reeleição. O PT comprou a base parlamentar no primeiro mandato de Lula e esteve presente nos principais episódios de corrupção dos últimos anos.

A atual campanha começou já cansada das disputas anteriores. O PSDB indicou Aécio Neves, que parece não estar muito disposto a ser presidente. Até hoje não escreveu seu programa de governo. Apresenta uma equipe razoavelmente competente, mas o tema dominante da sua campanha é a retirada do PT do poder. Nesta semana, teve desempenho fraco no Bom Dia Brasil justamente quando as perguntas se referiam a suas propostas se eleito presidente.

O Governo de Aécio em Minas Gerais foi marcado por seu famoso choque de gestão. Já demonstrei aqui que toda a parafernália de indicadores e remuneração por resultados não trouxeram melhorias além da média do país na área da educação. Na área de segurança, o mesmo sistema implantado gerou aumento da violência, se o indicador observado é o número de homicídios por 100 mil habitantes.

O PSDB tem minguado a cada eleição. Com a entrada de Marina Silva na disputa, o partido corre o risco de estar fora do segundo turno pela primeira vez desde que Lula venceu as eleições de 2002. Resta São Paulo, onde Alckmin deve vencer no primeiro turno, e dois ou três estados menos significativos economicamente. Pode-se dizer que esse resultado é fruto de suas escolhas.

Depois de oito anos ocupando a presidência, o PSDB renegou seu legado. Os candidatos José Serra e Geraldo Alckmin tentaram, de todos os modos, se desvincular dos anos FHC, como se não fossem do mesmo partido. O PT se aproveitou desta fraqueza. Cunhou o termo herança maldita, relacionou o governo do partido à velha herança patrimonialista brasileira, atirou o partido para a direita e passou a ocupar a centro-esquerda.

O PT demonizou o PSDB a ponto de o próprio PSDB se ver como um partido dos ricos. Aécio Neves utiliza termos que a maioria da população não conhece. Ao ser questionado sobre a resistência dos sindicatos a seu nome, ele declarou que é assim mesmo, que a relação entre governos e sindicatos, entre patrão e empregado, é sempre conflituosa, adotando, como andar de cima, a tese do conflito de classes inventada pela esquerda.

Por conta disso, parece ser verdadeira a ideia de que o PSDB não gosta de povo. Ao tratar de metas de inflação, é evidente que a decisão deve ser técnica. Mas não precisa ser insensível. Podemos achar que, para as finanças públicas, o salário-mínimo está alto. No entanto, mesmo que a decisão técnica seja tomada, é necessário ter a sensibilidade suficiente para reconhecer que seu valor não permite a subsistência de uma família. Mesmo que seja necessário fazer algum ajuste, ele deve ser feito com dor. O discurso técnico é necessário, mas a sensibilidade social se faz presente. O político por vezes deve se sobrepor ao técnico. O político é o maestro da orquestra. Sem descuidar dos músicos, é o maestro que dá o ritmo da música. O certo é que o PSDB parece ter gostado do discurso técnico envolvendo juros, câmbio e gasto público, esquecendo-se de que cada decisão dessa têm um impacto nem sempre desprezível na população de um país. E esse discurso tecnicista e a notável insensibilidade social o afastou do povo.

Do Governo Dilma já escrevi suficientemente nos últimos meses. Foram cometidos erros terríveis na condução da política econômica que reduziram nossa credibilidade internacional, impedindo o crescimento no investimento privado. O programa Mais Médicos é o retrato acabado da falência de nosso sistema de saúde. Depois de 10 anos do poder, não temos médicos suficientes para suprir a demanda, o que revela falhas também na política de formação de profissionais de saúde. O número de leitos caiu no Governo do PT. Na educação, o Pisa nos revela anualmente que não temos evoluído na velocidade necessária. O nível superior não forma engenheiros e médicos, o ensino médio não retém os alunos, e o nível fundamental não consegue atingir nem mesmo as modestas metas estabelecidas pelo Governo. Nossa infraestrutura continua precária, com filas em portos e aeroportos. E o mais importante: no Governo Dilma paramos de crescer. E não há perspectivas de crescimento para os próximos anos.

Aliás, Dilma também não escreveu seu programa de Governo. Tem feito ameaças de repetir o que fez nos últimos quatro anos. Disse a Presidente que não precisa de programa de governo, pois ela já mostrou do que ela é capaz. Às vezes Dilma é involuntariamente engraçada.

Se eu fosse de esquerda, diria que pela primeira vez uma negra, e ainda mulher, pode ser Presidente da República no Brasil. Como não costumo discriminar raças ou gêneros, cito apenas as qualidades intrínsecas de Marina. Sua história política sempre foi ligada à causa verde e à defesa do meio ambiente. Militou no PT por 24 anos. Deixou o PT ao perceber que o partido se transformou em mero instrumento da luta política. Concorreu há quatro anos pelo PV e ameaçou tirar José Serra na reta final. Saiu fortalecida com 20% dos votos e com tempo para se preparar para o próximo pleito.

Uniu-se a dois dos melhores pensadores brasileiros contemporâneos, André Lara Resende, de quem sou admirador, e Eduardo Gianetti, instigante filósofo. Marina fez uma autocrítica que lhe permitiu compreender os erros cometidos pela política econômica de Dilma. E passou a defender a ortodoxia econômica como instrumento para melhoria da condição de vida da população.

Depois de se preparar para fundar seu partido, sofreu o revés de não vê-lo formalizado a tempo para disputar as eleições presidenciais deste ano. A união com Eduardo Campos e a queda do avião deram nova chance a Marina Silva.

Apesar de ter uma campanha ainda sem estrutura, com pouco dinheiro e quase nenhum tempo de televisão, apesar de sofrer ataques diários – e mentirosos – das campanhas de Dilma e de Aécio, mantém, nas pesquisas, cerca de 30% do eleitorado. A explicação para isso é difusa, mas está relacionada ao cansaço do brasileiro com o velho embate PT x PSDB, com o esgotamento do Governo Dilma e com a rendição do PSDB.

Além disso, Marina Silva tem se revelado extremamente habilidosa nas entrevistas que concedeu até aqui. Os quatro anos longe do Senado e da atividade política cotidiana lhe permitiram a ampliação de seu leque de leituras, que vai de Hannah Arendt a Lacan. Com isso, as imensas dificuldades que passou em sua infância e juventude, inclusive seu atraso na alfabetização, parecem ter sido totalmente superados.

As dificuldades de seu eventual governo são evidentes: seu casamento com o PSB ainda está conturbado, sua base parlamentar terá que ser construída e seus quadros terão que ser buscados na sociedade civil e em outros partidos. Não são dificuldades pequenas, reconheço, mas que podem ser vencidas. É bom que se ressalte que Marina Silva é detentora de experiência parlamentar e que milita na política há mais de trinta anos, o que lhe dá credencias para superar os desafios e construir uma nova base política.

Das três principais candidaturas, só Marina Silva divulgou seu programa de governo. Os adversários muito criticaram seu programa, que foi modificado em alguns pontos. No entanto, os mesmos adversários que formularam as críticas nem sequer se deram ao trabalho de detalhar suas propostas.

Marina Silva gosta de repetir a história de sua vida, a sua luta contra as doenças da Amazônia, a malária, a leishmaniose, a hepatite e a contaminação por mercúrio, chumbo e ferro. Quando lhe são apresentadas as dificuldades de governar sem uma base de sustentação sólida, é à sua história pessoal que ela remete para demonstrar sua força. Quando a todo momento lhe cobram o pragmatismo, ela cita Santo Agostinho e a capacidade de humano de criar o novo de onde antes só havia uma ideia, um sonho. Nesse sentido, Marina se coloca tal como o super-homem de Nietzsche, o homem que supera a si mesmo, que vai além de suas capacidades atuais, que cria o novo. Nessas eleições, é Marina que representa a esperança, o novo e possibilidade de devolver à política sua dignidade perdida. Como contraponto ao pragmatismo do mundo, nessa eleição resolvi ser sonhático. Por isso, voto em Marina Silva para Presidente da República.

Gustavo Theodoro

Independência do Banco Central

Banco Central

O programa de governo de Marina Silva propõe instituir, por meio de lei, a independência o Banco Central. Como todos sabem, independência do banco central não passa de uma medida que busca assegurar ao sistema financeiro que o BC tomará as medidas necessárias ao controle da inflação. A promessa faz sentido neste momento, já que a interferência do Governo Federal no Banco Central foi uma das principais causas que nos levaram a tão baixo crescimento, a certo descontrole inflacionário e ao retorno dos juros a antigos patamares. Dilma irá entregar a seu sucessor taxas de juros superiores às recebidas do Presidente Lula.

Em 2012, o descontrole fiscal começou a afetar a inflação. Havia, no entanto, a percepção de que os juros no país eram artificialmente altos. Diante da necessidade de poupar recursos para fazer frente aos gastos contratados, a redução dos juros pareceu boa alternativa, uma vez que países com juros mais baixos são, normalmente, mais desenvolvidos. Os agentes financeiros, que decidem o destino dos bilhões de dólares ávidos por um bom lugar para investir, já desconfiavam dos números fiscais do governo. E desconfiavam da autoridade do Banco Central para fazer o que fosse preciso para conter a inflação. Em 2012, Dilma fez a seguinte declaração: Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a redução do crescimento econômico. É uma frase tão equivocada que fez o mercado financeiro balançar.

O equívoco não está apenas no atentado à nossa bela língua. O mercado interpretou que Dilma seria mais leniente no combate à inflação, pois, segundo ela, combater a inflação inibe o crescimento. Trata-se de imensa confusão de conceitos que nos faz temer pelos próximos quatro anos.

Apesar de o governo ter publicado notas depois deste episódio negando que a Presidente iria interferir na política de juros do BC, os juros seguiram baixos e a inflação seguiu se aproximando do topo da meta. Os agentes financeiros davam por certo que era Dilma quem tinha o controle do BC e passaram a exigir juros maiores para garantir o ingresso de recursos no país, que passou a ser necessário tanto por conta do déficit na balança comercial como para apreciar o câmbio, reduzindo a pressão inflacionária.

Fosse o Banco Central independente em 2012, não estaríamos hoje no atual patamar de juros e poderíamos estar economizando algumas dezenas de bilhões de reais com o pagamento das taxas de rolagem da dívida. Ao desafiar o mercado, nós é que pagamos a conta.

A recente campanha eleitoral da candidata petista também não auxilia seu eventual futuro governo. A campanha de Dilma, como todos sabem, é milionária. A campanha de Dilma arrecadou, até o momento, quase R$ 130 milhões, enquanto a de Marina ainda não atingiu os R$ 30 milhões. Dilma tem tempo de televisão quase dez vezes superior ao de Marina. Na última semana, Dilma falou mais de Marina do que a própria Marina, com seus 1min29seg. Ou seja, Dilma tem mais tempo para denegrir Marina do que tem Marina de falar sobre seu programa de governo.

Pois bem. Semana passada Dilma gravou um filmete sobre o futuro que os brasileiros devem esperar com Marina presidente. No filme, a comida desaparece dos pratos dos pobres, dando a entender que os recursos seriam repassados a banqueiros inescrupulosos. É preciso reconhecer que o PT sabe ganhar eleições. Resta saber se haverá cooperação dos agentes econômicos para governar.

E mais: ao retratar o sistema financeiro como um bando de avarentos oportunistas, a campanha petista acaba por reforçar a imagem de avesso aos mercados. Inevitavelmente isso terá um custo na condução da política econômica em eventual governo petista. Quando me refiro a custo, não estou falando em custo político ou emocional. O custo é financeiro mesmo. Como nossa dívida bruta está na casa dos 70% do PIB, o custo de sua rolagem é a maior conta do país. Cada ponto da Selic representa um custo adicional de cerca de R$ 6 bilhões ao ano. Isso equivale a seis Prouni.

Ao manter o discurso belicoso, mesmo que se trate apenas de discurso, contra o sistema financeiro e os agentes econômicos, é possível que Dilma vença as eleições. Isto porque anos de governo de esquerda reforçaram o preconceito do eleitor contra o mercado financeiro, contra os empresários e contra tudo aquilo que represente alguma forma de riqueza. No entanto, a vitória das eleições por meio deste caminho acirra as desconfianças não só do hot money (do qual o país continua dependendo), mas dos responsáveis pelo investimento direto.

Sem investimento direto, torna-se ainda mais necessário o capital especulativo. E ele só virá se os juros compensarem o risco. Logo, as bravatas disparadas contra o mercado financeiro, ao invés de proteger os pobres dos ricos, faz justamente o contrário: aumenta a sangria de recursos de nossos já combalidos cofres públicos em direção aos donos do capital.

Neste sentido, foi importante para sua governabilidade Marina declarar ser favorável à independência do BC. Uma medida como essa dificilmente passará pelo Congresso. Mas essa sinalização tornará mais simples para o novo governo tirar o país da situação em que vivemos atualmente, com descontrole fiscal (disfarçado e maquiado), inflação do topo da meta, primeiros sinais de aumento do desemprego, desindustrialização e, principalmente, crescimento econômico medíocre (gosto de lembrar que há 100 anos não crescemos tão pouco como no Governo Dilma). Não vai ser fácil recolocar o País no rumo certo. Mas sinalizações corretas durante a campanha podem acelerar a recuperação de nossa economia.

Gustavo Theodoro

Tudo Pelo Poder

Os recentes ataques do PT a sua ex-filiada, Marina Silva, revelam o quanto a manutenção do poder se tornou vital para o Partido dos Trabalhadores. Marina Silva esteve no PT por 24 anos. Participou de quase todas a lutas do partido. E o deixou enquanto Lula estava no poder, mostrando considerável desapego.

Dilma Roussef era do PDT. Sempre teve cargos comissionados em razão de sua filiação. No breve período em que não conseguiu alguma assessoria, na década de 1990, abriu uma loja de R$ 1,99 que trazia produtos importados do Panamá. O negócio não deu certo e fechou em menos de um ano. Quando Olívio Dutra foi eleito com apoio do PDT, Dilma voltou a ocupar cargo comissionado. Mas PT e PDT não se entendiam. O PDT deixou a aliança com Olívio Dutra em 2001. Dilma era Secretária de Minas e Energia do Governo do Rio Grande do Sul e, entre a fidelidade ao partido e o cargo, optou pelo cargo. Ela deve ter concluído que não é fácil ser empresária. Filiou-se ao PT para permanecer Secretária.

Em todo esse período, desde 1985, Marina Silva era do PT. Perdeu quatro eleições com Lula. E saiu quando Lula estava no auge de popularidade. Dilma só esteve com Lula em 2002. Interessante esse paralelo.

Por isso causa tanta estranheza a virulência dos ataques de Dilma e do PT contra Marina. Sustentada por banqueiros, contra o pré-sal, fundamentalista, contra o desenvolvimento. E Marina não passou a falar uma língua tão diferente de quando estava no PT. Ela continua tendo como principal bandeira o crescimento sustentável da economia (a mesma defesa que fazia quando estava no PT). Defende a retomada do tripé econômico, tal como foi praticado no primeiro mandato de Lula. De novidade, defende a autonomia do Banco Central, tema controverso, mas de que tratarei em breve.

A Petrobras teve como Diretor de Abastecimento dos governos petistas, por 8 anos, Paulo Roberto Costa. Dilma era Ministra de Minas e Energia quando ele foi indicado. Era Presidente do Conselho da estatal quando ele ganhou desenvoltura. Era a toda poderosa da Casa Civil quando foi feita parte significativa dos desembolsos da Refinaria Abreu e Lima – que, nunca é demais lembrar, vai custar mais de R$ 40 bi, sendo que foi orçada em menos de R$ 5 bi. Não posso deixar de lembrar esses fatos e relacioná-los à virulência dos recentes ataques do PT à Marina.

Na história escrita pelo PT, os vilões eram o PSDB e o DEM, que estavam no poder há 500 anos. Contra eles fazia sentido utilizar todas as armas disponíveis. Marina não veste o figurino do espantalho criado pelo PT. Mas está sendo transformada nele. A única justificativa que encontro para tal conduta é que o poder deve mesmo ser muito bom. E ninguém quer se desgarrar dele.

Gustavo Theodoro

Rede sob Suspeita

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Marina Silva sempre teve em seu discurso algo de incompreensível e algo de messiânico. Seu gosto por palavras diferentes que sugeriam o nascimento de uma nova política atraiu interesse dos que estão cansados de ver a política nacional restrita à disputa entre PT e PSDB. Foram emitidos diversos sinais de ruptura com a velha política, dentre os quais podemos citar o próprio nome do partido que ela tentou criar, a Rede de Sustentabilidade. Ainda que se tivesse tentado criar um partido político, a ex-Senadora preferiu dar a ele um novo nome (Rede), indicando um agrupamento mais participativo, mas com foco na sustentabilidade do modelo de desenvolvimento.

A Rede não obteve o registro a tempo de disputar as próximas eleições presidenciais. Em um lance saudado por muitos – inclusive por mim-, a Rede se aliou ao PSB de Eduardo Campos em busca de estar presente no processo eleitoral deste ano sem que fosse necessário adotar uma legenda de aluguel. Muitas foram as ofertas para que Marina Silva concorresse como cabeça de chapa, mas a Rede preferiu participar da criação de um projeto político aparentemente mais viável, em uma demonstração de apreço por seus fundamentos, mas sem deixar de participar da realpolitik, com o pragmatismo que ele exige.

Sou dos que acreditam que política se faz com estreia de novos personagens ao quadro existente, mas também com novos acordos por políticos estabelecidos. A democracia se caracteriza pela novidade, já que é ela que garante a permanência do regime; assim, mesmo a eleição de um novo político pode ser comemorada pelo mais conservador dos democratas. A aliança de Marina Silva com Eduardo Campos criou as condições para o surgimento de uma terceira força na política nacional. O bem estruturado PSB havia se juntado aos sonháticos da Rede, em aparente boa combinação de utopia com pragmatismo.

Eis que o ano de 2014 começou e os problemas próprios de nossa política começaram a aparecer nessa aliança. Além das questões envolvendo meio ambiente, os interesses regionais começaram a atuar em sentido contrário à proposta original da aliança. Nosso ambiente partidário não incentiva o apreço à ideologia. Mas é improvável que um projeto político tenha sucesso sem que tenha como fundamento um conjunto coerente de premissas, de ideias, que sustentem a aliança. A afinidade deve ir além da pessoal – própria da vida privada -, deve ser resultado da convergência de ideias ou, pelo menos, resultado de acordo envolvendo os temas mais importantes para os envolvidos.

Em todo o primeiro semestre deste ano, vimos essa aliança balançar em seus fundamentos, com interesses contrários em franco combate. O símbolo mais eloquente dessa desavença, em minha opinião, foi produzido na semana passada. Contrariando posição pública de Marina Silva, o PSB se aliou, em São Paulo, ao PSDB, de Aécio Neves. Irá apoiar o Governador Geraldo Alckmin naquele estado.

No Rio de Janeiro, quase no mesmo dia, o PSB optou por apoiar o Senador Lindberg Farias, candidato do Partido dos Trabalhadores ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, a convenção do PSB decidiu deixar a decisão nas mãos da Diretoria Executiva do partido, mas os membros do diretório regional do partido deixaram claro que poderiam aderir a qualquer candidatura, sendo que é mais provável que apoiem Pimenta da Veiga, candidato do PSDB ao Governo do Estado.

Nos três principais estados da federação, interesses regionais se sobrepuseram a qualquer tipo de coerência política. Planos e programas opostos foram abraçados como resultado de acertos políticos tão combatidos pelos que anunciaram a aurora de novos tempos.

Os utópicos e os sonháticos parecem estar sendo substituídos pelos pragmáticos nessa aliança entre a Rede e o PSB. A velha política está de volta com força total. Neste momento, parece mais difícil atribuir uma personalidade a essa aliança, que está cada vez mais parecida com seus adversários quanto ao pragmatismo; no entanto, o PT e PSDB defendem posições antagônicas em diversos aspectos e são identificados por essas diferenças. Resta saber se a Rede e o PSB conseguirão construir uma identidade própria e, ao mesmo tempo, conviver com as alianças pactuadas nos estados.

Gustavo Theodoro

Outro Mundo é Possível

Não é sempre que será possível seguir em linha reta neste blog. A realidade é difusa, o conhecimento é espraiado, as referências são inúmeras. Nos encontramos sobre longa tradição de pensamento e, ao lado disso, temos uma sociedade e um mundo complexos, cuja interpretação dificilmente será a definitiva e única. Por isso, dou um passo atrás na análise dos termos direita e esquerda para tratar de um dos temas caros à esquerda dos dias atuais: pode o homem se reinventar criando um mundo novo? Ou, nos termos do lema do Fórum Social Mundial, outro mundo é possível?

Os leitores deste blog provavelmente perceberão com o tempo que eu gosto muito de fazer perguntas, mas as respostas quase nunca são dadas diretamente. Em alguns casos, nem serão dadas. Importa-me mais a discussão, a elucidação do contexto em que as questões são colocadas, do que a conclusão propriamente dita, o julgamento do assunto. No entanto, deixemos essas digressões de lado e tratemos de enfrentar o tema.

A ideia de construir um mundo novo, livre das mazelas humanas, é relativamente recente. No passado, foi provavelmente Platão quem primeiro imaginou um mundo que não fosse tão imperfeito como o nosso, tendo proposto que o nosso aprendizado nos aproximaria dele (teoria das reminiscências). Ainda no campo metafísico, as religiões erigiram mundos muito mais perfeitos do que o nosso, cujo ingresso de nossas almas dependeria de condições e escolhas de cada um sujeitas a um julgamento moral.

O mundo em que vivemos era, portanto, reconhecido como palco de misérias e sofrimento que só seriam redimidos após a morte desde que virtuosas escolhas fossem feitas durante a vida.

Com o progresso da ciência, houve uma mudança de ambiente na humanidade. Para retratar esta mudança, cito os versos de Ulrich Von Hutten, datados de pouco depois de 1500, tratando do avanço das ciências:

“Ó século, ó ciências!

                É um prazer viver.

                O saber floresce, e os espíritos agitam-se.

                Barbárie, pega na tua corda e prepara-se para o exílio!”

Sim, parecia que o progresso científico poderia modificar o próprio homem e suas sociedades. A ideia do homem criando a si mesmo está na base do pensamento hegeliano e marxista. E este conceito está também na base de todo o humanismo de esquerda. No entanto, Hegel era um idealista; nesse sentido, o homem só poderia criar a si mesmo por meio do pensamento. Já Marx virou ao contrario o idealismo de Hegel, elegendo o trabalho como protagonista desta criação.

O que no século XIV começou como uma crença na ciência e em seu poder de dar fim à barbárie, no século XIX parecia bastante possível que o progresso atingisse o humano e suas relações sociais, a ponto de nos transformar em pessoas moralmente superiores e as sociedades em repositório de igualdade e colaboração.

Sei que estou abordando a velha questão da possibilidade da evolução moral do homem, e a quantidade de vezes que cito antigos textos dá uma dica de minha forma de pensar, mas não é nesse ponto a que quero me ater.

É interessante observar que, apesar de Hegel considerar possível a formação de um novo homem, ele ao mesmo tempo dizia que nada mais surgirá exceto aquilo que já existia, denotando que o novo homem era prerrogativa de uns poucos, mas não de toda a sociedade. Esta é outra das reviravoltas provocadas por Marx no pensamento hegeliano, na medida em que, na visão de Marx, o capitalismo caminhava para uma crise, e um novo homem surgiria no socialismo.

Não há nada pior do que tentarmos prever o futuro, pois corremos o risco de sermos desmentidos pela história. O futuro idílico em que um novo mundo seria criado, provavelmente, ainda não chegou. Neste ponto, os marxistas se assemelham aos da religião judaica, que continuam esperando seu Messias assim como os marxistas aguardam a derrocada do capitalismo. E a todo momento vemos, em seus fóruns e discussões, que o capitalismo está em sua crise final, que desta vez o modelo será superado. E continuam a ser desmentidos pela história.

O que descobrimos com o tempo é que as crises são o mecanismo de correção do próprio capitalismo e que são as crises é que garantem sua permanência. Não estou com isso dizendo que esta forma de nos relacionarmos em sociedade e produzirmos nossos bens e mercadorias seja a mais adequada ou que não possa sofrer ajustes futuros. Mas há mais chances para aqueles que apostam que a próxima crise não passará de mais um ajuste do sistema, e não seu fim.

Aliás, se há alguma crise, ela está é no socialismo, que só existe na Coreia do Norte e, de certo modo, em Cuba (apesar de a ilha de Castro estar gradualmente aderindo ao sistema capitalista). A China não poderá jamais ser tomada por socialista ou comunista, já que os meios de produção são controladas por iniciativa privada (não preciso esclarecer que o capitalismo pode ser encontrado nas tiranias, nas monarquias, nas aristocracias ou nas democracias liberais).

A ideia de que outro mundo é possível decorre da percepção de Marx de que o homem pode se reconstruir pelo trabalho. Derivações dessas teorias tomaram de assalto até mesmo as estantes das livrarias, com seus grandes espaços destinados à auto-ajuda, sem se dar conta de que o Dr. House estava quase sempre certo quando dizia: people don’t change.

A esperança de um futuro melhor, de uma humanidade mais humana, de pessoas mais altruístas e solidárias é sempre postergada para um futuro em que o homem se dará conta de sua situação, deixando de se alienar e passando a agir apenas em favor do interesse comum. E essa a visão dos utópicos.

É digno de nota que séculos se passaram sem que conseguíssemos transformar o mundo. Talvez sejam demasiadas as expectativas de quem pensa que outro mundo é possível. E é, também, por essa razão que discursos como a da ex-Senadora Marina Silva devem ser vistos com certo ceticismo, na medida em que condena tudo isso que está aí, recusando-se ela até mesmo a aceitar que seu partido tenha o nome de partido, substituindo-o por rede.

A sociedade utópica, em que os homens bons finalmente vencerão homens maus continua como miragens no deserto. E como disse Camus certa vez, dando à frase uma conotação nostálgica e um tanto pessimista, os únicos paraísos são aqueles que perdemos.

Gustavo Theodoro